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Guerra de Desenhos e Segredos de Seda
O retorno para a cobertura em São Paulo trouxe consigo a agitação habitual da metrópole, mas dentro do apartamento de Emanuel, o clima era de uma domesticidade caótica e luxuosa. A mudança de Eduarda e Maya para o andar de baixo já estava completa, mas, na prática, as fronteiras entre os dois apartamentos eram quase inexistentes. As portas estavam sempre abertas, e as crianças circulavam como se o duplex fosse um único e vasto território.
Naquela tarde de terça-feira, a sala de estar principal, com seus sofás de couro italiano e tapetes persas, transformara-se em um campo de batalha em miniatura.
— Não! Boneca não! Eu quero o Pedrinho! — gritou Maya, batendo o pé no chão com uma determinação que claramente herdara do convívio com Emanuel. A pequena, de cabelos castanhos ondulados, apontava para a televisão de oitenta polegadas. — Sítio, mamãe! Sítio!
Ágata, sentada no tapete com um tablete na mão que ela ignorava solenemente, soltou um grito agudo em protesto, balançando os cachos loiros que Sara insistia em manter impecáveis.
— Não! Au-au! Patrulha! — Ágata rebateu, tentando alcançar o controle remoto que estava sobre a mesa de centro. — Papai, bota o au-au!
Emanuel, que tentava ler alguns contratos de um novo estúdio em Madri, suspirou pesadamente. Ele estava sentado na poltrona de leitura, a camisa preta com as mangas dobradas revelando as tatuagens intrincadas que subiam pelos seus antebraços. Ele olhou de uma menina para a outra, sentindo a dor de cabeça latejar.
— Eduarda, por favor — chamou ele, sem aumentar o tom de voz, mas com aquela autoridade natural que fazia o ambiente silenciar por um segundo.
Eduarda apareceu na porta da cozinha, secando as mãos em um pano de prato. Ela usava um vestido de malha leve, cor de pêssego, e parecia exausta após uma manhã inteira de ensaios de ballet e aulas na faculdade.
— Eu já tentei, Manu... ela cismou com o Sítio do Pica-Pau Amarelo desde que a vovó contou as histórias na fazenda — explicou Eduarda, com a voz mansa, aproximando-se de Maya para tentar acalmá-la. — Filha, vamos assistir no tablet? A Ágata quer ver a Patrulha Canina agora.
— Não! — Maya se jogou no tapete, começando a chorar com aquela manha típica que ela reservava apenas para quando Emanuel estava por perto, sabendo que ele cederia.
— E você, Ágata, pare de gritar — ordenou Sara, surgindo do corredor.
Sara era o oposto da suavidade de Eduarda. Ela usava um conjunto de ginástica de oncinha, extremamente justo, que deixava claro cada centímetro de suas curvas siliconadas. O cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo alto e perfeito.
— Emanuel, resolva isso. Eu não aguento mais esse barulho e a esteticista chega em dez minutos — disse Sara, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha para o marido.
Emanuel fechou o notebook com um estalo seco. Ele se levantou, caminhou até o centro da sala e pegou uma menina em cada braço. Maya no esquerdo, Ágata no direito. O silêncio foi instantâneo, ambas intimidadas e ao mesmo tempo confortadas pela força dele.
— Chega — disse ele, olhando nos olhos de cada uma. — Maya, você vai assistir o seu desenho na sala de brinquedos. Ágata, você fica aqui na sala com a Patrulha. Se eu ouvir mais um grito, eu desligo a internet da casa inteira. Fui claro?
As duas meninas assentiram, subitamente dóceis. Emanuel entregou Maya para Eduarda.
— Leve-a para lá, Duda. Eu vou configurar a TV da brinquedoteca para ela.
Eduarda sorriu, um sorriso tímido e cheio de gratidão que sempre fazia o estômago de Emanuel dar um nó.
— Obrigada, Manu. Você sempre consegue domar essas ferinhas.
— Alguém tem que ter pulso nesta casa — comentou ele, passando a mão pela nuca de Eduarda, um toque possessivo que durou um segundo a mais do que o necessário.
Sara observava a cena com um sorriso enviesado, sem um pingo de ciúme. Ela se aproximou de Emanuel assim que Eduarda saiu com a filha.
