D
O Espelho Quebrado e a Visita da Serpente
A manhã na cobertura de Emanuel começou com o peso de uma tempestade iminente, mas não vinha do céu cinzento de São Paulo. O prenúncio do caos atendia pelo nome de Dona Regina, a mãe de Sara. Quando o elevador privativo se abriu, o perfume importado, forte e invasivo, anunciou a chegada da mulher antes mesmo que seus saltos agulha tocassem o mármore do hall. Regina era a versão mais velha, mais amarga e ainda mais plástica de Sara; uma mulher que via a vida através de lentes de aumento para defeitos alheios.
Emanuel, sentado à cabeceira da mesa de café da manhã, sequer levantou os olhos do tablet onde analisava os lucros mensais de seus estúdios na Europa. Ele tolerava Regina apenas porque ela era a origem da mulher que ele amava, mas a recíproca não era verdadeira. Regina o achava um "bruto tatuado com sorte", embora adorasse o saldo bancário que ele proporcionava à filha.
— Mas que recepção calorosa! — exclamou Regina, jogando sua bolsa de grife sobre o aparador. — Sara, querida, você precisa ensinar seu marido que visitas se recebem com um sorriso, não com essa cara de quem está prestes a tatuar um demônio em alguém.
Sara, que usava um robe de seda pink e segurava uma xícara de café com a elegância de uma rainha, apenas revirou os olhos.
— Bom dia, mamãe. O Emanuel dormiu pouco, não comece. Onde está a sua mala? Veio para ficar ou só para criticar o decorador?
— Vim para ver minhas netas, é claro! — Regina caminhou até a sala, onde as crianças brincavam sob a supervisão atenta de Eduarda.
Eduarda estava sentada no tapete, o cabelo castanho preso em um coque frouxo, vestindo uma calça de legging preta e uma camiseta larga. Ela ajudava Maya a montar blocos lógicos, enquanto Ágata tentava, sem muito sucesso, colocar um colar de pérolas de brinquedo no pescoço de um urso. Ao ver a avó, Ágata correu para abraçá-la, mas Maya estacou.
A pequena Maya, com sua intuição infantil aguçada, sempre fora sensível a energias pesadas. Ela olhou para Regina, com suas sobrancelhas excessivamente arqueadas pelo botox, o cabelo loiro platinado rígido de laquê e as unhas longas e afiadas. Para uma criança de um ano que passava os dias ouvindo histórias de fadas e monstros contadas por Eduarda, a figura de Regina era... familiar de uma forma assustadora.
— Ora, veja só a pequena órfã de pai vivo — disse Regina, aproximando-se de Maya com um sorriso falso. — Está cada dia mais parecida com a mãe, coitadinha. Tão... comum.
Eduarda sentiu o rosto queimar. Ela se levantou rapidamente, pegando Maya no colo para protegê-la do olhar julgador da mulher.
— Bom dia, Dona Regina. A Maya está apenas com sono — disse Eduarda, a voz mansa, mas firme.
Maya, no entanto, apontou o dedo gordinho para Regina e, com a clareza de quem acabou de fazer uma descoberta brilhante, exclamou:
— Cuca! Cuca malvada!
O silêncio que se seguiu na sala foi absoluto. Emanuel soltou uma risada curta e seca, sem desviar os olhos do tablet. Sara engasgou com o café, tentando esconder o riso atrás do guardanapo de linho.
— O que essa menina disse? — Regina perguntou, a voz subindo uma oitava, o rosto ficando vermelho sob a camada de base cara.
— Cuca! — repetiu Maya, escondendo o rosto no pescoço de Eduarda. — Medo da Cuca!
— Eduarda! — Regina sibilou, os olhos faiscando. — Que tipo de educação você está dando para essa menina? Me chamando de monstro de folclore? É isso que você ensina para ela enquanto o meu genro sustenta vocês duas?
Eduarda ficou pálida, apertando Maya contra o peito.
— Eu não... eu só li o livro do Sítio ontem, Dona Regina. Ela deve ter associado o... o estilo...
— O estilo? Você está dizendo que eu pareço um jacaré de peruca, sua mosca morta? — Regina deu um passo à frente, mas foi interrompida pela voz de comando de Emanuel.
— Chega, Regina — disse ele, levantando-se e caminhando até o grupo. Ele pegou Maya do colo de Eduarda e a colocou no ombro, lançando um olhar de advertência para a sogra. — A criança tem um ano. Se ela acha que você parece um personagem de ficção, a culpa é da sua esteticista, não da Eduarda. Não levante a voz na minha casa.
