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O Labirinto da Proteção e a Sombra da Omissão
O ar da fazenda, que deveria ser sinônimo de liberdade, tornou-se o cenário do pesadelo particular de Eduarda. O sol da tarde começava a declinar, tingindo o céu de Minas com tons de brasa, quando o incidente ocorreu. Maya, em um ímpeto de curiosidade infantil, soltou-se da mão de Eduarda e correu em direção a uma trilha ladeada por samambaias altas. O terreno, úmido e traiçoeiro, cedeu sob os pés pequenos. Eduarda, em um reflexo desesperado, saltou para segurá-la, e ambas rolaram por um pequeno barranco, parando apenas entre as raízes expostas de uma gameleira centenária.
O silêncio que se seguiu foi cortado pelo choro agudo de Maya. Eduarda, ignorando a dor aguda em seu próprio tornozelo e os arranhões que ardiam em seus braços, puxou a filha para o colo, examinando-a com mãos trêmulas.
— Calma, meu amor... a mamãe está aqui. — A voz de Eduarda era um sussurro entrecortado pelo pânico.
Felizmente, a queda parecia pior do que realmente fora. Maya tinha um pequeno corte no joelho e um hematoma que começava a escurecer na testa, mas seus olhos estavam focados e ela logo se acalmou ao sentir o calor da mãe. Eduarda, por outro lado, sentia o coração bater contra as costelas como um pássaro enjaulado. A primeira imagem que veio à sua mente não foi a do hospital, mas a do rosto de Emanuel.
Dona Magnólia chegou ao local minutos depois, ofegante, acompanhada pelo motorista Jorge. Ao ver as duas no fundo do declive, a matriarca sentiu o sangue fugir do rosto.
— Pelos santos, Eduarda! Vocês estão bem? — Magnólia desceu com a ajuda de Jorge, pegando Maya no colo enquanto o motorista ajudava Eduarda a se levantar.
— Foi só um susto, dona Magnólia — disse Eduarda, limpando a terra do vestido com mãos trêmulas. — Mas a Maya... o joelho dela está sangrando. O Emanuel... ele vai me matar. Ele avisou. Ele disse que algo aconteceria.
Magnólia olhou para a nora e depois para o neto, que já estava mais calma, sugando o polegar. A velha senhora conhecia o temperamento do filho melhor do que ninguém. Se Emanuel soubesse que Maya havia caído em uma "floresta", como ele certamente chamaria aquele trecho de mata, ele viria buscar as duas em um helicóptero e trancaria Eduarda em uma torre de marfim para o resto da vida.
— Escute bem, Eduarda — disse Magnólia, sua voz assumindo aquele tom de comando que Emanuel herdara tão bem. — Não foi nada grave. Um arranhão e um roxo. O Jorge vai nos ajudar a limpar isso. Nós não vamos contar ao Emanuel.
Eduarda arregalou os olhos, sentindo o peso daquela omissão.
— Mas ele pergunta tudo! Ele liga de hora em hora! Ele vai ver o roxo na testa dela quando voltarmos!
— Diremos que ela bateu a cabeça na grade do berço enquanto brincava, ou na quina da mesa de centro — Magnólia decidiu, limpando o rosto de Maya com o lenço. — Se contarmos a verdade, ele vai transformar a vida de todas nós em um inferno de restrições. Você quer que ele te proíba de sair de casa com a menina de novo?
Eduarda engoliu em seco. A ideia de perder a pouca liberdade que tinha era aterrorizante, mas a ideia de mentir para Emanuel — o homem que era seu porto seguro e seu carcereiro voluntário — parecia um crime de lesa-majestade.
— Tudo bem — sussurrou Eduarda. — Nós não contamos.
***
A mentira durou exatamente vinte e quatro horas.
Emanuel não precisou de confissões. Ele era um homem treinado na observação, um tatuador que passava horas analisando cada milímetro de pele alheia. Quando Eduarda e Maya cruzaram a porta da cobertura na tarde de domingo, ele já estava esperando no hall, com os braços cruzados e uma expressão que faria um exército recuar.
Ele pegou Maya no colo antes mesmo de cumprimentar Eduarda. Seus olhos varreram a menina como um scanner. O curativo no joelho, escondido sob a meia calça, passou despercebido por um momento, mas o hematoma na testa, apesar da tentativa de Eduarda de escondê-lo com a franja da menina, era um farol.
— O que é isso? — A voz de Emanuel era um sussurro gélido que fez o ar da sala parecer congelar.
— Ela... ela bateu na quina da cama, Manu — disse Eduarda, a voz saindo fina e trêmula. — Estava brincando de esconder e...
Emanuel não a deixou terminar. Ele colocou Maya no chão, entregando-a para Sara, que observava a cena com uma expressão de "eu avisei" no rosto. Ele então se aproximou de Eduarda, segurando-a pelos ombros com uma firmeza que beirava a dor.
— Olhe para mim, Eduarda. Não minta para mim. Nunca.
— Eu não estou... — Ela tentou desviar o olhar, mas ele a segurou pelo queixo, forçando-a a encarar a tempestade em seus olhos escuros.
