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D

O Peso da Honra e o Sangue Fervente

A sala de estar da mansão Alencar nunca pareceu tão opressiva para Bia. O aroma de lavanda e cera de assoalho, que geralmente a confortava, agora parecia misturar-se ao cheiro metálico do medo. Ela estava sentada no sofá de veludo, as mãos enluvadas apertando um lenço de seda até que os nós dos dedos ficassem brancos. À sua frente, Clarice Alencar, a personificação da elegância dos anos 50, servia o chá com uma calma que Bia estava prestes a destruir.

Clarice notou o silêncio da filha. Ela conhecia cada nuance do rosto de Bia — a forma como ela franzia o nariz quando estava contrariada ou como evitava o olhar quando escondia uma travessura. Mas desta vez era diferente. Havia uma sombra nos olhos da filha que a maquiagem francesa não conseguia disfarçar.

— Bia, querida, você mal tocou no seu bolo de nozes — disse Clarice, pousando a xícara de porcelana com um tilintar suave. — Se for por causa daquela briga boba com o Ronaldo no clube, saiba que os homens Sobral são teimosos por natureza. Ele virá pedir desculpas, ele sempre vem.

Bia sentiu um nó na garganta. O apoio da mãe era tudo o que ela tinha, mas a verdade era uma lâmina afiada.

— Mamãe... Ronaldo não vem pedir desculpas desta vez. Pelo menos, não pelo que a senhora pensa — Bia respirou fundo, sentindo o espartilho apertar seu ventre, ou talvez fosse apenas a consciência. — Eu preciso lhe contar uma coisa. Algo que vai mudar a forma como a senhora me olha.

Clarice endireitou a postura, o sorriso gentil desaparecendo lentamente.

— Você está me assustando, Beatriz. O que aconteceu?

— Eu estou grávida, mamãe — as palavras saíram em um sussurro, mas ecoaram como um tiro no ambiente silencioso.

O silêncio que se seguiu foi devastador. Clarice não gritou, não desmaiou, nem derramou uma lágrima imediata. Ela apenas empalideceu, a mão paralisada no ar. Para uma mulher daquela sociedade, onde as aparências eram o único alicerce de uma família, aquela confissão era uma sentença de morte social.

— De Ronaldo? — perguntou Clarice, a voz estranhamente contida.

— Sim.

Clarice fechou os olhos por um momento, processando a ruína iminente. Ela pensou nos jantares, nas colunas sociais, no futuro que havia planejado para a filha. Mas, acima de tudo, pensou na segurança de Bia. Ela se levantou, caminhou até a filha e, em vez do tapa que Bia esperava, envolveu-a em um abraço apertado.

— Nós vamos resolver isso, Bia. O seu pai não pode saber até que tenhamos um plano sólido. Ronaldo vai assumir, nem que eu mesma tenha que arrastá-lo ao altar sob a mira de um escândalo.

Enquanto Bia encontrava um refúgio temporário nos braços da mãe, a poucos quilômetros dali, na agência Hi-Fi, outra tempestade se formava.

Ronaldo estava em sua mesa, tentando focar em um anúncio de rádio, quando Beto entrou na sala como um furacão. Atrás dele, Beatriz tentava segurá-lo pelo braço, seu rosto banhado em lágrimas e uma expressão de pura angústia.

— Beto, por favor, vamos conversar em casa! — implorava Beatriz, a voz rouca.

— Conversar o quê, Beatriz? Que você jogou nossa vida no lixo? — Beto gritou, virando-se para ela com uma fúria que Ronaldo nunca tinha visto no irmão.

Ronaldo levantou-se imediatamente, o instinto de proteção aflorando, embora sua relação com o irmão fosse pautada por alfinetadas.

— O que está acontecendo aqui? Beto, abaixe o tom, estamos na agência! — ordenou Ronaldo, tentando manter a postura de "filho responsável".

Beto riu, uma risada cínica e carregada de veneno.

— Ah, vejam só! O senhor Perfeitinho quer dar ordens. Pois saiba, Ronaldo, que a sua querida Beatriz, a moça "pé no chão" que eu tanto defendi, resolveu seguir os passos da sua Bia.

Beatriz soluçou, cobrindo o rosto com as mãos. Ela tinha acabado de contar a Beto sobre sua própria gravidez, esperando o cavalheirismo e o amor que ele sempre jurou ter. Mas Beto, o impulsivo e romântico Beto, reagira com o ego ferido de um homem que via seus planos de liberdade serem podados antes da hora.

— Eu não planejei isso, Beto! — exclamou Beatriz, tentando se aproximar. — Eu pensei que você ficaria feliz, que nós...

— Feliz? — Beto a cortou, os olhos faiscando. — Eu tenho vinte e poucos anos! Eu tenho uma carreira, eu quero viajar, eu quero ser livre! Você me prendeu, Beatriz. Você foi descuidada e agora quer que eu carregue esse fardo pelo resto da vida?

Ronaldo sentiu o sangue subir à cabeça. Ele olhou para Beatriz, a mulher que tinha sido o único apoio de Bia nos últimos dias, e depois olhou para o irmão. A hipocrisia de Beto, que sempre se vangloriava de ser o "moderno" e o "compreensivo", enquanto ele, Ronaldo, era o "conservador", era demais para suportar.

— Cale a boca, Beto — disse Ronaldo, a voz baixa e perigosa.

— O quê? Vai defender ela agora? — Beto virou-se para o irmão, destilando rancor. — Claro, vocês dois se merecem. A Bia com os caprichos dela e você com essa pose de santo. Mas pelo menos a Bia é rica o suficiente para esconder a sujeira dela. E a Beatriz? O que ela tem?

