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Entre o Cinzel e a Sapatilha
O sol da manhã entrava pelas enormes janelas de vidro do duplex, refletindo-se nos detalhes dourados da decoração que Sara escolhera a dedo. Emanuel estava sentado à mesa da sala de jantar, cercado por papéis de contratos de novos estúdios em Berlim, mas seus olhos não estavam nos números. Ele observava Sara, que desfilava pela sala com um robe de seda rosa choque, equilibrando-se em chinelos de plumas enquanto dava ordens por telefone para uma de suas vendedoras.
Mesmo grávida de cinco meses, Sara não perdia a pose. A barriga de Ágata estava redonda e firme, mas o restante dela continuava impecável, desde as unhas de acrílico perfeitamente esculpidas até o loiro platinado que brilhava sob a luz.
— Não, eu já disse! — exclamou Sara ao telefone, a voz carregada de sua autoridade natural. — Se o tecido não for o cetim italiano que eu pedi, pode mandar de volta. Minhas clientes não usam pano de chão.
Ela desligou o celular com um estalo e se jogou no colo de Emanuel, que prontamente envolveu sua cintura com os braços tatuados.
— Essas mulheres me matam, Manu — bufou ela, jogando a cabeça para trás. — Eu preciso de um presente para compensar esse estresse. Aquela pulseira de diamantes que vimos na vitrine ontem seria um bom começo.
Emanuel deu um sorriso de canto, aquele tipo de sorriso que ele só reservava para ela. Ele gostava da vulgaridade luxuosa de Sara, da forma como ela exigia o mundo e ele, com sua fortuna, tinha o prazer de entregá-lo.
— Já está providenciada, Sara. Chega à tarde — ele murmurou, deixando um beijo no pescoço dela, sentindo o perfume doce e marcante. — O que mais você quer?
— Quero que você pare de trabalhar por dez minutos e me leve para comer aquele doce de leite folheado — ela disse, fazendo um bico provocativo. — A Ágata está pedindo.
Emanuel riu, mas sua atenção foi desviada por um som suave vindo do corredor. Eduarda apareceu, vestindo um robe de algodão branco, simples e leve, que parecia flutuar ao redor de seu corpo esguio. O contraste entre as duas mulheres era quase cômico: Sara era o fogo, o brilho e o ruído; Eduarda era a água, a suavidade e o silêncio.
— Bom dia... — Eduarda disse baixinho, apertando as mãos na frente do corpo, um gesto típico de sua timidez.
— Bom dia, bailarina! — Sara exclamou, levantando-se do colo de Emanuel com uma agilidade surpreendente para uma grávida. — Venha comer. O Emanuel está de bom humor hoje, pedi uma pulseira e ele já comprou. Se você pedir um castelo, ele te dá.
Eduarda sorriu timidamente, caminhando até a mesa. Emanuel a acompanhou com o olhar, uma expressão de proteção imediata surgindo em seu rosto. Ele se levantou e puxou a cadeira para ela.
— Como você está se sentindo hoje, Duda? A Maya incomodou à noite? — perguntou ele, a voz tornando-se mais baixa e melodiosa.
— Ela chutou um pouco, mas acho que era só fome — Eduarda respondeu, sentando-se com a elegância natural de quem passou a vida na ponta dos pés. — Emanuel... eu estive pensando em uma coisa. Sobre o parto.
Emanuel voltou a se sentar, cruzando os braços sobre o peito. A menção ao parto sempre o deixava em alerta. Ele já havia planejado tudo: a melhor suíte do hospital mais caro da cidade, uma equipe de obstetras de renome e segurança na porta.
— O que tem o parto? — perguntou ele, prático. — O Dr. Alvarez já confirmou a reserva na maternidade.
Eduarda respirou fundo, buscando coragem. Ela olhou para as próprias mãos, depois para Emanuel.
— Eu não quero hospital. Eu quero que a Maya nasça na fazenda dos vovôs.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sara, que estava atacando um pedaço de mamão, parou com o garfo no ar. Emanuel piscou, achando que tinha ouvido errado.
— Na fazenda? — ele repetiu, a voz subindo um tom. — Eduarda, a fazenda fica a três horas daqui. A estrada é de terra no final.