— O Jorge me entregou — disse Emanuel, a voz vibrando de uma fúria contida. — Ele sabe quem paga o salário dele. Ele sabe que a lealdade dele pertence a mim, não à minha mãe. Ele me contou sobre a queda no barranco. Ele me contou sobre a "floresta".
Eduarda sentiu as pernas fraquejarem. O pânico que ela sentira no momento da queda não era nada comparado ao terror de ver Emanuel naquele estado.
— Manu, não foi nada... a mamãe disse que...
— Minha mãe não manda nesta família! — ele explodiu, o grito ecoando pelas paredes de vidro da cobertura. — Eu avisei! Eu disse que era perigoso! Eu confiei a segurança da minha filha a você e você a levou para o meio do mato para cair de um barranco! E depois... depois você teve a audácia de conspirar com a minha mãe para esconder isso de mim?
Sara deu um passo à frente, tentando mediar.
— Emanuel, acalme-se. A menina está bem. Foi um acidente.
— Um acidente que aconteceu porque ela não estava sob a minha proteção direta! — Ele se virou para Eduarda, o olhar agora carregado de uma decisão final. — Acabou, Eduarda. Chega de morar lá embaixo. Chega de independência de fachada. A partir de hoje, você e a Maya se mudam para este andar. Vocês vão ocupar a suíte leste. O Jorge e a Neide vão acompanhar cada passo que vocês derem fora deste prédio. Você não vai nem à padaria sem o meu consentimento.
— Manu, por favor, você não pode fazer isso! — Eduarda soluçava abertamente agora, agarrando-se à camisa dele. — Eu preciso da faculdade, eu preciso das aulas de ballet...
— Você vai fazer o que eu mandar! — ele rosnou, afastando-a. — Se eu não posso confiar no seu julgamento, eu vou substituir o seu julgamento pelo meu. Você é minha, Eduarda. E se eu tiver que te trancar aqui para garantir que você e a Maya estejam seguras, eu farei isso sem hesitar.
Emanuel saiu da sala a passos largos, entrando em seu escritório e batendo a porta com tanta força que um dos vasos de cristal de Sara oscilou.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Sara aproximou-se de Eduarda, que estava caída no sofá, escondendo o rosto nas mãos.
— Ele está furioso, Duda — disse Sara, sentando-se ao lado dela e passando a mão por seus cabelos. — E quando o Emanuel fica assim, ele não escuta a razão. Ele se sente traído. A proteção dele é a forma como ele ama. Para ele, você mentir sobre a segurança da Maya é como se você tivesse tentado matar uma parte dele.
— O que eu faço, Sara? — Eduarda soluçou. — Ele vai me odiar?
Sara deu um sorriso enigmático, aquele sorriso de quem conhecia todos os atalhos para o coração e os desejos de Emanuel.
— Ele não te odeia, boba. Ele está possesso de desejo e de medo. Ele quer ter o controle total sobre você porque ele não sabe como lidar com o fato de que você é a única coisa que ele não consegue prever totalmente. — Sara inclinou-se, sussurrando no ouvido da prima. — Você sabe como acalmar a fera, Duda. Ele é um homem prático. Ele precisa ser lembrado de quem é o dono aqui, mas ele também precisa ser lembrado de que a submissão que ele tanto exige é algo que você entrega por amor, não apenas por medo. Vá até lá.
— Agora? — Eduarda estremeceu.
— Agora. Antes que ele comece a redigir um contrato de prisão domiciliar para você — Sara riu, empurrando-a levemente. — Use o que você tem, Duda. O Emanuel é louco por essa sua carinha de anjo, mas ele é ainda mais louco pelo que você esconde sob esse vestido de bailarina.
***
Eduarda caminhou pelo corredor como se estivesse indo para o patíbulo. Ela parou diante da porta pesada de madeira do escritório. Ouviu o som de gelo batendo contra o vidro. Emanuel estava bebendo.
Ela entrou sem bater.
O escritório estava na penumbra, iluminado apenas pelas luzes da cidade. Emanuel estava de costas, observando o horizonte, com um copo de uísque na mão direita. A tensão em seus ombros era visível mesmo através da camisa de linho.
— Eu disse que não queria ser incomodado — ele disse, a voz rouca e perigosa.
— Manu... — Eduarda sussurrou, fechando a porta atrás de si e girando a chave.
Emanuel virou-se lentamente. Seus olhos brilhavam com uma mistura de raiva e uma fome sombria que Eduarda conhecia bem.
— Você veio tentar me convencer a mudar de ideia? — Ele deu um passo à frente, a aura de poder emanando dele. — Não perca seu tempo. As malas já estão sendo subidas. Você é minha prisioneira agora, Eduarda. E a culpa é inteiramente sua.
Eduarda não respondeu com palavras. Ela sentia o coração martelar, mas a necessidade de aplacar aquela fúria, de transformar aquele ódio em algo que ela pudesse manejar, deu-lhe uma coragem que ela não sabia que possuía.
Ela caminhou até o centro da sala, parando a poucos passos dele. Com as mãos trêmulas, ela levou os dedos à alça do seu vestido de seda clara.
