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O Veneno da Inveja e o Rugido do Leão

O palco do Grande Teatro Municipal estava banhado por uma luz azulada e fria, mas para Eduarda, aquele era o lugar mais quente e vibrante da Terra. O som das sapatilhas batendo contra o tablado de madeira, o cheiro de resina e o eco da orquestra ensaiando no fosso eram a música de sua alma. Ela havia conseguido. O papel principal em "Giselle" era seu, uma conquista que validava anos de dedicação, calos nos pés e noites mal dormidas entre a faculdade de História da Arte e a maternidade.

Do lado de fora, nas coxias, a pequena Maya, agora com quase dois anos, observava a "mamãe Duda" com olhos hipnotizados. A menina estava sentada em um pequeno banco, usando um de seus tutus cor-de-rosa, balançando as perninhas enquanto segurava sua boneca favorita. Emanuel havia permitido que ela acompanhasse o ensaio geral, sob a condição de que uma das babás e os seguranças estivessem por perto, mas era a presença constante de Sara, que viera dar apoio moral e garantir que ninguém "atravessasse o caminho" de Eduarda, que realmente mantinha a ordem.

— Ela parece um anjo flutuando, não é? — comentou Sara, encostada em um dos cenários, os braços cruzados e um olhar de orgulho nada discreto. — Quem diria que aquela menina tímida tinha tanta força nessas pernas?

Emanuel, que acabara de chegar do estúdio e ainda vestia sua jaqueta de couro preta, não respondeu. Ele estava imóvel, os olhos fixos em Eduarda. O coração dele batia no ritmo dos saltos dela. Ver Eduarda ali, poderosa e etérea, despertava nele um senso de proteção e posse que beirava o insuportável. Ela era dele, mas ali, naquele palco, ela pertencia ao mundo, e isso o fascinava e o irritava em igual medida.

No entanto, nem todos compartilhavam daquela admiração. Escondida nas sombras do fundo do palco, Bianca, a bailarina que fora preterida para o papel principal, observava a cena com o rosto contorcido em amargura. Bianca estava na companhia há mais tempo, acreditava que o papel era seu por direito e não suportava ver a "protegida do tatuador rico" brilhar onde ela deveria estar.

— Aproveite seu momento, Eduarda — sussurrou Bianca para si mesma, apertando uma pequena garrafa térmica nas mãos. — Porque você não vai conseguir terminar este ensaio.

A pausa para o descanso foi anunciada pelo coreógrafo. As bailarinas, exaustas e suadas, dirigiram-se para a mesa de hidratação. Bianca, com um sorriso falso que não chegava aos olhos, aproximou-se com uma bandeja de copos plásticos cheios de uma vitamina de frutas vermelhas, espessa e gelada.

— Preparei para todo mundo — disse Bianca, a voz destilando uma doçura artificial. — Vitamina energética de frutas do bosque. Precisamos de açúcar para o segundo ato.

Eduarda, sempre buscando ver o melhor nas pessoas, sorriu para a colega.

— Obrigada, Bianca. É muita gentileza sua.

Ela pegou o copo que Bianca lhe estendeu especificamente — um copo que continha não apenas frutas do bosque, mas o extrato macerado de bagas de belladonna, colhidas em um jardim abandonado. Bianca sabia que a dose não seria letal, mas seria o suficiente para causar delírios, náuseas e um colapso que arruinaria a reputação de Eduarda diante dos diretores da companhia.

Eduarda deu um gole generoso, sentindo um gosto levemente amargo no fundo, mas atribuiu ao tipo de fruta silvestre. Maya, vendo a mãe beber, esticou as mãozinhas, pedindo um pouco.

— Mamãe, quelo "suco" da fada! — pediu a menina, dengosa.

— Só um pouquinho, meu amor — disse Eduarda, permitindo que a filha desse dois pequenos goles antes de afastar o copo. — É muito gelado para você.

Dez minutos depois, o ensaio recomeçou. Eduarda voltou ao centro do palco, mas algo estava errado. As luzes, antes brilhantes, começaram a criar halos estranhos. O chão parecia ondular sob suas sapatilhas. Ela tentou fazer um *arabesque*, mas sua coordenação falhou, e ela cambaleou, sentindo a boca secar instantaneamente.

— Duda? — Emanuel, sempre atento, deu um passo à frente na coxia. — Você está bem?

Eduarda tentou responder, mas sua voz saiu como um sussurro arranhado. Ela levou a mão à cabeça, a visão turvando-se em um caleidoscópio de cores distorcidas.

— Eu... eu não me sinto bem, Manu... — ela murmurou, antes de seus joelhos cederem.

Emanuel saltou para o palco antes mesmo que ela tocasse o chão, amparando-a nos braços. Ao mesmo tempo, um grito agudo veio da lateral do palco.

— Maya! — era a voz de Sara, carregada de pânico.

A pequena Maya estava caída no chão, o rosto ficando vermelho, as mãos agarrando a garganta enquanto tentava tossir. Ela começou a vomitar um líquido escuro, seus olhinhos revirando de forma assustadora.

