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O Sal da Terra e a Batida do Coração
O sol da manhã refletia intensamente nas areias brancas de Búzios, transformando a vista da varanda da mansão de Dona Margareth em um cartão-postal quase ofuscante. A brisa trazia o cheiro de maresia misturado ao perfume floral excessivamente forte da dona da casa. Aos vinte e seis anos, Emanuel sentia que sua vida tinha atingido uma velocidade que ele mal conseguia acompanhar, embora mantivesse as rédeas firmes com a precisão de quem não admite o caos.
Um ano havia se passado desde que Ágata e Maya chegaram ao mundo, transformando a cobertura moderna na cidade em um campo de batalha de brinquedos, fraldas de pano e risadas. E agora, ali estavam eles, na casa de praia da mãe de Sara — uma mulher que conseguia ser ainda mais extravagante e barulhenta que a própria filha.
— Emanuel, querido, você está com uma cara de quem está carregando o mundo nas costas! Relaxe! — gritou Margareth, surgindo na varanda com um caftã de seda estampado em onça e óculos de sol tão grandes que cobriam metade do seu rosto. — Estamos na praia! Onde está o champanhe? Onde estão as minhas netas maravilhosas?
— O champanhe está na geladeira, Margareth, e as meninas estão sendo arrumadas pela Sara e pela Duda — respondeu Emanuel, a voz contida, enquanto ajustava o monitor cardíaco portátil no cinto.
Aquele pequeno aparelho era o lembrete constante da fragilidade que habitava sua casa. Maya, a pequena de olhos castanhos profundos e pele de porcelana, nascera com uma arritmia congênita. Embora estivesse bem e se desenvolvendo como qualquer criança, o coração dela às vezes decidia seguir um ritmo próprio, uma percussão apressada que fazia o sangue de Emanuel gelar.
A porta de vidro correu e Sara saiu triunfante, carregando Ágata no colo. Sara estava em seu elemento natural: um biquíni minúsculo coberto por uma saída de praia transparente, joias douradas tilintando nos pulsos e o cabelo loiro platinado impecável. Ágata, uma miniatura da mãe, já usava óculos escuros de aro rosa e um maiô de babados.
— Liberdade! — exclamou Sara, colocando Ágata no chão. — Vamos, Manu, pare de olhar para esse monitor por cinco minutos. A Ágata quer água e eu quero sol.
— Cadê a Eduarda? — Emanuel perguntou imediatamente, seus olhos já escaneando o interior da casa.
— Está vindo, Sr. Protetor. A Maya resolveu que não queria usar o chapéu — Sara revirou os olhos, mas com um sorriso. — Você sabe como a Duda é, ela fica toda nervosa se a menina chora dois segundos.
Logo atrás, Eduarda apareceu. Ela parecia um suspiro em meio à exuberância das outras duas mulheres. Vestia um vestido de algodão branco, leve e romântico, e carregava Maya com um cuidado que beirava a reverência. Eduarda estava mais magra, o rosto delicado marcado por uma leve sombra de cansaço, mas seus olhos brilharam ao encontrar os de Emanuel.
— Ela está calminha agora, Manu — sussurrou Eduarda, aproximando-se dele para que ele pudesse checar a pequena.
Emanuel tocou o rosto de Maya, sentindo a suavidade da pele da filha que ele escolhera para si.
— O monitor está estável? — ele perguntou, a voz baixando para aquele tom de ternura que só pertencia a ela.
— Sim, o ritmo está perfeito — Eduarda sorriu, encostando a cabeça no ombro dele por um segundo, buscando sua âncora.
— Chega de melaço! — Margareth interveio, batendo palmas. — Vamos para a areia! Quero mostrar para as minhas amigas do condomínio que minhas netas são as mais bonitas da Região dos Lagos!
O grupo desceu para a praia privativa da mansão. O caos organizado começou assim que os pés tocaram a areia. Ágata, que já andava com uma confiança assustadora para uma criança de um ano, não perdeu tempo. Assim que Sara a colocou no chão, a pequena loirinha disparou em direção à arrebentação, as perninhas gordinhas vencendo a resistência da areia fofa.
— Ágata! Volta aqui, sua doida! — gritou Sara, rindo e correndo atrás da filha. — Emanuel, ela vai virar um peixe!
Emanuel observava a cena, mas seus braços permaneciam em volta de Eduarda e Maya. Ele sentia a tensão no corpo de Duda.
— Ela pode ir um pouco, não pode? — perguntou Eduarda, olhando para Maya, que se agitava em seu colo, esticando os bracinhos na direção da irmã. — Ela quer correr também, Manu. Olha como ela fica inquieta.
