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O Preço do Santuário
A transição da paz rústica da fazenda para o pulsar frenético de São Paulo sempre fora um choque para Eduarda. O cinza dos prédios e o ruído constante do trânsito pareciam sufocar a leveza que ela buscava em seus passos de ballet. Mas, desta vez, o sufocamento era diferente. Não vinha da cidade, mas da presença constante e sombria de Emanuel, que parecia ter estendido seus tentáculos de controle desde os pastos de Minas até as avenidas movimentadas da capital.
Emanuel não era um homem de meias medidas. Assim que pisaram em solo paulista, ele fez questão de que sua influência fosse sentida. Ele enviava flores para o estúdio de dança, motoristas particulares para buscá-la na faculdade de História da Arte e mensagens que, embora curtas, carregavam o peso de uma ordem disfarçada de cuidado.
Sara, por sua vez, estava em seu elemento. A loja de roupas de luxo nos Jardins ocupava boa parte de seu tempo, mas ela nunca deixava de incluir Eduarda em sua órbita.
— Você precisa vir à loja hoje, Duda — disse Sara ao telefone, a voz vibrante e cheia de uma autoridade que ela exercia com um sorriso. — Chegaram umas peças de seda italiana que são a sua cara. Tão delicadas que parecem que vão sumir se você soprar. Exatamente como você.
— Eu tenho ensaio, Sara — respondeu Eduarda, apertando o celular contra a orelha enquanto se alongava na barra de madeira de seu quarto.
— Manu vai passar aí para te buscar às seis. Não aceite um não como resposta. Ele está de mau humor hoje e você sabe que só você acalma os demônios dele quando eu estou ocupada.
Eduarda desligou o aparelho com um suspiro. Ela se sentia como uma peça de xadrez sendo movida em um tabuleiro que não compreendia totalmente. O beijo no porão ainda queimava em sua memória, uma marca invisível que a fazia corar toda vez que encontrava o olhar de Emanuel nos jantares de domingo.
No entanto, havia um fator que Emanuel e Sara haviam subestimado: Otávio, o pai de Eduarda.
Otávio era um homem de quarenta e poucos anos, com a aparência de quem frequentava as melhores academias e os círculos sociais mais exclusivos. Mas, por trás da fachada de empresário moderno e pai liberal, escondia-se um homem que lidava com setores obscuros da economia e da segurança. Ele conhecia o peso de um segredo e, mais importante, conhecia o cheiro de um predador.
Naquela noite, após Emanuel deixar Eduarda em casa — depois de um jantar onde o silêncio dele fora preenchido pelas mãos de Sara guiando as de Eduarda sobre a barriga onde Valentina crescia —, Otávio esperava a filha no escritório.
— Duda, venha aqui um momento — chamou ele, a voz calma, mas com aquele tom que não admitia recusas.
Eduarda entrou, ainda vestindo o casaco de lã leve que Emanuel fizera questão de abotoar para ela antes de saírem do restaurante.
— Você está feliz, minha pequena? — perguntou Otávio, girando um copo de cristal com uísque caro.
— Sim, pai. Por que não estaria? — Ela tentou sorrir, mas seus olhos, sempre tão expressivos, vacilaram.
— Porque eu vejo como o marido da sua prima olha para você. E vejo como você murcha e floresce ao mesmo tempo sob esse olhar.
Eduarda sentiu o sangue fugir do rosto.
— Não é o que o senhor está pensando...
— É exatamente o que eu estou pensando — interrompeu Otávio, levantando-se e caminhando até ela. Ele tocou o rosto da filha com uma ternura que contrastava com a frieza de seus negócios. — Eu não sou um homem de moralismos, Duda. Eu vivo em um mundo de cinzas. Se você ama aquele homem, e se ele a ama, eu não vou impedi-los. Mas há uma condição.
— Condição?
— Eu conheço o tipo de Emanuel. Ele é um colecionador. Ele tem a Sara como seu troféu de ouro e quer você como sua joia de cristal. Mas eu não criei minha filha para ser a concubina de ninguém, nem a dama de companhia para os caprichos de uma prima grávida.
Eduarda baixou a cabeça, as lágrimas começando a brotar.
— Eu vou falar com ele, Duda. E você vai ficar aqui.
