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O Labirinto da Proteção

O silêncio da manhã na cobertura foi quebrado pelo som abafado de um choro rouco. Ágata, geralmente um turbilhão de energia loira e gritos alegres, estava prostrada no imenso sofá da sala, com as bochechas vermelhas de febre e o olhar vítreo. Sara, vestindo um robe de seda preta que realçava sua palidez de preocupação, passava uma toalha úmida na testa da filha, enquanto Emanuel andava de um lado para o outro, o celular colado ao ouvido, ditando ordens para o seu pediatra particular.

— Sim, a temperatura subiu para trinta e oito e meio de novo. Eu não quero esperar até a tarde, doutor. Quero você aqui em vinte minutos — a voz de Emanuel era um comando frio, desprovido de qualquer espaço para negociação.

Sara suspirou, ajeitando o busto e olhando para o marido com uma mistura de irritação e cansaço.

— Emanuel, pare de aterrorizar o homem. É apenas uma virose, a Ágata é forte. Ela só precisa descansar.

— Ela é um bebê, Sara. Bebês não "apenas" têm viroses sob o meu teto sem que eu saiba exatamente o que está acontecendo — rebateu ele, guardando o aparelho no bolso e aproximando-se da esposa para beijar-lhe o topo da cabeça, um gesto de carinho possessivo que tentava aplacar a própria ansiedade.

Nesse momento, o elevador privativo apitou, anunciando uma chegada. A porta se abriu e dona Magnólia, a mãe de Emanuel, entrou no recinto com a elegância austera de quem comanda uma fazenda com punho de ferro. Atrás dela, Eduarda apareceu, carregando uma pequena mala de rodinhas com estampa de bailarinas e segurando a mão de Maya.

Maya estava radiante. A menina de um ano usava um vestido de algodão doce e um chapéu de palha com fita, pronta para uma aventura. Eduarda, por outro lado, parecia dividida entre a empolgação da filha e a timidez habitual ao entrar no espaço de Emanuel e Sara.

— Bom dia, família! — Magnólia anunciou, a voz ressoando com autoridade. — Viemos buscar a nossa pequena viajante. O carro já está lá embaixo com o motorista, tudo pronto para o final de semana no interior. O ar puro da fazenda vai fazer maravilhas para essa menina.

Emanuel parou no meio da sala. Seus olhos vagaram da mala de bailarinas para o rosto expectante de Maya e, finalmente, pousaram em Eduarda. Suas sobrancelhas se juntaram em uma linha reta e perigosa.

— Que viagem é essa? — perguntou ele, a voz baixando para aquele tom grave que fazia o estômago de Eduarda dar um nó.

Eduarda deu um passo à frente, apertando a alça da bolsa de Maya.

— Manu... a sua mãe sugeriu na semana passada, lembra? Eu comentei com você no jantar de terça que a Maya precisava de um pouco de sol e espaço para correr. Eu arrumei as coisinhas dela... achei que você estivesse de acordo.

— Eu não estou de acordo — declarou Emanuel, cruzando os braços sobre o peito largo, a postura rígida como mármore. — A Maya tem um ano, Eduarda. Ela ainda é um bebê. Ela não vai atravessar três horas de estrada para ficar longe da supervisão médica e da minha proteção por três dias.

Magnólia soltou uma risada curta, nada intimidada pelo filho.

— Deixe de ser ridículo, Emanuel. Eu criei você e seus irmãos naquela fazenda e nenhum de vocês morreu por causa do "ar do mato". A menina vai comigo e com a Duda. Ela precisa sair desse aquário de vidro que você chama de casa.

— Ela não vai — repetiu ele, olhando agora diretamente para Eduarda, ignorando a mãe. — A Ágata está doente aqui em cima. Se a Maya for para lá e tiver uma febre, quem vai cuidar dela? O veterinário da fazenda?

— Emanuel, por favor — Eduarda começou, a voz trêmula, mas carregada de uma súplica mansa. — Meus pais também estarão lá. Eu vou estar com ela o tempo todo. Eu... eu preparei tudo com tanto carinho. A Maya passou a manhã inteira dizendo "vovó" e "fazenda".

Sara, que até então observava a cena enquanto ninava Ágata, resolveu intervir. Ela conhecia o marido melhor do que ninguém e sabia que, naquele momento, o instinto de controle dele estava em alerta máximo devido à doença da filha biológica.

— Emanuel, querido, olhe para a menina — Sara disse, apontando para Maya, que agora tentava escalar a perna de Emanuel, alheia à tensão. — Ela está ótima. A Duda tem razão, um pouco de sol vai fazer bem. E, sinceramente, com a Ágata assim, o apartamento vai ficar um caos. Vai ser melhor para a Maya estar longe desse clima de hospital.

— Não é uma questão de clima, Sara. É uma questão de segurança — Emanuel insistiu, embora o toque da pequena mão de Maya em sua calça estivesse começando a amolecer sua guarda. Ele se abaixou e pegou a menina no colo, encarando os olhos castanhos que eram tão parecidos com os de Eduarda. — Você quer ir com a vovó, pequena?

— Vovó! Mato! — Maya exclamou, batendo as mãozinhas no rosto de Emanuel.

Ele fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso da responsabilidade. Para ele, Maya era tão sua quanto Ágata. O abandono do pai biológico havia criado em Emanuel uma necessidade visceral de ser o escudo absoluto daquela criança. A ideia de que ela estivesse a quilômetros de distância, onde ele não pudesse chegar em minutos se algo acontecesse, era torturante.

