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Tramas de Seda e Espinhos
A manhã na fazenda dos Albuquerque nasceu sob uma tensão que nem mesmo o aroma de café fresco e bolos de milho conseguia mascarar. O céu estava límpido após a chuva da noite anterior, mas o clima dentro do casarão era de tempestade iminente. O conflito começou na cozinha, um território que, embora pertencesse aos avós, era frequentemente disputado pelas filhas — as mães de Sara e Eduarda.
Heloísa, mãe de Sara, ostentava a mesma autoconfiança ruidosa da filha. Já sua irmã, Clarice, mãe de Eduarda, era o retrato da modernidade e da leveza, embora possuísse um instinto protetor feroz quando se tratava da filha bailarina. O estopim foi um comentário de Heloísa sobre a "falta de ambição" de Eduarda e como ela parecia uma criança perdida no mundo, enquanto Sara já estava construindo uma família e um império.
— Você fala como se a Sara fosse um exemplo de virtude, Heloísa! — rebateu Clarice, batendo a xícara de porcelana na mesa de madeira. — Minha filha estuda, trabalha, tem uma carreira artística. Ela não precisa de um marido rico para validar quem ela é.
— Ah, por favor, Clarice! — Heloísa soltou uma risada debochada. — A Sara administra a própria vida com maestria. E veja a Valentina que está chegando! Eduarda parece que vai quebrar se alguém falar mais alto. Ela é frágil demais para esse mundo.
Eduarda, que acabara de entrar na cozinha com seus passos leves de bailarina, parou na soleira. O rosto empalideceu. Ela sentiu o peso das palavras da tia como se fossem pedras. Emanuel, que estava sentado em um canto lendo relatórios em seu tablet, ergueu os olhos. Sua expressão era uma máscara de indiferença, mas seus dedos apertaram a borda do aparelho.
— Eu não sou frágil, tia Heloísa — sussurrou Eduarda, a voz trêmula.
Clarice levantou-se imediatamente, abraçando a filha pelos ombros.
— Não dê ouvidos a ela, Duda. Heloísa sempre teve inveja da sua sensibilidade.
— Inveja? — Heloísa levantou-se também, a voz subindo uma oitava. — Eu tenho pena! Ela se esconde atrás de você como se tivesse cinco anos!
A discussão escalou rapidamente. Gritos sobre o passado, escolhas de vida e a educação das filhas ecoavam pelas paredes de pedra da fazenda. Eduarda, sentindo-se sufocada, enterrou o rosto no pescoço da mãe. Ela era manhosa por natureza, buscava o afeto como oxigênio, e ver as duas mulheres que mais amava em um embate tão agressivo a deixava fisicamente enjoada.
Sara entrou na cozinha pouco depois, usando um robe de seda preta que deixava suas pernas à mostra e evidenciava a barriga de quatro meses. Ela olhou para o caos com um tédio divertido.
— Parem com isso, as duas. Estão me dando dor de cabeça e a Valentina odeia barulho — disse Sara, caminhando até Emanuel.
Emanuel, ignorando a briga das sogras, focou imediatamente na esposa. Ele se levantou, a postura rígida relaxando apenas para ela.
— Você está bem, meu amor? — perguntou ele, a voz profunda e protetora. Ele passou a mão pela barriga dela, um gesto de posse e carinho que Sara recebeu com um sorriso radiante.
— Estou com fome, Manu. E essas duas não param de gritar.
Emanuel lançou um olhar gélido para Heloísa e Clarice. O silêncio que ele impôs foi instantâneo. Ele era o provedor, o homem que mantinha o equilíbrio financeiro e a segurança de todos ali. Ninguém ousava contestar sua autoridade quando ele decidia exercê-la.
— Parem agora — ordenou ele. — Heloísa, vá para a varanda. Clarice, leve a Eduarda para o jardim.
