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O Eclipse de Safira e o Ciúme de Ferro

O sol do Rio de Janeiro não pedia licença; ele se impunha, refletindo-se nas águas turquesas e na areia branca da praia particular que Emanuel havia alugado para o fim de semana. Ele queria privacidade. O império das tatuagens e os negócios imobiliários exigiam muito de sua mente, e o caos do duplex, embora amado, precisava de um respiro.

Emanuel estava sentado sob um guarda-sol de linho cru, observando o horizonte com seus óculos escuros de armação pesada. Ao seu lado, Sara era uma visão de ostentação solar. Ela usava um biquíni de tiras douradas, minúsculo e cravejado de cristais, que realçava seu corpo curvilíneo e as próteses de silicone que ela exibia com orgulho. Ágata, protegida por um chapéu de palha de grife, brincava com um balde de ouro falso aos pés da mãe.

— Onde está a Eduarda? — perguntou Emanuel, a voz carregada de uma impaciência latente. — Ela está lá dentro há meia hora.

— Relaxa, Manu — Sara respondeu, passando uma camada generosa de óleo bronzeador nas pernas longas. — Ela está tentando se entender com o biquíni que eu dei para ela. Você sabe que a Duda é tímida, mas eu disse que ela precisava de um pouco de cor e de... bom, de menos pano.

Emanuel franziu o cenho, o maxilar travando instantaneamente.

— Menos pano? Sara, eu já disse que não quero ela se expondo.

— Ah, por favor! — Sara riu, uma risada alta e provocante. — Ela tem vinte anos, um corpo de bailarina que é uma obra de arte e você quer que ela use um maiô de vovó? Deixe a menina brilhar um pouco.

Nesse momento, a porta de vidro da casa de praia se abriu. Eduarda saiu hesitante, segurando a mão de Maya, que já corria em direção à areia. Quando Eduarda parou sob a luz direta do sol, o ar pareceu faltar nos pulmões de Emanuel.

Ela usava um biquíni de tom azul-safira, uma cor que destacava sua pele clara e a suavidade de seus traços. No entanto, o corte era puramente o estilo de Sara: a parte de cima era um cortininha mínimo que mal continha a maciez de seus seios médios, e a parte de baixo era uma tanga de laços finos, cavada o suficiente para mostrar a linha elegante de seus quadris de dançarina.

— Eduarda. — O nome dela saiu como um aviso baixo, quase um rosnado.

— Oi... — Ela se aproximou, sentindo o peso do olhar dele. Eduarda tentava puxar a parte de baixo do biquíni para cobrir um milímetro a mais de pele, um gesto inútil que só servia para enfatizar sua insegurança e beleza. — Ficou muito ruim? A Sara disse que era a tendência.

— Ruim não é a palavra — disse Emanuel, levantando-se. Ele caminhou até ela, a altura dele projetando uma sombra protetora e opressora sobre o corpo dela. — Está pequeno demais. Dá para ver quase tudo, Eduarda.

— Deixe de ser careta, Emanuel! — gritou Sara lá de trás, rindo da situação. — Ela está maravilhosa! Olhe para esse azul, combina com o céu.

— Eu não estou sendo careta, estou sendo sensato — ele rebateu, sem tirar os olhos de Eduarda. Ele estendeu a mão e tocou a lateral do quadril dela, onde o laço de seda repousava. O toque foi possessivo, uma marca de território. — Você não vai para a água assim. As pessoas podem ver daquelas lanchas lá longe.

— Mas não tem ninguém por perto, Manu... — Eduarda murmurou, fazendo aquele bico manhoso que sempre o desarmava, mas que hoje parecia apenas atiçar sua irritação. — Eu queria pegar um pouco de sol. A Maya quer ir para a beira do mar.

— Vá colocar uma saída de banho. Agora — ordenou ele, o tom de voz não admitindo réplicas.

Eduarda suspirou, os ombros caindo. Ela sempre buscava a aprovação dele, e ver aquela expressão de censura no rosto que ela tanto amava a deixava murcha. Antes que ela pudesse se virar, porém, Maya decidiu que a paciência não era uma de suas virtudes.

A bebê de oito meses, que já demonstrava a mesma teimosia férrea do pai "de mentira", começou a choramingar. Ela queria o mar. Ela queria a espuma. E, acima de tudo, ela queria a atenção total da mãe.

— Ma! Ma! — Maya gritou, agarrando-se à perna de Eduarda.