O caos se instalou no teatro. Emanuel, com Eduarda nos braços, viu a cena da filha e sentiu um frio glacial percorrer sua espinha.

— Chamem uma ambulância! Agora! — rugiu Emanuel, sua voz ecoando como um trovão que silenciou a música.

Sara correu até Maya, pegando a menina no colo enquanto a babá tentava ajudar. Eduarda, em um estado de semi-consciência, tentava alcançar a filha, mas seu corpo não obedecia. As pupilas de ambas estavam dilatadas ao extremo, e a pele de Eduarda queimava, embora ela tremesse de frio.

***

Horas depois, na ala VIP do hospital, o clima era de um velório iminente que se transformara em uma vigília de ódio. O médico havia acabado de sair do quarto, trazendo notícias que trouxeram um alívio parcial, mas não diminuíram a tensão.

— Foi uma intoxicação por alcaloides de belladonna — explicou o doutor. — A pequena Maya ingeriu uma quantidade mínima, o que causou o vômito imediato e a taquicardia, mas ela já está estável e dormindo. Eduarda, infelizmente, ingeriu uma dose maior. Ela teve alucinações severas e um pico hipertensivo, mas o estômago foi lavado a tempo. Elas não precisarão de internação prolongada, mas ficarão sob observação por vinte e quatro horas.

Emanuel estava encostado na parede do corredor, as mãos enfiadas nos bolsos da calça, a mandíbula tão tensa que parecia prestes a quebrar. Ele não havia dito uma palavra desde que chegaram ao hospital. Sara, sentada em uma das poltronas com a maquiagem borrada e o vestido amassado, olhava para o marido com uma expressão que misturava preocupação e cumplicidade. Ela conhecia aquele olhar de Emanuel. Era o olhar de um homem que estava prestes a destruir algo.

— Emanuel... — Sara começou, a voz baixa. — Os seguranças pegaram as imagens das câmeras de segurança do teatro e recolheram os copos descartáveis do lixo.

Emanuel virou o rosto lentamente para ela. Seus olhos estavam injetados, uma escuridão profunda que emanava uma violência contida.

— E o que eles encontraram, Sara?

— Bianca — respondeu Sara, e o nome saiu como um veneno de sua boca. — Ela foi vista colocando algo no copo de Eduarda antes de entregar a ela. E as análises preliminares nos copos confirmaram os resíduos da planta. Ela tentou sabotar a Duda, Emanuel. Ela não sabia que a Maya ia beber também, mas ela tentou destruir a nossa Duda.

Emanuel fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. O som de sua respiração era pesado, preenchendo o corredor silencioso.

— Onde ela está? — perguntou ele, a voz estranhamente calma, o que era muito mais assustador do que se ele estivesse gritando.

— Ela fugiu do teatro assim que a ambulância chegou — disse Sara, levantando-se e caminhando até ele. Ela colocou a mão no peito de Emanuel, sentindo o coração dele martelando. — Mas meus contatos na administração já localizaram o endereço dela. Ela está trancada no apartamento, provavelmente arrumando as malas.

Emanuel afastou a mão de Sara suavemente e caminhou em direção à porta do quarto onde Eduarda e Maya descansavam. Ele entrou silenciosamente. Eduarda estava pálida, com olheiras profundas, dormindo sob o efeito de sedativos. Maya estava no berço hospitalar ao lado, a respiração agora rítmica e calma.

Ele se aproximou de Eduarda, beijou sua testa suada e depois tocou a mãozinha de Maya. O toque de sua família, a fragilidade delas, foi o gatilho final.

— Fique com elas, Sara — disse Emanuel, saindo do quarto sem olhar para trás.

— O que você vai fazer? — Sara perguntou, embora já soubesse a resposta.

— Vou garantir que ela nunca mais toque em uma sapatilha de ballet... ou em qualquer outra coisa — respondeu ele, a voz gélida. — Ninguém toca no que é meu e sai ileso. Ninguém.

***

O apartamento de Bianca era pequeno e estava mergulhado na penumbra. Ela corria de um lado para o outro, jogando roupas dentro de uma mala aberta sobre a cama. O pânico a consumia. Ela só queria que Eduarda passasse vergonha, que caísse no palco, que perdesse o papel. Ela nunca imaginou que a criança beberia, ou que Emanuel agiria tão rápido.

De repente, um estrondo violento fez a porta da frente voar dos eixos. Bianca soltou um grito, caindo sentada no chão.

Emanuel entrou no recinto como uma força da natureza. Ele não estava sozinho; dois de seus seguranças mais corpulentos flanqueavam a entrada, mas era a presença de Emanuel que preenchia o quarto com uma aura de morte. Ele chutou a mala de Bianca para longe, espalhando as roupas pelo chão.

— Planejando uma viagem, Bianca? — perguntou Emanuel, a voz suave, quase um sussurro, enquanto ele caminhava lentamente em direção a ela.

