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O Orvalho da Serra e o Silêncio de Veludo
A subida para Petrópolis sempre fora um dos trajetos favoritos de Bia Alencar. O ar tornava-se mais rarefeito, o verde da mata atlântica parecia abraçar a estrada sinuosa e a temperatura caía a cada curva, exigindo casacos de lã e echarpes de seda. No entanto, naquele fim de semana de aniversário de Celeste, o cenário idílico parecia apenas um pano de fundo para o seu próprio desconforto.
Bia sentia-se como se tivesse sido atropelada por um bonde. Suas costas doíam, seu ventre parecia abrigar um pequeno exército em combate e, para piorar, uma melancolia inexplicável havia se instalado em seu peito. A menstruação, que sempre fora um incômodo, desta vez trouxera consigo uma sensibilidade que a deixava à beira das lágrimas por qualquer motivo — ou por motivo nenhum.
Na casa de campo dos Sobral, uma construção colonial imponente cercada por jardins de hortênsias, o clima era de festa. Celeste, radiante em um conjunto de tricô rosa, recebia os convidados com a alegria habitual. Ronaldo, como sempre, era o anfitrião perfeito, circulando com elegância, embora mantivesse aquela distância polida e gélida em relação a Bia que vinha cultivando desde a noite da tempestade na agência.
Mas algo estava diferente.
Bia, que normalmente seria a primeira a lançar uma farpa venenosa ou a ostentar um novo vestido para chamar a atenção de Ronaldo, estava estranhamente quieta. Ela se acomodara em uma poltrona perto da lareira, enrolada em uma manta de cashmere, com um prato de biscoitos amanteigados ao lado.
— Bia, querida, você mal tocou no seu drinque — comentou Celeste, aproximando-se da amiga. — Está se sentindo bem?
— Só um pouco cansada, Celeste. A viagem me deixou exausta — mentiu Bia, com a voz mais mansa do que o normal. Ela sentiu os olhos marejarem só de olhar para a expressão preocupada da amiga. — E esses biscoitos estão tão bons... acho que já comi uns dez.
— Coma quantos quiser! — Celeste riu, acariciando o ombro de Bia. — Ronaldo, venha cá. Veja se consegue animar a Bia, ela parece um passarinho assustado hoje.
Ronaldo, que conversava com Beto e Beatriz perto da janela, virou-se lentamente. Ele esperava encontrar o olhar desafiador de Bia, a sobrancelha arqueada e o sorriso irônico. Em vez disso, encontrou uma jovem de olhos grandes e úmidos, que o olhou por apenas um segundo antes de voltar a atenção para o biscoito em sua mão, parecendo genuinamente triste.
Ele franziu o cenho. Aquilo não era o comportamento padrão de Bia Alencar. Onde estava a audácia? Onde estava a provocação sobre Camila, que, aliás, não pudera viajar por conta de um resfriado?
Ronaldo caminhou até ela, mantendo as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria.
— A serra não parece estar fazendo bem ao seu humor, Bia — disse ele, tentando manter o tom frio, mas falhando miseravelmente diante da aparência frágil dela.
Bia não respondeu com um ataque. Ela apenas suspirou, um som pequeno e sofrido.
— Talvez você tenha razão, Ronaldo. Talvez eu devesse ter ficado no Rio.
Ronaldo ficou sem reação. Ele estava preparado para uma guerra, não para uma rendição. Ele se sentou na beirada da mesa de centro, ficando de frente para ela.
— O que você tem? Está doente? — perguntou ele, a voz baixando um oitava, perdendo o rigor.
— Não é nada. Só... — Bia sentiu o lábio inferior tremer. — Só não quero brigar hoje, está bem? Não tenho forças para isso.
Ela pegou mais um biscoito e deu uma mordida pequena, parecendo concentrada demais na comida. Ronaldo a observou em silêncio por alguns instantes. Ele notou a palidez incomum e o jeito como ela se encolhia na manta. O instinto de proteção, que ele tentara sufocar nas últimas semanas, rugiu dentro dele com uma força renovada.
— Você está comendo como se não houvesse amanhã — observou ele, com um leve sorriso de canto, tentando uma aproximação menos áspera.