— Calma, meu amor, a mamãe já vai — disse Eduarda, abaixando-se para pegar a filha no colo.

Foi o erro fatal.

Ao se abaixar, a tensão no biquíni minúsculo aumentou. Maya, em um acesso de birra por não ser levada imediatamente para a água, começou a se debater nos braços da mãe. Suas mãozinhas gordas e determinadas agarraram a primeira coisa que encontraram para se firmar: as alças finas do biquíni azul-safira.

— Maya, não! Solta a mamãe! — exclamou Eduarda, tentando equilibrar o peso da bebê e manter a dignidade.

Mas Maya era rápida. Com um puxão brusco e irritado, típico de quem herdara o temperamento explosivo de Emanuel, ela desatou o laço que segurava a parte de cima do biquíni no pescoço de Eduarda.

— Meu Deus! — Eduarda soltou um grito abafado, sentindo o tecido escorregar.

Em um reflexo desesperado, ela soltou uma das mãos que segurava Maya para tentar agarrar o biquíni, mas a bebê, sentindo-se instável, agarrou-se agora à parte de baixo, puxando um dos laços laterais com toda a força de sua pequena frustração.

O desastre foi iminente. Por um segundo aterrorizante, Eduarda ficou à beira da nudez total diante de Emanuel e do horizonte aberto. O cortininha de cima caiu, revelando a curva generosa de um de seus seios antes que ela conseguisse prensar o braço contra o peito, e o laço lateral da tanga se desfez, deixando a peça pendurada apenas por um fio de esperança.

— Eduarda! — Emanuel rugiu.

Em um movimento que misturava fúria e proteção, ele deu um passo à frente e envolveu Eduarda com seus braços largos, bloqueando a visão de qualquer pessoa que pudesse estar a quilômetros de distância. Ele praticamente a soterrou contra seu peito, enquanto Maya, alheia ao caos que causara, soltava uma gargalhada vitoriosa ao sentir o contato com o corpo do pai.

— Solta ela, Maya! Solta agora! — Emanuel comandou, pegando a bebê com uma mão e mantendo a outra firmemente pressionada contra as costas de Eduarda, mantendo-a colada a ele.

— Eu vou morrer de vergonha... — Eduarda soluçava contra a camisa de linho dele, o rosto escondido em seu pescoço. — Emanuel, me tira daqui, por favor.

Sara, que assistia a tudo, estava dobrada de tanto rir na espreguiçadeira.

— Nota dez para a performance, Maya! — gritou ela, limpando as lágrimas de riso. — Puxou ao pai, não aceita "não" como resposta e derruba qualquer barreira!

Emanuel não achou graça. Ele estava com o rosto vermelho, uma mistura de desejo reprimido ao sentir a pele nua de Eduarda contra a sua e uma raiva protetora que o fazia querer queimar aquele biquíni azul.

— Cale a boca, Sara! — ele disparou, virando-se para a casa enquanto carregava Eduarda — ainda seminua e escondida por seus braços — e Maya, que agora batia palmas.

Ele entrou na casa de praia como um furacão, chutando a porta de vidro para fechá-la atrás de si. Só quando estavam no frescor do ar-condicionado da sala é que ele a soltou, mas apenas o suficiente para que ela pudesse se cobrir com uma almofada do sofá.

— Eu avisei — disse ele, a voz vibrando de uma irritação perigosa. — Eu disse que essa porcaria era pequena demais.

— Foi um acidente, Emanuel! A Maya é só um bebê! — Eduarda tentava amarrar os laços com as mãos trêmulas, as lágrimas de humilhação correndo por seu rosto. — Você não precisa gritar comigo.

Emanuel jogou Maya no cercadinho acolchoado da sala e caminhou até Eduarda. Ele a pegou pelos ombros, forçando-a a olhar para ele. O olhar dele era uma tempestade de sentimentos conflitantes.

— Você não entende, não é? — ele perguntou, a voz agora baixa e rouca. — Eu passo o dia inteiro tentando manter o controle sobre tudo. Sobre meus negócios, sobre a Sara, sobre a segurança de vocês. E aí você aparece vestida como se quisesse que o mundo inteiro visse o que é meu. O que é só meu.

— Eu sou sua, Emanuel... — ela sussurrou, a submissão natural de sua personalidade vindo à tona diante da força dele. — Você sabe que eu sou.

