D
Cinzas no Gelo
A luz suave do entardecer californiano entrava pelas janelas arqueadas da sala de estar, desenhando feixes dourados sobre o tapete persa onde pequenos blocos de madeira e um urso de pelúcia surrado estavam espalhados. Sentada no chão com as pernas cruzadas sob o vestido floral, Christina segurava com cuidado os dedinhos gordinhos de Eleanor. Aos oito meses, a menina era uma miniatura fascinante de Johnny: os mesmos olhos escuros e curiosos, as maçãs do rosto proeminentes e uma mecha rebelde de cabelo castanho que teimava em cair sobre a testa.
Eleanor soltou uma risadinha banguela, jogando o peso do corpinho para a frente até afundar o rosto no peito de Christina. O apego da bebê pela jovem madrasta tornara-se algo instintivo e absoluto ao longo dos últimos meses de guarda compartilhada. Christina a envolvia em um casulo de afeto silencioso e rotinas tranquilas, um contraste abissal com os primeiros dias de vida da criança.
— Você é tão esperta, meu anjinho — sussurrou Christina, beijando o topo da cabeça cheirosa da menina, sentindo o calor reconfortante daquela vidinha contra o seu ventre.
A situação com Winona havia entrado em uma trégua aparente, mas traiçoeira. Cindy mantivera a promessa: fizera a filha assinar o acordo e a convencera a retomar as rédeas da própria carreira. Nas últimas semanas, Winona parecia mais estável. Fora fotografada em eventos beneficentes, aceitara dois novos projetos cinematográficos em Nova York e falava com polidez ensaiada quando ligava para saber da filha. No entanto, para quem sabia ler nas entrelinhas, a obsessão continuava viva. Em cada cartão de aniversário enviado a Johnny, em cada recado sutil deixado na secretária eletrônica, Winona deixava claro que considerava Christina um intervalo cênico, uma ilusão passageira que se dissiparia assim que Johnny percebesse que seu verdadeiro lugar era ao lado da mãe de sua primogênita.
Eleanor apoiou as mãozinhas no ombro de Christina e ergueu o queixo, balbuciando com força enquanto tentava articular os sons que ouvia todos os dias:
— Ma... ma-ma... ma!
Christina estacou. O coração deu um solavanco no peito, os olhos imensos arregalando-se em pura emoção.
— O que você disse, amor? — murmurou Christina em um fio de voz trêmula, acariciando as bochechinhas rosadas da bebê.
— Ma-ma... — repetiu a pequena, batendo as palmas no tecido do vestido dela com entusiasmo infantil, sorrindo abertamente como se reconhecesse exatamente o papel sagrado que Christina ocupava em seus dias.
Do umbral da porta do escritório, Johnny observava a cena em silêncio. Ele segurava uma pasta preta de couro sob o braço e um copo de bourbon pela metade na mão direita. Ele vestia uma camiseta cinza puída e calças jeans surradas, os cabelos compridos caindo em desalinho ao redor do rosto marcado pela fadiga. Havia uma ternura infinita em seu olhar ao ver a mulher que amava com sua filha nos braços, mas por trás daquela contemplação pairava uma sombra densa, uma inquietação que ele vinha tentando sufocar há dias.
Ao ouvir o murmúrio da bebê, Johnny baixou a cabeça e engoliu o restante da bebida de uma vez só. O copo bateu com um estalo seco sobre a mesinha de centro ao se aproximar.
— Ela está tentando falar antes da hora — disse ele, a voz rouca, sem o habitual humor brincalhão.
Christina ergueu o rosto, com um brilho emocionado nos olhos, mas o sorriso murchou no instante em que notou a rigidez na postura do marido.
— Ela disse "mamãe", Johnny... ou quase isso — comentou ela, buscando a mão dele, mas os dedos de Johnny estavam tensos, os anéis de prata frios contra a pele quente da esposa. — O que aconteceu? Você passou a tarde inteira trancado com o Tracey no telefone.
