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Tradição e Possessividade
O ar da fazenda dos avós, no interior de Minas, tinha aquele cheiro nostálgico de terra molhada, café torrado na hora e capim fresco. Para Emanuel, aquele era um dos poucos refúgios onde o caos de seus negócios globais e o zumbido das máquinas de tatuagem não podiam alcançá-lo. No entanto, a paz que ele buscava parecia estar sendo testada naquela manhã de domingo.
O casarão colonial estava em polvorosa. Era dia de procissão e coroação de Nossa Senhora, o evento mais importante do calendário religioso da pequena cidade vizinha.
No quarto principal da ala leste, Sara estava sentada na beira da cama de casal maciça, usando um robe de seda preta que contrastava violentamente com a decoração rústica do quarto. Ágata, a pequena de um ano, estava aninhada em seu colo, com o rosto quente e os olhos lacrimejantes.
— Ela não quer comer nada, Manu — comentou Sara, passando a mão com unhas impecavelmente pintadas de vermelho pela testa da filha. — Está manhosa, acho que é o dente ou talvez essa mudança de clima.
Emanuel aproximou-se, ajoelhando-se no chão de madeira para ficar na altura delas. Ele beijou a testa da esposa e depois a da filha.
— Ela está um pouco quente, mas não é febre alta — disse ele, com seu tom prático e protetor. — Você quer ficar aqui com ela? Eu posso cancelar nossa ida à praça.
Sara soltou uma risada curta, ajeitando o busto generoso sob a seda.
— E perder o desfile da sua prima e da Maya? Nem morta. Eu vou, mas a Ágata vai ficar grudada em mim. Ela não quer saber de babá, nem da sua mãe, nem de ninguém. Só quer a mamãe hoje.
— Você mima demais essa menina — Emanuel murmurou, embora houvesse um brilho de adoração no olhar que lançava para a esposa.
— Eu mimo quem eu amo, querido. Você deveria saber disso — rebateu Sara, com um sorriso provocador, puxando Emanuel pela gola da camiseta para um beijo rápido e úmido. — Agora vá ver a sua outra "protegida". Ouvi a Duda e as tias gritando de empolgação no outro corredor há meia hora.
Emanuel levantou-se, ajustando a postura. O pensamento de Eduarda e Maya trouxe aquela sensação familiar de urgência e proteção. Ele atravessou o corredor largo e parou na porta do quarto de Eduarda.
A cena era um caos de tule, penas artificiais e glitter. Eduarda estava ajoelhada no chão, vestida com um vestido de linho branco, simples e delicado, que a fazia parecer uma noviça. Ela estava terminando de prender as pequenas asas de anjo nas costas de Maya. A mãe de Eduarda e a mãe de Emanuel, ambas radiantes, cercavam a criança com câmeras de celular em punho.
— Olha só, Manu! — Eduarda exclamou assim que o viu, com os olhos brilhando de uma forma que ele raramente via. — Ela não está a coisa mais linda do mundo?
Maya, ao ver Emanuel, abriu um sorriso banguela e esticou os bracinhos, fazendo as asas de anjo balançarem.
— Papai! Papai!
Emanuel sentiu o coração derreter, mas a visão daquelas asas e da túnica branca trouxe um alerta imediato à sua mente controladora.
— O que é tudo isso? — perguntou ele, aproximando-se e pegando Maya no colo, sentindo a leveza da menina.
— A coroação, Emanuel! — explicou a mãe dele, animada. — A vovó organizou tudo com o padre. A Maya vai ser um dos anjinhos principais. Ela vai no andor da procissão, lá no alto, e depois vai coroar a santa no altar da igreja.
O rosto de Emanuel escureceu instantaneamente.
— No andor? Lá no alto? Quem vai segurar ela?
— O pessoal da irmandade, Manu — respondeu Eduarda, levantando-se e limpando o joelho. — Eles fazem isso há anos. É seguro, a estrutura é firme.
