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O Baile dos Espectros
A mansão de Tim Burton em Oxfordshire parecia ter sido arrancada das páginas de um conto gótico do século XIX e banhada pela névoa espessa do outono inglês. Naquela noite de 31 de outubro de 1999, a propriedade respirava o espírito do Halloween em sua forma mais teatral e extravagante. Centenas de abóboras esculpidas à mão, com expressões macabras e velas crepitantes em seu interior, ladeavam a alameda de cascalho. Teias de aranha artificiais misturavam-se à vegetação rasteira, e o cheiro de folhas queimadas, cidra quente e especiarias adocicadas pairava no ar gélido, acolhendo os convidados em um espetáculo de sombras e decadência aristocrática.
No segundo andar de uma das alas reservadas aos hóspedes, Johnny terminava de ajeitar o colarinho de linho escuro de Ichabod Crane diante de um espelho oval de moldura dourada. Ele já havia usado aquele figurino tantas vezes durante as filmagens que as peças pareciam uma extensão de sua própria carne. Mas, naquela noite, a escolha da fantasia ia muito além de uma simples homenagem ao filme em produção; era uma declaração de cumplicidade, um símbolo que o ligava de maneira indissolúvel à garota que acabava de cruzar a porta do quarto adjacente.
Johnny virou-se devagar, e o cigarro apagado que ele segurava entre os dedos adornados de prata quase escorregou para o chão.
Christina estava parada sob a luz suave das arandelas, resplandecente no vestido de veludo e tafetá de Katrina Van Tassel. O corpete estruturado desenhava sua cintura diminuta com uma perfeição clássica, enquanto os tons de marfim e bordô destacavam a alvura quase translúcida de sua pele. Seus cabelos castanho-claros estavam presos em um penteado elaborado de época, com mechas delicadas emoldurando o rosto de traços marcantes e os olhos imensos, brilhantes como ônix polido. Aos dezenove anos, havia nela uma doçura etérea, mas também uma dignidade firme e inabalável que deixava Johnny completamente desarmado.
— Você está absolutamente fascinante, passarinho — murmurou Johnny, a voz rouca caindo uma oitava, carregada de uma veneração profunda.
Ele cruzou o quarto com passadas lentas e deliberadas, as botas de couro batido ecoando de leve sobre o assoalho de carvalho. Ao alcançar Christina, suas mãos deslizaram suavemente pelos braços descobertos dela, sentindo o arrepio imediato que sua proximidade provocava. Seus olhos castanhos, intensos e sombrios, percorreram cada detalhe do rosto da jovem antes de seus polegares repousarem sobre as maçãs de suas bochechas.
— Não acho que Katrina fosse tão deslumbrante na imaginação de Washington Irving quanto você é nesta realidade — sussurrou ele, inclinando-se para roçar os lábios na comissura da boca dela, num beijo lento, possessivo e terno que fez o peito de Christina se apertar de conforto.
— E eu tenho certeza de que o verdadeiro Ichabod não tinha metade do seu charme perigoso, Sr. Depp — respondeu ela, permitindo-se um sorriso tímido que iluminou todo o seu semblante. Suas mãos pequenas e delicadas subiram até a lapela do casaco dele, ajeitando o tecido com uma intimidade doméstica que se tornara natural entre os dois. — Está pronto para descer? Tim vai enlouquecer se formos os últimos.
— Deixe o Tim roer as unhas um pouco mais — respondeu Johnny com um meio sorriso indolente, beijando a ponta do nariz dela antes de entrelaçar seus dedos aos dela. Ele ergueu a mão enluvada de Christina até a boca, beijando os nós de seus dedos com solenidade. — Mas você tem razão. Vamos descer e mostrar a essa gente a quem pertence a minha alma.
O salão principal da mansão fervilhava. Burton, fantasiado de uma versão excêntrica de um cientista louco victoriano, recebia artistas, membros da equipe técnica e grandes figuras da indústria cinematográfica com taças transbordantes de ponche escuro e risadas estridentes. Velas de cera preta pingavam em candelabros pesados, e uma orquestra de câmara tocava arranjos fúnebres e hipnóticos em um tablado de madeira ao fundo.
