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Sol e Sombras na Areia
O sol das dez da manhã refletia-se nas águas cristalinas de Angra dos Reis, transformando a superfície do mar em um espelho de diamantes líquidos. Emanuel observava a cena do convés da casa de praia, sentindo o calor típico do Rio de Janeiro começar a subir, mas nada o incomodava. Ele estava exatamente onde queria estar: cercado pelo que considerava sua propriedade mais valiosa — sua família, em toda a sua complexidade e beleza.
Nos últimos meses, o caos inicial havia se transformado em uma rotina coreografada. O processo de adoção de Maya por Emanuel e Eduarda fora agilizado pelos melhores advogados que o dinheiro poderia pagar. A prima de Eduarda havia assinado a renúncia do pátrio poder em troca de uma quantia generosa e um bilhete só de ida para a Europa, desaparecendo como uma fumaça incômoda. Agora, legalmente, Emanuel era pai de duas meninas com idades quase idênticas.
Ágata e Maya, ambas com oito meses, eram o sol e a lua daquela casa. Ágata, a filha de Sara, já demonstrava a personalidade vibrante e impaciente da mãe. Maya, criada sob o olhar doce e protetor de Eduarda, era o retrato da serenidade, embora tivesse começado a manifestar uma curiosidade exploratória que deixava Emanuel em estado de alerta constante.
— Manu, se você passar mais protetor em mim, eu vou escorregar da cadeira direto para o mar — a voz de Sara, carregada de um deboche preguiçoso, quebrou o silêncio.
Ela estava deitada em uma espreguiçadeira, usando um biquíni fio-dental dourado que realçava cada curva de seu corpo siliconado e impecável. Emanuel estava ajoelhado ao lado dela, espalhando o creme com uma possessividade que não escondia de ninguém. Ele amava o brilho de Sara, a forma como ela não tinha vergonha de ser excessiva.
— Você tem a pele clara, Sara. Não quero você reclamando de insolação à noite — respondeu Emanuel, a voz firme, enquanto subia as mãos pelas coxas dela.
— Ah, eu sei o que você quer à noite, e não tem nada a ver com a minha pele queimada — ela piscou, rindo alto e puxando o rosto dele para um beijo rápido e molhado. — Onde está a Duda?
— Lá embaixo, na areia, com as meninas. A babá está ajudando com as bolsas, mas a Eduarda não desgruda delas.
Emanuel levantou-se, limpando as mãos em uma toalha. Seus olhos imediatamente buscaram a linha da areia. Lá estava ela. Eduarda usava um maiô de peça única em tom lilás, simples e elegante, contrastando com a exuberância de Sara. Ela parecia uma ninfa cercada por brinquedos coloridos. Emanuel sentiu aquele aperto familiar no peito, uma mistura de ternura e um desejo profundo de mantê-la sempre sob sua visão.
— Vamos descer — disse ele, estendendo a mão para Sara. — Antes que a Maya resolva que quer aprender a nadar sozinha.
***
Na areia, o cenário era de pura atividade infantil. Ágata estava sentada dentro de um cercadinho inflável, batendo as mãos na água rasa e gritando de alegria a cada respingo. Maya, por outro lado, estava sentada na areia fofa, observando um pequeno caranguejo que passava longe, com os olhos grandes e expressivos herdados da linhagem de Eduarda.
— Cuidado com o sol no rosto dela, Duda — Emanuel disse assim que seus pés tocaram a areia, já assumindo o tom de comando protetor.
Eduarda olhou para cima e sorriu, aquele sorriso tímido que sempre desarmava a rigidez dele.
— Eu já ajustei o guarda-sol, Emanuel. Ela está bem. Veja, ela está tentando pegar a areia.
Emanuel agachou-se ao lado de Maya. A bebê olhou para o pai e abriu um sorriso banguela, levando um punhado de areia em direção à boca, movida pela curiosidade sensorial típica da idade.
— Não! — Emanuel agiu rápido, segurando o pulso gordinho da menina antes que ela pudesse provar o "banquete". — Areia não é comida, Maya. Não faça isso.
A reação foi imediata. Maya, que detestava ser contrariada e tinha a sensibilidade à flor da pele, arregalou os olhos. O lábio inferior começou a tremer violentamente.
— Oh, meu amor, não chore — Eduarda tentou intervir, aproximando-se para pegá-la.
