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Lágrimas, Pipoca e o Caos em Dose Dupla

O céu sobre a mansão estava carregado, mas nada se comparava à tempestade emocional que se desenrolava dentro das paredes de mármore e vidro. Emanuel, o homem que comandava um império de estúdios de tatuagem e lidava com os clientes mais difíceis do mundo, estava sentado no centro do enorme sofá da sala de cinema particular, sentindo-se o homem mais vulnerável da face da Terra.

O motivo? O ciclo hormonal feminino havia decidido, em uma conspiração cósmica cruel, atingir as duas mulheres de sua vida exatamente ao mesmo tempo.

À sua esquerda, Sara, a loira siliconada e geralmente inabalável, estava envolta em um robe de seda rosa choque, com um pote de sorvete de chocolate belga no colo. Seus olhos, sempre tão afiados e irônicos, estavam vermelhos e inchados. Ela fungava a cada dois minutos, alternando entre a raiva de um comercial de margarina e o choro profundo porque "a colher era pequena demais".

À sua direita, Eduarda, sua doce e sensível bailarina, parecia ter se transformado em uma extensão do seu próprio corpo. Ela estava literalmente grudada no braço dele, com o rosto escondido em seu pescoço, soluçando baixinho. O pijama de flanela com desenhos de nuvens estava úmido das lágrimas que não paravam de cair desde que ela derrubara um biscoito no chão.

— Eu não aguento mais essa pressão estética do mundo, Emanuel! — Sara exclamou, soltando um soluço dramático enquanto limpava o nariz em um lenço de papel. — Por que as colheres de sorvete não são ergonômicas? Isso é um desrespeito!

— Shhh, está tudo bem, meu amor — Emanuel tentou acalmá-la, esticando a mão livre para afagar o cabelo loiro e perfeitamente alinhado de Sara, mesmo no meio do caos.

— Não está nada bem! — Eduarda choramingou do outro lado, apertando o braço dele com as mãos pequenas. — Manu, eu sinto que o mundo é muito grande e eu sou muito pequena... e a Maya nem me deu tchau direito antes de dormir... ela me odeia, eu sei que ela me odeia!

Emanuel suspirou, sentindo o peso da responsabilidade.

— Duda, meu anjo, a Maya tem um ano e meio. Ela só estava com sono. Ela ama você mais do que tudo.

— Você está dizendo isso só para eu parar de chorar! — Eduarda levantou o rosto, os olhos castanhos transbordando de uma mágoa profunda e puramente hormonal. — Você quer que eu seja racional, mas eu só quero colo!

— Eu também quero colo! — Sara protestou, jogando-se para cima de Emanuel, disputando o espaço no peito dele. — Eu sou a mulher da casa, eu administro essa bagunça, eu mereço o primeiro turno do colo!

Emanuel se viu espremido entre as duas. De um lado, o perfume importado e marcante de Sara; do outro, o cheiro suave de alfazema de Eduarda. Ele abraçou as duas, uma em cada braço, tentando ser o pilar que elas precisavam.

— Tudo bem, tudo bem. As duas têm colo. Vamos apenas relaxar e assistir a um filme, ok? Isso vai distrair vocês.

O erro de Emanuel foi achar que a escolha do filme seria um processo simples.

— Eu quero assistir "O Diabo Veste Prada" — anunciou Sara, pegando o controle remoto com uma determinação feroz, apesar das lágrimas que ainda escorriam. — Eu preciso ver a Miranda Priestly sendo poderosa para lembrar que eu ainda sou uma grande gostosa e uma empresária de sucesso, mesmo que eu queira chorar porque acabou o meu hidratante favorito.

— Não! — Eduarda soltou um grito sofrido, escondendo o rosto no peito de Emanuel novamente. — Esse filme é muito agitado, as pessoas gritam muito... eu quero assistir "Drácula: Uma História de Amor". A versão do Coppola. É tão triste, tão romântico... o amor que atravessa séculos... é o que eu sinto agora. Uma dor secular!