— Eu sei — ela disse, ganhando um pouco mais de firmeza, embora sua voz ainda fosse doce. — Eu quero um parto natural. Na cachoeira, Emanuel. Eu andei lendo sobre o parto na água, sobre a conexão com a natureza... Eu me sinto segura lá. É onde eu cresci, é onde eu me sinto em paz.
Emanuel soltou uma risada seca, mas não de diversão, e sim de puro nervosismo. O controlador dentro dele entrou em curto-circuito.
— De jeito nenhum. Absolutamente não.
Eduarda arregalou os olhos, a sensibilidade aflorando.
— Por que não?
— Por que não? — Emanuel se levantou, começando a andar de um lado para o outro. — Porque é perigoso! E se houver uma complicação? E se a Maya precisar de oxigênio? E se você tiver uma hemorragia? Eu não vou deixar você e a minha filha no meio do mato, Eduarda. Você vai para o hospital, com luz elétrica, ar-condicionado e dez médicos ao seu redor.
Eduarda sentiu o lábio inferior tremer. O bico que ela fez foi automático, uma reação de quem sempre foi a "manhosa" da família.
— Não é no meio do mato, é a casa dos nossos avós! — protestou ela, os olhos começando a brilhar com lágrimas contidas. — E eu não sou uma paciente doente, Emanuel, eu sou uma mulher dando à luz. Você sempre quer controlar tudo!
— Eu controlo porque eu me importo! — ele rebateu, parando na frente dela. — Eu assumi essa responsabilidade. A Maya é minha filha. E eu decidi que ela nasce no hospital. Ponto final.
Eduarda cruzou os braços, virando o rosto para o lado, a expressão fechada em uma pirraça silenciosa.
— Então eu não vou para hospital nenhum. Eu fico em casa.
— Você não vai fazer birra agora, Eduarda — Emanuel disse, a voz ficando mais rígida. — Seja racional.
Sara, que assistia a tudo como se fosse um filme de cinema, resolveu intervir. Ela caminhou até Eduarda e colocou a mão no ombro da menina, sentindo a tensão na bailarina.
— Calma aí, Tatuador — disse Sara, olhando para o marido com deboche. — Você está falando com a Duda, não com um dos seus funcionários. Olha para ela, está quase tendo um colapso.
— Sara, não se meta. Isso é segurança básica — Emanuel rosnou.
— Segurança ou paranoia sua? — Sara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada. — Duda, querida, você realmente quer parir numa cachoeira? Com mosquitos e água gelada?
Eduarda olhou para Sara, buscando apoio.
— A água não é gelada nessa época, Sara. E é lindo, é sagrado. Eu quero que a primeira coisa que a Maya sinta seja o mundo, não o cheiro de álcool de um hospital.
Emanuel passou as mãos pelo rosto, frustrado.
— Eduarda, entenda uma coisa. Eu não vou arriscar a sua vida. Você é... — ele hesitou, a voz falhando por um segundo ao olhar para a fragilidade dela — ...você é importante demais para eu deixar algo acontecer.
— Se eu for importante, você vai me ouvir — Eduarda disse, levantando-se. Ela era menor que ele, mas naquele momento, sua determinação brilhava. — Eu não sou um dos seus negócios, Emanuel. Eu sou a mãe da Maya. E eu vou para a fazenda.
Ela deu as costas e caminhou em direção ao seu estúdio de dança improvisado no andar de cima, o passo firme apesar da barriga de cinco meses.
— Eduarda! — ele chamou, mas ela não parou.
Emanuel soltou um palavrão e chutou levemente o pé da mesa.
— Ela é teimosa — comentou Sara, voltando a comer seu mamão com tranquilidade. — Quem diria que a santinha tinha garras?
— Não é teimosia, é loucura! — Emanuel exclamou, sentando-se novamente, a cabeça entre as mãos. — Como ela pode ser tão sensível e tão difícil ao mesmo tempo?
— Ela é uma artista, Manu. Elas sentem o mundo de um jeito diferente — Sara deu de ombros. — E você está apaixonado por esse jeito dela, então agora aguenta.
Emanuel olhou para a esposa, surpreso com a franqueza dela, embora soubesse que não havia segredos entre eles.
— Eu não quero que ela sofra, Sara.