Regina bufou, indignada, mas sabia que não devia cruzar a linha com Emanuel. Ele era o provedor, o patriarca possessivo que não admitia que ninguém, nem mesmo a mãe de sua esposa, desrespeitasse as mulheres sob sua proteção.
— Vou para o meu quarto — declarou Regina, triunfante na sua própria ofensa. — Sara, peça para a empregada subir com as minhas malas. E espero que essa... babá... mantenha essa criaturinha longe de mim.
***
Enquanto o clima na sala tentava voltar ao normal, a pequena Ágata, sentindo-se ignorada pela confusão, decidiu que precisava de sua própria aventura. Ela observou a avó subir as escadas e a mãe ir para a cozinha discutir o cardápio com a cozinheira. Emanuel levara Eduarda e Maya para a varanda para "tomar um ar", uma desculpa clássica para acalmar a prima e garantir que ela não estivesse chorando pelos cantos.
Ágata, com seus cachos loiros balançando, caminhou decidida em direção ao santuário proibido: o closet de Sara.
Para Ágata, o closet da mãe era um reino de cores e brilhos. Ela empurrou a porta entreaberta e entrou. O cheiro de perfumes caros e couro novo a envolveu. Seus olhos brilharam ao ver a penteadeira iluminada. Sara tinha uma coleção vasta de maquiagem, organizada em bandejas de acrílico que pareciam joias.
A menina puxou uma cadeira e escalou.
— Bonita... Ágata bonita — murmurou ela, pegando um batom vermelho da Chanel.
O que se seguiu foi uma carnificina cosmética. Ágata não se limitou a passar o batom. Ela o esmagou contra as bochechas, depois pegou uma paleta de sombras de edição limitada e, com os dedos gordinhos, começou a misturar os azuis, verdes e dourados, transformando o próprio rosto em uma pintura abstrata de gosto duvidoso. Não satisfeita, ela encontrou o pó compacto e, em um movimento de pura alegria, jogou-o para o alto, criando uma nuvem bege que assentou sobre os sapatos de camurça de Sara.
O desastre culminou quando ela tentou abrir um frasco de base líquida. O vidro escorregou de suas mãos pequenas e se estilhaçou no chão de madeira, espalhando um líquido cor de pele por todo o tapete persa clarinho.
O barulho do vidro quebrando ecoou pelo andar superior.
Sara foi a primeira a chegar. Ela parou na porta do closet, as mãos indo para a cabeça em um gesto de puro choque.
— Meu... Deus... Ágata! — O grito de Sara não foi de raiva, mas de desespero genuíno.
Emanuel e Eduarda, com Maya nos braços, apareceram logo atrás. Emanuel olhou para a cena e, apesar da gravidade da destruição financeira ali presente, teve que lutar para não rir. Ágata estava sentada no meio do caos, coberta de pó, com a boca pintada de vermelho até as orelhas e sombras azuis nas sobrancelhas.
— Papai! — Ágata sorriu, mostrando os dentinhos manchados de batom. — Ágata bonita!
— Bonita não, Ágata! Você destruiu a minha paleta da Pat McGrath! — Sara entrou no closet, desviando dos cacos de vidro. — Emanuel, faça alguma coisa! Ela acabou com a minha base favorita! E o tapete! Esse tapete custou o preço de um carro popular!
Eduarda, sentindo a tensão subir, colocou Maya no chão e se aproximou cautelosamente.
— Sara, calma... a criança está bem, é o que importa. Ela podia ter se cortado no vidro.
— Não venha com essa calma de professora de ballet, Eduarda! — Sara exclamou, embora estivesse mais chorosa do que brava. — Olhe para isso! É um massacre!
Regina, atraída pelo barulho, apareceu na porta, soltando um grito de horror.
— Eu disse! Eu disse que essa casa estava um caos! Primeiro a filha da outra me chama de monstro, agora a sua própria filha destrói o seu patrimônio! Isso é falta de limites, Sara! Emanuel, você é muito mole com essas crianças!
Emanuel, que até então estava apenas observando, mudou sua postura. A palavra "mole" vinda de Regina era o gatilho para sua autoridade se manifestar. Ele entrou no closet, pegou Ágata pelo meio da cintura, ignorando o fato de que ela estava sujando sua camisa preta de pó e batom.
— Regina, saia daqui — ordenou ele, a voz baixa e vibrante. — Agora.
— Mas Emanuel...
— Agora! — O comando foi tão seco que Regina deu um passo atrás e desapareceu pelo corredor.
Emanuel olhou para Sara, que estava sentada no banquinho da penteadeira, olhando para os restos de sua maquiagem com os olhos marejados.
— Sara, é só maquiagem. Eu compro tudo de novo hoje à tarde. Mando buscar em Paris se for preciso. Mas não grite com a menina. Ela não sabe o valor disso.
