Voltar ao resumo

D

O Vento que Sopra Contra a Vidraça

O céu do Rio de Janeiro, que horas antes ostentava um azul límpido e cruel, transformara-se em um manto de chumbo carregado. A chuva não caiu em gotas, mas em cortinas violentas que fustigavam as janelas da agência Hi-Fi, abafando o som do trânsito da Avenida Rio Branco. Dentro do escritório, o ar estava denso, não apenas pela umidade, mas pela eletricidade estática que parecia emanar das três pessoas confinadas ali.

Bia Alencar estava sentada em uma das poltronas de couro da recepção, folheando uma revista *Manchete* com uma agressividade que ameaçava rasgar as páginas. Ela odiava estar ali. Odiava a chuva que arruinara seu penteado e, acima de tudo, odiava o fato de que Ronaldo Sobral estava a apenas cinco metros de distância, agindo como se ela fosse um móvel particularmente incômodo da sala.

Ronaldo estava debruçado sobre a mesa de som, conferindo alguns anúncios de rádio, enquanto Camila permanecia ao seu lado, observando-o com aquele olhar de admiração mansa que fazia o estômago de Bia revirar.

— É uma tempestade e tanto — comentou Camila, sua voz suave mal superando o barulho do trovão que ecoou lá fora. Ela estremeceu levemente, abraçando os próprios ombros. — O vento está fazendo a temperatura cair drasticamente, não acha, Ronaldo?

Bia bufou, alto o suficiente para ser ouvida.

— É o Rio de Janeiro, Camila. Não estamos no Ártico. É apenas um pouco de água.

Ronaldo finalmente ergueu os olhos. Seu olhar passou por Bia — frio, impessoal, como se estivesse olhando para um estranho na fila do pão — e pousou em Camila com uma suavidade que Bia sentiu como uma bofetada.

— Você está tremendo, Camila — disse ele, a voz baixa e aveludada. — O ar-condicionado central da agência é impiedoso quando o sol se põe, e com essa chuva, a umidade só piora as coisas.

— Estou bem, de verdade — mentiu Camila, embora seus lábios estivessem levemente arroxeados.

Sem dizer uma palavra, Ronaldo começou a desabotoar os punhos de sua camisa de linho azul-claro. Bia, que até então fingia ler sobre as novas tendências de moda em Paris, sentiu o coração falhar uma batida. Seus olhos, contra sua vontade, fixaram-se nos dedos longos e ágeis dele.

— Tome — disse Ronaldo.

Ele deslizou a camisa pelos ombros, revelando a camiseta de algodão branca, fina e quase transparente, que usava por baixo. A peça aderia ao seu peito largo, delineando a musculatura firme que Bia, em seus momentos mais secretos e pecaminosos, já havia imaginado tocar. O contraste da pele bronzeada sob o tecido branco e a visão de seus braços fortes agora expostos fizeram a garganta de Bia secar instantaneamente.

— Não posso aceitar, Ronaldo, você vai ficar com frio — protestou Camila, embora aceitasse a peça que ele estendia.

— Eu insisto. Sou mais resistente que você — respondeu ele, exibindo um meio sorriso que não chegava a ser o deboche que costumava dedicar a Bia, mas sim algo genuinamente protetor.

Bia sentiu uma onda de calor subir pelo pescoço. Ela apertou a revista com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. *Que ridículo*, pensou ela, lutando para manter a respiração compassada. *Ele está fazendo isso de propósito. Ele sabe que eu estou olhando. Ele quer me torturar.*

Mas Ronaldo não olhava para ela. Ele voltou a se concentrar nos papéis, agora apenas de camiseta, o que o deixava com um ar muito menos "mauricinho" e muito mais perigosamente másculo. A luz amarelada da agência criava sombras nos músculos de suas costas enquanto ele se movia. Bia sentiu um formigamento incômodo no baixo ventre. Ela queria desviar o olhar, queria fazer algum comentário ácido sobre a falta de decoro dele, mas as palavras pareciam presas em sua garganta.

