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O Batismo das Donas Encrenca

O escritório de Emanuel, localizado no andar superior do duplex, era um território de sobriedade. Paredes cinza-chumbo, móveis de madeira maciça e o cheiro persistente de café caro e papel timbrado. No entanto, naquele final de tarde, o silêncio habitual fora substituído por gargalhadas masculinas que atravessavam a porta entreaberta e chegavam até o corredor, onde Sara e Eduarda caminhavam silenciosamente.

As bebês, Ágata e Maya, agora com um ano de idade, estavam em um momento de trégua, dormindo profundamente no berçário sob a supervisão da babá. Sara, com seu habitual robe de seda — desta vez um azul elétrico que combinava com suas novas unhas — e Eduarda, vestindo uma calça de yoga e uma camiseta folgada, seguiam para o escritório com um objetivo nobre: convencer Emanuel a levá-las para jantar no novo restaurante francês da orla.

— Eu estou te falando, Duda — sussurrou Sara, ajustando os brincos de argola dourada —, se ele disser que está cansado, eu uso a cartada da Ágata. Ele não resiste quando ela faz aquele biquinho.

— E eu uso a Maya — completou Eduarda, com um sorriso tímido. — Ela aprendeu a dar tchauzinho e ele fica todo bobo.

Elas pararam diante da porta, prontas para entrar, quando a voz de um dos sócios de Emanuel, um tatuador alemão chamado Klaus, ecoou lá dentro.

— Então, Emanuel, como vai a vida no harém? — Klaus ria, o sotaque carregado tornando a frase ainda mais audível. — Deve ser um caos coordenar duas mulheres e duas crianças naquela fazenda que você montou no Rio.

— Caos é pouco, Klaus — a voz de Emanuel surgiu, profunda e relaxada, um tom que ele raramente usava em público. — Vocês não fazem ideia do que é a minha rotina.

Sara e Eduarda se entreolharam. Sara arqueou uma sobrancelha, o brilho de curiosidade em seus olhos loiros transformando-se em algo mais perigoso. Eduarda, sensível como sempre, sentiu o coração acelerar.

— E como elas estão se comportando? — perguntou outro amigo, Rodrigo. — A loira ainda gasta o seu PIB em sapatos? E a bailarina, continua sendo a santinha que não quebra um prato?

Houve um breve silêncio, seguido pelo som de Emanuel servindo uísque nos copos.

— A Sara? Ela não gasta o PIB, ela gasta o orçamento de uma pequena nação europeia — Emanuel disse, e as mulheres podiam quase visualizar o sorriso de canto dele. — E a Eduarda... bom, a santinha tem garras que vocês não imaginam quando cisma com alguma coisa. Eu chamo as duas pelo mesmo codinome agora.

— Ah, é? Qual? — Klaus quis saber.

— Dona Encrenca — respondeu Emanuel, e soltou uma risada curta. — A Sara é a Dona Encrenca Versão Premium, a que vem com brilho e barulho. E a Eduarda é a Dona Encrenca Edição Especial, a que te convence a fazer o que ela quer chorando baixinho e fazendo manha. Se eu demoro cinco minutos a mais no estúdio, as duas Donas Encrenca já estão me mandando mensagem ou planejando como me punir com silêncio ou com a conta do cartão.

Lá fora, o rosto de Sara passou de curioso para indignado em menos de um segundo. Eduarda, por sua vez, sentiu o rosto arder. Ela? Uma Dona Encrenca? Ela, que sempre buscava a paz e evitava confrontos?

— "Dona Encrenca"? — murmurou Sara, a voz subindo uma oitava. — Ele realmente disse isso?

— Ele disse que eu faço manha para conseguir as coisas — Eduarda sussurrou, chocada com a precisão da análise de Emanuel, mas ofendida por ser exposta daquela forma.

Sara não esperou mais. Ela empurrou a porta do escritório com a força de um furacão, fazendo-a bater contra a parede. Emanuel, que estava sentado com os pés sobre a mesa e um copo de uísque na mão, congelou. Klaus e Rodrigo, sentados nas poltronas à frente dele, arregalaram os olhos.

— Então quer dizer que a "Dona Encrenca Versão Premium" chegou para a reunião? — Sara disparou, parando no meio da sala com as mãos nos quadris, fazendo o robe de seda balançar ameaçadoramente.

Eduarda entrou logo atrás, tentando manter uma expressão séria, embora sua natureza doce a fizesse parecer mais uma criança injustiçada do que uma ameaça real.

— E a "Edição Especial" também quer saber por que estamos sendo chamadas de encrenqueiras pelas costas — disse Eduarda, cruzando os braços e tentando, sem sucesso, não fazer o bico que Emanuel tanto conhecia.