Eduarda olhou para Emanuel, esperando encontrar algum apoio, mas ele estava ocupado demais puxando uma cadeira para Sara e servindo-lhe pessoalmente uma fatia de bolo. Ele a mimava sem reservas, tratando-a como a rainha que ela acreditava ser. A dor da rejeição silenciosa de Emanuel doeu mais em Eduarda do que os insultos da tia. Ela se soltou da mãe e correu para fora, não para o jardim, mas para o porão da casa, o único lugar onde o som da felicidade de Sara e o controle de Emanuel não a alcançariam.
O porão era fresco e cheirava a vinho envelhecido e madeira seca. Eduarda sentou-se em um caixote velho, encolhendo-se. Ela se sentia pequena, inadequada. Por que ele a queria se ele já tinha tudo em Sara? Por que ele a olhava daquele jeito que a fazia tremer se, no momento seguinte, ele a ignorava para paparicar a esposa?
Passaram-se vinte minutos até que a porta pesada de madeira rangesse. Os passos eram pesados, ritmados. Emanuel.
Ela não se moveu. Manteve a cabeça entre os joelhos, o cabelo castanho escuro escondendo o rosto.
— Eu sabia que você estaria aqui — disse ele. A voz dele ecoou no espaço fechado, carregada de uma irritação que ele não tentava mais esconder. — Você sempre foge, Eduarda. É o seu único truque.
— Vá embora, Emanuel — murmurou ela, a voz abafada. — Vá cuidar da Sara. Ela precisa de você.
Emanuel caminhou até ela, parando a poucos centímetros. A presença dele era esmagadora, um campo de força de masculinidade e autoridade.
— A Sara está dormindo. E eu não recebo ordens de você.
Ele se inclinou, segurando o queixo dela com firmeza e forçando-a a olhar para ele. Os olhos de Eduarda estavam vermelhos e úmidos, a expressão de uma doçura ferida que fazia o sangue de Emanuel ferver. Ele odiava o quanto aquela fragilidade o afetava.
— Por que você faz isso? — perguntou ele, o polegar roçando o lábio inferior dela. — Por que se esconde como uma criança?
— Porque eu não sei lidar com vocês! — explodiu ela, tentando empurrá-lo, mas ele era como uma rocha. — Vocês são demais! A Sara me quer como um brinquedo, e você... você me olha como se quisesse me devorar, mas depois me descarta para dar comida na boca dela!
— Eu não descarto você — rosnou ele, a irritação explodindo em desejo. — Eu quero as duas. Eu já te disse isso. E a Sara concorda. O que há de tão difícil em entender que você pode ter tudo sob a minha proteção?
— Eu não quero ser protegida por um homem que não me vê como igual!
— Você não é igual a mim, Duda. Você é algo que precisa ser guardado, cuidado — ele se aproximou mais, o hálito quente de café e hortelã atingindo o rosto dela. — Você é manhosa, é doce... e é minha, mesmo que lute contra isso.
Eduarda tentou protestar, mas o som morreu em sua garganta quando Emanuel a puxou para cima, prensando seu corpo esguio contra a parede fria do porão. O contraste entre a frieza da pedra e o calor do corpo dele fez Eduarda soltar um suspiro trêmulo.
Ele não pediu permissão. Ele tomou os lábios dela em um beijo que não tinha nada de delicado. Era um beijo de posse, de fome acumulada. Eduarda gemeu, uma mistura de medo e uma necessidade avassaladora que ela se recusava a admitir. Suas mãos, que antes tentavam empurrá-lo, subiram para os ombros dele, agarrando a camisa escura de Emanuel enquanto ela se entregava ao toque.
Emanuel soltou um rosnado baixo contra a boca dela. Ele estava furioso com a resistência dela, furioso com o quanto ela o fazia perder o controle racional que ele tanto prezava. Suas mãos grandes desceram pelo corpo dela, sentindo a leveza do vestido de algodão, até que ele encontrou o que buscava.
Ele deslizou as mãos para dentro do decote do vestido, alcançando os seios dela. Eram médios, macios e quentes. Emanuel os apertou com uma urgência quase dolorosa, ouvindo o arquejo de surpresa e prazer que Eduarda soltou.