— Emanuel — Eduarda chamou, aproximando-se dele. Ela colocou a mão timidamente em seu braço, um gesto que sempre conseguia baixar sua pressão arterial. — Eu prometo que ligo de hora em hora. Eu tiro fotos de cada refeição. Se ela espirrar, eu volto no mesmo instante. Por favor... confia em mim. Eu sou a mãe dela, mas eu sei que você é o pai que ela escolheu. Eu jamais faria nada que a colocasse em risco.

Emanuel olhou para Eduarda. A vulnerabilidade dela, misturada com aquela ponta de determinação materna, era sua maior fraqueza. Ele a puxou para perto, ainda segurando Maya com um braço, e sussurrou apenas para ela:

— Se acontecer qualquer coisa, Eduarda... qualquer coisa, e você não me contar imediatamente, eu nunca mais deixo ela sair da minha vista. Você entende o peso disso?

— Eu entendo — ela sussurrou de volta, sentindo o calor do corpo dele e a intensidade daquela promessa.

Emanuel soltou um suspiro longo, derrotado pela doçura da prima e pela insistência da mãe. Ele entregou Maya para os braços de Magnólia, mas seus olhos permaneceram fixos na bagagem.

— Onde está o kit de primeiros socorros que eu comprei? — ele perguntou, voltando ao modo prático.

— Está na mala lateral, Manu — respondeu Eduarda, com um pequeno sorriso de alívio. — Com o termômetro digital, o antitérmico e o contato de emergência do pediatra colado na tampa.

— E o motorista? — Emanuel continuou. — Eu quero que o Jorge vá com vocês. Ele é treinado em direção defensiva e sabe o caminho mais rápido para o hospital da cidade vizinha. Não quero a minha mãe dirigindo aquela caminhonete antiga.

— Emanuel, eu dirijo desde antes de você nascer! — Magnólia protestou, mas ele apenas levantou a mão, encerrando o assunto.

— Ou o Jorge dirige, ou a Maya não sai deste prédio.

Magnólia revirou os olhos, mas assentiu. Ela sabia que aquele era o máximo de concessão que conseguiria extrair do filho.

— Tudo bem, o Jorge dirige. Vamos, Duda? O sol já está alto.

Eduarda pegou a mala e deu um passo em direção ao elevador, mas parou e voltou para Emanuel. Ela se inclinou e beijou sua bochecha, um toque suave que cheirava a gratidão.

— Obrigada, Manu. E cuida da Ágata. Sara, se precisar de qualquer coisa da loja ou de ajuda com a pequena, me liga, tá?

— Pode deixar, lindinha — Sara respondeu, com um aceno de mão. — Aproveite o silêncio. Quando a Ágata melhorar, eu vou querer um relatório completo de quantas galinhas a Maya tentou abraçar.

Emanuel acompanhou-as até o elevador. Ele segurou a porta por um momento extra, olhando para Maya, que agora dava tchauzinho com entusiasmo.

— Eu amo você, pequena — ele disse, a voz subindo um pouco de tom. — Coma tudo o que a mamãe der. E nada de chegar perto do lago sem alguém segurando a sua mão.

A porta se fechou, e Emanuel ficou ali, parado, olhando para o metal escovado como se pudesse ver através dele. O apartamento pareceu subitamente mais vazio, apesar do choro de Ágata que recomeçava na sala.

— Você parece que está mandando elas para a guerra, Emanuel — Sara comentou, aproximando-se e passando o braço pela cintura dele. — Relaxa. A Duda é cuidadosa. E a sua mãe é uma rocha.

— Eu sei — ele murmurou, virando-se para a esposa e puxando-a para um abraço apertado, buscando nela o equilíbrio que a ausência de Eduarda e Maya sempre abalava. — Mas eu não gosto da distância, Sara. O mundo não é gentil com pessoas como a Eduarda. E a Maya... ela é o meu coração fora do peito.

— Eu sei, meu amor. Mas agora, o seu coração que está dentro do peito e a sua filha que está com febre precisam de você aqui. Vamos dar o remédio para a Ágata.

Emanuel assentiu, mas antes de voltar para o sofá, ele pegou o celular e enviou uma mensagem para o motorista: *"Jorge, velocidade constante, sem paradas desnecessárias. Me avise no momento em que as rodas tocarem o cascalho da fazenda. E mantenha o celular carregado."*

Só então, ele se permitiu sentar ao lado de Sara e pegar Ágata no colo. A menina encostou a cabecinha quente em seu ombro, e Emanuel começou a balançá-la, seus olhos focados no horizonte através da janela de vidro. Ele era o mestre daquele império, o protetor daquelas vidas, e embora tivesse permitido que uma parte de seu mundo saísse debaixo de suas asas, sua mente já estava calculando os minutos até que elas voltassem para onde, na sua visão, sempre deveriam estar: sob o seu controle, sob o seu cuidado, e sob o seu amor inabalável.

Enquanto a estrada se estendia diante de Eduarda e Maya, Emanuel permanecia na cobertura, uma sentinela silenciosa, esperando pelo sinal de que suas meninas estavam seguras, enquanto o fogo de Sara e a memória da seda de Eduarda mantinham sua alma dividida e, paradoxalmente, mais inteira do que nunca.

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