— Estou com fome — respondeu ela, dengosa. — Muita fome. E esses biscoitos têm gosto de... de infância.
De repente, uma lágrima solitária escapou e rolou pelo rosto de Bia. Ela a limpou rapidamente com as costas da mão, mas Ronaldo viu.
— Bia... — Ele esticou a mão, mas hesitou antes de tocá-la. — Por que está chorando?
— Eu já disse que não é nada! — exclamou ela, a voz subindo um tom, mas sem a agressividade habitual. Era apenas puro drama. — É só que o biscoito acabou e eu me senti triste por ele ter acabado. É ridículo, eu sei! Pode rir, Ronaldo Sobral. Vá em frente.
Ronaldo não riu. Pelo contrário, sentiu um aperto no peito que o deixou desconcertado. Ele se levantou, foi até a cozinha e voltou minutos depois com uma bandeja contendo uma xícara de chá fumegante e uma nova travessa de doces que a cozinheira havia acabado de tirar do forno.
— Aqui — disse ele, colocando a bandeja ao lado dela. — Chá de erva-doce. Minha mãe sempre dizia que acalma o coração e... outras coisas.
Bia olhou para o chá e depois para ele. Seus olhos brilharam.
— Você trouxe para mim?
— Não havia mais ninguém chorando por causa de biscoitos na sala — respondeu ele, recuperando um pouco do seu sarcasmo, mas o olhar era suave.
Bia tomou um gole do chá e pareceu relaxar visivelmente.
— Obrigada, Ronaldo. Você está sendo... muito gentil. É estranho.
— É uma trégua, Bia. Apenas por hoje — disse ele, embora soubesse que era mentira. Ele não queria uma trégua; ele queria entender por que ela parecia tão pequena e doce naquela poltrona.
Mais tarde, após o jantar — onde Bia repetiu o prato de polenta cremosa duas vezes e chorou discretamente quando Celeste abriu os presentes —, os convidados começaram a se recolher. Beto e Beatriz haviam saído para uma caminhada sob o luar, e Celeste subira para descansar.
Bia permanecia na sala, sentindo as cólicas aumentarem. Ela tentou se levantar, mas uma pontada aguda a fez soltar um gemido baixo e se sentar novamente, abraçando a própria barriga.
Ronaldo, que estava apagando as luzes da entrada, correu para o seu lado.
— Bia? O que foi? Onde dói?
— Minha barriga... — sussurrou ela, escondendo o rosto nas mãos. — Está doendo muito, Ronaldo.
Ele se ajoelhou à frente dela, o rosto transbordando preocupação.
— Vou chamar um médico. Pode ser a polenta, ou...
— Não é médico, seu bobo — interrompeu ela, com a voz abafada. — É coisa de mulher. Eu só preciso de uma bolsa de água quente e talvez de um abraço, mas você é frio demais para isso.
Ronaldo paralisou. A revelação da causa do mal-estar de Bia o fez sentir-se um tolo, mas também trouxe uma clareza imediata. O apetite voraz, o choro fácil, a falta de disposição para brigar... tudo fazia sentido. E a acusação dela de que ele era "frio demais" o atingiu mais do que qualquer insulto anterior.
— Espere aqui — ordenou ele.
Ele subiu as escadas dois degraus por vez. Voltou dez minutos depois com uma bolsa de água quente envolta em uma toalha macia e um cobertor mais grosso.
— Deite-se — disse ele, ajudando-a a se acomodar no sofá longo.
Ele colocou a bolsa de água quente sobre o ventre dela com cuidado cirúrgico. Bia soltou um suspiro de alívio quando o calor começou a penetrar o tecido do seu vestido.
— Melhor? — perguntou ele.
— Sim... muito melhor.
Ronaldo sentou-se no chão, ao lado do sofá, apoiando as costas no estofado. O silêncio da serra era absoluto, quebrado apenas pelo estalar da lenha na lareira que se apagava lentamente.
— Você não é frio, Ronaldo — disse Bia, a voz sonolenta e mansa. — Você só finge muito bem.
— Eu não finjo, Bia. Eu apenas tento manter a sanidade perto de você.