Johnny suspirou, passando a mão livre pelo rosto em um gesto de puro esgotamento. Ele largou a pasta sobre a mesa e agachou-se ao lado das duas, beijando a testa de Eleanor de forma mecânica antes de fixar os olhos castanhos nos de Christina.
— Fechamos o novo projeto — anunciou ele de forma direta, sem rodeios, como quem arranca um curativo de uma ferida aberta. — É um drama psicológico noir, um suspense independente com um diretor dinamarquês brilhante. É o tipo de papel denso que eu preciso fazer agora, Christina. O roteiro é magistral.
Christina sentiu um alívio momentâneo, mas sua intuição afiada soou um alarme silencioso. Ela conhecia aquele homem melhor do que ele próprio imaginava.
— Isso é ótimo, Johnny... você estava procurando algo assim desde que terminamos *Sleepy Hollow*. Mas por que você parece estar indo para a forca?
Johnny hesitou por uma fração de segundo, e essa hesitação foi uma lâmina cortando o ar da sala.
— O financiamento do filme dependia do par romântico — explicou ele, mantendo o tom deliberadamente neutro, embora a mandíbula estivesse travada. — A produtora bateu o martelo hoje. O contrato já foi enviado para a agência dela.
— Dela quem, Johnny?
Johnny puxou o ar entre os dentes antes de soltar o nome que pairava como um fantasma inconveniente.
— Ellen Barkin.
O chão sob os pés de Christina pareceu ceder. O sangue abandonou seu rosto, deixando sua pele alva quase transparente. Ellen Barkin. A mulher madura, sensual, magnética e perigosa com quem Johnny tivera um romance tórrido e amplamente comentado nos bastidores de *Fear and Loathing in Las Vegas*, pouco antes de ele romper com Winona e antes de Christina cruzar o seu caminho. Um caso que nunca fora apenas casualidade profissional; era uma história marcada por uma química explosiva que a imprensa adorava ressuscitar sempre que tinha oportunidade.
— Não — disse Christina em um sussurro atônito.
Ela ajeitou Eleanor no chão, cercada pelas almofadas para que a bebê ficasse segura, e levantou-se rapidamente. Suas pernas tremiam.
— Não, Johnny. Diga que você não aceitou isso.
Johnny ergueu-se também, a altura dele contrastando com a estatura miúda de Christina, mas a linguagem corporal dele era de pura defensiva.
— O Tracey assinou a carta de intenção hoje cedo — rebateu ele, tentando manter a voz calma, mas a impaciência já começava a roer as bordas de sua compostura. — É trabalho, Christina. Apenas trabalho.
— Apenas trabalho?! — As primeiras lágrimas arderam nos grandes olhos escuros de Christina, e ela deu um passo à frente, agarrando a gola da camiseta de Johnny com as duas mãos trêmulas, o desespero quebrando a timidez que ela habitualmente sustentava. — Você dormiu com ela, Johnny! O mundo inteiro sabe o que vocês dois faziam naqueles hotéis! Ela não é uma colega qualquer, é uma mulher que já teve as mãos em você, que conhece cada canto da sua vida! Você não pode fazer isso comigo!
— Olhe para mim — pediu Johnny com a respiração entrecortada, segurando os pulsos delicados dela para afastá-la suavemente, mas Christina agarrou-se ainda mais ao tecido de sua roupa, recusando-se a soltá-lo. — Isso foi no passado. Muito antes de eu saber que você existia. O que houve entre mim e a Ellen está morto e enterrado há anos! Eu sou um ator, Christina! Eu vivo disso! Não posso simplesmente rejeitar um papel de prestígio por causa de fofocas de lençol de dois anos atrás!
