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O Despertar da Rebeldia e o Caos do Cuidado
O silêncio na cobertura de Emanuel era cortado apenas pelo som do gelo batendo contra o cristal do copo de uísque. Ele estava sentado em sua poltrona de couro legítimo, observando a cidade através da parede de vidro, mas sua mente estava a quilômetros dali, na casa simples e perfumada de Eduarda. A raiva da manhã ainda pulsava em suas têmporas como uma enxaqueca persistente. Ele acreditava ter restaurado a ordem, acreditava que sua palavra havia sido o ponto final.
Sara saiu do closet usando um conjunto de lingerie preta rendada e um robe de seda aberto, caminhando com a confiança de quem possuía o mundo. Ela se aproximou de Emanuel, notando o brilho obsessivo em seus olhos.
— Você ainda está remoendo aquilo, Manu? — Ela se sentou no braço da poltrona, passando os dedos longos pelos cabelos curtos dele. — A menina já apagou a foto. O mundo não acabou.
Emanuel tomou um gole longo da bebida, sentindo o líquido queimar a garganta.
— Ela precisava entender, Sara. A Eduarda é ingênua, ela não vê a maldade nas pessoas. Aquele biquíni... era um convite para desrespeito.
Sara soltou uma risada anasalada, uma mistura de deboche e diversão.
— Você chama de desrespeito, eu chamo de beleza. Mas relaxa, lobão. Você já marcou o território. Agora, por que não foca em mim? O jantar vai demorar e eu estou com um humor... expansivo.
Emanuel a puxou para o colo, mas antes que pudesse responder, seu celular, estrategicamente posicionado sobre a mesa lateral, brilhou com uma notificação. Não era uma mensagem. Era um alerta de atividade. Seus olhos se fixaram na tela e o copo de uísque quase escorregou de sua mão.
A foto ainda estava lá.
Não apenas estava lá, como o número de curtidas e comentários havia triplicado na última hora. Eduarda não tinha deletado. Ela tinha, pela primeira vez na vida, ignorado uma ordem direta dele. Ela o havia desafiado silenciosamente, deixando sua imagem exposta para quem quisesse ver.
— Aquela... — As palavras morreram na garganta de Emanuel, transformando-se em um rosnado.
— O que foi agora? — Sara se inclinou para olhar a tela e soltou uma gargalhada genuína, jogando a cabeça para trás. — Oh, meu Deus! A ratinha tem dentes, Manu! Ela te enganou na cara dura.
Emanuel levantou-se bruscamente, obrigando Sara a se equilibrar para não cair. Ele pegou o celular e as chaves do carro, o rosto transformado em uma máscara de fúria fria.
— Onde você vai? O jantar, Emanuel! — Sara gritou, embora houvesse um brilho de excitação em seus olhos. Ela adorava o caos.
— O jantar está cancelado. Eu vou buscar a Eduarda e a Maya. Agora.
***
Na casa de Eduarda, o cenário era o oposto da frieza metálica da cobertura. O ar estava pesado, carregado com o cheiro de talco e o som do choro manhoso de Maya. A pequena, geralmente tão alegre, estava em um dia difícil. O corte no joelho da queda do balanço parecia incomodá-la, mas era mais do que isso; ela sentia a agitação da mãe.
Eduarda caminhava de um lado para o outro no quarto pequeno, balançando a filha no colo. Seus braços doíam, suas costas clamavam por descanso e seus olhos ardiam de sono. Maya não queria o berço, não queria o chão, não queria os brinquedos. Ela só queria o calor do corpo de Eduarda, escondendo o rosto no pescoço da mãe e soltando gemidos baixinhos de insatisfação.
— Calma, meu amor... a mamãe está aqui — sussurrava Eduarda, sentindo uma lágrima solitária escorrer.
Ela sabia que deveria ter apagado a foto. O medo da reação de Emanuel a assombrava desde o momento em que ele saiu do carro, mas algo dentro dela — uma centelha de dignidade que ela nem sabia que possuía — a impediu. Ela estava cansada de ser tratada como uma extensão da vontade dele.
O som de um motor potente rugindo na rua fez seu coração saltar. Ela conhecia aquele som. Segundos depois, a campainha tocou com uma insistência agressiva.