— E por que a sua sanidade correria perigo? — Ela estendeu a mão para fora das cobertas e começou a brincar com o colarinho da camisa dele, o mesmo colarinho que ela observara na agência dias antes.
Ronaldo fechou os olhos, sentindo o toque dos dedos dela contra o seu pescoço.
— Porque você é um furacão, Bia Alencar. E eu sou um homem que gosta de ordem. Mas, às vezes... às vezes eu acho que a ordem é muito sem graça.
Bia sorriu, um sorriso genuíno e doce, desprovido de qualquer artifício.
— Você foi muito bom para mim hoje. Mesmo eu estando... impossível.
— Você não estava impossível. Estava apenas... você. Sem as defesas.
Ele se virou para ela, ficando com o rosto a poucos centímetros do dela. A luz fraca das brasas refletia-se nos olhos de Bia, que pareciam imensos e cheios de uma vulnerabilidade que o desarmava completamente.
— Eu senti falta disso — confessou ele, a voz rouca. — De você não tentar me expulsar da sala com um olhar.
— E eu senti falta de você me notar — admitiu ela, a voz quase um sussurro. — Mesmo que fosse para brigar. O gelo que você me deu... doeu mais que essa cólica.
Ronaldo não resistiu. Ele levou a mão ao rosto dela, afastando uma mecha de cabelo que caíra sobre seus olhos. O polegar dele acariciou a maçã do rosto de Bia com uma ternura que ele nunca se permitira demonstrar.
— Eu não queria te machucar, Bia. Eu só queria me proteger.
— De quê?
— De você — respondeu ele, antes de se inclinar e beijar a testa dela com reverência. — Agora durma. Eu vou ficar aqui até você pegar no sono.
Bia fechou os olhos, sentindo-se segura de uma forma que nunca experimentara antes. O ciúme de Camila, a raiva da indiferença de Ronaldo, a insegurança sobre sua própria imagem... tudo parecia ter se dissipado no ar frio da montanha.
Ronaldo permaneceu ali, vigiando o sono dela. Ele observava o ritmo calmo de sua respiração e a forma como ela se agarrava à manta que ele lhe trouxera. Naquele momento, em 1958, em uma casa de campo isolada do mundo, Ronaldo Sobral percebeu que a guerra que ele tanto temia já estava perdida. Ele não era mais o rival, nem o juiz, nem o protetor distante.
Ele estava perdidamente apaixonado pela mulher mais difícil, mimada e maravilhosa que já conhecera.
Quando a manhã chegou, trazendo o cheiro de café fresco e o canto dos pássaros serranos, a dinâmica entre os dois havia mudado silenciosamente. Não houve grandes declarações, nem promessas dramáticas. Mas, quando desceram para o café da manhã, Ronaldo puxou a cadeira para Bia com um olhar que fez o coração dela saltar, e ela, em vez de um comentário sarcástico, ofereceu a ele o seu melhor sorriso.
Beto, que observava tudo enquanto passava manteiga no pão, cutucou Beatriz com o cotovelo.
— Parece que o clima na serra limpou, não acha? — sussurrou ele.
Beatriz sorriu, observando o casal.
— Às vezes, Beto, é preciso uma tempestade para que a gente aprecie a calmaria. E parece que a Bia e o Ronaldo finalmente encontraram o abrigo um no outro.
Eles ainda não sabiam que, em poucos meses, a vida lhes traria um desafio muito maior do que cólicas ou ciúmes. A gravidez inesperada, o julgamento da sociedade e a necessidade de uma aliança real bateriam à porta. Mas, naquela manhã de sol pálido em Petrópolis, eles eram apenas dois jovens descobrindo que, por trás de toda a rivalidade, existia um vínculo que nem o tempo, nem as convenções, seriam capazes de quebrar.
Bia Alencar tomou seu café, sentindo-se radiante. Ronaldo Sobral olhou para ela e, pela primeira vez, não viu uma rival. Viu o seu futuro. E, embora o futuro fosse incerto e cheio de sombras, ele sabia que, enquanto Bia estivesse ao seu lado — com seus biquínis ousados, seu apetite voraz e seu coração de porcelana —, ele estaria pronto para enfrentar qualquer coisa.