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D

O Peso da Proteção

O brilho do ouro branco reluzia sob a luz do lustre de cristal, refletindo-se nos olhos ávidos de Sara. Emanuel observava a esposa com uma satisfação silenciosa, encostado no batente da porta do closet monumental que mais parecia uma boutique de luxo. Ele havia chegado de uma viagem relâmpago a negócios e a primeira coisa que fizera, antes mesmo de tirar o paletó, foi entregar a pequena caixa de veludo azul.

— É a nova coleção da Cartier, Emanuel? — Sara exclamou, deslizando o bracelete cravejado de diamantes pelo pulso. Ela se virou para o espelho, admirando como a joia contrastava com sua pele bronzeada e as unhas longas. — Você realmente sabe como pedir desculpas por passar dois dias fora.

Emanuel deu um passo à frente, envolvendo a cintura dela. Suas mãos grandes, marcadas pelo trabalho e pela arte, repousaram sobre o abdômen liso de Sara.

— Não é um pedido de desculpas, Sara. É apenas um lembrete de que tudo o que eu construo é para manter vocês no topo — ele murmurou, beijando o pescoço dela, sentindo o perfume doce e marcante que sempre o inebriava.

— Você é um homem generoso, meu amor — Sara disse, virando-se nos braços dele, os lábios pintados de um vermelho vibrante curvados em um sorriso malicioso. — E a Duda? Trouxe algo para ela também?

Emanuel endureceu levemente a expressão, um reflexo quase instintivo.

— Comprei alguns livros raros de História da Arte que ela queria para a tese. E um vestido novo para a Maya. Estão no carro.

Sara riu, uma risada rouca que vibrou contra o peito dele.

— Livros e diamantes. O equilíbrio perfeito do seu coração, não é? Ela foi jantar na casa dos pais hoje. Levou a Maya. Disse que voltaria tarde, então não a espere para o chá.

Emanuel soltou um suspiro contido. Ele não gostava quando Eduarda saía de sua órbita de vigilância, mesmo que fosse para ir à casa dos próprios pais. Para ele, o mundo fora daquelas paredes fortificadas e de seus estúdios era um lugar cheio de variáveis que ele não podia controlar.

— Ela deveria ter me avisado. Eu teria mandado o motorista buscá-la — comentou ele, desfazendo o nó da gravata com um gesto impaciente.

— Deixe a menina respirar, Emanuel. Ela é mãe, mas ainda é uma jovem de vinte anos. Ela precisa de um tempo com os pais — Sara disse, desabotoando a camisa dele com agilidade. — Agora, esqueça a Duda. Eu quero que você me mostre o quanto sentiu minha falta.

***

A madrugada em São Paulo era silenciosa, apenas o zumbido distante do tráfego urbano quebrava a quietude do apartamento de Eduarda, no andar de baixo da cobertura. Ela havia chegado cansada do jantar com os pais. Maya, agitada pelo excesso de atenção dos avós, demorara a pegar no sono.

Eduarda dormia um sono leve, povoado por sonhos fragmentados de passos de dança e o olhar intenso de Emanuel, quando um baque surdo seguido de um choro lancinante a arrancou da inconsciência.

Seu coração disparou instantaneamente. Ela saltou da cama, tropeçando nos próprios pés enquanto corria para o quarto ao lado.

— Maya! — o grito morreu em sua garganta quando ela viu a cena.

A pequena Maya estava no chão, ao lado do berço, chorando com uma força que parecia rasgar o ar. Ela devia ter tentado escalar a grade, algo que Emanuel já havia avisado que aconteceria em breve. Eduarda a pegou no colo, tremendo da cabeça aos pés.

— Calma, meu amor... a mamãe está aqui. Onde dói? — Eduarda soluçava junto com a filha, examinando o corpo pequeno.

Foi quando ela viu. Havia um corte na testa da menina, e o sangue começava a manchar o pijama de anjinhos. O pânico, frio e paralisante, tomou conta de Eduarda. Ela olhou para o telefone. Sua primeira reação foi ligar para o ramal interno de Emanuel. O dedo pairou sobre o botão, mas ela hesitou.

"Ele chegou de viagem cansado... Sara disse que eles queriam privacidade... eu não posso ser um fardo o tempo todo", pensou ela, a insegurança gritando mais alto que a necessidade.

Eduarda, em um estado de transe provocado pelo medo, limpou o rosto da filha, pegou a bolsa de fraldas, as chaves do carro e desceu para a garagem. Ela mesma dirigiria. Ela precisava provar que conseguia cuidar de Maya sozinha.

O hospital particular ficava a quinze minutos, mas para Eduarda, cada semáforo vermelho parecia uma eternidade de tortura. Maya continuava chorando, um som que perfurava a alma da jovem mãe.