Sara revirou os olhos, mas o gesto terminou em um novo soluço.

— Duda, pelo amor de Deus, esse filme é escuro e tem sangue! Eu quero moda, eu quero Nova York, eu quero ver a Anne Hathaway sofrendo por causa de um cinto! Emanuel, fala para ela que você quer assistir o filme da Miranda com a sua loira.

— Manu... — Eduarda sussurrou, a voz carregada de uma manha irresistível, puxando a gola da camiseta dele. — Fala para ela que você quer ver o Drácula com a sua pequena... eu preciso ver o príncipe da Transilvânia sofrendo por amor para me sentir compreendida... por favor...

Emanuel olhou para o teto, pedindo paciência. Ele amava as duas. Amava a força vulcânica de Sara e a delicadeza quase etérea de Eduarda. Mas ali, naquele sofá, ele se sentia o juiz de um tribunal onde a lógica havia sido banida.

— Meninas, por favor — Emanuel começou, tentando usar seu tom mais diplomático. — Por que não assistimos a um desenho? Algo leve?

— Desenho? — Sara olhou para ele como se ele tivesse sugerido que ela usasse roupas de brechó. — Eu estou com os nervos à flor da pele e você quer que eu veja um rato falando? Eu quero ver a Meryl Streep sendo fria e calculista! Emanuel, não me decepcione.

— Eu vou chorar mais se tiver que ver gente correndo atrás de táxi em Nova York — Eduarda soluçou, as lágrimas voltando a molhar a camiseta de Emanuel. — Eu quero o castelo, eu quero as noivas do Drácula, eu quero a melancolia! Manu, você prometeu que cuidaria de mim quando eu estivesse sensível...

— Eu prometi cuidar das duas! — Emanuel exclamou, perdendo um pouco da paciência, o que foi um erro fatal.

O silêncio que se seguiu foi interrompido por um coro de choros renovados. As duas agora choravam juntas, não uma com a outra, mas em uma sinfonia de desespero que ecoava pela sala de cinema.

— Você gritou com a gente! — Sara acusou, apontando o dedo com a unha perfeitamente feita para ele. — Eu estou aqui, vulnerável, com desejo de comer algo que eu nem sei o que é, e você grita!

— Você não me ama mais... — Eduarda concluiu, afastando-se dele e encolhendo-se em um canto do sofá, abraçando os próprios joelhos. — É a Ágata e a Maya... elas são as únicas que me amam de verdade...

Emanuel sentiu o impacto. Ele se aproximou de Eduarda, puxando-a de volta para seus braços, enquanto simultaneamente puxava Sara para o outro lado.

— Eu não gritei, eu só... eu só estou tentando ajudar. Eu amo as duas. Mais do que tudo no mundo. Sara, você é minha rainha, minha parceira. Duda, você é meu anjo, minha doçura. Eu quero as duas felizes.

Sara fungou, limpando o rosto no robe de seda.

— Então escolhe o meu filme.

— Não, escolhe o meu! — Eduarda insistiu, a voz manhosa voltando com tudo.

Emanuel olhou para o controle remoto na mão de Sara. Ele sabia que, se escolhesse um lado, o outro lado desmoronaria em um mar de lágrimas que duraria a noite toda. Ele precisava de uma solução prática, racional, bem ao seu estilo.

— Ok. Vamos fazer o seguinte — disse Emanuel, sua voz assumindo o tom de comando que usava em seus estúdios. — Nós vamos assistir aos dois.

As duas pararam de chorar por um segundo, olhando para ele com confusão.

— Como assim? — perguntou Sara.

— Vamos assistir dez minutos de um, depois dez minutos do outro — propôs Emanuel. — Alternando.

— Isso vai ser uma confusão mental! — Sara protestou, mas já parecia considerar a ideia.

— Eu vou ficar confusa entre o cinto da Chanel e o caixão do Drácula... — Eduarda comentou, secando uma lágrima.