— Você pode recusar! — soluçou ela, as lágrimas escorrendo quentes por suas bochechas pálidas, molhando o peito da camisa dele. — Você é o Johnny Depp! Você pode escolher qualquer roteiro do planeta! Por favor, Johnny... por favor, recuse esse filme. Eu estou te implorando. Não me faça passar por isso de novo. Nós mal sobrevivemos ao circo da Winona, mal conseguimos colocar a nossa casa em ordem...
— Não misture as coisas! — retrucou ele, elevando o tom de voz, os olhos faiscando com aquela faísca perigosa de quem se sente encurralado. — A situação da Winona foi um inferno de culpas e de um filho no meio do caminho! A Ellen é uma atriz profissional contratada para fazer o trabalho dela, assim como eu fui contratado para fazer o meu!
— E a Eleanor?! — disparou Christina, virando o rosto molhado em direção à bebê, usando a última carta que tinha para quebrar a obstinação de ferro do marido. — Pense na Eleanor! Ela tem oito meses, Johnny! Ela está começando a entender quem nós somos, ela está aprendendo a falar, ela acabou de balbuciar "mamãe" para mim! Você vai deixar a sua filha e a sua esposa em casa para ir fingir paixão com a sua ex-amante diante de câmeras de cinema? Que tipo de estabilidade é essa que você jurou construir para essa menina?!
O rosto de Johnny contorceu-se em uma máscara de fúria e exasperação. A menção de Eleanor como uma arma emocional atingiu em cheio o seu nervo mais exposto. Ele puxou as mãos dela de sua camisa com mais força do que o habitual e deu dois passos para trás, passando a mão pelos cabelos com violência, quase arrancando os próprios fios.
— Não ouse usar a minha filha contra mim, Christina! — rugiu ele, a voz ecoando pelas paredes da sala com tanta aspereza que Eleanor, assustada com o trovão na voz do pai, soltou um chorinho baixo no chão.
Johnny cerrou a mandíbula, olhando de relance para o bebê antes de voltar seus olhos duros para Christina, completamente desprovido de paciência.
— Eu trabalho para sustentar essa casa, para garantir o futuro da Eleanor e o seu! — continuou ele, num tom amargo e cortante. — Eu não sou um fantoche que você pode moldar para aliviar as suas inseguranças infantis! Eu coloquei uma aliança no seu dedo, eu te dei o meu nome, eu enfrentei Hollywood inteira para provar que você é a minha mulher! Mas você não é dona da minha profissão! Eu não vou rasgar um contrato de trabalho por capricho de ciúme! O filme vai ser feito, e acabou a discussão!
Christina sentiu como se tivesse levado um tapa no rosto. A dor da humilhação queimou em sua garganta, mas o pior ainda estava por vir. Ela limpou as lágrimas com as costas da mão e caminhou até a mesinha, puxando a pasta preta de couro que Johnny havia largado.
Com os dedos trêmulos, ela abriu os documentos da produção, seus olhos correndo apressadamente pelas cláusulas técnicas até encontrar a folha de cronograma de locações.
A respiração dela travou no peito. O papel quase escorregou de suas mãos.
— Finlândia? — leu ela em voz alta, a voz sumindo em um fio aterrorizado.
Ela ergueu os olhos vermelhos para Johnny, que permaneceu parado perto da janela, de braços cruzados e o olhar sombrio fixo na parede.
— Finlândia, Johnny?! — explodiu Christina em um pranto descontrolado, dando passos trôpegos em direção a ele. — Três meses no meio do nada, na neve, em cabanas isoladas no Círculo Ártico? Longe de tudo, longe de todo mundo... sozinhos no escuro do inverno com ela?!
— É onde a história se passa, porra! — disparou Johnny, a paciência evaporando de vez, gesticulando no ar com desdém irritado. — O diretor quer a luz natural da Lapônia! Quer a névoa autêntica, quer o isolamento visual! O que você acha que vai acontecer lá? Que vamos organizar orgias em cima da neve cenográfica enquanto a equipe técnica filma? Cresça, Christina! Pelo amor de Deus, aja como uma mulher de verdade e pare de se comportar como uma colegial assustada!