Quando Johnny e Christina desceram a imponente escadaria de mármore, as conversas ao redor pareceram murchar em um murmúrio coletivo de admiração e curiosidade. O par de protagonistas de *Sleepy Hollow*, trajados como seus próprios alter egos românticos, irradiava uma cumplicidade tão evidente que qualquer dúvida sobre o status daquele relacionamento caía por terra. Johnny mantinha o braço firmemente pousado ao redor da cintura de Christina, guiando-a pela multidão como um lorde que exibia com orgulho o seu tesouro mais precioso. Ele inclinava a cabeça constantemente em sua direção, sussurrando comentários cínicos e bem-humorados sobre as fantasias grotescas dos convidados, arrancando de Christina risadas suaves e discretas.
No entanto, a leveza do momento estilhaçou-se em uma fração de segundo.
Do outro lado do salão, perto de uma tapeçaria medieval que retratava uma caçada sombria, um vulto branco destacava-se contra a escuridão do ambiente.
Winona Ryder estava ali.
O impacto de sua presença fez o ar ao redor de Johnny parecer congelar. Ela vestia um vestido branco de mangas curtas e saia plissada, com uma peruca loira impecável caindo sobre os ombros — a caracterização exata de Kim Boggs, a heroína virginal e trágica de *Edward Scissorhands*. A escolha da fantasia era uma provocação descarada, uma lembrança viva e cortante do amor lendário que ela e Johnny haviam compartilhado nas telas e fora delas quase uma década antes. Mas, ao contrário da adolescente do filme de 1990, o tecido fino do vestido desenhava com clareza o volume arredondado de sua barriga de vários meses de gestação.
Winona segurava uma taça com água aromatizada e mantinha os olhos escuros cravados em Johnny. Havia em seu olhar uma mistura volátil de mágoa ferida, reivindicação e um desespero mal disfarçado. Ao seu lado, uma amiga íntima — uma estilista influente de Los Angeles, conhecida por sua língua afiada e lealdade cega a Winona — observava a aproximação de Johnny e Christina com uma carranca de puro desdém.
Christina sentiu a mão de Johnny em sua cintura endurecer como ferro. Os músculos da mandíbula dele saltaram sob a pele pálida, e a expressão de Ichabod Crane transformou-se em uma máscara de frieza impenetrável.
— Johnny... — sussurrou Christina, erguendo o rosto para olhá-lo, notando a sombra pesada que havia caído sobre suas feições.
Johnny piscou devagar, puxando o ar com força antes de baixar os olhos para ela. Em questão de segundos, a dureza evaporou, sendo substituída por um olhar de infinita proteção. Ele não hesitou. Em vez de desviar a rota ou tentar evitar a linha de visão de Winona, Johnny beijou o topo da cabeça de Christina com uma calma deliberada, visível para quem quisesse ver.
— Não olhe para lá, passarinho — pediu ele, a voz firme e aveludada, deslizando a mão até a nuca dela e acariciando os fios soltos. — Esta noite é nossa. Ninguém vai roubar a nossa paz.
— Eu não me importo, Johnny — disse Christina com serenidade, sustentando o olhar dele com aquela maturidade silenciosa que sempre o fascinava. — Eu sei quem eu sou, e sei onde você está.
Johnny sorriu, um sorriso genuíno que desarmou a tensão que ameaçava sufocá-lo.
— Você é uma mulher extraordinária, sabia disso?
A pedido de Tim, o jantar havia sido organizado de maneira informal em uma das salas de banquete adjacentes, mesclando o requinte inglês com a praticidade americana que o diretor tanto apreciava. Em uma longa mesa de carvalho maciço, travessas de prata fumegavam com assados tradicionais, tortas rústicas, saladas de outono e guarnições sofisticadas, dispostas em estilo bufê para que os convidados se servissem à vontade antes de se acomodarem pelos sofás de veludo e poltronas espalhados pelo ambiente.
Johnny encontrou uma ampla poltrona de veludo verde-escuro perto de uma lareira acesa, afastada do burburinho central, mas ainda no campo de visão de grande parte do salão.