O silêncio no escritório foi absoluto por três segundos. Klaus e Rodrigo olharam para Emanuel, esperando uma explosão ou um pedido de desculpas formal. Emanuel, porém, baixou lentamente os pés da mesa. Ele olhou para Sara, depois para Eduarda, e seus olhos brilharam com uma diversão que ele tentou desesperadamente esconder.

Ele levou o copo aos lábios, dando um gole demorado para disfarçar o tremor nos cantos da boca.

— Emanuel! — Sara exclamou, batendo o pé. — Não tente se esconder atrás desse uísque. Nós ouvimos tudo. "Dona Encrenca"? É assim que você fala de nós para os seus amigos?

Emanuel colocou o copo na mesa e soltou o ar, a risada finalmente vencendo a barreira de sua seriedade. Ele riu baixo, uma risada gutural que fez seus ombros largos tremerem.

— Bom — disse ele, olhando para os amigos que pareciam querer desaparecer através do carpete —, eu menti? Olhem para vocês duas agora. Uma entrou derrubando a porta e a outra está me olhando como se eu tivesse roubado o doce da Maya. Se isso não é a definição de encrenca, eu não sei o que é.

— Isso é indignação, Emanuel! — Eduarda protestou, aproximando-se da mesa. — Eu não sou encrenqueira. Eu sou... compreensiva.

— Duda, querida — Emanuel disse, levantando-se e contornando a mesa com a calma de um predador que sabe que já venceu —, na semana passada você me fez trocar todos os móveis do berçário da Maya porque achou que o tom de bege da poltrona estava "triste demais". Você chorou por dois dias até eu contratar uma equipe de marcenaria para vir aqui no domingo.

Eduarda abriu a boca para rebater, mas a fechou logo em seguida, o rosto ficando ainda mais vermelho.

— E você, Sara — Emanuel virou-se para a esposa, que ainda mantinha a pose de fúria —, você convenceu o gerente do shopping a abrir a loja de sapatos duas horas mais cedo porque teve um "pressentimento" de que o último par de scarpin vermelho seria vendido se você esperasse até as dez. E depois me ligou dizendo que eu precisava ir buscá-la porque a sacola estava pesada demais para o seu braço "delicado".

Sara deu de ombros, sem perder a pose.

— Era uma emergência fashion, Emanuel. E você ama o meu braço delicado.

— Exatamente — disse Emanuel, agora parado entre as duas. Ele colocou uma mão na cintura de Sara e a outra no ombro de Eduarda, puxando-as levemente para si. — Eu amo as minhas Donas Encrenca. Mas não muda o fato de que vocês dão trabalho.

Klaus, percebendo que o clima de execução havia se transformado em um momento familiar peculiar, soltou um suspiro de alívio.

— Bom, Emanuel, acho que nossa reunião técnica sobre Berlim acabou, não é? — perguntou Klaus, levantando-se rapidamente.

— Definitivamente — respondeu Emanuel, sem tirar os olhos das mulheres. — As chefes chegaram.

Quando os amigos saíram e a porta se fechou, Sara se desvencilhou do braço de Emanuel, mas já não parecia tão brava. O brilho de deboche havia voltado aos seus olhos.

— Você tem muita sorte de ser rico e bonito, Emanuel — disse ela, apontando um dedo para o peito dele. — Porque se dependesse da sua discrição, você estaria dormindo no sofá hoje.

— Eu não me importo com o sofá, contanto que uma de vocês vá para lá comigo — ele brincou, fazendo Eduarda soltar um risinho involuntário.

— Não ria, Duda! — Sara repreendeu, embora estivesse sorrindo também. — Nós temos que manter a frente unida. Ele nos chamou de encrenqueiras. Isso exige uma reparação.

Emanuel arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.

— E qual seria a reparação?

— Jantar — disse Eduarda, aproveitando a oportunidade. — No L'Etoile. E você vai levar a gente e as bebês, e não vai reclamar se a Maya quiser jogar comida no chão ou se a Ágata começar a gritar com o garçom.

Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Um restaurante francês com duas bebês de um ano e duas mulheres que acabaram de descobrir que eu tenho apelidos para elas? Isso não é um jantar, é um teste de resistência.

— É o preço a pagar por falar demais, Manu — Sara disse, passando as mãos pelo pescoço dele, os diamantes da pulseira brilhando sob a luz do escritório. — E eu quero aquele vinho que custa o equivalente a um estúdio de tatuagem em Berlim.

Emanuel olhou para Sara, depois para a doçura persistente no olhar de Eduarda, e soube que não tinha saída. Ele era o homem que controlava estúdios ao redor do mundo, que lidava com os tipos mais durões da indústria, mas ali, naquele duplex, ele era apenas o porto seguro de um trio de mulheres (agora quarteto, com as bebês) que o dominavam completamente.