— Então aja como tal — ele disse, a mão subindo para o pescoço dela, o polegar acariciando o maxilar com uma pressão que era quase um aviso. — Esse biquíni vai para o lixo. Agora.

— Mas a Sara me deu...

— Eu não me importo com o que a Sara deu ou deixou de dar! — Ele a puxou para um beijo brusco, um beijo que carregava o sabor do sal marinho e da autoridade absoluta. — Naquela praia, sob o meu teto, você usa o que eu permitir. Entendeu?

Eduarda apenas assentiu, sentindo o coração disparar. Ela era manhosa, era sensível, e de alguma forma distorcida, aquela possessividade de Emanuel a fazia se sentir a mulher mais importante do mundo, mesmo que a custas de sua própria autonomia.

— Vá trocar de roupa — ele ordenou, afastando-se. — Coloque algo que cubra você. Vamos almoçar dentro de casa. A praia acabou por hoje.

Eduarda subiu as escadas em silêncio, deixando Emanuel sozinho na sala com Maya. A bebê, agora calma, olhava para o pai com aqueles olhos castanhos profundos que eram o espelho dos dele.

Emanuel caminhou até o cercadinho e pegou a filha no colo.

— Você quase me matou do coração, garota — ele murmurou, beijando o topo da cabeça de Maya. — Mas você tem razão em uma coisa: ninguém encosta no que é nosso.

Lá fora, Sara entrou na casa, ainda rindo e carregando Ágata.

— Que cena, Manu! Você devia ter visto a sua cara. Parecia que ia ter um infarto porque um pedaço de pele da Duda apareceu.

— Não foi apenas um pedaço de pele, Sara. Foi um desrespeito à minha vontade — ele disse, voltando a ser o homem racional e prático, embora o fogo nos olhos ainda não tivesse se apagado totalmente.

— Você é um homem das cavernas, mas é o meu homem das cavernas — Sara brincou, aproximando-se e selando os lábios dele com um beijo rápido e atrevido. — Agora, vai lá em cima e pede desculpas para a menina. Ela está chorando, e você sabe que eu odeio quando a energia da casa fica pesada.

Emanuel suspirou. Ele sabia que Sara tinha razão sobre o clima, mas não se arrependia de sua reação. Ele subiu as escadas e encontrou Eduarda no quarto, vestindo um camisete longo de algodão branco que ia até os joelhos. Ela estava sentada na beira da cama, limpando o rosto.

Ele fechou a porta e caminhou até ela. Sem dizer uma palavra, ele se ajoelhou entre as pernas dela, envolvendo sua cintura com os braços e enterrando o rosto em seu ventre.

— Eu não quero te machucar, Duda — ele confessou, a voz abafada pelo tecido. — Mas eu não suporto a ideia de outros olhos em você. Você é a minha paz. E eu protejo a minha paz com unhas e dentes.

Eduarda acariciou os cabelos curtos dele, sentindo a tensão nos ombros do primo.

— Eu sei, Manu. Eu só queria ser bonita para você.

— Você é a mulher mais bonita que eu já vi, mesmo coberta de trapos — ele disse, levantando o rosto para olhá-la. — Mas de agora em diante, os biquínis quem compra sou eu.

Eduarda deu um pequeno sorriso, o primeiro desde o incidente.

— Tudo bem. Mas por favor, nada de maiô de vovó.

Emanuel riu, um som raro e genuíno que iluminou o quarto.

— Vamos negociar o meio-termo. Agora venha, a Sara está esperando para o almoço e a Maya provavelmente já está tentando comer o sofá.

Eles desceram juntos, a harmonia sendo restaurada através das regras de Emanuel. Na mesa, entre risadas de Sara e as brincadeiras das bebês, a vida voltava ao seu curso. Eduarda sentia-se protegida, Sara sentia-se rainha, e Emanuel, observando as duas mulheres e as duas filhas, sentia que o mundo poderia desabar lá fora, contanto que dentro de seu domínio, tudo estivesse exatamente sob o seu controle.

A mentira que começara meses atrás agora era a base de um império emocional onde o sangue e a escolha se fundiam. E enquanto Maya crescia com a audácia de quem sabia que podia desarmar o homem mais poderoso que conhecia, Emanuel sabia que sua vida seria uma eterna dança entre o fogo de Sara e a suavidade de Eduarda — uma coreografia que ele, e somente ele, tinha o direito de conduzir.

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