Nesse momento, a porta da agência se abriu novamente. Bia e Clarice haviam chegado, esperando encontrar Ronaldo para discutir os termos do casamento que Clarice exigia. Elas pararam na soleira, paralisadas pela cena de caos.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou Clarice, a autoridade em sua voz cortando o ar como uma navalha.

Beto, cego de raiva e sentindo-se encurralado por todos os lados, não mediu as palavras.

— O que está acontecendo, dona Clarice, é que a sua filha não é a única a trazer vergonha para esta família! A Beatriz também está grávida. Parece que as irmãs Alencar decidiram arruinar os Sobral de uma vez só!

Bia sentiu o chão sumir. Ela olhou para Beatriz, que desabou em um choro convulsivo. O choque de saber que a irmã também carregava um segredo era imenso, mas a reação de Beto era o que mais a aterrorizava.

— Beto, como você pode falar assim? — Bia deu um passo à frente, esquecendo a própria fragilidade. — Ela te ama! Nós estamos com medo!

— Medo? Vocês são ardilosas! — Beto rosnou, aproximando-se de Ronaldo de forma provocativa. — E você, Ronaldo? Vai ser o herói da história? Vai se casar com a Bia para ganhar pontos com o papai, não é? É isso que você quer! Usar um filho para mostrar que é o filho mais honrado, o mais dedicado...

— Chega, Beto — avisou Ronaldo, fechando os punhos.

— Você é um covarde, Ronaldo! — Beto continuou, empurrando o ombro do irmão. — Sempre foi. Está adorando essa situação porque agora eu sou o "errado" da família. Você sempre quis me ver no chão para poder brilhar sozinho sob a sombra do papai. Você é um medíocre que precisa de um escândalo alheio para se sentir homem!

Beto deu mais um empurrão, desta vez com força suficiente para fazer Ronaldo cambalear contra a mesa de desenho.

— Vamos, reage! Ou vai chorar no colo da mamãe Alencar? — Beto zombou, levantando a mão para empurrá-lo novamente.

O estalo foi seco e ecoou por toda a sala.

Ronaldo não hesitou. Antes que a mão de Beto o atingisse, ele girou o corpo e desferiu um soco certeiro no queixo do irmão. O impacto jogou Beto contra uma estante de pastas, que desabou com um barulho ensurdecedor de metal e papel.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Bia soltou um grito abafado, levando as mãos à boca. Clarice permaneceu imóvel, os olhos arregalados. Beatriz correu para o lado de Beto, mas parou no meio do caminho, dividida entre a dor e a indignação pelo que ele tinha dito.

Ronaldo estava ofegante, os nós dos dedos latejando. Ele olhou para o irmão caído, que tentava se levantar enquanto limpava um fio de sangue no canto da boca.

— Nunca mais — disse Ronaldo, a voz tremendo de adrenalina e uma fúria fria — abra a sua boca para falar da Bia ou da Beatriz dessa maneira. Você se acha o grande rebelde, o homem à frente do seu tempo, mas no primeiro sinal de responsabilidade, você se torna um moleque egoísta.

Beto olhou para cima, o ódio queimando em seus olhos, mas o choque do soco parecia ter drenado sua coragem de continuar o confronto físico.

— Você me bateu... — murmurou Beto, incrédulo.

— Bati. E bateria de novo — Ronaldo deu um passo à frente, forçando Beto a recuar mesmo no chão. — Porque, ao contrário de você, eu sei o que significa honra. E honra não é o que os vizinhos dizem na missa de domingo. Honra é não abandonar as pessoas que você diz que ama quando a vida fica difícil.

Clarice deu um passo à frente, recuperando sua compostura imperial.

— Chega dessa barbárie. Beto, saia daqui agora. Vá para casa e limpe esse rosto antes que seu pai o veja. Beatriz, venha comigo. Bia, você também.

Ronaldo olhou para Bia. Por um breve segundo, a máscara de sarcasmo dela caiu completamente. Ela viu nele algo que nunca esperou encontrar: um protetor. Alguém que, apesar de todas as brigas e da insegurança, estava disposto a lutar por ela.

— Ronaldo... — Bia começou, a voz frágil.

— Vá com sua mãe, Bia — disse ele, a voz suavizando apenas para ela. — Eu vou fechar a agência. Amanhã, eu irei à sua casa. Nós vamos falar com seu pai. Juntos.

Beto levantou-se, lançando um último olhar de desprezo para todos antes de sair batendo a porta. Beatriz, ainda soluçando, foi amparada por Clarice.

Bia caminhou até Ronaldo antes de sair. Ela tocou levemente o braço dele, sentindo a tensão nos músculos do rapaz.

— Você está bem? — perguntou ela.

Ronaldo deu um sorriso amargo, olhando para a própria mão.

— Eu deveria ter feito isso anos atrás. Talvez assim ele tivesse crescido.

— Obrigada — sussurrou Bia, antes de seguir a mãe e a irmã para fora da agência.

Enquanto as luzes da Hi-Fi se apagavam, Ronaldo ficou sozinho na penumbra. O segredo não era mais apenas dele e de Bia. Agora era uma teia complexa que envolvia duas irmãs grávidas, dois irmãos em guerra e uma sociedade que, ao amanhecer, não teria piedade de nenhum deles. Mas, pela primeira vez, Ronaldo não sentia que estava competindo com Beto. Ele sentia que, finalmente, tinha se tornado o homem que seu pai sempre exigiu, mas da maneira que ele nunca esperou.

O ano era 1958, e a tempestade estava apenas começando.

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