— É a única forma — Emanuel insistiu. — Ou isso, ou eu desligo a TV e nós três vamos dormir agora.

As duas se olharam. Naquele momento, a solidariedade da TPM falou mais alto. Sara suspirou e estendeu o controle para Emanuel.

— Tudo bem. Mas começamos com a Miranda. Eu preciso daquela energia de "todo mundo quer ser nós" para parar de me sentir um lixo.

— E depois o Drácula — Eduarda concordou, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — Para eu lembrar que o amor é eterno.

Emanuel colocou o primeiro filme. Nos primeiros dez minutos, Sara comentava cada figurino, ora chorando porque "nunca teria aquela cintura de novo depois da Ágata", ora rindo das tiradas sarcásticas. Eduarda permanecia em silêncio, segurando a mão de Emanuel como se sua vida dependesse disso.

Quando Emanuel trocou para "Drácula", o clima mudou drasticamente. As luzes da tela ficaram sombrias, a trilha sonora tornou-se melancólica e Eduarda começou a chorar quase instantaneamente.

— Olha como ele olha para ela, Manu... — ela sussurrou. — Ele esperou quatrocentos anos... você esperaria quatrocentos anos por mim?

— Eu esperaria mil anos pelas duas — Emanuel respondeu, beijando o topo da cabeça de Eduarda.

— Ai, que brega — Sara comentou, mas Emanuel viu que ela também estava com os olhos marejados. — Mas é verdade. Ele esperaria. Ele é teimoso o suficiente para isso.

A noite prosseguiu nessa alternância caótica. Entre uma troca de figurino em Nova York e um ataque de morcegos na Transilvânia, as duas mulheres foram se acalmando. O sorvete de Sara acabou, e Eduarda acabou pegando no sono no meio do segundo bloco de "Drácula", com a cabeça no colo de Emanuel.

Sara, percebendo que a "rival" de filme havia cedido ao cansaço, desligou a TV e se aconchegou mais perto de Emanuel. O silêncio finalmente reinava.

— Ela é tão sensível, não é? — Sara sussurrou, olhando para Eduarda com uma ternura que raramente mostrava. — Às vezes eu tenho vontade de guardar ela em uma caixinha.

— Ela é — Emanuel concordou, passando o braço pelos ombros de Sara. — Mas você também é, à sua maneira. Você só esconde melhor atrás desse batom vermelho e dessa pose de durona.

Sara deu um sorriso de lado, encostando o rosto no peito dele.

— É a TPM, Emanuel. Amanhã eu volto a ser a mulher que faz você tremer os joelhos. Mas hoje... hoje eu só queria que você escolhesse o meu filme.

— Eu escolhi — ele lembrou. — E escolhi o dela. Eu sempre vou escolher as duas, Sara. Vocês são o meu equilíbrio. Sem a sua força, eu me perderia. Sem a doçura da Duda, eu endureceria.

Sara suspirou, fechando os olhos.

— Você é um cafajeste muito convincente, sabia?

— Eu sou um homem sortudo — Emanuel corrigiu.

Ele ficou ali, no escuro da sala de cinema, com as duas mulheres que amava descansando sobre ele. A tensão do dia, o susto com as crianças, as brigas por vestidos e as lágrimas hormonais... tudo parecia distante agora. Ele sabia que, na manhã seguinte, teria que lidar com as bebês, com os negócios e com as personalidades fortes de Sara e Eduarda novamente. Mas, naquele momento, o peso delas sobre seu corpo era a única âncora que ele precisava para se sentir em paz.

Emanuel fechou os olhos, sentindo o perfume de ambas se misturar no ar. Ele não precisava de Nova York e nem da Transilvânia. Seu mundo inteiro estava ali, espremido em um sofá de couro, em uma sinfonia de respirações calmas e o promessa de que, não importa o quão louca a vida se tornasse, ele sempre teria para onde voltar.

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