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O Labirinto de Seda e Possessão

A cobertura de Emanuel pulsava com uma energia diferente desde que Eduarda e Maya haviam se mudado. O que antes era um monumento ao minimalismo e ao poder, agora estava pontilhado por brinquedos de madeira, o cheiro suave de lavanda infantil e a presença etérea de Eduarda, que parecia uma aparição delicada flutuando pelos corredores de mármore.

Naquela noite, porém, a atmosfera era de preparação intensa. Emanuel completava mais um ano de sucesso em seus empreendimentos, e um de seus sócios mais próximos, um magnata do ramo imobiliário, oferecia uma festa em sua mansão nos Jardins. Não era apenas um evento social; era uma demonstração de status.

No quarto principal, Sara finalizava sua transformação. Ela usava um vestido de paetês dourados que abraçava cada curva de seu corpo siliconado, com um decote generoso que desafiava a gravidade. O batom vermelho sangue era a assinatura final. Ágata, já vestida com um tutu de grife, estava sentada na cama, observando a mãe com olhos fascinados.

— Você está uma deusa, mamãe — disse Sara para si mesma no espelho, piscando para o próprio reflexo antes de se virar para a filha. — E você, minha pequena joia, vai ser a sensação da festa. Nada de chorar, ouviu? As mulheres de Emanuel sempre brilham.

Enquanto isso, no quarto de hóspedes, o cenário era de puro caos materno.

Eduarda estava sentada na beira da cama, vestindo apenas um robe de cetim claro. Seus cabelos castanhos estavam presos pela metade, mas vários fios já escapavam. Maya, em um estado de dengo que parecia não ter fim, estava grudada ao seu pescoço como se sua vida dependesse disso. A menina de um ano soluçava baixinho, um choro sem lágrimas, apenas manha pura e exaustão.

— Só um pouquinho, meu amor... a mamãe precisa colocar o vestido — implorou Eduarda, a voz rouca.

Assim que ela tentou colocar Maya no tapete felpudo sobre alguns brinquedos, a menina arqueou o corpo para trás e soltou um grito estridente, as mãos gordinhas agarrando a gola do robe de Eduarda com uma força impressionante.

— Não, não, não... — Eduarda suspirou, sentindo as lágrimas de cansaço picarem seus olhos. — Por favor, Maya. O papai vai ficar bravo se a gente atrasar.

A porta do quarto se abriu e Emanuel entrou. Ele já estava pronto, usando um terno sob medida azul-marinho, sem gravata, com os primeiros botões da camisa abertos para revelar a base das tatuagens no pescoço. Ele exalava poder e uma impaciência contida.

— Por que você ainda não está pronta, Eduarda? O carro chega em dez minutos — ele disse, a voz grave ecoando pelo quarto.

— Ela não me solta, Manu — Eduarda olhou para ele, os olhos grandes e úmidos, a imagem da fragilidade. — Toda vez que eu tento colocá-la no chão, ela faz um escândalo. Eu não consegui nem passar a maquiagem.

Emanuel caminhou até elas. Ele observou a prima, notando como o robe deslizava pelo ombro dela, revelando a pele alva e macia. O contraste entre a agitação de Maya e a doçura passiva de Eduarda sempre acendia nele um instinto de proteção que beirava a asfixia.

— Me dá ela aqui — ordenou Emanuel, estendendo os braços.

— Ela vai gritar, Manu... ela está muito manhosa hoje.

— Ela precisa entender quem manda — ele disse, pegando a menina com firmeza.

Maya começou a protestar, mas Emanuel a segurou contra o peito largo, falando baixo em seu ouvido, uma ladainha de autoridade e carinho que só ele conseguia executar. A menina acalmou-se por um momento, mas continuou a fungar, olhando para Eduarda com traição nos olhos.

— Vá se vestir — disse Emanuel para Eduarda. — Agora. Eu fico com ela no corredor enquanto você termina. E use o vestido que eu deixei sobre a poltrona. Nada de roupas largas hoje, Eduarda. Eu quero que você se apresente como a mulher que é.

Eduarda assentiu, submissa. Ela pegou o vestido de seda verde-esmeralda, uma peça que Emanuel havia escolhido pessoalmente. Era elegante, mas justo o suficiente para marcar sua cintura fina e o contorno de seus seios médios.

***

A festa era um mar de luxo, perfumes caros e conversas sussurradas sobre milhões de dólares. Quando o grupo de Emanuel entrou, o salão pareceu silenciar por um segundo.

Emanuel caminhava no centro, uma mão possessiva na base das costas de Sara, que desfilava como se fosse a dona do lugar, carregando Ágata no quadril com uma mão e uma taça de champanhe na outra. Ágata, perfeitamente comportada, brincava com os colares de pérolas da mãe.

Do outro lado, Eduarda caminhava quase colada a Emanuel, sentindo-se pequena sob os olhares curiosos da elite paulistana. Ela carregava Maya, que, fiel ao seu estado de espírito, não permitia que a mãe desse um passo sem estar em contato físico total.