— Sente-se aqui, Johnny — disse Christina com voz suave, pousando a mão pequena sobre o ombro dele. — Eu cuido do jantar para nós dois. Você quase não comeu nada antes de sairmos do estúdio.
— Não precisa me mimar desse jeito, passarinho — protestou ele com um meio sorriso sonolento, tirando os óculos de lentes azuis e esfregando a ponte do nariz. — Eu posso ir com você.
— Eu quero cuidar de você — insistiu ela, com uma firmeza doce que não admitia recusas. — Fique aí e descanse essas pernas compridas. Volto em um minuto.
Johnny recostou-se no veludo da poltrona, derrotado por aquele gesto simples de devoção feminina, e acendeu um cigarro de cravo, observando-a caminhar em direção ao bufê com passos graciosos que faziam o manto bordô flutuar ao redor de seus tornozelos.
À distância, perto de um biombo esculpido, Winona e sua amiga observavam cada movimento com olhos de rapina.
— Olhe para isso — sibilou a amiga, cruzando os braços magros e inclinando-se para sussurrar no ouvido de Winona, o tom pingando veneno. — É patético. A menininha gótica agora resolveu brincar de dona de casa perfeita. Olhe como ela anda, parece que está ensaiando para um comercial de margarina dos anos cinquenta.
Winona deu um gole curto em sua água, seus nós dos dedos embranquecendo ao redor da taça de cristal. Os olhos cravados em Christina estavam cheios de um fogo sombrio.
— Ela é uma criança, Sarah — disse Winona, a voz trêmula de amargura, mas forçando um tom depreciativo para mascarar o nó na garganta. — Tem dezenove anos e a profundidade de um pires. Ela acha que servir o pratinho dele e fingir submissão vai fazê-lo esquecer tudo o que nós fomos? Johnny adora bancar o salvador da pátria, o homem maduro que resgata a mocinha ingênua. Mas isso é um capricho de set. Quando esse filme terminar e a fumaça cenográfica baixar, ele vai se cansar de trocar as fraldas mentais dela.
— Ela nem sequer tem corpo de mulher, Winnie — zombou Sarah com uma risadinha baixa e cruel, fitando a silhueta baixa de Christina enquanto a jovem pegava dois pratos de porcelana. — Olha para ela. Parece uma boneca de porcelana achatada no meio de um vestido que é grande demais para sua insignificância. Johnny sempre gostou de mulheres com presença, com história. Isso aí é só o lanchinho rápido dele enquanto lida com a culpa de ser pai. Você está carregando o sangue dele, o verdadeiro legado. Não tem como aquela pirralha competir com o que está na sua barriga.
— Eu sei — murmurou Winona, acariciando o ventre sob o tecido branco de Kim Boggs, mas seus olhos traíam o pânico que suas palavras tentavam negar. — Ela é só uma fase. Uma garota conveniente que estava no lugar errado na hora errada. Johnny vai voltar. Ele precisa voltar.
Alheia às cobras que sibilavam nas sombras, Christina movia-se com calma impecável junto à mesa. Escolheu cuidadosamente fatias suculentas de lombo assado com ervas, batatas douradas e legumes glaceados, montando o prato de Johnny com a porção exata de suas preferências, antes de colocar para si apenas o suficiente para aplacar a fome.
Equilibrando os dois pratos com elegância discreta, ela atravessou o salão de volta à lareira. Sentia os olhares cravados em suas costas — especialmente o peso incômodo daquele vestido branco perto da tapeçaria —, mas manteve a cabeça erguida, sem um único tremor nas mãos.
Johnny ergueu os olhos quando ela se aproximou, e o cansaço em seu semblante simplesmente desapareceu. Ele esticou as mãos para receber um dos pratos que ela lhe entregava.
— Para o meu cavaleiro de Sleepy Hollow — disse Christina, com um brilho cúmplice nos olhos.
— Você é um anjo, Christina — agradeceu ele, apoiando o prato no braço largo da poltrona para pegar um garfo de prata.
Antes que Johnny pudesse indicar a cadeira vazia ao lado, Christina tomou uma atitude natural, guiada puramente pela intimidade sem filtros que haviam construído a portas fechadas. Com a barra do vestido colhida em uma das mãos e o seu próprio prato na outra, ela acomodou-se graciosamente sobre o colo de Johnny.
