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Trilhas e Teimosias
A luz do sol mal havia começado a beijar as copas das árvores na fazenda da família de Emanuel e Eduarda, no interior de Minas Gerais, quando o silêncio da manhã foi quebrado pelo barulho suave de botas sobre o assoalho de madeira da varanda. O ar da montanha era fresco, quase gelado, um contraste bem-vindo ao calor abafado da cidade grande que tinham deixado para trás há dois dias.
Sara, envolta em um conjunto de ginástica de grife que custava mais do que a maioria das pessoas ganhava em um mês, ajustava o rabo de cavalo loiro com uma precisão cirúrgica. Ao seu lado, Eduarda parecia uma camponesa moderna, vestindo uma calça legging confortável e um casaco de lã largo que escondia a barriga de quatro meses, onde Maya descansava.
— Tem certeza de que é por aqui, Duda? — Sara perguntou, ajeitando os óculos de sol espelhados, mesmo que o sol ainda fosse um bocejo no horizonte. — Se eu estragar minhas unhas em algum arbusto, vou cobrar do seu primo cada centavo da manicure.
Eduarda deu um risinho baixo, ajeitando a mochila leve nas costas.
— Eu vinha aqui todo verão quando era criança, Sara. A trilha do mirante é fácil, e a vista vale a pena. O Manu ainda está dormindo pesado, ele trabalhou até tarde revisando os relatórios dos estúdios de Londres. Se a gente for agora, voltamos antes mesmo de a tia servir o café da manhã.
Sara olhou para a porta da casa principal. Ela conhecia Emanuel melhor do que ninguém; sabia que ele tinha um radar interno para qualquer coisa que envolvesse a segurança de suas "mulheres". Mas a ideia de uma pequena aventura matinal, longe dos olhares curiosos e dos comentários sussurrados dos parentes mais velhos na fazenda, era tentadora demais.
— Então vamos logo — disse Sara, com um sorriso travesso. — Antes que o "xerife" acorde e decida que é perigoso demais para duas grávidas respirarem o ar puro da floresta.
As duas começaram a caminhada. Sara, com seu jeito expansivo e vulgarmente encantador, reclamava dos insetos enquanto Eduarda guiava o caminho com uma leveza quase etérea. Elas conversavam sobre tudo: sobre a loja de Sara, sobre as aulas de história da arte de Eduarda e sobre como as meninas, Ágata e Maya, provavelmente seriam melhores amigas — ou rivais terríveis.
Enquanto isso, na casa principal, o despertar de Emanuel foi tudo menos tranquilo. Ele tateou o lado vazio da cama e, ao não encontrar o corpo quente de Sara, sentou-se abruptamente. Uma olhada rápida pelo corredor revelou que o quarto de Eduarda também estava vazio. O pânico, aquele velho conhecido que o acompanhava desde que decidira assumir a responsabilidade por ambas, subiu por sua espinha.
Ele desceu as escadas em passadas largas, encontrando sua mãe na cozinha, preparando o café.
— Mãe, onde elas estão? — A voz de Emanuel era um trovão contido.
— Quem, meu filho? A Sara e a Duda? Eu as vi saindo para o lado das trilhas faz uns vinte minutos. Pareciam bem animadas.
Emanuel sentiu a mandíbula travar.
— Sozinhas? Sem me avisar? Eduarda está grávida, Sara também! Aquela trilha tem trechos escorregadios!
— Emanuel, deixe de ser controlador — interveio o pai de Eduarda, que entrava na cozinha. — Elas são jovens, a Duda conhece esse lugar como a palma da mão.
— Elas não conhecem o perigo de uma queda no quarto mês — rosnou Emanuel, pegando as chaves da caminhonete apenas por hábito, antes de perceber que teria que ir a pé se quisesse alcançá-las no mato. — Se alguma delas torcer o tornozelo, eu não vou me perdoar. E vou matar a Sara por ter concordado com isso.
Ele saiu da casa como um furacão, ignorando os chamados da família. Emanuel não era apenas um homem apaixonado; ele era um protetor nato, um homem que construíra um império para garantir que ninguém sob sua guarda jamais passasse necessidade. A ideia de Eduarda, tão frágil e manhosa, ou de Sara, tão impulsiva e descuidada, se machucando em uma trilha de terra era o suficiente para fazê-lo perder a razão.
A caminhada que as duas levaram vinte minutos para fazer, Emanuel cobriu em dez, correndo em um ritmo constante, o suor começando a brotar em sua testa. Ele as encontrou perto de uma clareira, a cerca de dois quilômetros da sede.
— Mas que inferno vocês pensam que estão fazendo? — O grito de Emanuel ecoou entre as árvores, fazendo alguns pássaros levantarem voo.