— Bia? — A voz de Ronaldo a sobressaltou.

Ela ergueu o queixo, recuperando a máscara de indiferença.

— O que foi?

— Você está em silêncio há dez minutos. Isso é um recorde mundial — disse ele, voltando a usar aquele tom gélido e educado que a deixava desconcertada. — Está com frio também?

— Eu? — Ela soltou uma risada afetada. — Claro que não. Diferente de certas pessoas, eu escolhi um vestido de tecido adequado para o clima instável. E, francamente, Ronaldo, ficar sem camisa em um ambiente de trabalho... onde está o seu tão falado decoro?

Ronaldo parou o que estava fazendo e caminhou lentamente em direção a ela. Bia sentiu o impulso de recuar, mas permaneceu imóvel, sustentando o olhar. Ele parou a poucos centímetros, e o cheiro de sabonete caro e tabaco suave que emanava dele a atingiu como um entorpecente.

— O decoro perde a importância diante da necessidade de alguém — disse ele, a voz caindo para um tom quase inaudível para Camila, que estava do outro lado da sala. — E você, Bia, está pálida. Suas mãos estão tremendo.

— É raiva, não frio — mentiu ela, embora sentisse o arrepio percorrer sua espinha.

Ronaldo estreitou os olhos. Por um breve segundo, a máscara de frieza dele rachou. Ele olhou para os lábios dela, depois para o decote do vestido floral, e Bia teve a certeza de que ele ia dizer algo, ou talvez fazer algo, que mudaria tudo. A preocupação dele era evidente, mascarada por uma irritação que beirava o desespero. Ele odiava o fato de ela estar ali, vulnerável, e ele odiava ainda mais o fato de que não conseguia simplesmente ignorá-la, por mais que tentasse.

— A luz vai acabar — previu ele, desviando o olhar abruptamente. — A fiação desta rua é antiga. Se os transformadores estourarem, ficaremos no escuro.

— Não seja pessimista — rebateu Bia, tentando ignorar a visão do peito dele subindo e descendo a poucos centímetros de seu rosto. — A Light deve estar trabalhando.

Como se o destino estivesse ouvindo e decidisse zombar dela, um estrondo massivo ecoou do lado de fora, seguido por um clarão azulado. No segundo seguinte, a agência Hi-Fi foi mergulhada em uma escuridão absoluta.

Camila soltou um pequeno grito de susto.

— Ronaldo!

— Estou aqui, Camila. Não se mova — ordenou ele.

Bia sentiu o pânico começar a subir. Ela odiava o escuro. O escuro trazia à tona todas as suas inseguranças, a sensação de não ter controle sobre nada. Ela sentiu uma mão forte e quente envolver seu pulso.

— Calma — sussurrou a voz de Ronaldo, agora bem próxima ao seu ouvido. — Eu estou aqui.

— Eu não estou com medo — sussurrou ela de volta, embora sua voz tivesse falhado.

— Eu sei que não. Você é Bia Alencar, a mulher que não teme nada, nem mesmo o ridículo de usar um biquíni menor que um lenço de bolso — provocou ele, mas não havia malícia em sua voz, apenas uma tentativa estranha de acalmá-la através da familiaridade da briga.

Ele a puxou gentilmente, guiando-a no escuro.

— Camila, você consegue chegar até o sofá? — perguntou Ronaldo em voz alta.

— Acho que sim... estou tateando a parede — respondeu a outra moça, a voz trêmula.

Ronaldo conduziu Bia até o grande sofá de couro onde Camila já se acomodava. Ele se sentou entre as duas, uma barreira física e protetora. Bia podia sentir o calor que emanava do corpo dele, a pele de seu braço roçando no dela. Era uma tortura deliciosa. Ela queria se afastar, queria manter sua dignidade, mas o escuro e o som da chuva torrencial criavam uma bolha de intimidade da qual ela não conseguia escapar.