Johnny congelou por um milésimo de segundo, surpreso pela ousadia pública daquela garota habitualmente tão reservada. Mas, no instante seguinte, uma onda de calor e orgulho indisfarçável tomou conta de seu peito. Com um movimento fluido, ele passou o braço esquerdo ao redor da cintura diminuta de Christina, puxando-a contra o seu corpo, enquanto apoiava a coxa dela com firmeza.
— Confortável, passarinho? — murmurou ele contra o lóbulo da orelha dela, seu hálito quente de tabaco e cravo fazendo os pelos da nuca de Christina se arrepiarem gostosamente.
— Muito — respondeu ela, sorrindo e recostando as costas no ombro dele com total abandono. — Espero que não se importe de dividir o espaço.
— Eu nunca mais quero que você saia daqui — disse Johnny com uma sinceridade crua, beijando-lhe a têmpora sem a menor preocupação com a audiência que os cercava.
Do outro lado do salão, Winona estacou, a taça congelada a meio caminho dos lábios. O choque em seu rosto foi tão evidente que sua amiga Sarah calou a boca no meio de mais um comentário maldoso.
Ver Christina acomodada no colo de Johnny — não como uma fã, não como uma amante clandestina, mas com a posse serena e legítima de uma esposa — era uma visão que estraçalhava qualquer ilusão que Winona tentava sustentar. O modo como Johnny acomodava o peso de Christina em suas pernas, a maneira protetora como sua mão descansava sobre o quadril coberto pelo veludo e o olhar de devoção cega que ele dirigia à jovem diziam tudo o que palavras jamais poderiam expressar. Não havia culpa ali. Não havia hesitação. Havia apenas um homem completamente rendido e entregue à sua nova realidade.
Johnny pegou uma garfada do assado que Christina havia trazido, saboreando com um murmúrio de aprovação. Em seguida, cortou um pedaço pequeno de carne com o garfo e levou-o aos lábios dela.
— Prove isso — pediu ele baixinho. — Você quase não tocou na sua comida hoje.
Christina aceitou o alimento com um sorriso meigo, mastigando devagar sob o olhar atento e carinhoso dele.
— Está delicioso — admitiu ela.
— Porque foi você quem me deu — respondeu ele, com aquele humor excêntrico e romântico que a desarmava por inteiro.
Johnny ergueu o queixo, e seus olhos finalmente cruzaram o salão, encontrando a figura fantasiada de Kim Boggs. Não havia raiva em seu semblante, nem triunfo mesquinho. Havia apenas uma indiferença fria, absoluta e definitiva. O passado estava morto, enterrado sob a neve daquela fantasia nostálgica que Winona vestia em vão. O futuro de Johnny estava sentado em seu colo, vestida de Katrina Van Tassel, respirando o mesmo ar que ele e compartilhando a mesma comida.
Winona não suportou o peso daquele silêncio. Seus olhos encheram-se de lágrimas raivosas. Ela virou as costas abruptamente, puxando Sarah pelo braço e caminhando a passos largos em direção à saída dos fundos da mansão, desaparecendo na noite gélida sob o peso de sua própria derrota.
Christina percebeu a partida repentina, mas não disse nada. Apenas colocou a mão sobre o peito de Johnny, sentindo as batidas fortes e regulares de seu coração sob o colete de linho escuro.
Johnny baixou o olhar para ela, deslizando os dedos pelos contornos do queixo delicado de Christina, erguendo o rosto dela para que seus olhares se fundissem novamente.
— Você está bem? — perguntou ele em um sussurro rouco, onde cabia todo o carinho do universo.
— Nunca estive melhor, Johnny — respondeu ela, com a voz límpida e segura.
Johnny sorriu, um sorriso pleno e desprovido de qualquer amargura, e selou os lábios dela em um beijo profundo e calmo, provando para o salão inteiro, e para qualquer fantasma que ainda ousasse rondar suas vidas, que nenhuma tempestade seria forte o bastante para afastar Christina do lugar que agora pertencia a ela por direito.