— Tudo bem — cedeu ele. — Vão se arrumar. Eu vou ver como as meninas estão.

Eduarda deu um beijo rápido no rosto dele antes de sair.

— Você ainda é o meu primo favorito, Emanuel. Mesmo sendo um fofoqueiro.

— Eu não sou fofoqueiro, Duda. Eu sou um observador da realidade — ele gritou enquanto elas saíam do escritório rindo.

Emanuel ficou sozinho por um momento, olhando para a porta. Ele sorriu, balançando a cabeça. A vida dele era um malabarismo constante. Havia a vulgaridade luxuosa de Sara, que o mantinha alerta e acendia seu desejo; havia a sensibilidade de Eduarda, que lhe trazia a paz que ele nem sabia que precisava; e havia as duas filhas, Ágata e Maya, que eram o futuro de tudo o que ele construíra.

Ele caminhou até o berçário. Maya havia acabado de acordar e estava sentada no berço, olhando para a porta com expectativa. Ao ver Emanuel, ela abriu um sorriso banguela e estendeu os braços.

— Pa-pa! — ela exclamou, com a voz fina e decidida.

Emanuel a tirou do berço, sentindo o cheiro de bebê e a força com que ela se agarrava ao seu pescoço. No berço ao lado, Ágata se espreguiçou, pronta para começar o seu habitual show de demandas matinais (ou vespertinas).

— É, Maya... — murmurou Emanuel, beijando a bochecha da filha. — Você também vai ser uma Dona Encrenca, não vai? Já está no seu DNA.

Ele pegou Ágata no outro braço, equilibrando as duas meninas com a facilidade de quem nascera para aquele papel.

O jantar foi exatamente o que Emanuel previra: um caos controlado. Sara estava deslumbrante em um vestido vermelho justo, atraindo todos os olhares do restaurante, enquanto Eduarda usava um vestido de seda verde-água que a fazia parecer uma ninfa. As bebês, sentadas em cadeirões de luxo providenciados pelo estabelecimento após uma ligação "persuasiva" de Emanuel, faziam o possível para testar a paciência dos garçons.

Ágata decidiu que o guardanapo de linho era um brinquedo de arremesso, e Maya, com sua seriedade característica, tentava estudar a composição química do purê de batatas com as mãos.

— Veja pelo lado positivo, Manu — disse Sara, erguendo sua taça de vinho caríssimo. — Pelo menos ninguém pode dizer que a sua vida é entediante.

— Entediante? — Emanuel riu, observando Eduarda tentar limpar o queixo de Maya enquanto a bebê ria da situação. — Eu daria tudo por cinco minutos de tédio.

— Mentira — Eduarda disse, olhando para ele com doçura. — Você adora ser o centro do nosso mundo.

Emanuel não pôde negar. Ele olhou para as quatro mulheres à sua volta — as duas que ele amava com intensidades diferentes, mas iguais em importância, e as duas que eram o fruto daquela união complexa. A mentira que ele contara para proteger Eduarda havia se transformado em uma verdade tão sólida que ele às vezes esquecia que Maya não compartilhava seu sangue biológico. Mas ao olhar para a mancha no braço da bebê e para a determinação em seu olhar, ele sabia que a biologia era apenas um detalhe técnico.

— Talvez — admitiu Emanuel, levantando sua própria taça. — Mas da próxima vez que eu for falar de vocês para o Klaus, vou usar um codinome mais difícil de decifrar.

— Tente "Minhas Rainhas" — sugeriu Sara, com um piscar de olhos.

— Ou "Minhas Vidas" — completou Eduarda, timidamente.

Emanuel sorriu, o olhar perdendo-se na beleza das duas.

— Acho que vou ficar com "Minhas Donas Encrenca". É mais honesto.

E sob a luz de velas do restaurante mais caro do Rio, entre o som de talheres de prata e o riso de bebês, Emanuel selou seu destino. Ele era um homem de posses, de poder e de marcas na pele, mas as marcas mais profundas eram aquelas que não se via: as marcas deixadas pelo amor de três mulheres que, entre manhas, joias e fraldas, haviam feito dele o homem mais rico do mundo, de uma forma que o dinheiro jamais poderia explicar.

A noite terminou com as bebês dormindo no carro, Sara encostada no ombro de Emanuel e Eduarda segurando sua mão no banco de trás. O duplex os esperava, silencioso e luxuoso, pronto para mais um dia de caos, proteção e aquele equilíbrio torto que só eles entendiam. Emanuel estacionou o carro e olhou pelo retrovisor, vendo as três mulheres de sua vida em paz.

— Encrenca — sussurrou ele para si mesmo, com um sorriso de pura satisfação. — A melhor encrenca em que eu já me meti.

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