— Emanuel... — ela choramingou, a voz manhosa, o corpo amolecendo nos braços dele.
— Diga meu nome de novo — ordenou ele, a voz rouca, enquanto seus dedos trabalhavam a pele sensível dela. — Diga que você não vai mais fugir.
— Eu... eu não consigo... — ela se inclinou para ele, buscando mais do contato físico que tanto a confortava e a aterrorizava.
— Você consegue. Você vai ficar aqui, comigo e com a Sara. Você vai ser a nossa pequena bailarina — ele a beijou novamente, desta vez mais lento, explorando cada canto da boca dela enquanto continuava a apertar e moldar seus seios, marcando-a de uma forma que nenhuma tatuagem poderia fazer.
Eduarda sentia que estava se afogando. A sensação das mãos dele, tão firmes e experientes, contrastava com a sua própria insegurança. Ela queria que ele parasse, mas, ao mesmo tempo, queria que ele a levasse para algum lugar onde o resto do mundo não existisse.
De repente, Emanuel se afastou, deixando-a ofegante e desgrenhada contra a parede. Seus olhos estavam escuros, a irritação ainda presente, mas agora misturada com uma satisfação sombria.
— Ajeite o vestido — disse ele, a voz recuperando a autoridade fria. — Vamos subir. O almoço será servido e eu não quero que ninguém perceba que você esteve chorando.
— Você é um monstro — sussurrou ela, embora suas mãos estivessem trêmulas enquanto ela tentava arrumar a roupa.
— Eu sou o homem que vai te dar tudo o que você precisa, Duda. Mesmo que eu tenha que te arrastar para a luz toda vez que você tentar se esconder no escuro.
Ele se virou e subiu as escadas sem olhar para trás, deixando Eduarda no silêncio do porão. O coração dela batia tão forte que ela sentia a pulsação nos seios, ainda quentes pelo toque dele.
Ao subir para a sala, ela encontrou a cena que mais temia e, secretamente, começava a aceitar. Sara estava sentada no sofá, com os pés apoiados no colo de Emanuel, que massageava seus tornozelos com uma paciência infinita.
— Aí está você, querida! — exclamou Sara, estendendo a mão para a prima. — Manu me disse que você estava se sentindo mal por causa da briga das nossas mães. Venha aqui, sente-se conosco.
Eduarda caminhou lentamente, sentindo o olhar de Emanuel fixo nela — um olhar de aviso, de desejo e de uma promessa silenciosa. Ela se sentou ao lado de Sara, que imediatamente passou o braço pelo pescoço da prima, puxando-a para um abraço lateral.
— Não fique assim, Duda. Família briga, mas nós três... nós somos diferentes, não somos? — Sara piscou para Emanuel, que apenas assentiu, mantendo o foco nos pés da esposa, mas com a mente claramente na bailarina que agora estava ao alcance de suas mãos.
— Sim — murmurou Eduarda, encostando a cabeça no ombro de Sara. Ela se sentia pequena, protegida e, pela primeira vez, a ideia de não ter saída do labirinto não parecia tão assustadora quanto a solidão da floresta.
Emanuel olhou para as duas mulheres — a loira exuberante que carregava sua filha e a morena delicada que ele acabara de marcar no porão. Ele sentiu uma onda de satisfação. Ele tinha o controle. Ele tinha o fogo e a paz. E, por mais que Eduarda ainda tentasse fugir, ele sabia que, no final, todos os caminhos dela terminariam nele.
— Onde está o risoto, Sara? — perguntou ele, a voz agora calma, quase gentil. — A Valentina e a Eduarda precisam comer. Ambas parecem famintas.
Sara riu, uma risada alta e vulgar que preencheu a sala, enquanto Eduarda fechava os olhos, deixando-se envolver pelo perfume caro da prima e pela presença dominante do homem que ela começava a entender que nunca a deixaria ir. A tempestade lá fora havia passado, mas dentro da fazenda dos Albuquerque, uma nova e complexa ordem estava sendo selada.