Mas era tarde demais. Maya soltou um grito agudo de frustração, as lágrimas inundando seu rosto instantaneamente. Ela queria a areia, e o "não" de Emanuel soara como um trovão em seu pequeno mundo.
— Emanuel, você foi muito brusco — murmurou Eduarda, pegando a bebê no colo e aninhando-a contra o peito. — Ela só estava explorando.
— Ela ia engolir sujeira, Eduarda. Eu não vou deixar ela ficar doente por causa de uma "exploração" — ele rebateu, embora o choro da filha o incomodasse profundamente. Ele odiava ver qualquer uma delas sofrendo, mesmo que fosse por um motivo banal.
Sara, que havia acabado de se acomodar em uma cadeira de praia luxuosa trazida pelo segurança, soltou uma gargalhada.
— Deixa a menina, Manu! Um pouco de areia fortalece o sistema imunológico. Você é muito tenso. Olha a Ágata, ela está tentando comer o próprio pé e eu não estou tendo um ataque cardíaco.
Ágata, ao ouvir o nome da mãe, parou de bater na água. Ela olhou para o lado e viu Maya chorando no colo de Eduarda. A pequena loirinha, que já demonstrava um senso de humor um tanto peculiar e uma dominância territorial, engatinhou até a borda do cercadinho. Perto dela, havia um balde de plástico azul, cheio de água e algumas conchinhas.
Com um esforço coordenado que surpreendeu a todos, Ágata agarrou a alça do balde.
— Ágata, o que você vai... — Sara começou a perguntar, mas não terminou a tempo.
Em um movimento rápido e desajeitado, Ágata virou o balde na direção de Maya, que ainda soluçava no colo de Eduarda, que estava sentada na areia. O balde não apenas despejou a água fria, mas caiu certeiro, como um capacete improvisado, sobre a cabeça da pequena Maya.
O silêncio durou apenas um segundo.
Maya, agora molhada, assustada e com um balde azul cobrindo sua visão, soltou um berro que provavelmente foi ouvido no continente. Ágata, por sua vez, começou a rir, batendo palmas para a própria travessura, achando a cena a coisa mais engraçada do mundo.
— Ágata! — Emanuel e Sara gritaram em uníssono, mas por motivos diferentes. Emanuel estava horrorizado com o "ataque", enquanto Sara tentava esconder o riso atrás da mão.
Eduarda rapidamente removeu o balde da cabeça de Maya, limpando o rosto da bebê com uma toalha seca, enquanto tentava acalmá-la.
— Está tudo bem, meu anjo... foi só uma brincadeira da irmã — dizia Eduarda, com a voz embargada pela empatia com a dor da filha.
— Brincadeira nada, isso foi um atentado! — Emanuel exclamou, pegando Ágata do cercadinho. — Você não pode jogar coisas na sua irmã, mocinha. Entendeu?
Ágata olhou para o pai com os olhos azuis desafiadores de Sara e simplesmente puxou o nariz dele, soltando um som que parecia um deboche infantil.
— Ela é terrível, Manu — Sara disse, levantando-se e pegando Ágata dos braços dele. — Puxou a mim, o que você esperava? Ela não aceita que a Maya seja o centro das atenções.
Emanuel suspirou, sentindo o estresse de pai de primeira (e segunda) viagem pesar nos ombros. Ele olhou para Eduarda, que ainda tentava consolar Maya. A bailarina parecia exausta, o cabelo castanho grudando na nuca por causa do calor e da umidade.
— Deixa eu pegar ela, Duda — Emanuel pediu, suavizando o tom.
— Ela está muito assustada, Emanuel. A água estava gelada.
— Eu sei. Vem aqui, Maya.
Ele pegou a pequena Maya, que se agarrou ao pescoço dele como se ele fosse a única coisa sólida no mundo. O choro diminuiu para soluços rítmicos. Emanuel caminhou com ela até a beira da água, longe da "zona de perigo" de Ágata.
— Você viu o que você fez? — Sara perguntou para Ágata, que agora tentava morder o colar de ouro da mãe. — Você é uma peste loira. Mas eu te amo por isso.
Sara caminhou até Eduarda e estendeu a mão para ajudá-la a levantar.
— Não fica assim, Duda. Elas vão se atracar muito ainda. É o que irmãs fazem. Especialmente quando uma é uma santa e a outra é... bem, a minha filha.
Eduarda limpou a areia das pernas, olhando para Emanuel e Maya ao longe.