— O sol está forte, Duda. E a agitação demais pode acelerar o batimento dela — Emanuel disse, o lado racional e protetor lutando contra o desejo de ver Maya livre. — Vamos ficar aqui na sombra do guarda-sol por enquanto.
Maya, no entanto, tinha outros planos. Ao ver Ágata tropeçar na água e soltar uma gargalhada alta, a pequena morena começou a se contorcer no colo de Eduarda, emitindo sons de protesto.
— Papai! Pa! — gritou Maya, apontando para o mar.
O coração de Emanuel derreteu. Ser chamado de "papai" por Maya era o ápice de sua existência, a validação de cada noite em claro e de cada batalha burocrática para assumir a paternidade legal.
— Tudo bem, só um pouco — cedeu ele. — Eu levo ela.
Emanuel pegou Maya no colo e caminhou até a beira da água, com Eduarda seguindo logo atrás, tensa como uma corda de violino. Ele permitiu que as ondas pequenas molhassem os pés de Maya. A menina gritou de alegria, batendo as mãos na água, os olhos castanhos brilhando com uma vivacidade que desafiava qualquer diagnóstico médico.
— Veja, Duda — disse Emanuel, olhando para a prima sobre o ombro. — Ela está feliz.
— Eu sei... é que eu sempre tenho medo de que a felicidade dela custe caro demais para o coraçãozinho — confessou Eduarda, a voz falhando.
— Eu estou aqui — ele afirmou, firme. — Eu sou o coração dela se o dela falhar.
Enquanto as crianças brincavam sob a vigilância rigorosa de Emanuel e a supervisão festiva de Sara, Margareth surgiu novamente, vindo da casa com uma bandeja de prata.
— Lanche para as minhas divas! — anunciou a perua, colocando a bandeja sobre uma mesa de apoio sob o guarda-sol.
Eduarda olhou para a bandeja e empalideceu levemente. Havia taças de mousse de chocolate, brigadeiros gourmet e pedaços de bolo de rolo.
— Margareth, a senhora sabe que a Maya não pode comer doces ainda — disse Eduarda, aproximando-se rapidamente. — O açúcar pode causar picos de energia que não são bons para a arritmia dela. O médico foi bem claro.
— Ah, Eduarda, deixe de ser tão puritana! É só um docinho, um tiquinho de nada! — Margareth pegou uma colherinha de brigadeiro e começou a balançar na frente de Maya. — Olhe, meu amor, o que a vovó trouxe para você!
Maya, atraída pelo brilho e pela cor escura do chocolate, esticou a mãozinha, os olhos fixos no doce proibido.
— Não! — A voz de Emanuel cortou o ar como um chicote.
Ele entregou Maya para Eduarda e se colocou entre a sogra e a criança. A expressão dele era a mesma que usava quando um cliente tentava mudar um desenho no meio de uma tatuagem: fria e inabalável.
— Margareth, eu aprecio a hospitalidade, mas o que eu e a Eduarda decidimos sobre a saúde da Maya é lei. Não tem "tiquinho", não tem exceção. Ela não vai comer açúcar.
Margareth fez um biquinho ofendido, ajeitando os óculos escuros.
— Credo, Emanuel! Você é um ditador! Sara, diga alguma coisa para esse seu marido ogro!
Sara, que estava passando protetor solar nos ombros de Ágata, nem se deu ao trabalho de olhar para cima.
— Mãe, se o Emanuel disse que não, é não. E se você der doce para a Maya escondido, eu juro que conto para ele que você comprou aquela bolsa falsificada em Miami e disse que era original.
Margareth soltou um ganido de horror e recuou com a bandeja.
— Vocês são uns ingratos! Vou comer tudo sozinha então!
Eduarda soltou um suspiro de alívio, abraçando Maya contra o peito. A pequena, frustrada por não ter alcançado o brigadeiro, começou a choramingar, escondendo o rosto no pescoço da mãe.
— Ela está ficando manhosa, Manu — disse Eduarda, balançando-a devagar. — Acho que é hora da soneca.
— Vou levá-las para dentro — disse Emanuel. — Sara, você vem?
— Vou ficar mais dez minutos para garantir que minha marca de biquíni fique perfeita — respondeu Sara, mandando um beijo no ar. — Leve a Ágata também, ela já está começando a comer areia.