— Você adora bancar o patriarca, não é? — Sara sussurrou, passando as mãos pelo peito dele. — Mas agora, deixe as crianças com as babás. A Neide já está subindo.
— Neide? — Emanuel franziu a testa.
— A esteticista, querido. Eu e a Duda vamos fazer a "manutenção" completa hoje. Depilação íntima, massagem, tudo o que temos direito.
Emanuel sentiu uma onda de calor desconfortável. A imagem de Eduarda, tão reservada e tímida, submetendo-se a um procedimento tão íntimo na mesma casa que ele, mexia com seus instintos mais profundos.
— A Eduarda concordou com isso? — perguntou ele, tentando manter a voz neutra. — Ela é... você sabe como ela é.
— Ela reclamou, disse que tinha vergonha, que preferia fazer sozinha no banho... o papo de sempre — Sara riu, dando um tapinha no rosto dele. — Mas eu a convenci. Disse que uma bailarina precisa estar impecável e que, já que ela agora faz parte da nossa "dinâmica", precisa aprender a se cuidar como uma mulher de verdade, não como uma menina de faculdade.
Emanuel sentiu uma pontada de irritação, mas também uma curiosidade sombria.
— Não a pressione, Sara.
— Eu não pressiono, eu incentivo — corrigiu ela, piscando. — Agora, vá para o seu escritório. Não queremos homens circulando enquanto estivermos... vulneráveis.
***
Uma hora depois, o andar superior da cobertura estava imerso em um aroma de cera quente e óleos essenciais. Sara havia transformado o quarto de hóspedes em um spa improvisado.
Eduarda estava sentada na borda da maca, enrolada em um roupão de seda branca que Sara a obrigara a usar. Ela apertava as mãos uma na outra, o rosto corado de nervosismo.
— Sara, eu realmente acho que não precisava... — começou Eduarda, a voz quase um sussurro.
— Bobagem, Duda! — Sara estava deitada em outra maca ao lado, já relaxada, enquanto a esteticista preparava o material. — Você é linda, tem um corpo de boneca, mas precisa se valorizar. Imagine se o seu "príncipe encantado" aparece de surpresa? Você tem que estar pronta.
Eduarda baixou o olhar, pensando imediatamente em Emanuel. O modo como ele a olhava na fazenda, o modo como ele a tocava... ela sentia que havia algo no ar, algo que ela não sabia nomear ou que tinha medo de admitir.
— O Manu... ele é muito exigente com essas coisas? — Eduarda perguntou, a curiosidade vencendo a timidez.
Sara deu uma risada alta, aquela risada vulgar e confiante que era sua marca registrada.
— O Emanuel? Querida, o Emanuel é um homem visual. Ele gosta de perfeição, gosta de sentir a pele lisa, gosta do contraste. Ele é intenso, Duda. Se ele gosta de uma mulher, ele quer cada centímetro dela sob controle.
Eduarda estremeceu, imaginando as mãos grandes e tatuadas de Emanuel em sua pele.
— Pronto, vamos começar com você, Eduarda — disse a esteticista, uma mulher discreta e profissional. — Pode se deitar e relaxar.
Eduarda obedeceu, sentindo-se exposta como nunca estivera antes. Sara, da maca ao lado, continuava falando, descrevendo as preferências de Emanuel e como ela mesma gostava de se apresentar para ele. Era uma conversa crua, sem filtros, que deixava Eduarda chocada e, ao mesmo tempo, fascinada.
Enquanto isso, no escritório, Emanuel não conseguia se concentrar nos gráficos de lucro. Ele sabia exatamente o que estava acontecendo a poucos cômodos de distância. Sua mente, geralmente lógica e prática, estava sendo invadida por imagens de Eduarda, da pele alva dela, da fragilidade que ela emanava.
Ele se levantou e caminhou até o frigobar, pegando um uísque puro. Ele amava Sara, amava a exuberância dela, a falta de pudor, o modo como ela o dominava na cama. Mas Eduarda... Eduarda era a promessa de algo suave, algo que ele precisava proteger e, ao mesmo tempo, possuir.
O som de um grito abafado — claramente de Eduarda, reagindo à dor da cera — ecoou pelo corredor.