***

Emanuel acordou com a vibração do celular sobre a mesa de cabeceira. Não era um alarme. Era um alerta do sistema de segurança da garagem.

Ele sentou-se na cama, o peito subindo e descendo com uma premonição sombria. Sara dormia profundamente ao seu lado, alheia a tudo. Ele desbloqueou o aparelho e viu o registro: o carro de Eduarda havia saído do prédio às 03:15 da manhã.

Ele ligou para o celular dela. Caixa postal. Ligou para o apartamento de baixo. Ninguém atendeu.

Um rosnado baixo escapou de sua garganta. Ele se vestiu em tempo recorde, a raiva começando a suplantar a preocupação. Como ela ousava sair àquela hora sem dizer uma palavra? Sem segurança? Sem ele?

Ele rastreou o GPS do veículo dela. Hospital Santa Catarina.

O trajeto que Emanuel fez até o hospital foi perigoso. Ele ignorou limites de velocidade, sua mente projetando os piores cenários. Quando ele entrou na emergência pediátrica, sua presença era como uma tempestade iminente. O rosto fechado, as veias do pescoço saltadas e o olhar de puro gelo fizeram a recepcionista recuar.

— Eduarda Silva. Onde ela está? — a voz dele saiu baixa, mas carregada de uma ameaça latente.

— Senhor, o senhor precisa...

— Eu não preciso de nada a não ser saber onde está minha filha e minha prima. Agora!

— Elas estão no consultório três, senhor. A criança está sendo suturada.

Emanuel caminhou a passos largos, ignorando os avisos de "acesso restrito". Ele abriu a porta do consultório com um estrondo.

Eduarda estava sentada em uma cadeira de plástico, pálida como um fantasma, as mãos manchadas com o sangue seco de Maya. A menina estava no colo de uma enfermeira, choramingando enquanto o médico terminava o curativo na testa.

Ao ver Emanuel, Eduarda sentiu um alívio momentâneo, seguido por um terror absoluto. Ela nunca o vira tão furioso.

— Emanuel... — ela sussurrou, a voz falhando.

Ele não disse nada. Ele se aproximou do médico, pegou a ficha da mão do homem e leu cada linha com uma precisão cirúrgica. Só depois de garantir que Maya estava fora de perigo e que o ferimento era superficial, ele se virou para Eduarda.

— Para o carro. Agora — disse ele, a voz vibrando de uma fúria contida que era pior do que qualquer grito.

— Manu, eu... eu achei que podia...

— Eu disse agora, Eduarda! — ele não gritou, mas o tom foi tão cortante que a enfermeira sobressaltou-se.

O caminho de volta para casa foi o silêncio mais pesado que Eduarda já experimentara. Emanuel dirigia o carro dela, enquanto o seu próprio motorista, que ele convocara por mensagem, seguia atrás. Maya dormia exausta na cadeirinha. Eduarda chorava silenciosamente no banco do passageiro, encolhida, sentindo-se a menor criatura do mundo.

Assim que entraram na cobertura, Emanuel não a deixou descer para o apartamento dela. Ele a guiou para a sala principal do andar superior. Sara já estava de pé, vestindo um robe de seda champagne, parecendo preocupada, mas mantendo a calma.

— O que aconteceu? A Maya está bem? — Sara perguntou, aproximando-se para ver a menina no colo de Emanuel.

— Ela caiu do berço. Precisou de pontos — Emanuel respondeu, entregando a pequena para Sara. — Leve-a para o nosso quarto. Coloque-a na cama com você. A Neide vai ficar de vigia na porta.

Sara percebeu o estado de Emanuel e o tremor de Eduarda. Ela apenas assentiu, lançando um olhar de compaixão para a prima antes de sair.

Emanuel fechou a porta da sala e virou-se para Eduarda. Ele caminhou até ela, encurralando-a contra a parede de vidro que dava para a cidade.

— Você tem noção do que fez? — ele perguntou, a voz agora subindo de tom. — Você saiu sozinha, às três da manhã, em uma cidade como esta, com uma criança ferida no banco de trás!

— Eu não queria te incomodar, Emanuel! — Eduarda explodiu em soluços, cobrindo o rosto com as mãos. — Você tinha acabado de chegar, você trabalha tanto... eu queria ser independente, eu queria cuidar dela sozinha!

Emanuel segurou os pulsos dela, afastando as mãos de seu rosto com firmeza, mas sem machucá-la. Ele a obrigou a olhar para ele.

— Independente? — ele riu, uma risada sem humor. — Você quase desmaiou de pânico no hospital, Eduarda! Você não consegue nem segurar a mão para assinar um formulário! Você é minha responsabilidade. A Maya é minha filha!