Emanuel pegou Ágata, que protestou com um grito estridente, enquanto Eduarda levava Maya. O contraste entre as duas crianças era o reflexo das duas mulheres em sua vida. Ágata era o fogo, o ruído, a presença que exigia ser notada; Maya era a luz suave, a melodia delicada que precisava de proteção e silêncio.
Dentro da casa, o ar fresco trouxe um alívio imediato. Emanuel ajudou Eduarda a dar um banho rápido nas meninas para tirar o sal. No berçário improvisado da mansão, ele observou enquanto Eduarda amamentava Maya para acalmá-la, um hábito que ela ainda mantinha para os momentos de crise emocional da bebê.
— Você foi muito firme com a Margareth — comentou Eduarda, a voz suave enquanto Maya relaxava em seus braços. — Obrigada por me defender. Às vezes eu me sinto tão pequena perto da sua família... da Sara.
Emanuel sentou-se ao lado dela na poltrona de amamentação, passando o braço pelos ombros de Eduarda.
— Você nunca é pequena, Duda. Você é a mãe da minha filha. Você é a mulher que traz paz para essa casa. A Sara... ela é o meu mundo lá fora, a minha força. Mas você é o meu refúgio. Eu preciso das duas para estar inteiro.
Eduarda sorriu, encostando a cabeça na dele.
— Eu sei. E eu amo a Sara por deixar que eu faça parte disso. Por não me ver como uma intrusa.
— Ela nunca veria — afirmou Emanuel. — Ela sabe que o que eu sinto por você não tira nada dela. Só soma.
Nesse momento, Sara entrou no quarto, ainda exalando o cheiro de sol e mar. Ela jogou-se na cama ao lado da poltrona, observando a cena com um olhar satisfeito.
— As pestinhas dormiram? — perguntou ela em voz baixa.
— Quase — respondeu Emanuel.
Sara esticou a mão e tocou o pé de Maya, que pendia do colo de Eduarda.
— Ela é tão parecida com você, Duda. Tão calminha. A Ágata já desmaiou no outro berço, parece que lutou dez rounds de boxe.
As duas mulheres se olharam. Havia uma cumplicidade ali que transcendia o ciúme tradicional. Sara, com sua vulgaridade assumida e seu coração de ouro, via em Eduarda a irmã que nunca teve e a suavidade que ela mesma não conseguia ter. Eduarda via em Sara a proteção e a coragem que lhe faltavam. E Emanuel era o eixo que mantinha as duas órbitas em perfeita harmonia.
— Emanuel — chamou Sara, a voz subitamente séria. — Minha mãe comentou que quer fazer um jantar de gala amanhã para os amigos dela. Ela quer que a gente apresente as meninas "oficialmente".
Emanuel franziu o cenho.
— Eu não gosto disso, Sara. Maya não deve ser exposta a muita gente, barulho e fumaça.
— Eu sei, por isso eu já disse para ela que o jantar vai ser no jardim, com música baixa e que as meninas só vão aparecer por dez minutos para as fotos — Sara sorriu, um sorriso predatório. — Eu controlo a velha, Manu. Não se preocupe.
Eduarda olhou para Emanuel, a insegurança voltando aos seus olhos.
— Eu vou ter que ir também? Como... como o quê?
Emanuel pegou a mão de Eduarda e a de Sara, unindo as três em um aperto firme.
— Você vai como a minha Eduarda. A mãe da Maya. A mulher que vive comigo. Quem não gostar da nossa configuração, pode sair pela mesma porta que entrou. Eu sou Emanuel, e eu não peço licença para amar quem eu amo.
Sara soltou uma risadinha.
— Isso aí, maridão. Mostre para aqueles velhos decrépitos como se faz.
A tarde seguiu em silêncio. As bebês dormiam, o mar rugia ao longe e, dentro daquele quarto, o tempo parecia ter parado. Emanuel observava suas duas mulheres — a loira exuberante agora cochilando na cama e a morena delicada ninando a filha no colo.
Ele sentia o peso do monitor cardíaco em seu cinto, um lembrete de que a vida era frágil. Mas, ao olhar para a união daquelas três vidas, ele sabia que, enquanto ele estivesse ali, nenhum coração bateria fora do ritmo por muito tempo. Ele era o compasso, o protetor e o senhor daquela estranha e maravilhosa família.
Maya suspirou no sono, um som pequeno e perfeito. O ritmo estava estável. O amor estava completo. E na casa de praia da perua Margareth, entre brigadeiros proibidos e ondas de calor, Emanuel finalmente permitiu-se fechar os olhos, sabendo que tinha tudo o que um homem poderia desejar: a força, a doçura e o futuro batendo forte em seus braços.