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Laços de Vidro e Sangue

A primavera da Califórnia parecia artificial e reluzente demais quando comparada ao inverno úmido e sombrio da Inglaterra, mas a mansão de estilo espanhol que Johnny comprara nas colinas de West Hollywood mantinha as cortinas de veludo sempre semiabertas, filtrando a luz do meio-dia em tons âmbar e melancólicos. O cheiro de tabaco francês e óleo de cedro impregnava a sala de estar, misturando-se à fragrância suave de flor de laranjeira que Christina trouxera para a casa.

Quatro meses haviam se passado desde o nascimento de Eleanor.

Quatro meses desde que o último fio que mantinha a sanidade de Winona Ryder fora esticado até arrebentar.

Johnny estava de pé diante da lareira apagada, vestindo calças escuras e uma camisa de algodão cru com as mangas arregaçadas até os cotovelos. Ele segurava uma xícara de café frio entre os dedos cheios de anéis de prata, os olhos castanhos cravados no piso de ladrilho antigo. Suas feições aristocráticas pareciam talhadas em pedra, vincadas por noites maldormidas e pela preocupação implacável que corroía suas têmporas. A aliança dourada em sua mão esquerda brilhava suavemente sob a penumbra, polida, irretocável — um pacto inegociável que ele jamais hesitara em honrar.

Passos suaves sobre o tapete persa anunciaram a aproximação de Christina.

Aos vinte anos recém-completados, sua beleza miúda e etérea ganhara uma sobriedade admirável. Ela usava um vestido simples de linho azul-marinho que contrastava com sua pele translúcida, e seus cabelos castanho-claros estavam presos de forma despretensiosa no alto da cabeça. Christina não precisava de palavras para ler o homem com quem se casara. Ela se aproximou por trás, deslizando os braços delicados ao redor do peito dele, pousando a bochecha morna entre suas omoplatas largas.

Johnny soltou um suspiro profundo e áspero, soltando a xícara na beirada de madeira da lareira e cobrindo as mãos miúdas de Christina com as suas, acariciando a aliança de ouro idêntica que descansava no anelar dela.

— Ela está piorando, passarinho — murmurou Johnny, a voz rouca arranhando o silêncio. — As ligações da madrugada pararam, mas o silêncio que veio depois é muito mais perigoso.

Christina virou-se suavemente para ficar de frente para ele, erguendo o queixo para que seus grandes olhos escuros sustentassem a tempestade que habitava os dele. Ela levou a mão ao rosto dele, delineando a linha rígida da mandíbula de Johnny com infinita paciência.

— Cindy disse alguma coisa quando você ligou? — perguntou ela, a voz límpida e mansa, sem qualquer ponta de rancor, mas com a prudência de quem conhecia a gravidade daquele drama familiar.

— Disse o suficiente — respondeu Johnny, fechando os olhos por um segundo para absorver o toque reconfortante da esposa. — Winona não dorme há três dias. Passa as noites trancada no quarto, cercada de caixas de calmantes e recortes velhos, enquanto a governanta e a mãe tentam impedir que a menina chore de fome. Eleanor tem apenas quatro meses, Christina. Ela não tem culpa de nada. Não pode crescer em um sanatório disfarçado de lar.

O aperto no peito de Christina foi imediato. Desde o dia em que Eleanor nascera em um hospital privado de Los Angeles — quando Johnny passara quarenta e oito horas em claro no corredor para registrar a filha com seu sobrenome e garantir cada detalhe do sustento dela —, Christina aceitara que aquela criança faria parte de suas vidas. Não havia ciúme mesquinho em seu coração; havia apenas o medo real do caos que cercava aquela menina inocente.

— Você precisa fazer o que for certo por ela, Johnny — disse Christina com firmeza, entrelaçando os dedos aos dele. — Eu estou aqui. Nossa casa está pronta se for preciso. Mas você precisa encarar a mãe dela hoje com clareza, sem deixar que a culpa antiga dite as regras.

Johnny curvou-se, apoiando a testa na de Christina e puxando-a contra si em um abraço protetor e quase desesperado. Ele aspirou o perfume dela como quem busca oxigênio em meio à fumaça.

— Você é a minha sanidade — sussurrou ele contra os cabelos dela. — Se não fosse por você, eu já teria me perdido no meio desse tiroteio.