— Duda! Abre essa porta! — A voz de Emanuel atravessou a madeira, autoritária e cortante.
Eduarda estremeceu. Maya, assustada pelo tom de voz, começou a chorar mais alto, um choro estridente de puro cansaço. Com as mãos trêmulas e a filha nos braços, Eduarda foi até a sala e abriu a porta.
Emanuel entrou como um furacão. Ele não pediu licença, apenas invadiu o espaço, sua presença preenchendo cada canto da sala modesta.
— Você mentiu para mim — disse ele, parando a centímetros dela. A fúria em seus olhos era tão palpável que o ar parecia vibrar. — Você disse que tinha apagado. Você me olhou nos olhos e mentiu.
— Eu... eu não consegui, Manu — ela gaguejou, apertando Maya contra o peito. A menina soluçava, o rosto vermelho. — É a minha conta, é a minha foto. Você não pode entrar aqui e exigir...
— Eu posso tudo quando se trata de proteger você da sua própria burrice! — ele explodiu, a voz subindo de tom, fazendo Maya dar um grito de pavor. — Você tem noção do que fez? Você me desafiou por um capricho, por curtidas de estranhos?
— Não é por curtidas! — Eduarda gritou de volta, sua voz saindo fina e carregada de emoção. — É porque eu queria me sentir dona de algo! Você controla o que eu visto, onde eu vou, até o que a minha filha come! Eu só queria uma coisa que fosse minha!
— Nada é só seu, Eduarda! — Emanuel deu um passo à frente, a mão indo para a nuca dela, não com violência, mas com uma possessividade que a imobilizou. — Eu assumi essa criança. Eu sustento essa casa. Eu protejo você. Isso me dá o direito de decidir o que é seguro para você.
Maya, no meio do embate, começou a se debater, drenando as últimas forças de Eduarda. A menina estava exausta, e o estresse do ambiente a estava levando ao limite.
— Emanuel, por favor... ela está mal, ela não dorme desde cedo — Eduarda implorou, as pernas fraquejando. — Ela só quer colo, ela está drenando tudo de mim. Eu não aguento mais discutir.
Emanuel olhou para a menina e, por um momento, a fúria cedeu espaço ao instinto paternal. Ele viu o exaurimento no rosto de Eduarda, as olheiras profundas, a palidez. Ele viu como Maya se agarrava a ela como se o mundo estivesse acabando.
— Me dá ela aqui — ordenou ele, estendendo os braços.
— Não, ela só quer a mim, ela não vai...
— Eu disse para me dar a menina, Eduarda. Você está tremendo, vai acabar caindo com ela.
Relutante, Eduarda entregou Maya. Para sua surpresa, assim que a menina sentiu os braços fortes de Emanuel e o cheiro familiar de seu perfume amadeirado, o choro estridente diminuiu para soluços baixos. Emanuel a aninhou contra o ombro largo, uma mão grande espalmada nas costas da pequena, transmitindo uma segurança que Eduarda, em seu estado de nervos, não conseguia prover.
— Shhh... o papai está aqui, pequena. Calma — ele murmurou, a voz mudando completamente de tom.
Eduarda desabou no sofá, cobrindo o rosto com as mãos. O silêncio que se seguiu foi apenas quebrado pelos passos rítmicos de Emanuel caminhando pela sala, ninando Maya.
— Você vai apagar a foto agora — disse ele, sem olhar para Eduarda, mas o tom não era mais de grito, era de uma promessa perigosa. — E você vai arrumar uma mala para você e para ela. Vocês vão morar na cobertura. A partir de hoje.
Eduarda levantou a cabeça, os olhos arregalados.
— O quê? Não, Emanuel! Meus pais... eles não vão deixar, e eu tenho a faculdade, o ballet...
— Seus pais são jovens, eles têm a vida deles. E quanto à faculdade e ao ballet, eu mesmo te levo. Mas eu não vou mais permitir que você fique aqui, escondendo coisas de mim e cuidando da Maya sozinha até chegar à exaustão. Se ela quer colo, ela terá o meu. Se ela quer dormir com alguém, será entre nós.
— Sara nunca vai aceitar isso... — Eduarda tentou, uma última defesa.
— Sara foi quem sugeriu, Eduarda — Emanuel disse, parando diante dela com Maya quase dormindo em seu ombro. — Ela quer você lá. Eu quero você lá. E o que eu quero, eu consigo.
