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Desejos de Veludo e Redenção

Cinco meses haviam se passado desde que o mundo de Bia Alencar e Ronaldo Sobral fora virado do avesso por um exame de sangue e um escândalo iminente. O Rio de Janeiro de 1958 continuava vibrante, com o Bossa Nova ecoando pelos apartamentos da Zona Sul, mas para Bia, o ritmo da vida agora era ditado pelos chutes suaves em seu ventre e pelas mudanças drásticas em seu corpo de boneca de porcelana.

A barriga, que antes ela tentava esconder com cintas apertadas e truques de costura, agora era uma curva orgulhosa sob seus vestidos de maternidade feitos sob medida, em tons pastel e tecidos nobres. Bia, no entanto, não se tornara a gestante discreta e recatada que a sociedade carioca esperava. Pelo contrário: a gravidez parecia ter aflorado nela uma natureza ainda mais voluntariosa, mesclada a uma sensualidade nova e desconcertante que deixava Ronaldo constantemente sem fôlego.

Naquela tarde de sábado, o sol dourava a sala dos Alencar. Bia estava reclinada em uma chaise-longue, usando um robe de seda champagne que se abria levemente a cada movimento. Ronaldo estava sentado ao lado dela, tentando ler alguns relatórios da Hi-Fi, mas sua concentração era nula.

— Ronaldo, você não está me dando atenção — queixou-se Bia, fazendo um biquinho dramático que ele conhecia tão bem. — Eu estou aqui, carregando o peso de um herdeiro Sobral, e você está preocupado com anúncios de sabonete.

Ronaldo suspirou, fechando a pasta de couro. Ele olhou para Bia e sentiu aquele aperto familiar no peito. Ele a amava, de um jeito torto e intenso, mas a fase "manhosa" da noiva — pois o casamento já fora arranjado às pressas, sob o pretexto de um "noivado antigo e apaixonado" — o deixava em um estado de alerta constante.

— Eu estou ouvindo, Bia. Só preciso terminar isso para que possamos ir à casa da Celeste mais tarde — disse ele, tentando manter o tom profissional, embora seus olhos traíssem sua admiração.

Bia inclinou-se para frente, a seda do robe deslizando pelos ombros. Ela pegou a mão de Ronaldo e a colocou sobre o próprio peito, logo acima da curva da barriga.

— Sinta como meu coração está acelerado — disse ela, a voz subitamente baixa e rouca. — E veja... as costureiras tiveram que refazer todos os meus corpetes pela terceira vez este mês. Olhe, Ronaldo.

Ela desamarrou um pouco mais o laço do robe, revelando o decote da camisola de renda. A pele estava viçosa, e o volume dos seios, agora muito mais fartos devido à preparação para a amamentação, era evidente. Para uma moça dos anos 50, aquela exibição era quase escandalosa, mesmo entre quatro paredes.

— Bia... — Ronaldo engoliu em seco, sentindo o rosto esquentar. — Você não deveria... quer dizer, alguém pode entrar.

— Deixe que entrem — retrucou ela, com uma ousadia que a Bia de seis meses atrás jamais teria. — É o leite, sabia? O médico disse que meu corpo está se preparando. Você não acha bonito? Ou prefere as modelos magricelas que o Beto costumava fotografar?

Ronaldo sentiu o ciúme e o desejo se misturarem. Ele deslizou os dedos pela pele quente de Bia, incapaz de resistir.

— Eu acho você a mulher mais deslumbrante que já vi — confessou ele, a voz falha. — Mas você está ficando impossível, Beatriz Alencar.

— É o seu filho que me deixa assim — ela riu, uma risada cristalina, e se aninhou nos braços dele, exigindo o carinho que achava que merecia por direito divino.

***

Enquanto na mansão Alencar o clima era de sedução e manha, em um pequeno café mais afastado do burburinho da elite, o clima era de reconciliação.

Beto Sobral estava sentado à frente de Beatriz. Ele parecia ter envelhecido cinco anos em cinco meses. A arrogância que antes definia seu andar fora substituída por uma postura mais humilde. Beatriz, também com cinco meses de gestação, exibia uma serenidade que contrastava com a angústia de Beto.

— Eu fui um canalha, Beatriz — começou Beto, as mãos tremendo levemente sobre a mesa. — Não há outra palavra. Eu olhei para você, a mulher que sempre esteve ao meu lado, e só consegui ver o meu próprio medo.

Beatriz olhou para ele, os olhos calmos, mas ainda guardando a cicatriz daquela noite na agência.

— Você me chamou de ardilosa, Beto. Você disse que eu tinha prendido você — relembrou ela, sem rancor, mas com a firmeza de quem não esqueceria facilmente.

— Eu sei. E cada noite, desde então, eu me arrependo de ter deixado aquele soco do Ronaldo ser a única coisa que me fez calar a boca — Beto inclinou-se para frente, buscando o olhar dela. — Eu vi o Ronaldo mudar. Eu vi como ele, que eu sempre chamei de careta, assumiu a Bia e o bebê com uma coragem que eu não tive. Eu tive inveja do meu próprio irmão, Beatriz. Inveja da coragem dele de ser homem.