— Ela é minha filha também! — ela rebateu, a timidez dando lugar a um desespero manho. — Você me controla o tempo todo, Manu... eu me sinto sufocada às vezes!

Emanuel soltou os pulsos dela e deu um passo para trás, passando a mão pelo cabelo, visivelmente perturbado. O comentário dela o atingiu em um ponto sensível.

— Sufocada? Eu garanto que você tenha o melhor de tudo. Eu pago seus estudos, eu protejo sua reputação, eu dei um nome à sua filha quando aquele covarde fugiu! E você me retribui colocando a vida de vocês em risco por um capricho de "independência"?

Eduarda baixou a cabeça, os ombros sacudindo.

— Desculpa... me desculpa, Manu... eu só fiquei com medo de você ficar bravo por eu não saber cuidar dela.

Emanuel suspirou, a raiva começando a ser substituída por aquela necessidade possessiva de consolar. Ele se aproximou novamente, mas desta vez envolveu Eduarda em um abraço apertado. Ela se agarrou à camisa dele como se fosse sua única tábua de salvação em um mar revolto.

— Eu nunca ficaria bravo por você precisar de mim, Duda — ele sussurrou contra o cabelo dela. — Eu fico bravo porque você tentou não precisar. Entenda de uma vez: você não vai a lugar nenhum sem que eu saiba. Você não resolve nada sozinha se eu puder resolver por você. Você é minha. Vocês duas são minhas.

Eduarda não protestou. No fundo de sua alma sensível e insegura, aquelas palavras eram o que ela mais desejava ouvir, por mais que a lógica lhe dissesse que era errado. Ela se sentia segura naquele casulo de controle.

Sara abriu a porta da sala, observando os dois abraçados. Ela não interrompeu imediatamente. Ela via a forma como Emanuel escondia o rosto no pescoço de Eduarda e como a prima se moldava perfeitamente ao corpo dele.

— Ela dormiu — disse Sara, chamando a atenção deles. — Mas a Duda precisa de um calmante e de um banho. Ela está coberta de sangue da pequena.

Emanuel soltou Eduarda, mas manteve uma mão em sua cintura.

— Ela vai dormir aqui em cima hoje. No quarto ao lado do nosso. Não quero ela sozinha lá embaixo.

— Com certeza — concordou Sara, aproximando-se e passando a mão pelo braço de Eduarda. — Venha, querida. Vou te ajudar. O Emanuel precisa de um drink antes que ele tenha um infarto de tanto estresse.

Eduarda olhou para Emanuel, buscando aprovação. Ele apenas assentiu com a cabeça, um comando silencioso.

Enquanto Sara levava Eduarda para o banho, Emanuel caminhou até o bar e serviu-se de uma dose generosa de uísque. Seus olhos percorreram a sala luxuosa, os presentes caros, as câmeras de segurança nos monitores ocultos.

Ele tinha tudo o que um homem poderia desejar. Tinha o luxo, o poder e as duas mulheres que amava sob o mesmo teto. Mas o incidente daquela noite deixara claro que o equilíbrio era frágil. Ele precisava apertar o cerco. Ele precisava garantir que Eduarda nunca mais sentisse que podia — ou devia — enfrentar o mundo sem a sombra dele para protegê-la.

Ele bebeu o líquido amargo de uma vez. A possessividade era um fardo pesado, mas era o único que ele estava disposto a carregar.

Mais tarde, ele entrou no quarto de hóspedes onde Eduarda já estava deitada, sob o efeito de um sedativo leve que Sara lhe dera. A luz da lua filtrava-se pelas cortinas, iluminando o rosto doce e agora sereno da prima.

Emanuel sentou-se na beira da cama e tocou a mão dela, que repousava sobre o lençol de seda.

— Você nunca mais vai fugir de mim, Duda — ele sussurrou para o silêncio do quarto. — Nem por medo, nem por orgulho.

Ele se levantou e foi para o seu próprio quarto, onde Sara o esperava na cama imensa, com Maya dormindo entre os travesseiros. Sara olhou para ele e estendeu a mão.

— Você a marcou, não foi? — Sara perguntou, referindo-se à submissão emocional que Emanuel acabara de reforçar.

— Eu apenas a lembrei de onde é o lugar dela — respondeu ele, deitando-se ao lado da esposa e puxando-a para perto, enquanto seus olhos permaneciam fixos na pequena Maya.

Naquela noite, Emanuel dormiu com a certeza de que seu império estava seguro. As paredes eram altas, as trancas eram fortes e o amor, em sua forma mais controladora e absoluta, reinava soberano sobre as três vidas que ele considerava sua propriedade mais valiosa.

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