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O Eclipse da Razão

O fim da tarde trouxe consigo uma entrega especial para a cobertura. Emanuel nunca fora um homem de palavras econômicas, preferindo que suas ações — e seu dinheiro — falassem por ele. Quando o entregador da joalheria mais exclusiva da cidade chegou, Sara já estava à espera, recostada na poltrona de couro com uma taça de suco de cranberry, observando o movimento com um brilho predatório nos olhos.

Emanuel pegou a caixa de veludo negro e caminhou até a esposa. Ele a beijou com possessividade, um beijo que carregava o peso de cinco anos de uma paixão que nunca esfriava.

— Para a rainha do meu império — murmurou ele, abrindo a caixa.

Dentro, uma pulseira de diamantes e esmeraldas cintilava sob a luz dos lustres de cristal. Sara soltou um suspiro de satisfação, estendendo o pulso para que ele a prendesse. O contraste das pedras verdes com o loiro platinado dela e a pele bronzeada era exatamente o que ela queria.

— Você sabe como me mimar, Manu — Sara disse, admirando o brilho no pulso enquanto passava a outra mão pela barriga saliente, onde Ágata descansava. — É por isso que eu nunca vou te deixar, mesmo quando você fica com esse humor de cão por causa da Duda.

Emanuel endureceu os ombros. A menção ao nome da prima trouxe de volta a irritação da manhã. O acordo sobre a fazenda ainda estava atravessado em sua garganta. Ele odiava ceder, odiava sentir que sua lógica estava sendo vencida por desejos que ele considerava infantis e perigosos.

— Ela é teimosa demais, Sara. Não entende o risco que está correndo — Emanuel destilou, servindo-se de um uísque puro.

— Ela é jovem e romântica, querido. E você está projetando toda a sua necessidade de controle nela — Sara levantou-se, caminhando até ele com um sorriso astuto. — Vá ver como ela está. Ela se trancou no estúdio desde o almoço. E Emanuel... não seja tão duro. Ou seja, se for isso que ela precisa para acordar.

Sara deu um tapinha no rosto dele e saiu em direção ao quarto, deixando o perfume caro e a provocação pairando no ar.

Emanuel terminou o uísque em um gole só. O calor do álcool subiu, misturando-se à frustração acumulada. Ele subiu as escadas para o segundo andar do duplex, onde o som de um piano melancólico ecoava. Ao abrir a porta do estúdio, encontrou Eduarda.

Ela não estava dançando. Estava sentada diante de um cavalete, pintando algo em uma tela pequena. O robe branco estava manchado de tinta azul nos punhos. Ela parecia tão alheia ao mundo, tão mergulhada naquela paz contemplativa que ele tanto cobiçava e, ao mesmo tempo, tanto odiava por não conseguir dominar.

— O jantar vai ser servido em breve — disse ele, a voz saindo mais áspera do que pretendia.

Eduarda deu um sobressalto, derrubando o pincel.

— Emanuel! Você me assustou.

— Você está aqui há horas. Esqueceu que precisa descansar? Esqueceu que a Maya precisa que você se alimente nos horários certos? — Ele caminhou até ela, a presença ocupando todo o espaço delicado do estúdio.

— Eu estou bem, eu só perdi a noção do tempo — ela respondeu, tentando sorrir, mas o sorriso vacilou diante da expressão sombria dele.

— Você sempre perde a noção de tudo, Eduarda! — A voz dele aumentou, a raiva finalmente rompendo a barragem. — Perde a noção da realidade querendo parir no meio do mato, perde a noção das suas responsabilidades... Você age como se a vida fosse um quadro que você pode pintar do jeito que quer, mas não é!

Eduarda levantou-se, o rosto ficando pálido.

— Por que você está gritando comigo de novo? Nós já tínhamos concordado com a fazenda...

— Eu concordei porque você me chantageou com esse seu jeito de menina indefesa! — Ele a prensou contra a parede ao lado do cavalete, as mãos espalmadas de cada lado da cabeça dela. — Você me deixa louco de preocupação e depois age como se eu fosse um monstro por querer te manter viva.

— Você não quer me manter viva, você quer me manter presa! — Eduarda rebateu, as lágrimas transbordando. — Você quer que eu seja como uma das suas tatuagens, algo que você desenha e controla cada traço!