— Você não vai se perder — prometeu ela, selando os lábios dele com um beijo suave, firme e carregado de uma fidelidade inabalável. — Vá até lá. Eu estarei esperando você voltar.

Meia hora depois, o carro de Johnny cortava as avenidas arborizadas e silenciosas de Pasadena. Cindy Palmer, a mãe de Winona, havia concordado em encontrá-lo discretamente em sua residência particular, longe do casarão das colinas onde Winona se afundava em sua própria reclusão neurótica.

A casa de Cindy era modesta e acolhedora, repleta de estantes de livros e plantas viçosas que pareciam um eco distante dos tempos em que a família vivia à margem da contracultura intelectual. Quando a porta se abriu, Cindy revelou uma expressão exausta. Seus olhos claros, tão semelhantes aos de Winona, carregavam olheiras arroxeadas e um cansaço que ia muito além da idade.

— Johnny — disse ela, abrindo espaço para que ele entrasse, forçando um sorriso triste. — Entre, por favor.

Johnny tirou os óculos escuros, inclinando-se com a gentileza e o respeito que sempre tivera pela mulher que o acolhera como um filho durante os anos dourados de sua juventude. Ele a beijou na bochecha e segurou suas mãos por um instante.

— Obrigado por me receber, Cindy.

A sala estava em silêncio. Um bule de chá de ervas fumegava sobre a mesa de centro de mogno. Johnny sentou-se na poltrona de veludo gasto, enquanto Cindy acomodava-se no sofá à sua frente, servindo duas xícaras com mãos que tremiam discretamente.

— Como está a Eleanor? — perguntou Johnny, a voz caindo em um tom grave e angustiado, despida de qualquer afetação de Hollywood. — Eu mandei o pediatra na terça-feira, mas a enfermeira disse que Winona o expulsou da casa aos gritos.

Cindy soltou um suspiro entrecortado, cobrindo a boca por um breve instante antes de pousar a xícara sem beber.

— Ela está desmoronando, Johnny — confessou a mulher, com a voz embargada pela dor de ver uma filha perder o prumo. — O parto foi difícil demais para a cabeça dela, você sabe. Ela achou... no fundo daquela mente doentia, ela achava que no instante em que a menina nascesse, você abriria a porta do quarto e diria que tudo o que aconteceu na Inglaterra foi um delírio. Mas a notícia do seu casamento... ver as fotos de você com a Christina na imprensa toda semana... isso a quebrou de uma forma que os médicos ainda não conseguiram consertar.

— Cindy, eu nunca menti para a Winona — retrucou Johnny, com a mandíbula tensa, mas sem qualquer traço de frieza desnecessária. — Eu terminei antes de ir para a Europa. Eu avisei mil vezes que o relacionamento havia morrido. Mas eu dei a minha palavra de homem de que seria o pai dessa criança. Eu estive lá no hospital, registrei a Eleanor, comprei a propriedade em nome dela e coloquei uma conta bancária inteira à disposição para qualquer capricho médico ou pessoal. O que mais ela quer de mim? Minha alma?

— Ela queria o seu amor, Johnny — disse Cindy com tristeza infinita. — E agora ela não tem nada além da raiva. Ela não cuida da menina direito. Eu passo metade da semana lá porque tenho medo do que ela possa fazer. Ela fica horas olhando para o berço sem tocá-la, dizendo que Eleanor tem os seus olhos, as suas mãos... e depois tem crises de choro histérico, joga as mamadeiras contra a parede e se tranca no closet. As enfermeiras pedem demissão a cada quinze dias.

A revelação caiu sobre Johnny como uma chibata de ferro. O sangue sumiu de seu rosto, deixando seus traços morenos acinzentados pela cólera contida. Ele apoiou os cotovelos sobre os joelhos, curvando-se para a frente, seus anéis tilintando com o tremor de suas mãos.

— Chega — disse ele, a voz baixa, perigosa e irrevogável. — Chega, Cindy. Isso acaba hoje.

Cindy ergueu os olhos marejados, assustada com a mudança drástica no tom dele.

— Johnny, por favor... ela está doente. Você não pode simplesmente tirar a menina dos braços dela. A imprensa iria destruí-la, os juízes...

