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O Labirinto de Seda e Espinhos
O ar de 1958 na alta sociedade carioca era composto por três partes de perfume francês, duas de fofoca e uma de uma tensão silenciosa que Bia Alencar agora dominava como uma maestrina. A viagem a Petrópolis havia plantado uma semente, mas o retorno ao Rio de Janeiro trouxe a geada na forma de Camila. A rival não era uma debutante tola; era uma mulher que lia Simone de Beauvoir escondida e usava cigarros de piteira longa com uma elegância que gritava modernidade.
Camila percebera a mudança no vento. Ela notara como os olhos de Ronaldo buscavam Bia nos salões, mesmo que ele ainda ostentasse a máscara de gelo. E Camila, ardilosa, decidiu que a passividade não a levaria ao altar dos Sobral.
Naquela tarde, a agência Hi-Fi estava movimentada. Ronaldo trabalhava em um novo jingle, com as mangas da camisa dobradas, o suor leve na testa dando-lhe um ar de virilidade que fazia o coração de Bia martelar contra as costelas. Ela estava sentada no canto, fingindo retocar o batom, enquanto Camila, em um vestido tubinho preto que desafiava as convenções, debruçava-se sobre a mesa de Ronaldo, deixando o decote perigosamente próximo ao campo de visão dele.
— Ronaldo, querido — disse Camila, a voz como mel escorrendo em veludo —, estive pensando que a campanha para os novos rádios precisa de um toque mais... cosmopolita. Talvez pudéssemos discutir isso em um jantar, apenas nós dois, longe desse barulho.
Ronaldo ergueu os olhos, o cansaço visível.
— Camila, eu realmente preciso terminar isso hoje. O prazo é curto.
Bia, observando a cena pelo espelho de seu estojo de pó, sentiu a bile subir. Camila não estava apenas sugerindo um jantar; ela estava marcando território. Ela era segura, falava de negócios, de futuro, de independência. Bia sentia-se, por um momento, apenas uma menina de laços no cabelo. Mas então, ela se lembrou da noite na serra. Lembrou-se de como o gelo de Ronaldo derreteu quando ela se permitiu ser pequena.
Ela fechou o estojo com um estalo seco. Levantou-se, mas não com a altivez de uma rainha. Ela caminhou com passos ligeiramente incertos, a mão indo instintivamente para a têmpora.
— Ronaldo... — chamou Bia, a voz falhando deliberadamente.
Ele se virou no mesmo instante. A indiferença que ele tentava manter diante das investidas de Camila evaporou.
— Bia? O que foi?
Bia soltou um suspiro trêmulo e apoiou-se na beirada da mesa, bem ao lado de onde Camila estava. Ela não olhou para a rival; seu mundo parecia resumir-se apenas ao homem à sua frente.
— Eu me senti um pouco tonta de repente — sussurrou ela, deixando os cílios longos sombrarem as bochechas. — Deve ser o calor, ou talvez eu não tenha me recuperado totalmente daquela friagem em Petrópolis.
Camila soltou uma risada curta, carregada de sarcasmo.
— Ora, Bia, um pouco de sol não mata ninguém. Deixe Ronaldo trabalhar, ele está ocupado com assuntos de adultos.
Ronaldo, porém, já estava de pé. Ele ignorou o comentário de Camila e envolveu a cintura de Bia com o braço, sustentando-a. O contato elétrico fez a pele de ambos arder.
— Você está pálida, Bia — disse ele, a voz transbordando uma preocupação que ele não conseguia mais esconder. — Venha, sente-se aqui na minha cadeira.
— Não quero incomodar — disse Bia, encostando a cabeça no ombro dele por um segundo a mais do que o necessário. — Eu só... eu me sinto tão frágil hoje. Acho que preciso ir para casa, mas meu motorista foi levar mamãe ao chá das beneficentes.
Camila cruzou os braços, os olhos faiscando.
— Eu posso chamar um táxi para você, Bia. Ronaldo e eu temos muito o que fazer.
Bia ergueu os olhos úmidos para Ronaldo. Era o seu golpe de mestre. Ela não usava o intelecto de Camila, nem sua modernidade. Ela usava a única coisa que sabia que desarmava um homem conservador e protetor como Ronaldo: a necessidade absoluta dele.
— Você me leva, Ronaldo? — pediu ela, a voz quase um sopro. — Eu não me sinto segura em um táxi sozinha, não assim... desfalecida.
Ronaldo olhou para os papéis na mesa e depois para a mulher em seus braços. A escolha era óbvia, embora dolorosa para o seu senso de dever.