Na manhã seguinte, Emanuel recebeu um convite para um almoço privado no clube que Otávio frequentava. Ele sabia que não era um convite social. Quando chegou, encontrou o sogro de sua esposa sentado em uma mesa isolada, cercado por seguranças que pareciam sombras prontas para agir.
Emanuel sentou-se, mantendo a postura rígida e o olhar desafiador que o tornara um magnata antes dos trinta.
— Otávio.
— Emanuel. Vamos pular as amenidades — disse Otávio, inclinando-se para a frente. — Eu sei o que está acontecendo na fazenda. E sei o que está acontecendo aqui em São Paulo.
Emanuel não piscou.
— Eu amo a Sara. E eu quero a Eduarda. Não há segredos entre nós. A Sara está ciente e concorda.
— O que a Sara concorda não me interessa — rebateu Otávio, a voz baixando para um tom perigoso. — O que me interessa é o status da minha filha. Eduarda é sensível, é uma artista, é a minha luz. Se você a quer, Emanuel, você vai ter que tratá-la como esposa.
— Ela terá tudo o que o meu dinheiro puder comprar — afirmou Emanuel.
— Não estou falando de dinheiro. Você tem estúdios no mundo todo, você é rico, eu sei disso. Estou falando de dignidade. Se ela for para a sua casa, ela não entra como a "outra". Ela entra como a segunda senhora daquela casa. Com os mesmos direitos, o mesmo respeito e a mesma posição pública que a Sara.
Emanuel sentiu a tensão subir pela nuca.
— A sociedade não aceita isso, Otávio.
— A sociedade se curva a quem tem poder. E você tem. Mas eu tenho mais quando se trata de proteger o que é meu — Otávio colocou o copo na mesa com um estalo seco. — Escute bem, Emanuel. Se eu perceber que a Eduarda está sendo usada apenas para satisfazer seu ego ou para entreter a Sara enquanto ela espera a Valentina, eu vou sumir com ela. E quando eu digo sumir, quero dizer que nem todos os seus recursos e detetives no mundo a encontrarão. Eu a levarei para um lugar onde você será apenas uma lembrança ruim.
Emanuel sentiu uma fúria fria borbulhar. Ele odiava ser ameaçado, mas reconhecia em Otávio um adversário à altura. Mais do que isso, a ideia de perder Eduarda, de nunca mais sentir a pele macia dela sob seus dedos ou ver o medo se transformar em entrega em seus olhos castanhos, causou-lhe um aperto genuíno no peito.
— Ela é importante para mim — admitiu Emanuel, a voz rouca. — Mais do que eu planejei.
— Então prove. Dê a ela um lugar ao sol, não nas sombras do seu quarto. Se você quer o meu silêncio e a minha benção, dê a Eduarda o nome e o lugar que uma filha minha merece. Caso contrário, considere esta a nossa última refeição amigável.
Emanuel saiu do clube com a cabeça fervendo. Ele dirigiu até sua cobertura, onde Sara o esperava com uma revista de decoração de quartos de bebê.
— Você parece que quer matar alguém, Manu — disse ela, sem tirar os olhos das fotos de berços provençais.
— O pai da Eduarda sabe. E ele me deu um ultimato.
Sara fechou a revista lentamente, um sorriso malicioso brincando em seus lábios perfeitamente pintados de rosa.
— E o que o tio Otávio quer?
— Ele quer que ela seja minha esposa. Oficialmente, na prática de casa. Sem distinção entre você e ela.
Sara levantou-se, caminhando até ele e passando os braços pelo seu pescoço. O silicone de seus seios pressionava o peito dele, um lembrete físico de sua presença constante.
— E qual é o problema, querido? Eu já te disse que quero a felicidade de todos nós. Se para ter a Duda aqui, debaixo da nossa asa, precisamos dar a ela um anel e um título, que assim seja. Eu gosto da ideia de ter uma irmã de alma. E a Valentina vai adorar ter duas mães para mimá-la.
Emanuel olhou para a esposa, admirando sua falta de escrúpulos e sua lealdade inabalável a ele.
— Mas ela ainda foge, Sara. Ela ainda tem medo.
— O medo dela é o que a torna doce, Manu. Mas o medo acaba quando a segurança começa. Vá buscá-la. Mostre a ela que o castelo agora tem duas rainhas.