— Vai demorar? — perguntou Camila, a voz abafada pela camisa de Ronaldo que ela ainda usava.

— Com essa tempestade? Provavelmente a noite toda — respondeu Ronaldo.

Houve um longo silêncio, preenchido apenas pelo ritmo da chuva. Bia estava dolorosamente consciente de cada movimento de Ronaldo. Ela o sentiu se inclinar levemente para o lado dela, o ombro dele pressionando o seu.

— Você está gelada, Bia — disse ele, a voz baixa demais para Camila ouvir.

— Não comece — murmurou ela, embora estivesse lutando contra o desejo de se aninhar naquele calor.

— Você é teimosa demais para o seu próprio bem.

— E você é arrogante demais para o seu.

Ronaldo soltou um suspiro pesado, um som que carregava meses de frustração e desejo reprimido. No escuro, sem os olhares da sociedade, sem a necessidade de manter as aparências de rivalidade, a tensão entre eles tornou-se quase insuportável.

— Por que você faz isso, Bia? — perguntou ele, a voz agora um fio de confissão. — Por que precisa sempre desafiar tudo e todos? Aquele biquíni na praia... você sabia o que aquilo causaria.

Bia sentiu um nó na garganta.

— Eu queria que você olhasse para mim, Ronaldo. Não com esse olhar de gelo que você tem usado. Eu queria que você... — Ela parou, percebendo que estava prestes a admitir demais.

— Que eu o quê? Que eu perdesse o controle? — A mão dele, que ainda segurava o pulso dela, subiu lentamente pelo seu braço, deixando uma trilha de fogo em sua pele. — Você conseguiu. Eu quase avancei naqueles sujeitos que estavam devorando você com os olhos. E eu quase avancei em você, para te tirar daquela areia e te cobrir com qualquer coisa que te escondesse do mundo.

Bia prendeu a respiração. O coração dela batia tão forte que ela tinha certeza de que ele podia sentir através do contato de seus corpos.

— Mas você preferiu a Camila — sibilou ela, a mágoa transparecendo apesar de seus esforços.

— A Camila é... fácil — admitiu ele, e Bia pôde sentir a honestidade brutal em suas palavras. — Com ela, a vida é simples. Não há jogos, não há ofensas, não há essa necessidade constante de provar quem é mais forte. Mas com você, Bia... com você é uma guerra. E eu estou exausto de lutar.

— Então por que não se rende? — desafiou ela, sua voz soando mais como um convite do que como uma provocação.

Ronaldo não respondeu com palavras. No escuro, ele se moveu, e Bia sentiu a pressão de seu corpo contra o dela aumentar. A mão dele subiu até o seu rosto, os dedos traçando a linha de sua mandíbula com uma delicadeza que a fez fechar os olhos.

— Ronaldo? Está tudo bem? — A voz de Camila veio do outro lado, quebrando o feitiço.

Ronaldo afastou a mão imediatamente, mas não se moveu. Ele permaneceu ali, perto o suficiente para que Bia sentisse sua respiração, mas longe o suficiente para que a barreira de gelo fosse reconstruída.

— Sim, Camila. Tudo bem. Só estou tentando garantir que a Bia não caia do sofá no escuro — respondeu ele, a voz voltando ao tom educado e distante.

Bia sentiu uma pontada de raiva e desejo misturados. Ela queria gritar, queria bater nele, e queria, acima de tudo, que ele a beijasse até que a chuva parasse.

— Eu sei cuidar de mim mesma, Ronaldo — disse ela, a voz carregada de veneno. — Não preciso que você seja meu guarda-costas. Especialmente quando está tão ocupado sendo o de outra pessoa.

Ronaldo soltou uma risada curta e seca.

— É claro que não precisa. Você nunca precisa de nada, não é, Bia?

