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O Crepúsculo dos Deuses e o Pecado das Sombras
O escritório da mansão Sobral exalava o cheiro pesado de livros antigos, tabaco de cachimbo e a cera de abelha usada no assoalho de jacarandá. Era um santuário de sobriedade, o lugar onde o patriarca da família selava destinos e discutia o futuro da agência Hi-Fi. Mas, naquela tarde de domingo, enquanto o resto da casa mergulhava no silêncio sonolento da sesta, o escritório tornara-se o cenário de uma rendição absoluta.
Bia Alencar não era mais a menina de vestidos engomados e poses calculadas. Ela estava sentada no colo de Ronaldo, sobre a imensa cadeira de couro giratória, com as pernas envoltas na cintura dele e as mãos enterradas nos cabelos castanhos que ela tanto fingira desprezar. O vestido floral estava levemente desalinhado, e o batom coral, antes impecável, agora manchava a mandíbula de Ronaldo em um mapa de desejo evidente.
Ronaldo a segurava pela cintura com uma urgência que desafiava todo o seu conservadorismo. Ele a beijava como se tentasse extrair dela cada segredo, cada provocação, cada grama daquele orgulho que o atormentara por anos. A respiração de Bia era um som entrecortado, um murmúrio de prazer que ecoava pelas estantes de madeira escura.
— Você é insuportável — murmurou Ronaldo entre dois beijos, a voz rouca, os lábios roçando o pescoço dela.
— E você é um hipócrita, Ronaldo Sobral — respondeu Bia, arqueando as costas enquanto sentia as mãos dele apertarem sua pele. — Disse que não me procuraria mais, e agora olha onde estamos.
— Eu nunca disse que não te queria. Eu disse que não ia mais correr atrás dos seus caprichos.
— Pois parece que agora você está bem parado, e eu estou exatamente onde quero estar.
Ela o puxou para outro beijo, mais profundo e faminto. A cadeira Rangeu sob o peso dos dois, um som que se perdeu no calor do momento. Bia sentia-se poderosa. Ali, naquele refúgio de homens sérios, ela tinha o herdeiro dos Sobral em suas mãos, desarmado, sem camisa de linho para protegê-lo, sem a frieza que ele usava como escudo.
A porta do escritório, pesada e imponente, não estava trancada. Foi um erro fatal de cálculo, nascido da urgência que os consumia desde que se cruzaram no corredor.
O som da maçaneta girando foi seguido por um riso leve.
— Eu te disse, Beatriz, o papai deixou o contrato da nova rádio aqui em cima da escrivaninha — a voz de Beto era clara e cheia de entusiasmo.
O tempo pareceu congelar. Bia e Ronaldo não tiveram tempo de se separar. Quando Beto e Beatriz entraram na sala, a cena que encontraram era digna dos filmes proibidos que passavam nas sessões de meia-noite da Cinelândia.
Beto estancou no lugar, os olhos arregalados, a boca aberta em um "O" perfeito de choque. Beatriz, ao seu lado, soltou um arquejo audível, levando a mão à boca enquanto o rosto subia em uma tonalidade de escarlate que competia com o batom de Bia.
Houve um silêncio mortal, quebrado apenas pelo tique-tique do relógio de pêndulo na parede.
— Mas o que... Ronaldo? — Beto finalmente conseguiu articular, a voz falhando. — Pelo amor de Deus, homem!
Bia, em um reflexo de puro pânico, tentou se levantar, mas acabou tropeçando nos próprios pés e caindo sentada novamente no colo de Ronaldo, o que só serviu para tornar a situação ainda mais comprometedora. Ela sentiu o rosto queimar, uma vergonha que nunca experimentara antes, nem mesmo em seus dramas mais exagerados.
Beatriz desviou o olhar imediatamente, fixando os olhos em uma estatueta de bronze sobre a lareira.
— Nós... nós sentimos muito. Não sabíamos que o escritório estava ocupado — gaguejou Beatriz, a voz trêmula de constrangimento.
Ronaldo, para surpresa de todos, foi o único que manteve a calma. Ele ajudou Bia a se levantar com firmeza, ajeitou a própria camisa — que estava aberta até o meio do peito — e encarou o irmão com uma sobrancelha arqueada, recuperando sua postura de superioridade em questão de segundos.
— Se sentissem muito, teriam batido na porta — disse Ronaldo, a voz fria e cortante, embora seus olhos ainda brilhassem com o resquício da paixão de momentos antes.
— Bater na porta? — Beto recuperou o fôlego, passando da surpresa para uma indignação quase cômica. — Ronaldo, você está no escritório do papai! Com a Bia Alencar! Em cima da cadeira dele! Se o velho entra aqui e pega vocês nessa... nessa configuração, ele teria um enfarto e o pai da Bia pediria a sua cabeça em uma bandeja de prata!
