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O Som do Trovão e o Gosto do Medo
O ar no interior da cobertura de luxo em São Paulo estava tão carregado que parecia que um fósforo aceso faria tudo explodir. Emanuel não era um homem de gritos histéricos; sua fúria era uma massa densa, fria e silenciosa que preenchia os cantos do ambiente, tornando o oxigênio escasso.
Sara estava em pé junto à janela panorâmica, os braços cruzados sobre o ventre de quatro meses onde Valentina descansava. Ela usava um vestido de seda dourada, curto e justo, que gritava opulência e vulgaridade refinada. Mas, pela primeira vez em muito tempo, a confiança inabalável da loira parecia ter uma rachadura. Seus olhos pintados de preto acompanhavam os movimentos de Emanuel, que andava de um lado para o outro como um predador enjaulado.
— Eu fui claro, Sara — disse Emanuel, a voz baixa, o que era muito pior do que se ele estivesse gritando. — Eu disse que você não deveria fechar aquele contrato de exclusividade com os fornecedores da Turquia sem que a minha equipe jurídica revisasse as cláusulas de transporte.
— E eu achei que você estivesse ocupado demais com os seus estúdios em Berlim para se preocupar com a minha loja! — rebateu Sara, tentando manter o tom provocador, mas sua voz falhou levemente no final. — Eu sou administradora, Emanuel. Eu sei o que estou fazendo.
Emanuel parou bruscamente e se virou para ela. A luz da cidade lá fora contornava sua silhueta alta e forte, fazendo-o parecer uma estátua de mármore sombrio.
— Você colocou a logística da sua empresa nas mãos de pessoas que eu estou investigando por lavagem de dinheiro. Você expôs o meu nome e a segurança da nossa família porque queria provar que não precisa de mim. — Ele deu um passo à frente, e Sara recuou instintivamente, batendo as costas no vidro frio. — Você me desobedeceu em algo que envolvia a segurança da Valentina.
— Não seja dramático! — Sara tentou rir, mas o som morreu em sua garganta quando Emanuel socou a parede ao lado da cabeça dela. O estrondo ecoou pelo apartamento, seco e violento.
Sara estremeceu, os olhos arregalados. Ela amava o perigo de Emanuel, era atraída pela escuridão dele, mas naquele momento, o medo genuíno rastejou por sua espinha. Ele estava furioso de uma forma que ela raramente via.
— Se você fizer isso de novo — murmurou ele, o rosto a centímetros do dela —, eu fecho aquela loja amanhã e você não sai desta cobertura sem um segurança no seu encalço vinte e quatro horas por dia. Eu não estou brincando, Sara.
— Você não faria isso... — sussurrou ela, embora soubesse que ele faria.
— Tente-me.
Enquanto a tempestade de testosterona e controle se desenrolava na sala, Eduarda estava encolhida na poltrona da biblioteca, a poucos metros dali. A porta estava entreaberta, e ela ouvia cada palavra, cada impacto, cada respiração pesada.
Eduarda apertava um livro de história da arte contra o peito, mas suas pupilas estavam dilatadas e seu corpo reagia de uma forma que a envergonhava profundamente. Ela era a prima sensível, a bailarina doce que buscava paz, mas a fúria de Emanuel exercia sobre ela um fascínio doentio.
Ela se sentia uma puta. Uma puta manhosa e carente.
Enquanto ouvia o tom autoritário de Emanuel subjugando a personalidade forte de Sara, Eduarda fechou os olhos. Em sua mente, a imagem não era de brigas ou contratos. Ela imaginava Emanuel entrando naquela biblioteca com a mesma fúria nos olhos. Imaginava-o jogando os livros dela no chão, rasgando o vestido leve de algodão que ela usava e forçando-a a encarar a realidade de sua posse.
Seus mamilos ficaram rígidos sob o tecido fino, e um calor úmido começou a se concentrar entre suas pernas. Ela se sentia suja por desejar o homem daquela forma, especialmente enquanto ele brigava com a prima que ela tanto amava. Mas a intuição emocional de Eduarda dizia que aquela raiva dele era apenas o outro lado da moeda de sua proteção obsessiva.
— Emanuel, por favor... você está me assustando — a voz de Sara chegou aos ouvidos de Eduarda, soando pequena, algo raro para a loira siliconada.
— Ótimo — respondeu ele. — Talvez assim você aprenda a ouvir.
Eduarda ouviu os passos pesados de Emanuel se afastando da sala. O som de uma porta de vidro correndo indicava que ele tinha ido para a varanda externa para fumar e tentar se acalmar.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Sara entrou na biblioteca minutos depois. Ela parecia um pouco abalada, mas o brilho de desafio já estava voltando aos seus olhos. Ela viu Eduarda encolhida e caminhou até ela, sentando-se no braço da poltrona.