O restante da noite passou em um silêncio tenso. Camila acabou pegando no sono, encostada no braço do sofá, enquanto Ronaldo e Bia permaneciam acordados, dois polos magnéticos lutando contra a atração que ameaçava destruí-los.

Sempre que um relâmpago iluminava a sala por um milésimo de segundo, Bia via a silhueta de Ronaldo. Ele estava sentado de forma rígida, a camiseta branca destacando-se na penumbra, os braços cruzados sobre o peito. Ele parecia um sentinela, um protetor que odiava sua função. E Bia, observando-o através dos cílios semicerrados, sentia uma fome que nenhum jantar elegante no Country Club poderia satisfazer.

Ela o odiava por ser tão correto. Odiava-o por dar sua camisa a Camila. Mas, enquanto o via ali, vulnerável em sua camiseta branca, Bia percebeu que a frieza dele não era indiferença. Era uma armadura. E ela estava determinada a encontrar a rachadura por onde pudesse entrar e incendiar tudo.

Quando a primeira luz do amanhecer começou a filtrar-se pelas vidraças, revelando o caos da rua inundada e o brilho da água nas calçadas, a eletricidade finalmente retornou. As luzes da agência piscaram e se acenderam, ofuscando-os.

Camila despertou, piscando, ainda envolta na camisa de Ronaldo.

— Oh, a luz voltou — disse ela, bocejando. — Finalmente podemos ir para casa.

Ronaldo levantou-se imediatamente. Ele pegou sua camisa de volta das mãos de Camila com um aceno cortês e a vestiu, abotoando-a rapidamente, como se estivesse escondendo uma arma. Ele não olhou para Bia enquanto fazia isso.

— Vou chamar um táxi para vocês duas — disse ele, a voz prática e desprovida de qualquer emoção da noite anterior.

Bia levantou-se, ajeitando o vestido com movimentos precisos e elegantes. Ela recuperou sua bolsa, sua postura e sua arrogância.

— Não se incomode, Ronaldo. Meu motorista já deve estar lá fora esperando a água baixar — disse ela, caminhando em direção à porta com a cabeça erguida.

Ao passar por ele, ela parou por um segundo. A proximidade era a mesma da noite, mas a luz do dia trazia de volta todas as regras.

— Obrigada pela... hospitalidade — disse ela, com um sorriso de lado que era pura provocação. — E Ronaldo? Tente não pegar um resfriado. Seria uma pena se você perdesse a voz e não pudesse mais dar suas lições de moral.

Ronaldo sustentou o olhar dela. Por um momento, Bia viu o fogo que ele tentava esconder.

— Eu vou ficar bem, Bia. Preocupe-se com você. O sol vai sair forte hoje, e sua pele é sensível demais para tanta exposição.

Ela saiu da agência sentindo o impacto daquelas palavras. Ele não estava falando do sol. Estava falando da noite, do escuro e da forma como ela quase se entregara.

Enquanto entrava no carro, Bia olhou para trás e viu Ronaldo parado à porta da agência, observando-a partir. Ele estava novamente impecável, o mauricinho perfeito da alta sociedade carioca. Mas ela sabia a verdade. Ela tinha visto o homem sob a camisa de linho, o homem que sentia ciúmes, que sentia desejo e que estava tão perdido naquele jogo quanto ela.

A guerra estava longe de terminar. Na verdade, Bia Alencar tinha a nítida sensação de que, naquela noite de chuva, a primeira grande batalha havia sido travada, e não havia vencedores, apenas dois feridos que mal podiam esperar pelo próximo confronto.

O Rio de Janeiro de 1958 continuava lindo, mas para Bia e Ronaldo, o cenário agora era apenas o pano de fundo para um escândalo que estava prestes a explodir, mudando suas vidas e suas famílias para sempre. Mas, por enquanto, havia apenas o eco do trovão e a lembrança do calor de uma pele contra a outra no escuro de uma agência de rádio.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.