Bia tentava desesperadamente ajeitar o cabelo e descer a saia do vestido, mantendo a cabeça baixa.
— Foi um mal-entendido — murmurou Bia, a voz sumida.
— Um mal-entendido? — Beto riu, uma risada nervosa. — Bia, você estava praticamente fundida ao meu irmão. Eu vi coisas que vão levar anos de terapia para serem esquecidas. Vocês perderam o juízo? Estamos em 1958, não em um bordel da Lapa!
— Não exagere, Beto — retorquiu Ronaldo, cruzando os braços. — E abaixe o tom. Não queremos que a casa inteira saiba que você tem a imaginação tão fértil.
— Minha imaginação? — Beto deu um passo à frente, gesticulando freneticamente. — Eu estou falando de decoro! De segurança! Beatriz e eu estamos aqui tentando ser o casal perfeito, mantendo as aparências, e vocês dois, os "rivais", estão se pegando no santuário da família?
Beatriz, finalmente recuperando um pouco da voz, tocou o braço de Beto.
— Beto, por favor, deixe-os. Vamos embora.
— Não, Beatriz! — Beto estava empolgado. — Eu quero entender. Ronaldo, você passou semanas tratando a Bia como se ela fosse uma praga egípcia. E agora eu te encontro agindo como um marinheiro em terra firme? E você, Bia? Onde foi parar aquele seu desdém todo?
Bia ergueu o queixo, o orgulho começando a superar a vergonha. Ela olhou para Beto com um brilho de desafio.
— O que acontece entre eu e o Ronaldo não é da sua conta, Beto Sobral. E se estamos aqui, é porque... porque...
— Porque não conseguimos evitar — completou Ronaldo, surpreendendo a todos, inclusive a Bia. Ele deu um passo para o lado dela, colocando a mão protetoramente em seu ombro. — E francamente, Beto, pare de agir como um juiz de moral. Você e a Beatriz não são exatamente o exemplo de castidade quando pensam que ninguém está olhando.
Beto engasgou com a própria saliva. Beatriz ficou ainda mais vermelha, se é que isso era possível.
— Como você ousa? — exclamou Beto. — Beatriz e eu somos namorados oficiais! Temos planos, temos... temos respeito!
— Respeito que envolve sessões de amassos no jardim dos fundos depois do jantar? — provocou Ronaldo, com um sorriso de canto. — Eu vi vocês dois na semana passada, Beto. Atrás das roseiras. A Beatriz parecia bem menos "envergonhada" do que está agora.
— Ronaldo! — Beatriz exclamou, cobrindo o rosto com as mãos.
— Viu? — Ronaldo deu de ombros. — Estamos todos no mesmo barco, meu irmão. A única diferença é que eu prefiro o conforto do couro e o ar-condicionado.
Beto bufou, cruzando os braços, a indignação perdendo força diante da revelação de que fora descoberto em suas próprias indiscrições.
— Isso é diferente. A Bia é... é a Bia. E você é o Ronaldo "Certinho" Sobral. O escândalo seria dez vezes maior. O pai da Bia nunca aceitaria isso sem um anel no dedo dela e um contrato assinado.
Bia sentiu um calafrio ao ouvir a palavra "escândalo". Ela sabia que Beto tinha razão. A sociedade carioca não perdoava. Uma jovem de família tradicional ser pega naquela situação seria a sua ruína social. Ela olhou para Ronaldo, esperando ver um sinal de arrependimento ou medo.
Em vez disso, viu apenas determinação.
— Então é melhor você fechar essa boca grande, Beto — disse Ronaldo, a voz agora carregada de uma autoridade perigosa. — Pelo bem da Bia, e pelo seu próprio bem. Porque se você contar uma palavra disso para o papai, eu conto para a mamãe sobre o carro que você bateu e fingiu que foi o motorista.
Beto estreitou os olhos, a derrota clara em seu rosto.
— Você é um chantagista barato, Ronaldo.
— Sou um homem que protege o que é seu.
Bia sentiu o coração falhar uma batida. *O que é seu*. Ela nunca se sentira tão pertencente a alguém e, ao mesmo tempo, tão livre.
Beatriz, percebendo que a tensão não levaria a nada, puxou Beto pela mão em direção à porta.
— Vamos, Beto. Já causamos confusão demais. Bia... sinto muito pelo flagra. Vamos fingir que nada aconteceu.
— Obrigada, Beatriz — disse Bia, com um aceno de cabeça grato.