— Camila, sinto muito. Teremos que adiar nossa conversa. Eu preciso levar a Bia.
— Ronaldo, você não vê o que ela está fazendo? — Camila explodiu, a sofisticação dando lugar a uma raiva crua. — Ela está manipulando você! Essa "fragilidade" é tão falsa quanto as pérolas que ela usa.
Ronaldo endureceu a expressão. Ele não gostava de cenas, e menos ainda de ver Bia ser atacada quando parecia tão indefesa.
— Chega, Camila. Bia é uma dama e está passando mal. Minha prioridade agora é a segurança dela.
Bia permitiu-se um minúsculo sorriso vitorioso, escondido contra o tecido da camisa dele. Ela sentia a disputa no ar, uma guerra silenciosa por cada centímetro de atenção daquele homem. Camila era o desafio intelectual, a mulher que prometia liberdade; Bia era o porto seguro, a tradição, a mulher que despertava nele o desejo primitivo de ser o herói.
Enquanto Ronaldo a guiava para fora da agência, Bia sentia o peso do olhar de Camila em suas costas — um olhar que prometia vingança.
Dentro do carro, o silêncio era preenchido apenas pelo som do motor e pela respiração pesada de Ronaldo. Bia mantinha-se encolhida no banco do passageiro, fingindo uma fraqueza que, ironicamente, começava a se tornar real pela adrenalina do confronto.
— Você está melhor? — perguntou ele, sem tirar os olhos da estrada, mas com a mão direita descansando perigosamente perto da coxa dela.
— Um pouco — respondeu Bia. — Sinto muito por ter atrapalhado seu trabalho. Eu sei o quanto a Camila é... importante para a agência.
Ronaldo apertou o volante.
— Ela é uma excelente profissional. Mas você... você é uma responsabilidade que eu pareço não conseguir delegar a mais ninguém.
— Responsabilidade? — Bia virou o rosto para ele, os olhos brilhando com uma nova intensidade. — É só isso que eu sou para você, Ronaldo? Um fardo que você carrega por obrigação familiar?
Ele freou o carro bruscamente em uma rua lateral deserta, perto do Aterro. O sol poente tingia o interior do veículo de um laranja dramático. Ronaldo virou-se para ela, a máscara de gelo finalmente estilhaçada.
— Você sabe que não é só isso — sibilou ele. — Você sabe que eu passo as noites em claro tentando entender como você consegue me deixar furioso e desesperado ao mesmo tempo. A Camila... a Camila me oferece paz. Mas você, Bia, você me oferece um inferno que eu estou começando a preferir ao paraíso.
Bia não recuou. Ela se inclinou para frente, a distância entre seus lábios reduzida a quase nada.
— Então por que foge? Por que precisa dela para se sentir seguro?
— Eu não preciso dela para me sentir seguro — disse ele, a voz rouca, a mão subindo para a nuca de Bia, os dedos embrenhando-se nos cabelos perfeitamente penteados. — Eu preciso dela para não enlouquecer por você. Porque você é voluntariosa, é mimada e é a mulher mais irritante que já cruzou o meu caminho.
— E você me ama por isso — provocou ela, o hálito quente contra a boca dele.
— Eu te odeio por isso — rebateu ele, antes de selar o espaço entre eles com um beijo que não tinha nada de polido ou conservador.
Era um beijo de posse, de fome acumulada e de uma rivalidade que se transformava em paixão avassaladora. Bia respondeu com a mesma intensidade, as mãos puxando-o para mais perto, querendo apagar cada vestígio de Camila, cada palavra inteligente, cada olhar de cumplicidade profissional que os dois haviam trocado. Naquele momento, no banco de couro do carro, não havia agência, não havia sociedade, não havia 1958. Havia apenas a vitória da vulnerabilidade sobre a razão.
Ronaldo afastou-se por um segundo, a testa encostada na dela, a respiração errática.
— Você vai acabar comigo, Bia Alencar.
— Vou — prometeu ela, com um brilho predatório nos olhos. — Mas você vai adorar cada segundo da sua ruína.
Entretanto, a vitória de Bia era parcial. Camila não era mulher de aceitar a derrota. Enquanto o casal se perdia em carícias no carro, a outra mulher permanecia na agência, fumando um cigarro atrás do outro, os olhos fixos no telefone. Ela sabia segredos sobre a família Alencar que Bia nem imaginava. Sabia que o pai de Bia estava em dificuldades financeiras e que a união com os Sobral era mais do que um desejo social; era uma necessidade de sobrevivência.
— Você quer jogar de vítima, Bia? — murmurou Camila para as paredes vazias. — Pois eu vou te mostrar que, no mundo real, as vítimas são as primeiras a serem sacrificadas.