— Ele é um bruto quando quer, não é? — perguntou Sara, passando a mão pelo cabelo loiro perfeitamente arrumado, embora sua mão tremesse um pouco.
— Você está bem, Sara? — perguntou Eduarda, a voz falhando, sentindo-se culpada por seus pensamentos impuros de segundos atrás.
— Estou. Ele só fica assim porque se importa demais. É o jeito dele de amar. Ele quer ter tudo sob controle, inclusive a gente. — Sara olhou para a aliança no dedo de Eduarda. — Ele vai vir atrás de você agora, Duda. Ele sempre busca a sua doçura quando eu o irrito. É o equilíbrio dele.
— Eu não quero que ele brigue comigo também — mentiu Eduarda, baixando o olhar.
— Ele não vai brigar com você. Ele vai te usar para esquecer que eu o desobedeci. — Sara deu um sorriso malicioso, o medo já transformado em sua habitual ironia provocadora. — Vá até ele. Ele está na varanda. Acalme o seu homem, priminha. Ele está precisando de algo macio para enterrar essa raiva.
Eduarda sentiu o rosto queimar. Sara sabia de tudo, via tudo, e não se importava. Pelo contrário, ela parecia incentivar a dinâmica.
Eduarda levantou-se lentamente. Suas pernas pareciam de gelatina. Ela caminhou pelo corredor, passando pela sala onde o perfume caro de Sara ainda pairava no ar, e saiu para a varanda.
O vento da noite em São Paulo estava frio, mas Emanuel estava apenas de camisa social preta, com as mangas dobradas, revelando as tatuagens que subiam por seus antebraços fortes. Ele segurava um charuto, a brasa brilhando na escuridão. Suas costas eram uma parede de músculos tensos.
Eduarda parou a alguns passos de distância, mantendo o silêncio. Ela era manhosa, sabia como se aproximar sem fazer barulho, como um gato buscando calor.
— Eu sei que você está aí, Eduarda — disse ele, sem se virar. A voz ainda estava carregada de uma vibração perigosa.
— A Sara disse que você estava nervoso — sussurrou ela, aproximando-se mais, até que pudesse sentir o calor que emanava do corpo dele.
Emanuel se virou. Seus olhos estavam escuros, as sobrancelhas franzidas em uma expressão de estresse acumulado. Ele olhou para Eduarda — pequena, delicada, com aquele olhar de quem pedia desculpas pelo simples fato de existir.
— A Sara é uma inconsequente — rosnou ele, jogando o charuto no cinzeiro de cristal sobre a mesa lateral. — Ela acha que o mundo é um playground onde ela pode ditar as regras.
— Ela só quer ser independente, Emanuel...
— Eu não quero independência! — Ele deu um passo em direção a ela, e Eduarda não recuou. Ela queria aquela proximidade. — Eu quero segurança. Eu quero saber que, quando eu fechar os olhos à noite, as mulheres que eu amo não destruíram tudo o que eu construí por um capricho.
Ele segurou o rosto de Eduarda com as duas mãos. O toque era firme, quase bruto, mas havia uma reverência ali que ele nunca demonstrava a mais ninguém.
— Você me ouviu gritando com ela? — perguntou ele, o polegar roçando a maçã do rosto de Eduarda.
— Ouvi — admitiu ela, a voz sumindo.
— E o que você sentiu? Medo?
Eduarda olhou nos olhos dele, e a honestidade brutal que regia aquela tríade estranha a obrigou a falar.
— Eu senti... desejo.
Emanuel paralisou por um segundo. Um sorriso torto e sombrio surgiu em seus lábios. Ele a puxou para mais perto, colando o corpo esguio da bailarina ao seu porte forte e sólido.
— Você é uma pecadora silenciosa, não é, Duda? Tão doce por fora, mas por dentro...
— Por dentro eu só quero que você pare de ficar furioso com o mundo e fique furioso comigo — confessou ela, escondendo o rosto no pescoço dele, aspirando o cheiro de tabaco, uísque e homem. — Eu imaginei você... eu imaginei você me usando para descarregar tudo isso.
Emanuel soltou um som que era metade rosnado, metade risada. Ele a pegou no colo com uma facilidade que sempre a deixava tonta. Eduarda entrelaçou as pernas na cintura dele, sentindo a ereção rígida dele pressionar sua intimidade através do vestido.
— Você não tem ideia do que está pedindo, pequena — murmurou ele, caminhando de volta para dentro do apartamento, mas ignorando a suíte principal onde Sara estava. Ele a levou direto para o estúdio de dança que havia construído para ela.
O estúdio era todo espelhado, com barras de madeira e um piso impecável. Emanuel a colocou de pé contra um dos espelhos. A luz da lua entrava pelas janelas, refletindo a imagem dos dois: o gigante tatuado e a bailarina frágil.
— Você quer que eu descarregue em você? — perguntou ele, as mãos descendo para a barra do vestido dela e subindo, sentindo a pele macia das coxas. — Você quer ser a minha válvula de escape para a raiva que a sua prima me causou?