Sara e Eduarda pararam instantaneamente. Sara virou-se, colocando a mão na cintura e exibindo um sorriso de quem sabia que estava em apuros, mas não se importava. Eduarda, por outro lado, encolheu os ombros, escondendo-se levemente atrás da loira.
— Bom dia para você também, raio de sol — disse Sara, irônica. — Estávamos apenas exercitando as pernas. O médico disse que caminhar faz bem, sabia?
— O médico disse para caminhar no plano, não subir uma trilha cheia de pedras soltas sem um telefone que pegue sinal! — Emanuel aproximou-se, a expressão fechada, os olhos saltando de uma para a outra, verificando se havia algum arranhão. — Sara, você tem 25 anos, deveria ter mais juízo. E você, Eduarda... você sabe que eu me preocupo.
Eduarda fez um biquinho, aquele jeito manhoso que sempre desarmava Emanuel, mas desta vez ele estava irado demais para ceder.
— A gente só queria ver o mirante, Manu... — sussurrou ela, os olhos castanhos brilhando com uma ponta de insegurança.
— O mirante acabou. Agora. As duas, voltem para a casa. Eu vou atrás de vocês — ordenou ele, apontando para o caminho de volta com o dedo firme.
Sara deu de ombros, revirando os olhos. Ela conhecia o limite de Emanuel e sabia que, quando ele usava aquele tom de "dono da situação", era melhor não esticar a corda. Além disso, seus pés já estavam começando a reclamar dentro dos tênis caros.
— Tudo bem, tudo bem. Não precisa ter um aneurisma — disse Sara, aproximando-se dele e dando um tapinha no rosto barbado. — Vou descer porque estou com fome e o café da sua mãe é melhor que essa vista. Vamos, Duda?
Sara começou a descer, mas para a surpresa de todos, Eduarda não se moveu. Ela permaneceu parada, olhando para o topo da colina, que estava a apenas mais dez minutos de caminhada.
— Duda, vamos — chamou Emanuel, sua voz suavizando um pouco, mas ainda mantendo a autoridade.
— Não — disse Eduarda, cruzando os braços sobre o peito.
Emanuel piscou, confuso.
— Como é?
— Eu não quero voltar agora. A gente está quase lá, Emanuel. Eu passei a semana inteira trancada naquela faculdade e ensaiando ballet até meus pés sangrarem. Eu quero ver a vista. Eu preciso de ar.
— Eduarda, você está sendo infantil. É perigoso — ele deu um passo à frente, tentando pegá-la pelo braço, mas ela se esquivou com a agilidade de uma bailarina.
— Perigoso é você me tratar como se eu fosse feita de açúcar! — Ela exclamou, com uma coragem súbita que raramente mostrava. — A Maya está ótima, eu estou ótima. A Sara quer ir? Que vá. Eu vou até o topo.
Sara, que já estava alguns metros abaixo, parou para assistir à cena, soltando uma gargalhada alta.
— Olha só! A pombinha criou garras! Essa eu quero ver.
Emanuel sentiu a veia em seu pescoço pulsar. Ele estava entre a fúria e a incredulidade.
— Eduarda, eu estou mandando. Volte agora.
— Você não manda em mim, primo — ela disse, embora a voz tivesse tremido um pouco no final. Ela deu as costas e começou a subir a trilha, agora com passos mais decididos.
Emanuel ficou parado por um segundo, olhando para Sara, que apenas deu de ombros e continuou sua descida, cantarolando.
— O problema é seu, tatuador! — gritou Sara, rindo. — Boa sorte com a sua "timidazinha"!
Rosnando um palavrão, Emanuel disparou atrás de Eduarda. Ele a alcançou em poucos passos, segurando-a pela cintura e girando-a para que ficasse de frente para ele.
— Me solta, Emanuel! — Ela começou a espernear, mas de um jeito que parecia mais uma criança fazendo pirraça do que uma mulher furiosa. — Eu quero ver o mirante! Você é um chato, um controlador, um... um brutamontes!
Emanuel, apesar de toda a raiva, sentiu um lampejo de diversão. Eduarda raramente reagia assim. Geralmente, ela se apoiava nele, buscava sua proteção e aceitava suas ordens com um sorriso doce. Vê-la ali, com o rosto corado de esforço e raiva, defendendo seu direito de ver uma paisagem, era... fascinante.
— Se eu te levar até lá, você promete que volta sem reclamar e toma todo o café da manhã que minha mãe preparou? — perguntou ele, mantendo-a presa em seus braços, sentindo o calor do corpo dela contra o seu.
Eduarda parou de se debater, olhando-o com desconfiança.