— Eu só quero que elas se amem, Sara. O mundo já é difícil demais.
— Elas vão se amar. Mas a Ágata vai ser quem vai bater em quem mexer com a Maya, e a Maya vai ser quem vai fazer os curativos. É assim que vai funcionar — Sara deu de ombros, com sua sabedoria prática e despida de sentimentalismos excessivos. — Agora, vamos. O Manu reservou aquele restaurante flutuante para o almoço e eu não pretendo chegar lá com cheiro de protetor solar vencido.
***
O almoço foi mais calmo, em parte porque as bebês finalmente sucumbiram ao cansaço do sol e dormiram em seus carrinhos lado a lado. Emanuel, Sara e Eduarda estavam sentados em uma mesa reservada, a brisa marinha refrescando o ambiente.
Emanuel observava as duas mulheres à sua frente. Sara, bebendo um coquetel colorido, falando sobre a nova coleção de bolsas que chegaria à sua loja. Eduarda, tomando uma água de coco, ouvindo atentamente, com aquele olhar de admiração que ela sempre dedicava a Sara.
Havia uma harmonia estranha, quase impossível para os padrões da sociedade, mas que ali funcionava perfeitamente.
— Emanuel — chamou Eduarda, tirando-o de seus pensamentos. — Você acha que a Maya vai ficar com trauma de baldes?
Emanuel soltou uma risada curta, a primeira do dia que não era carregada de tensão.
— Não, Duda. Ela vai esquecer isso em dez minutos. Mas eu vou ficar de olho na Ágata. Ela tem braços fortes para um bebê de oito meses.
— Ela tem a minha força de vontade — Sara interveio. — E a Duda tem a paciência de um monge. É por isso que dá certo. Se fossem duas Dudas, a casa seria um tédio. Se fossem duas Saras, a casa já teria explodido.
— E se não fosse o Emanuel para pagar as contas e manter a ordem, estaríamos todas perdidas — completou Eduarda, estendendo a mão sobre a mesa para tocar a mão de Emanuel.
Ele segurou a mão dela, e com a outra, buscou a mão de Sara. O círculo se fechou.
— Eu não deixaria vocês se perderem — Emanuel afirmou, a voz carregada de uma promessa absoluta. — Nunca.
— Eu sei que não — Sara disse, apertando os dedos dele. — Mas agora, Manu, falando em não se perder... eu vi uma lancha maravilhosa à venda na marina. Acho que a Ágata e a Maya precisam de um barco com o nome delas.
Emanuel revirou os olhos, mas o sorriso em seus lábios entregava que ele já estava considerando a compra.
— Você não perde uma oportunidade, não é, Sara?
— Administração, querido. Eu administro os seus desejos e as minhas vontades. E no momento, minha vontade é uma lancha nova e um segundo round daquele beijo que você me deu na varanda hoje cedo.
Eduarda corou, desviando o olhar para as bebês, mas havia um sorriso brincando em seus lábios. Ela já não se sentia mais a intrusa ou a "outra". Ela era parte do alicerce.
— Tudo a seu tempo — disse Emanuel, olhando de Sara para Eduarda com uma intensidade que prometia uma tarde longa e interessante. — Primeiro, vamos garantir que ninguém mais jogue baldes em ninguém.
O riso das duas mulheres misturou-se ao som das ondas, um som que, para Emanuel, era a trilha sonora da vida perfeita que ele havia, contra todas as probabilidades, conseguido tatuar na realidade.
Ao final da tarde, quando voltavam para a casa, as meninas acordaram. Maya, já recuperada, tentava alcançar o cabelo de Ágata, que por sua vez oferecia seu brinquedo favorito à irmã em um gesto inesperado de trégua. Emanuel observou a cena pelo retrovisor do carrinho duplo enquanto caminhavam pelo píer.
— Viu, Duda? — Emanuel sussurrou, aproximando-se dela. — Elas se entendem.
— Elas são como nós — Eduarda respondeu, encostando a cabeça no ombro dele. — Um pouco de caos, um pouco de choro, mas sempre voltando para o mesmo lugar.
— E esse lugar sou eu — Emanuel concluiu, beijando o topo da cabeça dela antes de se virar para Sara, que já reclamava que a areia em seus pés estava incomodando.
A vida era um desenho complexo, cheio de sombras e luzes, mas Emanuel era o mestre das tintas. E ele sabia que aquela obra de arte estava apenas começando.