Beatriz suspirou, tocando a própria barriga.

— O bebê chuta agora, sabia? — disse ela, mudando o tom. — Ele não sabe quem é o pai dele ou o que o pai disse naquela noite. Ele só sente o que eu sinto. E, por algum motivo que eu ainda estou tentando entender, eu ainda sinto que você faz falta.

Beto sentiu uma lágrima escapar. Ele estendeu a mão, esperando que ela a aceitasse.

— Me deixe voltar, Beatriz. Não pelo que a sociedade exige, mas porque eu não quero ser o tipo de homem que foge quando a vida fica real. Eu quero aprender a ser pai. Eu quero aprender a ser o homem que você merece.

Beatriz hesitou, mas a sinceridade nos olhos de Beto era algo novo, despido de sua habitual necessidade de ser o centro das atenções. Ela colocou sua mão sobre a dele.

— Vai ser difícil, Beto. Meu pai ainda quer quebrar as suas pernas e o seu pai mal olha na sua cara.

— Eu não me importo — afirmou Beto, com uma determinação que finalmente fazia jus ao sobrenome Sobral. — Se o Ronaldo conseguiu enfrentar o mundo pela Bia, eu vou enfrentar o que for preciso por você e por esse filho.

***

Mais tarde, as duas famílias se reuniram na casa de Celeste para um jantar informal. Celeste, já com seu bebê nos braços, observava a dinâmica curiosa que se formara.

Bia chegou pendurada no braço de Ronaldo, usando um vestido de veludo azul-marinho que realçava cada curva de sua nova silhueta. Ela agia como se fosse a rainha do recinto, exigindo que Ronaldo lhe trouxasse almofadas, água com gás e que verificasse a temperatura do ambiente a cada dez minutos.

— Ronaldo, querido, o bebê está pressionando minha lombar — disse ela, fazendo uma careta charmosa enquanto se sentava. — Massageie aqui, sim?

Ronaldo, o mauricinho conservador que antes se preocupava com o vinco de suas calças, ajoelhou-se ao lado dela sem hesitar, iniciando uma massagem suave sob o olhar surpreso de todos.

— Está melhor assim, Bia? — perguntou ele, a voz cheia de uma ternura que ele não fazia mais questão de esconder.

— Um pouco mais para a esquerda... isso — ela suspirou, fechando os olhos. — Você é tão bom para mim, Ronaldo. Às vezes eu acho que você gosta mais dessa barriga do que de mim.

— Não diga bobagens — sussurrou ele, aproximando-se do ouvido dela. — Mas confesso que estou ansioso para ver você de volta naqueles vestidos de baile... embora essa sua fase "abundante" tenha seus encantos.

Bia abriu um olho e deu um tapinha leve no ombro dele, mas com um sorriso malicioso nos lábios.

— Você é um libertino disfarçado de bom moço, Ronaldo Sobral. O que diriam no clube se soubessem das coisas que você me diz no escuro?

— Diriam que sou o homem mais sortudo do Rio — respondeu ele, beijando a mão dela.

Do outro lado da sala, Beto e Beatriz observavam o casal. Havia uma paz frágil sendo construída ali. Beto aproximou-se de Ronaldo, estendendo a mão. O clima entre os irmãos ainda era tenso, mas o respeito mútuo começava a brotar das cinzas daquela briga na agência.

— Fico feliz que vocês estejam bem — disse Beto, sincero.

Ronaldo levantou-se, apertando a mão do irmão.

— Estamos tentando, Beto. Cada dia é um desafio. Mas a Bia... bem, ela não facilita as coisas com essas manhas todas.

— Eu ouvi isso! — exclamou Bia, ajeitando o cabelo perfeitamente laqueado. — E não são manhas, são necessidades biológicas! Não é, Beatriz?

Beatriz riu, aproximando-se da irmã.

— Sim, Bia. Necessidades biológicas muito convenientes, eu diria.

As duas irmãs se abraçaram, unidas por um vínculo que ia além do sangue, agora selado pela experiência compartilhada da maternidade em uma época tão restritiva.

Enquanto o jantar era servido, o segredo que antes ameaçava destruí-los parecia ter se transformado na cola que mantinha aquelas vidas unidas. O escândalo ainda pairava como uma nuvem distante no horizonte da sociedade carioca, mas dentro daquela casa, entre as risadas de Bia, a dedicação de Ronaldo e a busca por perdão de Beto, o ano de 1958 prometia não apenas o nascimento de novas vidas, mas a transformação definitiva de todos eles.

Bia olhou para o reflexo de Ronaldo no espelho da sala e sorriu. Ela sabia que tinha o mundo — e o coração dele — na palma de suas mãos enluvadas. E, para ela, isso era mais do que suficiente para enfrentar qualquer convenção social.

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