Aquelas palavras atingiram o coração de Christina com a força de um punhal. "Cresça." "Aja como uma mulher de verdade." A crueldade do cansaço dele feriu sua dignidade até a medula, mas, em vez de encolher-se na vulnerabilidade de seus vinte anos, uma fúria gélida e madura tomou conta de sua espinha.
Ela engoliu o soluço. Enxugou o rosto com as duas mãos em um gesto firme, respirando fundo até que o ar voltasse aos seus pulmões. Seus olhos grandes, antes suplicantes, tornaram-se duas pedras escuras e inabaláveis. Ela caminhou até o chão, pegou Eleanor no colo com extrema delicadeza, acalmando o choro da bebê ao aninhá-la contra o seu pescoço.
Com a filha de Johnny segura em seus braços, Christina deu passos lentos até parar a centímetros do marido.
— Você não vai sozinho, Johnny — declarou ela, a voz baixa, límpida e despida de qualquer tremor, soando muito mais perigosa do que qualquer grito histérico.
Johnny franziu o cenho, encarando-a com ceticismo.
— Do que você está falando?
— Estou falando que você pode mandar o Tracey alugar uma casa inteira para nós na Finlândia — disse ela, sustentando o olhar dele com uma altivez imperial. — Uma casa grande o bastante para mim, para a Eleanor e para a babá. Porque eu vou com você. Cada maldito dia, cada maldita semana.
Johnny soltou uma risada seca e sem humor, esfregando a nuca.
— Você enlouqueceu de vez? O set vai ser em condições extremas, temperaturas negativas, vilarejos minúsculos onde mal tem água encanada decente! Você quer arrastar uma bebê de oito meses para o gelo do Ártico apenas para bancar a carcereira?
— Eu vou para onde o meu marido for — rebateu Christina, sem pestanejar, com uma frieza inquebrável. — Você disse que não ia abrir mão do trabalho, e eu não vou abrir mão do meu casamento. Você acha que eu sou uma menina tola, Johnny? Você acha que eu vou ficar aqui em Los Angeles, sorrindo para os fotógrafos e cuidando da sua filha, enquanto a Ellen Barkin passeia pelos seus quartos de hotel aquecidos a lenha no meio do congelador europeu? De jeito nenhum.
Ela deu mais um passo, colando o corpo de Eleanor e o seu próprio contra o peito dele, obrigando Johnny a sentir a presença sólida da família que ele construíra.
— Você pode ser teimoso, Johnny Depp — sussurrou ela, com os olhos cravados nos dele, a promessa gravada em cada sílaba. — Você pode ser o homem genial e indomável que todo mundo aplaude. Mas você é meu homem. E eu não vou deixar você solto no gelo com o seu passado. Nós vamos para a Finlândia. Juntos.
Johnny abriu a boca para rebater, a veia em seu pescoço pulsando pela irritação provocada por aquela audácia. Ele queria berrar, queria dizer que ela estava sendo irracional, possessiva e insuportável. Mas, ao olhar para baixo e ver o rosto sereno de Eleanor adormecendo no ombro de Christina, e ao encontrar a chama destemida e feroz que brilhava no olhar da jovem esposa, as palavras simplesmente morreram em sua garganta.
Ele soltou uma respiração pesada, derrotado pelo cansaço e por aquela devoção agressiva que o desarmava por completo.
— Você é louca, Christina — murmurou ele, a voz áspera, mas sem o veneno anterior. — Completamente insana.
— Sou a mulher que você escolheu, Johnny — respondeu ela, sem desviar o olhar nem por um milésimo de segundo. — E você vai ter que me aguentar no meio da neve.
Johnny fechou os olhos, praguejando em voz baixa contra a própria sorte, enquanto Christina mantinha a cabeça erguida, abraçando a menina contra o peito e preparando-se para travar sua guerra no inverno mais escuro que a Europa pudesse oferecer.