Nos dias que se seguiram, a tensão no triângulo tornou-se insuportável. Ronaldo via-se dividido entre o desejo carnal e emocional que Bia despertava e a eficiência intelectual e pragmática de Camila. Era uma batalha de arquétipos. De um lado, a feminilidade clássica, a doçura manipuladora e o fogo oculto sob as saias rodadas; do outro, a modernidade audaciosa, o diálogo de igual para igual e a promessa de um futuro sem as amarras do passado.
Beto, observando o irmão, tentava alertá-lo.
— Você está brincando com dinamite, Ronaldo — disse Beto, enquanto tomavam um uísque no clube. — A Bia te quer porque você é o único que diz "não" a ela. E a Camila te quer porque você é o troféu que valida a inteligência dela. No fim das contas, quem está sendo usado é você.
— Eu sei o que estou fazendo, Beto — mentiu Ronaldo, embora sentisse que estava perdendo o controle.
A situação atingiu o ápice durante o baile de gala no Copacabana Palace. Bia surgiu como uma visão em um vestido de tafetá azul-noite, com um decote que fazia os senhores mais velhos pigarrearem e as senhoras apertarem os colares de pérolas. Ela estava radiante, a própria encarnação da Vênus carioca.
Camila, por sua vez, optou por um terno feminino de corte impecável, uma ousadia escandalosa para a época, que atraía olhares de choque e admiração. Ela representava o novo mundo, a quebra de paradigmas.
Ronaldo estava no centro. Bia o puxava para a pista de dança, usando o corpo, o perfume e os sussurros ao pé do ouvido para mantê-lo cativo. Camila o interceptava nos intervalos, falando de política, de arte e de como o mundo estava mudando lá fora, na Europa e nos Estados Unidos.
— Ronaldo, você não pertence a esse mundo de valsas e futilidades — dizia Camila, segurando o braço dele com firmeza. — Você tem uma mente brilhante. Podemos construir algo grande, sem as correntes dessas tradições mofadas.
— Ronaldo, meu pé está doendo — interrompia Bia, aproximando-se com um olhar de sofrimento tão perfeito que Ronaldo imediatamente se voltava para ela. — Por favor, me leve para a varanda. Preciso de um pouco de ar.
Na varanda, sob o luar que refletia nas ondas de Copacabana, a máscara caiu.
— Pare com isso, Bia — disse Ronaldo, embora suas mãos estivessem na cintura dela. — Pare de fingir que é uma boneca de porcelana toda vez que a Camila abre a boca.
Bia afastou-se, os olhos faiscando de raiva real desta vez.
— E você, pare de fingir que a admira apenas pela "inteligência"! Você gosta do jeito que ela te desafia, do jeito que ela te faz sentir que é um homem moderno. Mas você não é moderno, Ronaldo. Você é um Sobral. Você quer uma mulher que pertença a você, que precise de você. E ela nunca vai precisar. Ela se basta.
— E você? Você precisa de mim? — perguntou ele, encurralando-a contra a balaustrada de mármore.
— Eu morro sem você — confessou Bia, e pela primeira vez, não havia manipulação. Havia a verdade nua e crua de uma jovem que encontrara no seu maior rival o seu único porto seguro. — Eu posso não saber falar de política como ela, ou ser independente como ela. Mas eu sei te amar de um jeito que vai te queimar por dentro até não sobrar nada daquele homem frio que você finge ser.
Ronaldo a beijou com uma violência desesperada. Ali, no meio do luxo do Copacabana Palace, eles eram apenas dois animais feridos tentando encontrar um sentido no caos de seus sentimentos.
Mas Camila observava da sombra da porta da varanda. Ela viu o beijo. Viu a entrega. E sorriu com uma amargura gélida. Ela tinha em mãos a carta que destruiria Bia Alencar: a prova de que o pai de Bia estava desviando fundos da agência Hi-Fi para cobrir dívidas de jogo.
— Aproveite o momento, Bia — sussurrou Camila, apagando o cigarro no chão de mármore. — Porque amanhã, a sua "fragilidade" não vai ser uma arma. Vai ser a sua sentença.
A disputa pelo coração — e pelo corpo — de Ronaldo Sobral estava longe de terminar. De um lado, o intelecto e a chantagem; do outro, o instinto e a vulnerabilidade. E no centro, um homem que descobria que o amor, em 1958, era o campo de batalha mais perigoso de todos. O escândalo da gravidez ainda era um segredo do futuro, mas as dores do parto daquela relação já haviam começado, entre promessas de amor e ameaças de ruína.