— Eu não quero destruir a Winona! — interrompeu ele com paixão contida, os olhos faiscando. — Eu amei sua filha por anos, e você sabe o respeito que tenho pela sua família. Não vou jogá-la aos leões dos tabloides. Não vou interná-la à força em uma clínica se houver outra saída. Mas eu sou o pai da Eleanor, Cindy. E eu não vou assistir de braços cruzados enquanto a minha filha é criada por uma mulher que não consegue distinguir a maternidade de uma vingança doentia.

Ele fez uma pausa, respirando fundo para controlar a adrenalina que queimava em seu peito.

— Eu quero a guarda compartilhada — declarou Johnny, cada palavra pronunciada com o peso de uma sentença de tribunal. — Metade do tempo comigo. Metade do tempo sob supervisão com ela, desde que você ou uma equipe médica qualificada estejam presentes.

Cindy empalideceu, apertando as mãos contra o tecido da saia.

— Winona nunca vai aceitar isso, Johnny. Ela prefere morrer a ver a filha passar finais de semana sob o mesmo teto que a Christina. Você sabe como a cabeça dela funciona. Ela vê a Christina como a ladra que roubou a vida dela.

— A Christina é a minha esposa — disparou Johnny com uma dureza gélida que não admitia contestação. — Ela é uma mulher honrada, decente, que nunca fez nada contra a Winona e que já tem mais maturidade com vinte anos do que metade da escória que frequenta essa cidade. Minha casa é um ambiente limpo, seguro e com amor. A Eleanor terá um quarto lá, terá berço, terá paz. E a Christina a receberá com o respeito e o carinho que qualquer filha minha merece.

— Johnny, seja razoável...

— Eu estou sendo o homem mais razoável da face da Terra, Cindy! — insistiu ele, erguendo a voz, sem gritar, mas preenchendo a sala com a imponência crua de sua presença. — Se eu fosse o monstro egoísta que os amigos da Winona tentam pintar, eu já teria entrado com uma petição judicial pedindo a custódia total e a interdição dela por instabilidade mental. Tenho relatórios médicos daquela festa em Londres, tenho testemunhas das crises dela no set de filmagens antes de engravidar, tenho os boletins das enfermeiras que fugiram daquela mansão. Um juiz me daria a guarda exclusiva em quarenta e oito horas.

Cindy levou o lenço aos olhos, incapaz de conter o choro silencioso. Ela sabia que Johnny estava falando a mais pura verdade. A lei e o bom senso estavam inteiramente do lado dele.

— Eu não fiz isso por consideração a você — continuou Johnny, suavizando o tom, alcançando a mão trêmula da ex-sogra e apertando-a com ternura genuína. — Porque você não merece essa vergonha pública, e porque Eleanor precisa saber, no futuro, que a mãe dela não foi destruída pelo pai. Mas a saúde daquela bebê é inegociável. Eu não estou pedindo a sua bênção, Cindy. Estou avisando. Meus advogados já redigiram o acordo de custódia compartilhada. Quinze dias por mês em West Hollywood, quinze dias sob a sua vigilância. Se Winona assinar amigavelmente, tudo permanece em segredo e ela continuará recebendo cada centavo da pensão integral, além de assistência psiquiátrica de ponta.

— E se ela se recusar? — sussurrou a mãe, a voz quase inaudível.

Johnny sustentou o olhar dela com uma frieza inabalável.

— Se ela rasgar esse papel, nós nos veremos em um tribunal na próxima segunda-feira. E ela não perderá apenas a guarda de Eleanor; perderá o resto da carreira que ainda tenta manter de pé. Diga isso a ela, Cindy. Diga que é a última chance que estou dando para que façamos as coisas com um pingo de dignidade humana.

O silêncio que se abateu sobre o cômodo foi longo, pesado e definitivo. Cindy baixou a cabeça, derrotada pela realidade esmagadora dos fatos, e assentiu lentamente com lágrimas descendo pelas rugas suaves do rosto.

— Eu vou conversar com ela, Johnny — prometeu a mulher, com a voz embargada. — Eu vou fazer com que ela entenda. Pela menina. Pelo amor de Deus, pela Eleanor.

— Pela Eleanor — repetiu Johnny, levantando-se.

Ele depositou um beijo respeitoso no topo da cabeça de Cindy antes de colocar seus óculos escuros e caminhar a passos firmes em direção à saída, deixando para trás os fantasmas de uma tragédia que ele se recusava terminantemente a permitir que consumisse sua filha.

