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O Refúgio de Renda e a Paciência de Tatuador
A cobertura de Emanuel estava mais movimentada do que o habitual. O tilintar de taças de cristal e o murmúrio de conversas sobre investimentos e arte preenchiam o ar, misturando-se ao aroma de canapés sofisticados e perfumes caros. Emanuel, impecável em uma camisa social preta que deixava transparecer as tatuagens em seus punhos, circulava entre seus sócios e amigos de longa data. Ao seu lado, Sara, deslumbrante em um vestido justo de paetês dourados, exibia seu sorriso mais magnético, gerenciando a parte social do evento com a perícia de uma rainha.
Eduarda, por outro lado, sentia-se como uma pequena ilha de serenidade em meio ao oceano agitado. Ela usava um vestido midi de seda fluida, em um tom de azul-sereno que realçava sua pele clara e seus cabelos castanhos presos em um arranjo delicado. Para ela, aqueles eventos ainda eram um desafio para sua timidez, mas ela o fazia por Emanuel. E, claro, porque Maya raramente aceitava ficar longe dela por muito tempo.
Maya, agora com quase dois anos e meio, tinha desenvolvido uma peculiaridade adorável e, por vezes, desesperadora. Sempre que se sentia sobrecarregada pelo barulho ou pela presença de estranhos, ela não chorava; ela buscava o refúgio mais seguro que conhecia: as pernas da mãe. E não era apenas um abraço; Maya tinha a mania de se enfiar debaixo das saias ou vestidos de Eduarda, sentando-se sobre os pés da mãe e escondendo-se completamente sob o tecido, como se estivesse em uma cabana mágica.
— Ela está lá embaixo de novo, não está? — perguntou Sara, aproximando-se com uma taça de espumante e notando o leve volume estranho na saia de Eduarda.
— Há dez minutos — sussurrou Eduarda, mantendo um sorriso amarelo enquanto conversava com a esposa de um dos sócios de Emanuel. — Ela se assustou quando o garçom derrubou a bandeja. Agora não quer sair por nada.
Emanuel aproximou-se do grupo, com um olhar atento. Ele notou imediatamente que Eduarda estava caminhando com passos curtos e travados, tentando não tropeçar na filha que se agarrava às suas panturrilhas por baixo da seda azul.
— Duda, você quer que eu a pegue? — Emanuel perguntou, a voz baixa, carregada daquela proteção possessiva que era sua marca registrada.
— Não, Manu, deixa ela. Se você tentar puxar, ela vai abrir o berreiro e aí sim todo mundo vai olhar — Eduarda respondeu, sentindo as mãozinhas de Maya puxarem o tecido para cima para criar mais espaço.
O problema escalou quando um grupo de investidores europeus, homens sérios e de poucas palavras, cercou Emanuel para discutir a abertura de um novo estúdio em Berlim. Emanuel, tentando manter a postura profissional, posicionou-se ao lado de Eduarda, colocando a mão em sua cintura.
— Este é o projeto que mencionamos — dizia Emanuel, gesticulando para um tablet. — A estética será industrial, mas com o conforto que...
Nesse momento, Maya, cansada de ficar apenas sentada, decidiu que queria escalar. Por baixo do vestido de Eduarda, a menina começou a puxar a meia-calça da mãe e a usar a bainha do vestido como apoio para se levantar.
Eduarda sentiu o tecido escorregar. O vestido de seda, embora lindo, não tinha uma estrutura rígida. A pressão de Maya para baixo era constante e forte.
— Maya, meu amor, solte um pouquinho... — murmurou Eduarda, o rosto começando a ganhar um tom de vermelho vivo enquanto sentia o decote do vestido descer perigosamente.
— Como eu dizia — continuou Emanuel, alheio ao drama subaquático —, a curadoria dos artistas será...