Emanuel parou com o copo a meio caminho da boca. O som despertou nele um instinto primitivo. Ele queria ir até lá, afastar a esteticista e dizer que ninguém tocaria em Eduarda daquela forma, mesmo que fosse para um tratamento de beleza.
Ele caminhou até a porta do escritório e a abriu levemente. O corredor estava silencioso agora, exceto pelo som baixo de uma música lounge vindo do quarto de hóspedes.
Ele sabia que não deveria. Sabia que era uma invasão de privacidade. Mas o controle que ele tanto prezava estava escapando por entre seus dedos.
Emanuel caminhou silenciosamente pelo corredor. A porta do quarto de hóspedes estava entreaberta para ventilar o cheiro da cera.
Ele parou na fresta.
Lá dentro, a cena era banhada por uma luz suave. Sara estava de olhos fechados, aproveitando a massagem pós-depilação. Eduarda, no entanto, estava sentada na maca, cobrindo-se apressadamente com o roupão, as bochechas vermelhas e os olhos levemente úmidos pela dor momentânea.
— Viu? Não foi tão ruim — disse Sara, sem abrir os olhos. — Agora você está pronta para qualquer coisa, Duda.
Eduarda suspirou, ajeitando o roupão, e por um momento, seu olhar se voltou para a porta.
Emanuel recuou rapidamente para as sombras, o coração batendo com uma força incomum. Ele voltou para o escritório, fechando a porta e encostando-se nela.
Ele queria as duas.
A percepção não era nova, mas agora era física, palpável. Ele queria o fogo de Sara, a segurança de tê-la ao seu lado como sua rainha e cúmplice. E queria a doçura de Eduarda, a timidez que ele desejava desvendar, a pureza que ele queria reivindicar como sua.
Horas depois, quando a noite caiu sobre a cidade e as meninas já estavam dormindo em seus respectivos quartos, a casa mergulhou em um silêncio tenso.
Emanuel estava na varanda, observando as luzes de São Paulo, quando sentiu braços o envolvendo por trás. O perfume de Sara era inconfundível.
— Ela ficou linda, Manu — sussurrou Sara, encostando o rosto nas costas dele. — Tão macia. Tão... vulnerável.
Emanuel virou-se lentamente, segurando o rosto de Sara entre as mãos.
— Você está brincando com fogo, Sara.
— Eu sou o fogo, esqueceu? — ela sorriu, puxando-o para um beijo profundo. — Eu te disse, Emanuel. Eu quero você feliz. E eu vi como você olhou para ela hoje, quando chegamos da fazenda. Eu vi como você fica quando ela está por perto.
— Ela não sabe de nada — disse ele, a voz rouca.
— Então mostre a ela. Aos poucos. Ela confia em você mais do que em qualquer pessoa no mundo. Ela já é sua, Emanuel. Ela só ainda não percebeu.
Emanuel olhou para a porta que levava ao andar de baixo, onde Eduarda dormia. A dualidade de sua vida estava atingindo um ponto de ebulição.
— O que você sugere? — perguntou ele, a voz carregada de uma expectativa sombria.
Sara sorriu, um sorriso que prometia prazer e perdição.
— Sugiro que amanhã levemos as meninas ao parque. E que, à noite, você peça para a Duda vir aqui em cima para ajudar com um "trabalho da faculdade". Eu vou estar ocupada... muito ocupada.
Emanuel apertou a cintura de Sara, sentindo a firmeza de seu corpo. Ele sabia que, a partir daquele momento, o equilíbrio de sua família mudaria para sempre. Ele não era apenas o protetor de Eduarda ou o marido de Sara. Ele era o centro de um império que agora incluía os corações e os corpos das duas mulheres que definiam sua existência.
— Você é louca, Sara — murmurou ele, antes de beijá-la novamente.
— Sou louca por você. E você é louco por nós duas. Admita logo e vamos aproveitar o que a vida nos deu.
Naquela noite, Emanuel não dormiu. Ele ficou ouvindo o som da respiração de Sara ao seu lado e imaginando o silêncio do quarto de Eduarda no andar de baixo. A guerra de desenhos da tarde fora apenas um prelúdio para a complexa sinfonia que ele estava prestes a reger. E ele não pretendia errar nenhuma nota.