Naquela tarde, Emanuel não enviou um motorista. Ele mesmo foi até a faculdade de Eduarda. Ele a esperou na saída, encostado em seu carro preto fosco, uma figura imponente que atraía olhares de todos os estudantes.
Quando Eduarda saiu, com seu coque de bailarina meio desfeito e uma pasta de desenhos nos braços, ela parou bruscamente ao vê-lo.
— Emanuel? O que você está fazendo aqui?
— Entre no carro, Eduarda — disse ele. Não era um pedido, mas o tom não era furioso. Era... solene.
— Eu tenho que ir para casa, meu pai está esperando...
— Seu pai sabe que eu estou aqui. E ele sabe para onde vou te levar.
Eduarda hesitou, mas a força gravitacional que Emanuel exercia sobre ela era irresistível. Ela entrou no carro, o cheiro de couro e do perfume amadeirado dele prechendo seus sentidos.
Ele não dirigiu para a cobertura, nem para a casa dos pais dela. Ele a levou para um dos seus estúdios de tatuagem mais exclusivos, que estava fechado para o público naquele horário. O lugar era uma galeria de arte moderna, com paredes escuras e iluminação focal.
— Por que estamos aqui? — perguntou ela, a voz pequena.
Emanuel a conduziu até uma sala nos fundos, onde uma mesa de desenho estava coberta com papéis. Ele acendeu a luz, revelando esboços. Não eram tatuagens. Eram plantas arquitetônicas.
— O que é isso? — Eduarda aproximou-se, tocando o papel.
— É o projeto da reforma da ala leste da minha cobertura — explicou ele, ficando atrás dela, sua presença aquecendo as costas da jovem. — Há um estúdio de dança com isolamento acústico e piso flutuante. Há um ateliê com luz natural para suas pesquisas de arte. E há um quarto que se conecta tanto ao meu quanto ao de Sara.
Eduarda sentiu o coração disparar.
— Emanuel... eu não posso...
— Você pode. E você vai — ele a virou para si, segurando seus ombros. — Eu falei com seu pai. Eu não quero você escondida no porão da fazenda ou fugindo para chalés na floresta. Eu quero você no meu mundo, com todos os direitos que a Sara tem.
— Ela nunca vai aceitar isso de verdade — sussurrou ela, as lágrimas caindo. — A sociedade vai me destruir.
— A Sara é quem mais quer isso, Duda. Ela te ama do jeito dela. E quanto à sociedade... — ele deu um sorriso frio, o sorriso do homem rico e poderoso que não temia ninguém. — Deixe que falem. Ninguém toca no que é meu. E você é minha, Eduarda. Pela lei do meu desejo e pela proteção do seu pai.
Ele tirou do bolso uma pequena caixa de veludo negro. Dentro, não havia um anel de diamante tradicional como o de Sara, mas uma aliança de ouro branco com uma pequena safira azul, da cor dos olhos que ele desejava que ela sempre tivesse ao olhar para ele.
— Não é um pedido, é uma promessa — disse ele, deslizando o anel no dedo anelar da mão direita dela. — Você vai terminar sua faculdade, vai ser a professora de ballet mais respeitada desta cidade, e vai voltar para casa todas as noites para mim e para a Sara.
Eduarda olhou para o anel, depois para o homem à sua frente. Ela sentia a pressão da responsabilidade, o peso do desejo dele e a sombra protetora de seu pai. Ela era manhosa, era sensível, e ali, naquele estúdio cercado de arte e poder, ela percebeu que a fuga tinha acabado.
— Eu tenho medo, Emanuel — confessou ela, escondendo o rosto no peito dele.
— Eu sei — respondeu ele, envolvendo-a em um abraço apertado, sentindo a maciez dela se moldar à sua rigidez. — Mas agora, o seu medo tem um dono. E eu não deixarei nada te machucar. Nem mesmo eu.
Do lado de fora, a chuva de São Paulo começava a cair, lavando as ruas, enquanto dentro do estúdio, um novo contrato era assinado, não com tinta na pele, mas com promessas de posse e um amor que desafiava todas as normas. Eduarda, a bailarina tímida, agora fazia parte de uma trindade inquebrável, onde a vulgaridade de Sara, a força de Emanuel e a sua própria delicadeza formariam um mundo à parte, protegido pelas sombras perigosas de sua própria linhagem.