— Manu, querido! — Um homem alto e grisalho se aproximou, abraçando Emanuel. — E quem são essas visões? A Sara eu conheço bem, sempre deslumbrante. Mas esta... — Ele olhou para Eduarda com um interesse que fez os olhos de Emanuel escurecerem instantaneamente.

— Minha prima, Eduarda — Emanuel disse, a voz fria como gelo, enquanto seu braço rodeava a cintura de Eduarda, puxando-a para mais perto dele, quase fundindo os corpos. — E esta é a minha filha, Maya.

— Encantado — disse o homem, tentando pegar a mão de Eduarda para um beijo.

Maya, sentindo a aproximação do estranho, soltou um grito agudo de protesto e enterrou o rosto no ombro de Eduarda, chutando as pernas no ar.

— Oh, parece que a pequena é brava! — riu o homem, visivelmente desconfortável.

— Ela só é seletiva — Sara interveio, com um sorriso irônico e provocador. — Ela sabe quem é família e quem é apenas... paisagem. Não é, Duda?

Eduarda apenas forçou um sorriso, sentindo o peso de Maya aumentar a cada minuto. Seus braços começavam a tremer. O cansaço das noites mal dormidas e da rotina dupla entre a faculdade de História da Arte e as aulas de ballet estava cobrando seu preço.

— Manu... eu preciso sentar um pouco — Eduarda sussurrou no ouvido dele. — Meus braços estão falhando.

Emanuel olhou para ela. Ele viu o suor fino na testa de Eduarda e a palidez de seu rosto. Sua primeira reação foi de irritação — ele queria que ela estivesse impecável ao seu lado —, mas o instinto protetor falou mais alto.

— Tem um lounge ali no canto, mais reservado. Vá para lá. Eu vou pegar algo para você beber.

— Eu posso levar a Maya por um momento, Duda — ofereceu Sara, estendendo a mão livre. — Ágata está distraída com o brilho dos lustres, eu dou conta das duas.

Eduarda tentou passar a filha para Sara, mas o resultado foi um desastre. Maya começou a se debater com tanta força que quase caiu. O escândalo chamou a atenção de várias pessoas ao redor.

— Não! Mamãe! — gritava a menina, as lágrimas finalmente jorrando.

— Chega — disse Emanuel, sua voz cortando o choro como uma faca. — Eduarda, leve a menina para o lounge. Sara, fique aqui com os convidados, eu já volto.

Emanuel conduziu Eduarda até um sofá de veludo afastado da agitação principal. Assim que se sentaram, Eduarda tentou colocar Maya no sofá ao seu lado, esperando que o espaço maior a acalmasse.

O erro foi fatal. Maya tocou o estofado e, ao perceber que não estava mais no colo, soltou um berro que ecoou por todo o salão, jogando-se no chão e batendo as perninhas com força.

— Maya, para com isso! — Eduarda exclamou, sentindo-se humilhada. — Todo mundo está olhando!

— Deixe-a — disse Emanuel, cruzando os braços e observando a cena com uma calma assustadora. — Ela está testando você, Eduarda. E você está cedendo.

— Ela é um bebê, Emanuel! Ela está cansada, eu estou cansada... — Eduarda começou a chorar silenciosamente, as lágrimas lavando a maquiagem leve que ela havia conseguido passar.

Emanuel sentiu um aperto no peito. Ele odiava ver Eduarda sofrer, mas odiava ainda mais a sensação de que não tinha o controle total sobre a situação. Ele se ajoelhou no chão, ignorando o fato de que seu terno de milhares de dólares estava tocando o piso da festa, e pegou Maya pelos braços, levantando-a até o nível de seus olhos.

— Escute aqui, mocinha — ele disse, o tom de voz baixo e vibrante de autoridade. — Você vai parar agora. Ou nós vamos para casa e você não vai ver o papai pelo resto da semana. Entendeu?

Maya parou o choro abruptamente, soluçando e olhando para ele com olhos arregalados. O medo e o respeito que ela tinha por Emanuel eram a única coisa capaz de romper seu dengo.

— Colo... — ela pediu, a voz sumindo.

— Colo da mamãe, mas sem barulho — Emanuel a entregou de volta para Eduarda, que a acolheu com um suspiro de alívio.

Emanuel sentou-se ao lado de Eduarda e passou o braço por cima dos ombros dela, puxando a cabeça da prima para o seu peito. Por um momento, o mundo exterior desapareceu.

— Você é fraca demais com ela, Duda — ele murmurou, embora seus dedos acariciassem o braço dela com uma ternura infinita.

— Eu não sou fraca, Manu... eu só estou exausta. É difícil fazer tudo sozinha.

— Você não está sozinha. Eu estou aqui. Eu dou tudo o que vocês precisam. Por que você ainda insiste em agir como se estivesse desamparada?

Eduarda fechou os olhos, sentindo o perfume dele, a segurança que ele emanava.

— Porque às vezes eu sinto que o preço da sua ajuda é a minha alma, Manu. Você quer que eu seja o que você quer, não o que eu sou.

