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D

O Silêncio entre as Sedas

A manhã seguinte nasceu com uma claridade cruel, o sol atravessando as cortinas de linho do quarto de Eduarda como se quisesse expor cada segredo guardado entre aquelas paredes. Ela acordou com uma sensação de peso que não vinha apenas da barriga de cinco meses, mas de uma dor surda e latejante que irradiava de seu baixo ventre. Ao tentar se mover para sentar na cama, um gemido baixo escapou de seus lábios.

Ela sentia-se em carne viva. A intensidade de Emanuel na noite anterior, misturada à sua própria fragilidade física de grávida e à falta de lubrificação inicial causada pelo medo, havia deixado marcas. A pele sensível de sua intimidade estava assada, machucada pelo atrito bruto e pela urgência possessiva dele.

Eduarda caminhou com dificuldade até o banheiro, cada passo sendo um lembrete da força de Emanuel. Ao se lavar, a água morna ardeu, fazendo-a morder o lábio para não chorar novamente. Ela se olhou no espelho; os olhos castanhos estavam inchados, e havia uma pequena mancha roxa na curva de seu pescoço. Ela não era mais apenas a prima protegida ou a bailarina etérea. Ela era algo que Emanuel havia reivindicado para si com uma marca indelével.

No andar de baixo, o clima era estranhamente doméstico. Sara estava sentada à mesa, folheando uma revista de moda enquanto tomava um café preto forte. Emanuel estava de pé, de costas para a escada, falando ao telefone sobre a logística de transporte de tintas para um de seus estúdios em Londres.

Quando Eduarda começou a descer os degraus, seu passo era hesitante, ligeiramente curvado. Ela tentava disfarçar o desconforto, mas a rigidez em seus quadris era evidente para qualquer olhar minimamente atento.

Emanuel desligou o telefone no instante em que a viu. Seus olhos, geralmente frios e calculistas, percorreram o corpo dela com uma rapidez faminta, parando na forma como ela se apoiava no corrimão.

— Bom dia, Duda — disse Sara, sem tirar os olhos da revista, mas com um tom de voz que sugeria que ela sabia exatamente o que havia acontecido. — Você parece ter dormido pouco. Ou muito, dependendo do ponto de vista.

Eduarda não respondeu de imediato. Ela puxou a cadeira com cuidado, sentando-se na ponta do assento para evitar a pressão direta na área machucada.

— Eu estou bem — sussurrou Eduarda, a voz rouca. — Só um pouco cansada.

Emanuel caminhou até a mesa e colocou uma mão sobre o ombro de Eduarda. O toque, que antes era apenas protetor, agora parecia carregar uma voltagem elétrica de posse. Ele sentiu a garota retesar sob seus dedos.

— Você está pálida — comentou Emanuel, a voz baixa, quase um comando. — E está andando de um jeito estranho. A Maya está te pressionando?

Eduarda sentiu o rosto arder de vergonha. Ela olhou para o prato de frutas à sua frente, incapaz de encarar os olhos dele.

— Não é a Maya, Emanuel — ela disse, quase inaudível.

Sara finalmente fechou a revista e olhou para os dois. Ela notou o desconforto físico óbvio de Eduarda e a tensão vibrante no marido. Sara não era boba; ela conhecia a força de Emanuel e sabia que, quando ele perdia o controle, agia como um trator.

— Manu, deixe a menina em paz por um segundo — Sara interveio, levantando-se. — Duda, venha comigo até o quarto. Eu tenho uns cremes novos que chegaram na loja, ótimos para a pele sensível da gravidez.

Emanuel estreitou os olhos, mas não impediu. Eduarda levantou-se com um esforço visível, e a careta de dor que cruzou seu rosto não passou despercebida por ele. Um lampejo de algo parecido com remorso, mas ainda misturado àquela satisfação sombria de posse, brilhou no rosto do tatuador.

No quarto de Sara, o ambiente cheirava a perfume importado e maquiagem cara. A loira fechou a porta e apontou para a cama.

— Senta aí, Duda. E não precisa fingir comigo.

Eduarda sentou-se, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos cílios.

— Ele... ele foi muito forte, Sara. Eu não sei o que aconteceu com ele ontem. Ele parecia outra pessoa.

Sara suspirou, sentando-se ao lado dela. Ela pegou a mão de Eduarda, as unhas impecáveis contrastando com a pele pálida da bailarina.

— O Emanuel é um animal, querida. Um animal rico, educado e protetor, mas ainda um animal. Ele está surtando com essa história de você estar grávida de outro cara — mesmo que ele tenha assumido — e com essa sua mania de querer fugir para a fazenda. Ele usou o corpo dele para te prender aqui.

— Mas dói — soluçou Eduarda. — Eu estou machucada, Sara. De verdade.

— Eu sei que dói. A primeira vez que ele perdeu o controle comigo, eu achei que ia quebrar — Sara disse, com uma franqueza brutal que era sua marca registrada. — Mas escuta, ele te ama. Do jeito torto e possessivo dele, ele te ama tanto quanto me ama. Ele só não sabe lidar com a paz que você traz sem tentar dominar essa paz.

Sara foi até o closet e voltou com uma bisnaga de pomada dermatológica de alta qualidade e um frasco de óleo calmante.