A fragilidade dela, o cheiro de lavanda misturado à tinta fresca e o desafio nos olhos castanhos foram o estopim. Emanuel não pensou. Ele a beijou, mas não foi um beijo de ternura. Foi um beijo punitivo, carregado de uma fome que ele tentava esconder há meses. Era a colisão entre o controle absoluto dele e a resistência silenciosa dela.

Eduarda soltou um gemido de surpresa, as mãos subindo para o peito dele, incertas se deviam empurrar ou puxar. A raiva de Emanuel pulsava contra ela, uma energia bruta que a assustava e a atraía intensamente.

Ele a pegou no colo, ignorando os protestos fracos, e a levou para o pequeno divã de veludo que ficava no canto do estúdio. O movimento foi rápido, quase violento em sua urgência.

— Você acha que sabe o que é melhor? — ele rosnou contra o pescoço dela, as mãos grandes desfazendo o laço do robe com uma impaciência perigosa. — Você não sabe nada, Eduarda.

— Emanuel, para... — ela sussurrou, mas seu corpo o traía, arqueando-se sob o toque dele.

— Não vou parar. Você queria ser tratada como mulher, não como criança? Então aguenta — disse ele, a voz rouca de desejo e fúria.

O que se seguiu foi um encontro desprovido da delicadeza que Eduarda esperava de seu "protetor". Emanuel a possuiu com uma intensidade que beirava a possessividade selvagem. Cada movimento dele era uma afirmação de domínio, uma forma de silenciar a teimosia dela através do prazer que ele sabia exatamente como provocar.

Eduarda chorava silenciosamente, mas não era apenas de dor ou medo; era o peso da entrega total a um homem que a reivindicava de todas as formas possíveis. Ela se agarrava aos ombros tatuados dele, sentindo a força dos músculos, a pele quente, o ritmo implacável que ele impunha.

Emanuel estava cego. A raiva de não conseguir controlar o destino daquela gravidez transformou-se em um desejo de controlar o corpo dela, de marcar sua alma de uma forma que nenhuma sapatilha ou livro de arte jamais faria. Ele a fodeu com o vigor de quem queria apagar qualquer outro homem que um dia tivesse passado pela vida dela, transformando Maya, em sua mente distorcida, em algo puramente dele.

Quando o ápice finalmente os atingiu, Emanuel desabou sobre ela, o suor pingando de sua testa. O silêncio que se seguiu no estúdio foi pesado, interrompido apenas pela respiração descompassada de ambos.

Aos poucos, a névoa da raiva começou a se dissipar, e a realidade do que ele acabara de fazer o atingiu. Ele olhou para baixo e viu Eduarda, com o cabelo castanho espalhado pelo veludo, o robe aberto e os olhos vermelhos de choro. Ela parecia mais quebradiça do que nunca.

Um lampejo de culpa atravessou o peito de Emanuel, mas ele o sufocou imediatamente. Ele se levantou, ajeitando as roupas com movimentos mecânicos.

— Coma alguma coisa — disse ele, sem olhar diretamente para ela, a voz voltando ao tom frio e autoritário. — Não quero que você desmaie.

Ele saiu do estúdio sem olhar para trás, fechando a porta com um clique definitivo.

Eduarda ficou ali, encolhida no divã, sentindo o latejar de seu corpo e o peso da nova realidade. Emanuel a amava, ela sabia disso agora, mas era um amor que vinha com correntes. Ele a queria, mas a queria sob seus termos.

Enquanto isso, no andar de baixo, Emanuel encontrou Sara no corredor. Ela o observou por um momento, notando a respiração ainda alterada e o desalinho em suas roupas.

— Pelo visto, a conversa no estúdio foi produtiva — comentou Sara, cruzando os braços e exibindo a nova pulseira de esmeraldas.

Emanuel passou por ela, parando apenas por um segundo para tocar o ombro da esposa.

— Ela vai para a fazenda, Sara. Mas ela vai entender que, não importa onde esteja, ela pertence a este teto. E a mim.

Sara deu um sorriso de lado, um brilho de compreensão em seus olhos loiros.

— Eu te disse, Manu. Você tem um jeito único de manter a família unida.

Emanuel seguiu para o seu escritório, fechando-se em seu mundo de números e projetos, enquanto no andar de cima, a bailarina tentava reencontrar o ritmo de seus próprios passos em um palco que agora parecia muito mais perigoso. A mentira inicial sobre a paternidade de Maya havia se tornado a menor das complexidades naquela casa; agora, eles estavam todos presos em uma teia de desejo, poder e uma proteção que sufocava tanto quanto salvava.

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