Beto ainda lançou um último olhar de desaprovação para o irmão antes de sair, resmungando algo sobre "a decadência dos valores morais".
Quando a porta se fechou novamente, o silêncio que se seguiu foi pesado, mas não mais carregado de desejo, e sim de uma realidade súbita e assustadora. Bia afastou-se de Ronaldo, caminhando até a janela e observando o jardim, onde Beto e Beatriz agora caminhavam apressados.
— Eles têm razão, Ronaldo — disse ela, a voz baixa. — Se tivesse sido o seu pai...
— Mas não foi — cortou ele, aproximando-se e parando logo atrás dela. — E se tivesse sido, eu teria enfrentado.
Bia virou-se para ele, os olhos cheios de dúvida.
— Teria? Você teria coragem de assumir isso? De enfrentar o escândalo?
Ronaldo tocou o rosto dela, o polegar acariciando o lábio que ele acabara de beijar.
— Bia, eu passei tempo demais tentando ser o filho perfeito, o profissional impecável, o homem que segue todas as regras. Mas, naquelas noites de chuva na agência e naquela tarde em Petrópolis, eu percebi que nenhuma dessas regras me faz sentir vivo como você faz.
— Mas a Camila... — começou ela.
— A Camila é o que o mundo espera de mim — interrompeu ele. — Você é o que eu espero de mim mesmo.
Bia sentiu as lágrimas arderem. Ela, a menina mimada que sempre conseguia o que queria através de caprichos, estava descobrindo que o que mais desejava não podia ser comprado ou manipulado. Tinha que ser conquistado através da verdade.
— Beto vai falar — previu ela. — Ele não consegue guardar um segredo por muito tempo.
— Deixe que fale. Se o escândalo vier, enfrentaremos juntos. Mas, por enquanto... — Ronaldo a puxou de volta para seus braços, a testa encostada na dela. — Por enquanto, eu só quero que você saiba que não é um capricho para mim.
Bia sorriu, o drama de minutos atrás dando lugar a uma serenidade nova.
— Você ainda é um mauricinho insuportável, Ronaldo Sobral.
— E você continua sendo uma criança mimada, Bia Alencar.
Eles riram, um riso cúmplice que selava uma aliança muito mais profunda do que qualquer contrato que o pai de Ronaldo pudesse ter deixado sobre a escrivaninha.
Lá fora, o sol de 1958 começava a se pôr, tingindo o Rio de Janeiro de dourado. As convenções sociais ainda ditavam o ritmo da cidade, as famílias tradicionais ainda vigiavam suas filhas e a hipocrisia ainda reinava nos salões do Jockey Club. Mas, dentro daquele escritório, entre as sombras e o cheiro de couro, dois rivais haviam encontrado algo que as regras não podiam explicar.
Bia ajeitou finalmente o vestido e o cabelo, recuperando sua imagem de perfeição. Ronaldo vestiu o paletó que estava pendurado na cadeira, voltando a ser o herdeiro impecável. Eles saíram do escritório separadamente, com minutos de intervalo, como se nada tivesse acontecido.
Mas a semente do que viria a seguir já estava plantada. O escândalo da gravidez, que meses depois abalaria as estruturas daquelas famílias, encontraria dois jovens que já haviam aprendido a lição mais importante: a de que o amor, às vezes, precisa de um pouco de caos para florescer.
Bia desceu as escadas com a cabeça erguida, cruzando com Camila no hall de entrada. A outra mulher lançou-lhe um olhar inquisidor, notando talvez o brilho diferente nos olhos de Bia ou o leve desalinho que ainda persistia em sua aura. Bia apenas sorriu, um sorriso doce e perigoso, e passou por ela sem dizer uma palavra.
Ela não precisava de palavras. Ela tinha o segredo. Ela tinha Ronaldo. E, acima de tudo, ela tinha a certeza de que, não importava o que o futuro reservasse, ela nunca mais seria apenas a "garota do momento". Ela era a mulher que fizera o gelo de Ronaldo Sobral arder, e isso era uma vitória que nenhuma convenção social poderia tirar dela.
Naquela noite, enquanto a lua surgia sobre o Pão de Açúcar, os dois casais — Ronaldo e Bia, Beto e Beatriz — compartilharam um jantar tenso e silencioso sob o olhar vigilante dos pais. Por baixo da mesa, porém, as mãos se buscavam, e os olhares trocados carregavam a promessa de uma revolução que estava apenas começando. O Rio de Janeiro nunca mais seria o mesmo para os Alencar e os Sobral, e a história que começara com rivalidade estava prestes a se tornar uma saga de sobrevivência e paixão que desafiaria o tempo.