— Eu sei disso. Mas se você continuar agindo como um ditador, ela vai se afastar. Vá lá em cima. Peça desculpas pelo tom de voz e tente negociar. Você é bom em negociar, não é?
Emanuel suspirou, derrotado pela lógica da mulher. Ele se levantou e subiu as escadas, o coração pesado. Ele amava Sara pelo fogo que ela acendia nele, pela parceria sem julgamentos. Mas Eduarda... Eduarda despertava nele uma necessidade de ser melhor, de ser um porto seguro, mesmo que ele não soubesse como fazer isso sem tentar controlar o mar.
Ele abriu a porta do estúdio de dança. Eduarda estava sentada no chão, sobre um tapete de yoga, com os olhos fechados e as mãos sobre a barriga. A música clássica tocava baixo ao fundo.
— Duda? — ele chamou suavemente.
Ela não abriu os olhos, mas o bico ainda estava lá.
— Vá embora, Emanuel. Vá contratar mais médicos.
Emanuel se aproximou e sentou-se no chão à frente dela, cruzando as pernas.
— Desculpe por ter gritado.
Eduarda abriu um dos olhos, observando-o com desconfiança.
— Só pelo tom de voz ou pelo que disse?
— Pelo tom de voz — ele admitiu, sendo honesto. — Eu ainda acho a ideia da cachoeira uma loucura total. Mas... eu não quero brigar com você.
Eduarda suspirou, descruzando os braços.
— Você me trata como se eu fosse de vidro, Emanuel. Eu sou bailarina. Eu tenho força. Meu corpo foi treinado para suportar dor e esforço. Eu sei o que estou fazendo.
Emanuel estendeu a mão e tocou o joelho dela.
— Eu sei que você é forte. Mas para mim, você é a coisa mais preciosa que eu tenho que proteger. Você e a Sara. E agora essas duas meninas. Eu não sei lidar com a ideia de perder o controle sobre o bem-estar de vocês.
Eduarda suavizou a expressão. Ela se inclinou para frente, tocando a mão de Emanuel que estava em seu joelho.
— E se fizermos um trato? — ela sugeriu, a voz voltando a ser manhosa. — Nós vamos para a fazenda duas semanas antes. Levamos uma enfermeira obstétrica e um equipamento básico. Se o médico disser que há qualquer risco, qualquer um, eu aceito ir para o hospital da cidade mais próxima. Mas se estiver tudo bem... você me deixa ter a Maya do meu jeito?
Emanuel olhou nos olhos castanhos dela, tão expressivos e cheios de esperança. Ele odiava ceder. Ele odiava a incerteza. Mas ele amava o brilho que voltava ao rosto de Eduarda quando ela se sentia ouvida.
— Uma equipe médica completa na casa principal da fazenda — ele impôs. — E uma ambulância UTI de prontidão na estrada de terra.
Eduarda deu um sorrisinho vitorioso.
— E a cachoeira?
— Se a água estiver na temperatura certa e a enfermeira autorizar... — ele cedeu, sentindo o peso da preocupação ainda presente, mas aliviado por acabar com o conflito.
Eduarda não perdeu tempo. Ela se jogou nos braços dele, abraçando seu pescoço com força.
— Obrigada, Manu! Você é o melhor!
Emanuel a segurou, sentindo o calor do corpo dela e o cheiro de lavanda. Por um momento, ele esqueceu os contratos, os estúdios e a logística. Ali, com Eduarda em seus braços e sabendo que Sara estava logo ali embaixo, ele sentiu que, por mais caótica que fosse aquela configuração, ele nunca estivera tão completo.
— Você me deixa louco, bailarina — ele sussurrou contra o cabelo dela.
— Eu sei — ela riu baixinho, afastando-se apenas o suficiente para olhar para ele. — Mas você gosta.
Emanuel não pôde negar. Ele gostava do fogo e gostava da paz. E faria qualquer coisa, até mesmo montar um hospital no meio de uma fazenda, para garantir que as duas mulheres da sua vida continuassem a sorrir.
Lá embaixo, Sara ouviu a risada de Eduarda e sorriu para si mesma enquanto escolhia quais joias combinariam com seu novo vestido de maternidade. A família estava em equilíbrio, do seu jeito torto e intenso. E Ágata e Maya, antes mesmo de nascerem, já eram as donas do império de Emanuel.