Emanuel não respondeu. Ele apenas apertou o abraço. Ele não via aquilo como um preço; via como um presente. Ele a estava moldando, protegendo-a das asperezas da vida que ele conhecia tão bem.

Sara apareceu no lounge pouco depois, carregando Ágata, que agora dormia pacificamente em seu ombro. Ela observou a cena — Emanuel com Eduarda e Maya nos braços — e não sentiu um pingo de ciúme. Para ela, aquilo era a ordem natural das coisas. Emanuel era o sol, e elas eram os planetas que orbitavam ao redor dele.

— A festa está ficando chata — disse Sara, sentando-se graciosamente na poltrona em frente a eles, cruzando as pernas e exibindo a sandália de salto agulha. — O Manu já fez os contatos que precisava. O que acham de irmos embora? Podemos pedir uma pizza na cobertura e abrir aquele vinho que custa o PIB de um país pequeno.

Eduarda olhou para Sara, surpresa com a falta de ressentimento na voz da outra.

— Você não se importa, Sara? É a festa do amigo do Emanuel...

— Querida, eu me importo com o meu conforto — Sara piscou, retocando o batom vermelho sem precisar de espelho. — E o Manu já está com aquela cara de quem vai socar alguém se mais um homem olhar para as suas pernas nesse vestido verde. Vamos logo, antes que ele cause um incidente diplomático.

Emanuel soltou uma risada curta e seca.

— Ela tem razão. Vamos.

O caminho até o carro foi mais tranquilo. Maya, vencida pelo cansaço e pela autoridade de Emanuel, finalmente dormiu no colo de Eduarda. No banco de trás do SUV blindado, o silêncio era preenchido apenas pela respiração pesada das crianças.

Emanuel dirigia com uma mão, enquanto a outra repousava sobre a coxa de Sara, que estava no banco do passageiro. Mas seus olhos, pelo espelho retrovisor, não saíam de Eduarda.

Quando chegaram à cobertura, o ambiente estava silencioso. As babás, que Emanuel pagava generosamente para estarem de prontidão, levaram as meninas para seus respectivos quartos.

Eduarda caminhou até a varanda, sentindo a brisa da noite paulistana. Ela estava encostada no parapeito quando sentiu a presença de Emanuel atrás dela. Ele não disse nada, apenas a envolveu em um abraço por trás, as mãos grandes espalmadas sobre o ventre dela, sentindo a seda do vestido.

— Você estava linda hoje — ele sussurrou contra o seu cabelo. — Mas eu prefiro você aqui. Onde ninguém mais pode te tocar.

— Manu... a Sara está na sala — Eduarda disse, o coração batendo forte, uma mistura de medo e desejo.

— A Sara sabe que eu te amo, Eduarda. Eu já contei para ela. Não há segredos entre nós três.

Eduarda virou-se nos braços dele, os olhos arregalados de choque.

— Você... você contou? O que ela disse?

— Ela disse que quer que eu seja feliz. E que se a minha felicidade depende de ter as duas mulheres que eu amo ao meu lado, então é assim que será.

Eduarda sentiu a cabeça girar. A moralidade simples com a qual ela havia sido criada estava sendo estraçalhada pela realidade complexa e possessiva de Emanuel. Ela olhou para a sala e viu Sara, que estava servindo três taças de vinho, olhando para eles com um sorriso enigmático e cúmplice.

— Eu não sei se consigo, Manu... isso é loucura — Eduarda murmurou, embora não fizesse menção de se afastar.

— Você já está fazendo, Duda — Emanuel disse, inclinando-se e beijando a testa dela com uma devoção quase religiosa. — Você mora aqui. Sua filha me chama de pai. Eu cuido de cada detalhe da sua vida. Você já é minha. Só falta aceitar que o resto do mundo não importa.

Ele a conduziu de volta para a sala. Sara entregou uma taça a cada um.

— Um brinde — disse Sara, levantando sua taça. — À nossa família nada convencional. E ao Emanuel, que tem a sorte de ter as duas mulheres mais incríveis desta cidade aos seus pés.

Eduarda tomou um gole do vinho, sentindo o calor da bebida se espalhar. Ela olhou para Emanuel, que a observava com uma intensidade que prometia proteção e controle absoluto, e depois para Sara, que exalava uma confiança inabalável.

Pela primeira vez em meses, o cansaço de Eduarda pareceu diminuir. Ela não precisava mais lutar contra a maré. Ela podia apenas se deixar levar pela correnteza que Emanuel havia criado para ela.

— À família — Eduarda sussurrou, a voz trêmula, mas decidida.

Naquela noite, sob o céu estrelado de São Paulo, o labirinto de possessão de Emanuel finalmente se fechou. Ele tinha tudo o que queria: o fogo e a lealdade de Sara, a doçura e a dependência de Eduarda, e as duas filhas que garantiriam que aquele vínculo jamais fosse quebrado.

Ele era o mestre, o protetor e o amante. E, enquanto as luzes da cidade brilhavam lá embaixo, ele sabia que, dentro daquela cobertura, o mundo era exatamente como ele havia planejado. Um lugar onde o amor não tinha regras, apenas donos.

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