— Não — disse Emanuel, a voz subindo um tom, fria e categórica. — Ela tem um ano, Eduarda. Ela mal aprendeu a andar direito. Eu não vou deixar minha filha em cima de uma estrutura de madeira, sendo carregada por estranhos no meio de uma multidão.
O silêncio caiu no quarto. Eduarda murchou visivelmente, seus ombros caindo e a alegria em seu rosto sendo substituída por aquela expressão de insegurança que Emanuel tanto odiava causar, mas que seu instinto de proteção sempre provocava.
— Mas... ela está tão animada, Manu... e a vovó... — Eduarda começou a dizer, com a voz falhando.
— Eu não me importo com a vovó ou com a tradição — rosnou Emanuel. — É perigoso. Ela vai ficar com a gente. Se quiserem que ela seja anjo, que ela fique no meu colo.
Nesse momento, um som seco de madeira batendo contra o chão ecoou na porta. A avó de Emanuel e Eduarda, uma senhora de fibra que ainda mantinha a postura ereta apesar dos oitenta anos, estava parada ali, apoiada em sua bengala de jacarandá.
— Você não vai fazer nada, Emanuel — disse a matriarca, com uma autoridade que até ele respeitava.
— Vó, a senhora não entende o risco...
— O risco é você levar uma bengalada no meio das canelas se tentar tirar essa menina do andor — interrompeu a idosa, aproximando-se com um olhar severo. — São gerações da nossa família que passam por isso. A Maya é uma benção e ela vai cumprir o papel dela. O andor é seguro, o padre abençoou e eu estarei lá na frente vigiando.
Emanuel cerrou os dentes. Ele olhou para Eduarda, que buscava refúgio visual no chão, e depois para Maya, que puxava a gola de sua camisa, alheia ao conflito.
— Uma hora — disse ele, a voz tensa. — Ela vai ficar longe de mim por mais de uma hora naquela procissão. E se ela chorar? E se alguém tropeçar?
— Ela não vai chorar, ela adora as pessoas — rebateu a avó. — E se você ousar interromper a cerimônia por causa desse seu complexo de carcereiro, eu mesma te expulso da fazenda.
Emanuel soltou um suspiro pesado, a mandíbula travada. Ele entregou Maya para Eduarda, que a pegou com cuidado, ainda parecendo assustada com a intensidade dele.
— Eu vou estar logo atrás — avisou Emanuel, apontando o dedo para a prima. — Se eu vir um movimento em falso, eu subo naquele altar e tiro ela de lá.
***
A praça da cidade estava lotada. O sol da tarde dourava as fachadas das casas antigas e o cheiro de incenso começava a tomar conta do ar.
Sara, apesar do calor, estava deslumbrante em um vestido justo de alças finas, óculos escuros de grife e Ágata no colo. A menina parecia mais calma, mas não soltava o pescoço da mãe. Emanuel estava ao lado delas, mas seus olhos não saíam da figura pequena e alada que estava sendo posicionada no andor decorado com flores brancas.
Eduarda caminhava ao lado do andor, olhando para cima constantemente, com um sorriso doce e preocupado. Ela parecia uma extensão da própria devoção daquela festa.
— Relaxa, Emanuel — murmurou Sara, encostando o ombro no dele. — Olhe para a Duda. Ela está feliz. A Maya está se sentindo uma rainha.
— Ela está a dois metros de altura, Sara — respondeu ele, os braços cruzados, os músculos tensos sob a camisa polo. — Um empurrão da multidão e aquilo balança.
— Você é um maníaco por controle — Sara riu, dando um beijo no ombro dele. — Aproveita a vista. Sua prima está linda naquele vestido, não está?
Emanuel desviou o olhar para Eduarda. O sol batia no cabelo castanho dela, criando reflexos avermelhados. Ela parecia tão pura, tão desconectada da malícia do mundo que ele habitava. O desejo de ir até lá, pegá-la pela mão e levá-la para longe de todos aqueles olhares curiosos era quase insuportável.