— Quero — disse ela, a voz agora firme, embora seu corpo tremesse. — Eu quero ser sua, Emanuel. De qualquer jeito.
Emanuel não esperou mais. Ele a virou de costas para o espelho, forçando-a a olhar para a própria imagem enquanto ele a possuía. Suas mãos grandes e marcadas por tinta apertaram os seios dela, sentindo a maciez que ele tanto cobiçava.
— Olhe para você, Eduarda — ordenou ele, a voz rouca no ouvido dela. — Olhe como você fica quando eu te toco.
Eduarda viu sua própria expressão no espelho: os lábios entreabertos, os olhos nublados de luxúria, a pele corada. Ela parecia exatamente o que se sentia: uma mulher completamente dominada e feliz por isso.
Emanuel abriu a calça, a urgência substituindo a fúria. Ele a penetrou com um impulso único, arrancando um grito agudo de Eduarda que ecoou pelo estúdio vazio. A dor inicial foi rapidamente substituída por uma plenitude avassaladora.
— Isso é o que acontece quando você me desafia com esse olhar — disse ele, movendo-se dentro dela com uma força rítmica e implacável. — Você acha que a Sara é a única que precisa de lições? Você me provoca com esse seu jeito manhoso, fugindo para chalés e se escondendo em porões...
— Eu não vou mais fugir — gemeu ela, as mãos espalmadas no espelho frio, contrastando com o calor frenético do corpo de Emanuel atrás dela.
— Não, você não vai. Porque eu vou te foder até você esquecer como se caminha para longe de mim.
O ato era violento, carregado da frustração que ele sentia por não conseguir controlar todos os aspectos da vida daquelas duas mulheres. Mas, em Eduarda, ele encontrava a submissão que Sara se recusava a dar plenamente. Eduarda absorvia sua raiva, transformava-a em prazer e devolvia a ele uma paz que ele não encontrava em nenhum outro lugar.
Enquanto Emanuel a possuía com uma possessividade feroz, Eduarda sentia que cada estocada era um selo de propriedade. Ela não se importava em ser o refúgio da fúria dele. Ela preferia ser o objeto de sua raiva do que ser ignorada por sua indiferença.
No auge do prazer, Emanuel a virou de frente, segurando-a pelas coxas enquanto a prensava contra o espelho. Ele a beijou com uma fome desesperada, e Eduarda correspondeu, sentindo o orgasmo explodir em ondas que a faziam soluçar.
Minutos depois, Emanuel a mantinha abraçada, ambos ofegantes, o suor colando seus corpos. A fúria dele havia se dissipado, substituída por uma exaustão satisfeita.
— Melhor? — perguntou ela, a voz fraquinha, escondendo o rosto no peito dele.
Emanuel suspirou, beijando o topo da cabeça dela.
— Melhor. Você é o meu calmante, Duda. Mas não pense que isso me faz esquecer o que a Sara fez.
— Ela te ama, Emanuel. Ela só é... ela.
— E você é você. E é por isso que eu preciso das duas. — Ele a apertou mais forte. — Se eu tivesse apenas a Sara, eu já teria enlouquecido. Se tivesse apenas você, eu teria ficado mole. As duas me mantêm no eixo.
Eles voltaram para o quarto principal. Sara estava deitada, lendo um tablet, mas olhou para cima quando eles entraram. Ela viu o estado de Eduarda — o cabelo desfeito, os lábios inchados, o olhar perdido — e viu a calma no rosto de Emanuel.
— Vejo que a terapia funcionou — disse Sara, com um sorriso cúmplice. Ela se afastou para o lado, dando espaço na cama king-size. — Venham. Valentina quer dormir e eu quero meus dois amores perto de mim.
Emanuel deitou-se no meio, com Sara de um lado e Eduarda do outro. Sara encostou a cabeça no ombro dele, e Eduarda se aninhou em seu peito, buscando a proteção que só ele emanava.
— Amanhã — disse Emanuel, a voz já pesada pelo sono — nós vamos resolver aquela história dos fornecedores, Sara. Do meu jeito.
— Tudo bem, Manu — respondeu Sara, bocejando. — Do seu jeito.
Eduarda fechou os olhos, sentindo a aliança em seu dedo e o calor dos dois seres que agora compunham seu universo. Ela ainda se sentia uma puta manhosa, e a lembrança de Emanuel a possuindo no estúdio de dança ainda a fazia vibrar por dentro. Mas, ali, entre o fogo de Sara e o aço de Emanuel, a pequena bailarina finalmente entendeu que sua sensibilidade não era uma fraqueza, mas a cola que mantinha aquele império de excessos unido.
A tempestade havia passado, mas o trovão de Emanuel ainda ecoava no sangue de Eduarda, prometendo que, enquanto houvesse fúria, haveria também aquele santuário de prazer e posse.