Quando o Jaguar preto estacionou nos portões de ferro de sua residência em West Hollywood, o sol do final da tarde já mergulhava a cidade dos anjos em tons arroxeados e dourados. O vento suave balançava as copas das palmeiras, trazendo um frescor bem-vindo àquela terra ressequida.

Johnny entrou na casa em silêncio. No corredor de arcadas, ele ouviu uma melodia suave tocando na vitrola do escritório — um clássico de jazz instrumental, calmo e acolhedor.

Ele encontrou Christina na sala de leitura. Ela estava sentada na ampla poltrona de couro marrom, com os pés recolhidos sob o vestido e um livro aberto sobre o colo. Assim que ouviu os passos dele, ela fechou o volume e ergueu os olhos expressivos, abandonando qualquer barreira de hesitação para acolhê-lo com aquele olhar que parecia desarmar todo o peso do universo.

Johnny não disse uma única palavra. Ele caminhou diretamente até ela, ajoelhou-se sobre o tapete e afundou o rosto no colo da esposa, enlaçando a cintura miúda de Christina com uma força quase desesperada, como um náufrago que finalmente alcançara a terra firme.

As mãos de Christina moveram-se com a naturalidade de quem nascera para ser o seu porto seguro. Seus dedos deslizaram suavemente pelos cabelos escuros e compridos de Johnny, desfazendo os nós da tensão que enrijecia os ombros largos do marido.

— Como foi? — sussurrou ela, inclinando-se para beijar o topo da cabeça dele.

— Foi difícil — respondeu Johnny, com a voz abafada pelo tecido do vestido dela, o hálito quente contra a pele de Christina. — Mas está feito. Eu exigi a guarda compartilhada. Cindy vai fazer Winona assinar o acordo. Eleanor vai passar metade do mês conosco.

Christina parou as carícias por uma fração de segundo, absorvendo o impacto daquela realidade. A presença de um bebê de quatro meses, fruto do relacionamento mais tempestuoso e midiatizado da década, sob o seu próprio teto. Era uma prova de fogo colossal para uma garota de vinte anos que acabara de dar os primeiros passos em seu casamento.

Johnny ergueu a cabeça devagar, encarando-a com uma vulnerabilidade quase dolorosa em seus olhos castanhos.

— Se isso for demais para você, Christina... se você achar que é uma invasão pesada demais para o nosso início de vida juntos, eu posso alugar uma propriedade ao lado, posso contratar enfermeiras exclusivas...

— Johnny, cale a boca — interrompeu ela com doçura absoluta, calando os lábios dele com a ponta dos dedos.

Seus olhos grandes brilharam com uma maturidade serena, desprovida de qualquer hesitação.

— Aquela menina é sua filha — continuou Christina, a voz firme e límpida. — Ela tem o seu sangue e os seus olhos. Se ela precisa de paz, se ela precisa de um lar onde não haja pratos quebrados e gritos no meio da noite, este lugar será aqui. Eu me casei com você sabendo das suas cicatrizes e dos seus compromissos. Eleanor é bem-vinda nesta casa, e eu vou cuidar dela com o respeito e o amor que ela merece.

As lágrimas marejaram os olhos de Johnny Depp. Aquele homem de trinta e seis anos, cínico, rebelde e idolatrado pelo mundo inteiro, sentiu a própria garganta fechar diante da grandeza daquela mulher miúda que o destino havia colocado em seus braços.

Ele segurou o rosto de Christina entre as duas mãos trêmulas, trazendo-a para perto até que suas respirações se fundissem.

— Eu não mereço você — murmurou ele, a voz embargada por uma emoção crua e avassaladora. — Eu juro por Deus que passei a vida inteira no escuro até você me encontrar naquela névoa em Sleepy Hollow.

— Nós merecemos ser felizes, Johnny — respondeu ela, sorrindo com um misto de timidez e firmeza. — Nós construímos isso.

Johnny a beijou com uma paixão lenta, solene e definitiva, selando mais uma promessa nas sombras daquela sala. O passado com Winona Ryder ainda deixaria cicatrizes, e as tempestades de Los Angeles certamente continuariam a rugir do lado de fora dos muros. Mas, enquanto Christina estivesse sentada diante dele, com sua aliança brilhando na penumbra e sua alma ancorada na dele, Johnny sabia que nenhum fantasma seria capaz de roubar a paz que agora governava a sua vida.

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