— Ela está... bem — respondeu ele, secamente.
A procissão começou. O som da banda de música local entoou hinos religiosos. O andor começou a se mover, balançando levemente enquanto os homens da irmandade o carregavam pelos ombros.
Emanuel começou a caminhar, mas não na lateral, onde a família deveria ficar. Ele se posicionou exatamente atrás do andor, como uma sombra. Seus olhos estavam fixos em cada passo dos carregadores. Se um deles vacilava, Emanuel dava um passo à frente, com a expressão de quem estava pronto para matar.
— Manu, você está assustando os carregadores! — Eduarda sussurrou, aproximando-se dele enquanto caminhavam.
— Deixe que se assustem — respondeu ele sem olhar para ela. — Assim eles prestam atenção no que estão fazendo.
— Por favor, tenta aproveitar... é um momento tão especial para mim. Eu sonhei com a Maya sendo anjinho desde que ela nasceu.
Emanuel finalmente olhou para ela. A vulnerabilidade nos olhos de Eduarda sempre desarmava suas defesas mais brutas. Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, limpando um pouco de glitter que havia caído em sua bochecha.
— Eu só não quero que nada aconteça a vocês duas, Duda. O mundo é perigoso demais para pessoas como você.
Eduarda corou, sentindo o calor da mão dele.
— Eu sei que você nos protege. Mas hoje... deixa a gente ser cuidada por outra pessoa, só por um pouquinho?
Emanuel não respondeu, mas suavizou a expressão. Ele não se afastou, mas parou de olhar para os carregadores como se fossem alvos.
A procissão chegou à igreja principal. O interior era fresco e escuro, iluminado por centenas de velas. O momento da coroação começou. Maya foi levada ao altar. Ela estava sentada em um pequeno trono de madeira, rodeada por outras crianças.
Eduarda ficou na primeira fileira, com as mãos postas, as lágrimas começando a rolar livremente pelo rosto. Sara estava ao lado dela, segurando Ágata, que agora dormia exausta. Sara olhava para o altar com um sorriso cínico, mas gentil, achando toda aquela pompa um tanto exagerada, mas reconhecendo a beleza do momento.
Emanuel, no entanto, estava parado no corredor central. Ele não se sentou. Ficou de pé, como uma sentinela.
Quando Maya, com a ajuda do padre, colocou a pequena coroa dourada na cabeça da imagem de Nossa Senhora, a igreja explodiu em aplausos e fogos de artifício do lado de fora.
Eduarda soluçou de emoção e, instintivamente, procurou o braço de Emanuel. Ela se apoiou nele, escondendo o rosto em seu ombro. Emanuel a envolveu com um braço, sentindo o corpo dela tremer levemente com o choro de alegria. Com a outra mão, ele puxou Sara para perto, circulando a cintura da esposa.
Ali, no meio da igreja lotada, sob o olhar de reprovação da avó — que ainda segurava a bengala como se fosse uma arma — Emanuel sentiu uma satisfação estranha.
Ele tinha Sara, a mulher que o desafiava, que o entendia e que aceitava sua natureza complexa. E tinha Eduarda, a prima que ele amava com uma intensidade que beirava o sagrado, a quem ele jurara proteger de tudo, inclusive dela mesma.
— Ela foi perfeita — sussurrou Eduarda, olhando para ele com os olhos úmidos.
— Foi — admitiu Emanuel, beijando o topo da cabeça de Eduarda e depois a têmpora de Sara. — Mas agora, ela volta para o meu colo. A coroação acabou.
Sara soltou uma risada baixa.
— Você não tem jeito, Emanuel.
— Nenhum — concordou ele, já começando a se mover em direção ao altar para reclamar sua filha, enquanto as duas mulheres que ele amava o seguiam, cada uma à sua maneira, presas na órbita daquele homem que não sabia amar de outra forma senão possuindo e protegendo tudo o que considerava seu.