— Você é um monstro — ela sussurrou, embora o alívio de ter o peso de Maya retirado de seus braços fosse inegável.
— Eu sou o homem que cuida do que é dele — ele corrigiu. — Agora, apague a foto. Na minha frente.
Eduarda pegou o celular. Com o coração pesado, ela deletou a imagem. Emanuel observou cada movimento, a satisfação brilhando em seus olhos escuros.
— Ótimo. Agora vá arrumar as coisas. Eu não vou pedir de novo.
***
A chegada na cobertura, tarde da noite, foi marcada por uma estranha calmaria. Sara estava no sofá, bebendo vinho e assistindo a um reality show qualquer. Ela se levantou quando viu o trio entrar, um sorriso predatório e acolhedor nos lábios.
— Bem-vinda ao seu novo lar, Duda — disse Sara, aproximando-se e dando um beijo na bochecha da prima, que parecia um fantasma. — Não se preocupe com o Manu, ele é um ogro, mas eu vou te ensinar a domar ele.
— Ela está exausta — Emanuel disse, entregando Maya, que agora dormia profundamente, para Eduarda. — Leve ela para o quarto de hóspedes que já está preparado ao lado do da Ágata. Eu vou levar as malas.
Eduarda subiu as escadas em transe. O quarto era imenso, decorado em tons de creme e dourado, com um berço de madeira nobre que parecia uma obra de arte. Ela colocou Maya ali, mas a menina, sentindo o afastamento do corpo da mãe, começou a resmungar imediatamente.
— Não, meu amor, por favor... dorme — Eduarda suplicou em voz baixa.
Mas Maya não dormiu. Ela acordou de vez, esticando os bracinhos e começando a chorar, um choro de quem estava em um ambiente estranho e precisava de segurança absoluta.
Emanuel entrou no quarto com as malas e viu a cena. Ele se aproximou da cama de casal imensa que dominava o quarto.
— Ela não vai dormir no berço hoje — decidiu ele. — Ela está assustada.
— Eu durmo com ela no sofá, não quero atrapalhar...
— Você vai dormir aqui, nesta cama. Com ela. E eu vou ficar aqui até que vocês duas apaguem.
Eduarda não teve forças para protestar. Ela se deitou, ainda com a roupa do corpo, e puxou Maya para perto. A menina se acalmou instantaneamente, grudando-se a ela. Emanuel sentou-se na beira da cama, observando-as.
A noite, porém, estava longe de ser tranquila. Maya acordava a cada hora, chorando, procurando o contato físico. Eduarda, em um estado de semi-consciência, tentava acalmá-la, mas a energia da menina parecia inesgotável em sua manha.
Em uma dessas vezes, por volta das três da manhã, Eduarda sentiu a cama afundar atrás dela.
— Deixa que eu cuido agora, Duda. Tenta dormir — a voz de Emanuel soou em seu ouvido.
Ele se deitou atrás dela, envolvendo Eduarda e Maya em um abraço protetor. O calor do corpo dele era avassalador. Eduarda sentiu a mão grande de Emanuel acariciar a cabeça de Maya, enquanto a outra repousava firmemente em sua própria cintura.
— Manu... a Sara... — Eduarda murmurou, o sono a vencendo.
— A Sara sabe onde eu estou. E ela sabe que este é o meu lugar também.
Naquela madrugada, o caos do choro de Maya foi substituído por uma tensão silenciosa e elétrica. Eduarda estava presa entre a filha e o homem que a amava com uma intensidade que a aterrorizava e a atraía. Ela sabia que, ao entrar naquela casa, tinha entregado a última parcela de sua liberdade.
Emanuel, no escuro, sorriu. Ele sentia o coração de Eduarda batendo rápido contra seu braço e o peso de Maya em seu peito. Ele tinha o que queria. A pureza de Eduarda estava sob seu teto, protegida do mundo, e a lealdade de Sara estava garantida no quarto ao lado.
Ele era o mestre daquele império de sombras e afetos, e ninguém, nem mesmo o desejo de independência de Eduarda, mudaria isso. A maré estava alta, e ele pretendia navegar naquelas águas até que as duas mulheres fossem, em corpo e alma, inteiramente suas.