— Emanuel... eu... foi um erro! Eu não sabia que a menina... — ela começou a gaguejar, arrastando-se para trás até bater as costas na parede.

Emanuel se abaixou diante dela, agarrando-a pelo queixo com uma força que a fez soltar um gemido de dor. Ele a obrigou a olhar em seus olhos.

— Você deu veneno para a minha mulher — disse ele, cada palavra saindo como uma lâmina. — E você deu veneno para a minha filha. Você tem noção do que eu sou capaz de fazer com alguém que ameaça a vida das minhas meninas?

— Por favor... eu só queria o papel... eu trabalhei tanto... — ela choramingava, as lágrimas escorrendo pelo rosto borrado.

— O papel? — Emanuel soltou uma risada sombria. — Você nunca mais vai pisar em um palco. Você nunca mais vai ser nada neste mundo das artes. Eu vou destruir o seu nome, Bianca. Vou processar você por tentativa de homicídio, envenenamento e negligência. Mas antes disso...

Ele soltou o queixo dela com um empurrão desprezível e levantou-se, limpando as mãos no lenço, como se tivesse tocado em algo imundo.

— Antes disso, eu vou garantir que você sinta uma fração do medo que eu senti quando vi minha filha cair no chão.

Ele fez um sinal para os seguranças.

— Levem-na para o porão do estúdio central. Quero que ela veja todas as fotos da Maya e da Eduarda no hospital. Quero que ela entenda exatamente quem ela tentou destruir. E depois, chamem a polícia. Mas só depois que eu terminar de conversar com ela.

— Não! Emanuel, por favor! — Bianca gritava enquanto era arrastada pelos seguranças.

Emanuel permaneceu no apartamento vazio por um momento, olhando para o caos que ela deixara para trás. Sua mente voltou para o hospital, para a imagem de Eduarda e Maya. A fúria ainda queimava, mas agora era uma chama controlada, uma promessa de justiça implacável.

***

Dois dias depois, a mansão estava em silêncio absoluto. Eduarda estava deitada na cama king-size, cercada por travesseiros, ainda um pouco fraca, mas com a cor voltando ao rosto. Maya estava sentada entre as pernas da mãe, brincando com um conjunto de blocos, aparentemente já recuperada do susto, embora Emanuel a vigiasse como um falcão.

Sara entrou no quarto carregando uma bandeja com chá e torradas, sentando-se na beira da cama.

— A notícia já saiu em todos os portais — disse Sara, entregando uma xícara a Eduarda. — Bianca foi presa preventivamente. A carreira dela acabou. Nenhuma companhia de ballet no mundo vai querer chegar perto dela depois do que o Emanuel fez com a reputação dela na mídia.

Eduarda suspirou, fechando os olhos.

— Eu só queria dançar, Sara. Eu nunca fiz nada para ela.

— Inveja não precisa de motivo, Duda — disse Sara, acariciando o braço da amiga. — Ela viu o que você tem — o talento, o amor do Emanuel, a nossa família — e isso a consumiu. Mas ela mexeu com a família errada.

Emanuel entrou no quarto naquele momento. Ele parecia exausto, mas seus olhos suavizaram instantaneamente ao ver as duas mulheres e a filha juntas. Ele caminhou até a cama e sentou-se ao lado de Eduarda, puxando-a para um abraço protetor.

— Como você está se sentindo? — perguntou ele, a voz rouca.

— Melhor, Manu. Só um pouco cansada.

— Você não vai voltar para aquele teatro por um bom tempo — sentenciou Emanuel, o tom de comando voltando. — Eu vou contratar seguranças particulares para ficarem com você em cada ensaio, em cada apresentação. E ninguém, absolutamente ninguém, entra no seu camarim sem ser revistado.

Eduarda deu um sorriso fraco, encostando a cabeça no ombro dele.

— Você é exagerado, Manu.

— Ele não é exagerado, Duda — interveio Sara, bebendo um gole de seu próprio chá. — Ele é o dono da matilha. E depois do que aconteceu, eu concordo com ele. Eu mesma vou revisar cada copo de água que te oferecerem.

Maya, sentindo o clima sério, largou os blocos e subiu no colo de Emanuel, puxando sua barba.

— Papá... suco da fada não — disse a menina, com a sabedoria precoce de quem passara por um trauma.

Emanuel abraçou a filha com força, fechando os olhos.

— Não, meu anjo. Suco da fada nunca mais. Só o suco do papai e da mamãe.

Naquela noite, enquanto as luzes da mansão se apagavam, a segurança era redobrada. Emanuel não dormiu. Ele ficou sentado na poltrona do quarto, observando Eduarda e Maya descansarem. Ele sabia que o mundo lá fora era perigoso, cheio de Biancas e de inveja, mas ele também sabia que, enquanto tivesse fôlego, ninguém tocaria na sua paz. A bailarina e a pequena fada estavam protegidas sob as asas de um dragão tatuado, e o preço para desafiá-lo havia ficado bem claro para todos.

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