— Use isso. Vai aliviar o ardor e ajudar a cicatrizar. E não se preocupe com o jantar de hoje, eu vou dizer a ele que você precisa de repouso absoluto.

— Obrigada, Sara — Eduarda disse, limpando o rosto. — Eu não entendo como você consegue ser assim. Tão... compreensiva.

Sara soltou uma risada curta e irônica, ajeitando o cabelo loiro.

— Duda, eu tenho tudo o que eu quero. Tenho o homem mais poderoso que já conheci, tenho dinheiro, tenho a Ágata a caminho e agora tenho você para equilibrar o humor dele. Se eu tivesse que brigar por cada vez que o Emanuel mostra quem manda, eu não teria tempo para fazer minhas compras. Eu sou a rainha, e você é a princesa que ele quer trancar na torre. Contanto que a torre seja de ouro, por que eu haveria de reclamar?

Eduarda olhou para a mulher à sua frente, sentindo uma mistura de admiração e medo. O mundo de Emanuel e Sara era feito de superfícies brilhantes e profundezas perigosas.

Mais tarde, Emanuel entrou no quarto de Eduarda sem bater. Ela estava deitada de lado, lendo um livro de História da Arte, tentando ignorar a dor que a pomada de Sara começava a suavizar.

Ele parou ao pé da cama, observando-a em silêncio por um longo tempo. A luz do crepúsculo entrava pela janela, banhando Eduarda em tons de laranja e violeta.

— A Sara me disse que você não está se sentindo bem — ele começou, a voz desprovida da agressividade da noite anterior, mas ainda carregada de autoridade.

— Você sabe por que eu não estou bem, Emanuel — ela respondeu, sem tirar os olhos do livro.

Ele caminhou até o lado da cama e sentou-se. O peso dele fez Eduarda rolar levemente em sua direção. Ele estendeu a mão e tocou a mancha roxa no pescoço dela.

— Eu perdi a mão — ele admitiu, o que para um homem como ele era o equivalente a um pedido de desculpas desesperado. — Você me desafiou, Eduarda. Você falou em ir embora para aquela fazenda, em parir longe de mim...

— Eu não falei em ir embora de você, eu falei em ter um momento meu! — Ela finalmente olhou para ele, os olhos cheios de mágoa. — Você me machucou fisicamente, Emanuel. Eu sou professora de ballet, eu conheço meu corpo. Você foi bruto.

Emanuel sentiu uma pontada de desconforto no peito, algo que ele raramente permitia. Ele se inclinou e beijou a testa dela, um gesto de uma ternura que contrastava violentamente com a lembrança do divã.

— Eu vou cuidar de você. Eu já liguei para o meu médico pessoal. Ele vai vir aqui amanhã com alguns suplementos e vai examinar você e a Maya.

— Eu não quero um médico, Emanuel. Eu quero que você me respeite.

Emanuel deu um sorriso de canto, um tanto frio.

— Eu te respeito, Duda. Do meu jeito. Mas entenda: você é minha. A Maya é minha. E se eu tiver que ser bruto para garantir que você não esqueça disso, eu serei. Mas... eu vou tentar ser mais cuidadoso.

Ele deslizou a mão por baixo do cobertor, parando sobre a barriga dela. Maya deu um chute leve, como se respondesse ao toque do homem que, por mentira e por escolha, era seu pai.

— Viu? Ela sabe quem manda — ele murmurou.

Eduarda fechou os olhos, sentindo a mão quente dele. Ela sabia que estava entrando em um território onde a liberdade era uma ilusão, mas a segurança que Emanuel oferecia era um vício difícil de largar.

— Você ainda vai me deixar ir para a fazenda? — ela perguntou, a voz sumindo.

Emanuel suspirou, retirando a mão da barriga dela e levantando-se.

— Você vai. Mas eu vou junto. E a Sara também. Se você quer o mato, nós teremos o mato. Mas com toda a estrutura que o meu dinheiro pode comprar. E você não vai sair do meu lado por um segundo sequer.

Ele caminhou até a porta, parando antes de sair.

— E Eduarda... aplique a pomada que a Sara te deu. Eu quero você recuperada logo.

A porta se fechou. Eduarda abraçou o travesseiro, sentindo o cheiro de Emanuel que ainda impregnava sua pele. Ela estava machucada, sim, e seu coração estava confuso, mas havia uma verdade sombria que ela mal ousava admitir para si mesma: no meio daquela brutalidade, ela se sentira, pela primeira vez, completamente vista por ele.

No corredor, Emanuel encontrou Sara, que o esperava com um olhar de julgamento divertido.

— Ela está melhor? — perguntou a loira.

— Está. Ela é forte, apesar de parecer feita de porcelana — respondeu ele, passando o braço pela cintura de Sara.

— Não a quebre, Emanuel. Porcelana não se conserta fácil — avisou Sara, encostando a cabeça no ombro dele.

— Eu não vou quebrá-la, Sara. Eu vou apenas moldá-la.

E assim, sob o mesmo teto luxuoso, a bailarina, o tatuador e a rainha de diamantes continuavam sua dança perigosa, onde a dor e o prazer eram apenas passos em uma coreografia que Emanuel insistia em reger, nota por nota, enquanto as duas meninas cresciam, alheias ao caos que as cercava, prontas para herdar um mundo onde o amor era tão absoluto quanto opressor.

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