— Eu sei que eu errei, Manu — ela disse, a voz mansa, carregada daquela manha que sempre o desarmava. — Eu sei que você só quer nos proteger. Eu tive medo... medo de você me olhar como está me olhando agora.
Emanuel observava cada movimento dela, o copo de uísque esquecido em sua mão.
— O seu medo não justifica a sua mentira — ele rosnou, mas a voz já não era tão firme.
— Eu não sou apenas a mãe da Maya, Emanuel — ela continuou, deixando as alças do vestido caírem pelos ombros. O tecido deslizou suavemente pela sua pele alva, revelando que ela não usava nada por baixo. O vestido caiu aos seus pés, deixando-a exposta diante dele, apenas com a sua fragilidade e a sua beleza delicada. — Eu sou sua. Em todos os sentidos.
Emanuel sentiu a garganta secar. A visão de Eduarda, nua no centro do seu santuário, era a provocação máxima. Ele viu os hematomas e arranhões da queda na pele dela, e a raiva voltou a borbulhar, mas agora misturada a um desejo avassalador de marcá-la, de apagar aqueles sinais da natureza com os seus próprios sinais.
— Você acha que pode me comprar com isso? — Ele se aproximou, a mão livre segurando o pescoço dela com uma força controlada, obrigando-a a olhar para cima. — Você acha que a sua nudez apaga o fato de que você me traiu?
— Eu não estou tentando te comprar, Manu — Eduarda sussurrou, as lágrimas voltando a rolar. Ela se apoiou nele, buscando o calor do seu corpo, a mão dela descendo pelo abdômen dele até a fivela do cinto. — Eu estou tentando te mostrar que eu me entrego. Totalmente. Sem segredos. Sem mentiras.
Ela se ajoelhou diante dele, uma posição de submissão absoluta que ela sabia que Emanuel não conseguiria resistir. Com movimentos lentos e deliberados, ela afastou a própria intimidade, revelando-se para ele em toda a sua vulnerabilidade.
— Veja, Manu... — ela disse, a voz embargada. — É tudo seu. Cada parte de mim. Você não precisa me trancar se souber que eu nunca sairia do seu lado voluntariamente.
Emanuel soltou o copo de uísque, que caiu silenciosamente sobre o tapete persa. Ele olhou para baixo, para a mulher que era sua obsessão, sua prima, sua amante e o objeto de sua proteção mais feroz. A visão de Eduarda ali, oferecendo-se daquela forma, quebrando a própria timidez para aplacar a fúria dele, destruiu o resto de sua resistência.
Ele a puxou para cima com um movimento brusco, prendendo-a contra a mesa de carvalho maciço do escritório.
— Você é uma manipuladora, Eduarda — ele rosnou contra os lábios dela, antes de beijá-la com uma selvageria que cheirava a uísque e possessividade. — Você acha que isso muda as regras? Você ainda vai morar aqui em cima. Você ainda vai ser vigiada.
— Eu sei — ela gemeu entre os beijos, envolvendo as pernas na cintura dele, sentindo o poder dele finalmente se voltar para o prazer. — Eu aceito tudo, Manu. Desde que você me perdoe. Desde que você continue sendo o meu dono.
Emanuel não disse mais nada. Ele a possuiu ali mesmo, entre os papéis de seus negócios e a luz da lua, em um ato que era tanto uma punição quanto uma consagração. Ele marcou a pele dela com beijos e mordidas, reafirmando sua posse sobre cada centímetro daquela mulher que o levava à loucura.
Eduarda entregou-se totalmente, sentindo que a fúria de Emanuel estava sendo drenada para dentro dela, transformada em uma paixão avassaladora. Ela sabia que a liberdade que perdera era o preço que pagava por aquele tipo de amor, um amor que não conhecia limites ou moderação.
Horas depois, quando Emanuel a carregou para o quarto, enrolada em seu próprio paletó, Sara estava no corredor, observando-os com um sorriso triunfante.
— Pelo visto, a reunião foi produtiva — comentou Sara, encostada na parede.
Emanuel parou diante da esposa, com Eduarda adormecida em seus braços.
— Ela fica aqui, Sara. Para sempre.
— Eu sei, querido — Sara disse, aproximando-se e dando um beijo no ombro de Emanuel e outro na testa de Eduarda. — Eu já mandei a Neide arrumar as roupas dela no closet ao lado das minhas. Afinal, uma rainha precisa de companhia na sua corte.
Emanuel entrou no quarto e deitou Eduarda na cama imensa. Ele a observou por um longo tempo, a respiração dela finalmente calma. Ele sabia que a proteção dele era um labirinto do qual ela nunca sairia, mas enquanto a via dormir, sentiu que, naquele labirinto, ele também estava preso. Preso ao amor por Sara, à devoção por Eduarda e à necessidade de manter aquele mundo perfeito e controlado, custasse o que custasse.
A omissão fora perdoada, mas a vigilância seria eterna. Porque para Emanuel, amar não era apenas cuidar; era possuir a alma, o corpo e até os segredos de quem ele chamava de seu. E Eduarda, em sua doce rendição, acabara de assinar o contrato final de sua própria entrega.