— E você para de rosnar como um cachorro bravo?
Emanuel suspirou, encostando a testa na dela. O cheiro de Eduarda, uma mistura de sabonete de bebê e natureza, começou a acalmá-lo.
— Eu paro. Mas eu vou segurando a sua mão em cada centímetro dessa subida. E se você tropeçar uma única vez, eu te carrego de volta no colo, entendeu?
Eduarda finalmente relaxou, um sorriso vitorioso surgindo em seus lábios finos.
— Combinado.
Eles subiram o restante da trilha em silêncio, as mãos entrelaçadas. Emanuel não a soltou nem por um segundo, os olhos sempre atentos ao chão, guiando-a pelos melhores caminhos. Quando finalmente chegaram ao mirante, o sol já estava alto, iluminando todo o vale da fazenda. O verde era tão intenso que parecia brilhar, e o som de uma cachoeira distante completava o cenário.
Eduarda suspirou, encostando-se no peito de Emanuel. Ele a abraçou por trás, as mãos grandes repousando sobre a barriga dela, sentindo a pequena Maya se mexer lá dentro.
— Valeu a pena? — perguntou ele, a voz baixa e rouca perto do ouvido dela.
— Valeu — sussurrou ela. — Obrigada por não me levar à força, Manu.
— Eu nunca faria isso, Duda. Eu só tenho medo. Medo de perder o que a gente construiu. Você, a Sara, as meninas... é o meu mundo inteiro.
Ela se virou nos braços dele, ficando na ponta dos pés para beijar o queixo dele.
— Você não vai perder nada. A gente é teimosa, mas a gente sempre volta para você.
Emanuel a beijou com uma ternura que contrastava com a fúria de minutos atrás. Ele sabia que, ao voltar para a casa, teria que lidar com as piadas de Sara e com os olhares repreendedores dos tios, mas ali, naquele topo de morro, tudo parecia certo.
A descida foi mais lenta. Emanuel cumpriu sua promessa de não rosnar, embora tenha feito cara feia quando cruzaram com um grupo de primos adolescentes que subiam a trilha. Quando chegaram à sede da fazenda, Sara estava sentada em uma cadeira de balanço na varanda, tomando um suco de laranja e lixando as unhas.
— Olha só quem sobreviveu à selva! — exclamou Sara, a voz carregada de deboche. — E então, Duda? O mirante ainda está lá ou o Emanuel mandou derrubar por questões de segurança?
Eduarda riu, soltando a mão de Emanuel e indo se sentar ao lado de Sara.
— Está lá. E é lindo. Você deveria ter ido.
— Eu? — Sara soltou uma gargalhada. — Querida, eu sou uma mulher de asfalto e ar-condicionado. Só fui para garantir que você não ia cair e deixar o Emanuel viúvo antes da hora. Mas agora que você provou que tem espinha dorsal, talvez eu te leve para fazer compras na Oscar Freire. Lá as trilhas são de mármore e os perigos são apenas os limites do cartão de crédito.
Emanuel observava as duas, o coração finalmente desacelerando. Ele viu seus pais e os pais de Eduarda conversando perto do curral, e por um momento, a complexidade de sua vida pareceu a coisa mais simples do mundo.
Ele caminhou até a varanda, parando entre as duas cadeiras. Ele colocou uma mão no ombro de Sara e a outra no topo da cabeça de Eduarda.
— Da próxima vez que decidirem "exercitar as pernas" — disse ele, com um tom que ainda carregava um aviso, mas agora misturado com afeto —, avisem o segurança. Ou o marido. Ou o pai. Ou qualquer pessoa que não vá ter um infarto procurando por vocês.
— Sim, senhor, capitão — disse Sara, piscando para ele.
— Prometido, Manu — murmurou Eduarda, manhosa novamente, agora que tinha conseguido o que queria.
Emanuel sorriu, um sorriso raro e verdadeiro que iluminou seu rosto sério. Ele tinha tudo sob controle, mesmo quando o controle era apenas uma ilusão mantida por duas grávidas teimosas e uma fazenda cheia de parentes. Ele era o centro daquele universo caótico, e não trocaria aquela bagunça por nenhuma paz no mundo.
Naquela tarde, enquanto a família se reunia para um almoço longo e barulhento, Emanuel sentou-se à mesa, observando Eduarda comer com apetite e Sara reclamar da gordura da carne enquanto pedia mais um pedaço. Ele sentiu Maya e Ágata, o futuro de seu império, pulsando naquelas duas mulheres tão diferentes. O equilíbrio era frágil, sim, mas era o seu equilíbrio. E ele o defenderia contra qualquer trilha, qualquer perigo e qualquer julgamento, pelo resto de sua vida.