— Eu sei que você compra, Manu... mas era a minha organização, o meu momento — Sara suspirou, olhando para Ágata, que agora parecia perceber que a mamãe não estava feliz.
Eduarda aproximou-se de Sara e colocou a mão em seu ombro.
— Eu ajudo a limpar, Sara. E posso levar as meninas para o banho. Vou dar um banho de espuma nelas, tirar todo esse batom. Por que você não vai para o spa do condomínio relaxar um pouco enquanto a Neide limpa o closet? O Emanuel paga uma massagem completa para você.
Sara olhou para Eduarda, a suavidade da prima agindo como um bálsamo.
— Você faria isso? — perguntou Sara, a voz mais calma.
— Claro. O Manu fica aqui com você um pouco e eu cuido das pequenas.
Emanuel assentiu, entregando Ágata para Eduarda.
— Leve-as, Duda. E leve a Maya também, antes que ela resolva batizar a sala com suco.
***
Uma hora depois, a paz — ou algo próximo disso — havia retornado à cobertura. Sara saíra para o spa, ainda resmungando sobre a paleta de sombras, mas visivelmente mais calma após Emanuel ter feito algumas ligações e garantido que todos os itens seriam repostos em vinte e quatro horas.
Emanuel estava no escritório quando Eduarda bateu à porta. Ela já havia dado banho nas meninas, que agora dormiam o sono dos anjos após a "folia" da manhã. Ela usava um vestido de malha leve e parecia exausta.
— Elas dormiram? — perguntou ele, fechando o notebook e indicando a cadeira à sua frente.
— Sim. A Ágata deu trabalho para tirar o azul das sobrancelhas, mas finalmente cedeu — Eduarda sorriu de lado, sentando-se. — Sinto muito pela confusão com a Dona Regina, Manu. A Maya não deveria ter dito aquilo.
— A Maya disse a verdade — Emanuel deu de ombros, levantando-se e caminhando até ela. Ele parou atrás da cadeira de Eduarda, colocando as mãos em seus ombros. — A Regina é uma influência tóxica. Eu não deveria ter deixado ela vir agora, com você e a Maya recém-mudadas para cá.
Eduarda inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos sob o toque das mãos fortes de Emanuel.
— Eu me sinto um pouco intrusa quando ela está aqui. Ela faz questão de me lembrar que eu não sou... bem, que eu não sou a Sara.
Emanuel inclinou-se, sussurrando perto do ouvido dela, a voz carregada de uma possessividade que a fazia estremecer.
— Você não é a Sara, Duda. E é por isso que você está aqui. Eu não quero duas Saras. Eu quero o fogo dela, a praticidade dela... mas eu preciso da sua paz. Eu preciso da sua doçura para não enlouquecer com o mundo lá fora.
Ele virou a cadeira dela, obrigando-a a encará-lo. O olhar de Emanuel era intenso, uma mistura de proteção e desejo que Eduarda ainda estava aprendendo a navegar.
— A Regina vai embora em dois dias. Eu vou garantir isso. E quanto à maquiagem da Sara... bem, foi um preço pequeno para ver a cara da minha sogra quando a Maya a chamou de Cuca.
Eduarda soltou uma risadinha, a tensão finalmente deixando seu corpo.
— Você é terrível, Emanuel.
— Eu sou o dono desta casa, Duda. E nesta casa, ninguém toca em você ou na Maya, nem mesmo com palavras. — Ele tocou o queixo dela, elevando seu rosto. — Ficou claro?
— Sim, Manu. Ficou claro.
— Ótimo. Agora, vá descansar. Eu vou ver como a Ágata está. E se a Regina abrir a boca para você de novo, não responda. Apenas me chame. Eu cuido das serpentes, você cuida das flores.
Eduarda levantou-se, sentindo-se protegida por aquela redoma de vidro e aço que Emanuel construíra ao redor delas. Ela saiu do escritório, cruzando com Regina no corredor. A mulher mais velha a olhou com desprezo, mas Eduarda apenas sorriu, um sorriso calmo e vitorioso.
— Com licença, Dona Regina — disse Eduarda, com uma polidez cortante. — Vou ver se as meninas precisam de algo. A Cuca... digo, a Ágata, costuma acordar com fome.
Eduarda seguiu seu caminho, deixando Regina bufando sozinha no corredor. No final das contas, o espelho quebrado e a maquiagem destruída eram apenas pequenos danos colaterais em uma guerra de territórios onde Emanuel já havia decidido quem eram as suas rainhas. E no reino de Emanuel, até os monstros de folclore tinham que se curvar diante da vontade do rei.