De repente, Maya deu um puxão seco e vigoroso, decidida a sair do seu esconderijo pela parte de cima. O vestido de Eduarda cedeu. O ombro caiu e o busto da peça desceu quase até o limite do que a decência permitia em um evento social. Eduarda soltou um ganido abafado, agarrando o tecido com as duas mãos no último segundo, antes que ficasse completamente exposta diante de cinco dos homens mais ricos e conservadores do ramo.
Emanuel parou de falar no meio da frase. Seus olhos se arregalaram e ele sentiu o sangue subir para o rosto em uma velocidade alarmante. Ele se moveu como um raio, colocando-se exatamente na frente de Eduarda, bloqueando a visão dos investidores com seu corpo largo e sua postura intimidadora.
— Com licença, senhores — disse Emanuel, a voz soando como um rosnado contido. — Minha esposa teve um pequeno problema com o... o arranjo das flores. Voltamos em um instante.
Ele não esperou resposta. Ele praticamente arrastou Eduarda — que ainda tinha Maya agarrada às suas pernas por baixo da saia — para um canto mais reservado, atrás de uma pilastra de mármore perto da entrada da cozinha.
— Pelo amor de Deus, Eduarda! — exclamou Emanuel, o peito arfando de irritação e puro choque. — Ela quase te deixou nua na frente de Berlim inteira!
Eduarda, que estava entre o choro e o riso histérico, tentava desesperadamente ajeitar o vestido enquanto Maya, alheia ao caos, colocava a cabecinha para fora da fenda da saia, rindo e batendo palmas.
— Maya, meu amor, saia daí pelo amor de Deus! — disse Eduarda, finalmente soltando uma risada nervosa. — Você vai matar seu pai de infarto!
— Não tem graça, Eduarda! — Emanuel estava com os braços cruzados, a veia em seu pescoço saltada. — Eu vi a vida passar diante dos meus olhos. Se eu não tivesse sido rápido, o Sr. Schmidt teria visto mais do que os meus projetos de tatuagem!
Sara, que tinha seguido o rastro de destruição, apareceu atrás da pilastra, dobrada de tanto rir, com a mão na barriga.
— Ah, Emanuel... a sua cara... foi impagável! — Sara dizia entre gargalhadas. — Você parecia um guarda-costas em pânico. E a Maya... olha para ela, Manu! Ela acha que é uma brincadeira!
Maya, vendo que o "papai" estava bravo, saiu debaixo do vestido e correu para as pernas de Emanuel, abraçando-as com a mesma força que fazia com a mãe.
— Papai bravo? — perguntou a menina, com os olhinhos brilhando de travessura.
Emanuel olhou para baixo, para a pequena criatura que era a razão de suas maiores preocupações e de suas maiores alegrias. A irritação começou a ceder, substituída por aquela exaustão amorosa que só Maya conseguia provocar nele.
— Sim, o papai está bravo, Maya — disse ele, pegando-a no colo e a suspendendo no ar. — Você não pode puxar o vestido da mamãe. A mamãe não é uma barraca de acampamento. Entendeu?
Maya deu um beijo barulhento na bochecha de Emanuel, o que o fez suspirar e fechar os olhos por um momento.
— Eduarda, por favor — pediu ele, olhando para a prima com um olhar suplicante —, vá trocar de roupa. Use algo que tenha um zíper blindado ou que seja impossível de puxar. Eu não aguento mais um susto desses.
— Eu vou colocar uma calça, Manu — disse Eduarda, ainda rindo e ajeitando o cabelo. — Prometo que não haverá mais shows involuntários hoje.
— Acho bom — resmungou Emanuel, mas ele já estava sorrindo de volta.
Sara aproximou-se e pegou Maya do colo de Emanuel, piscando para ele.
— Relaxa, maridão. Foi o momento mais emocionante da noite. Aqueles alemães estavam achando tudo muito chato, você deu a eles algo para comentar no jantar.
— Sara, se você abrir a boca sobre isso no salão, eu juro que cancelo a sua reserva no spa — ameaçou Emanuel, embora sem convicção.
— Você não teria coragem — Sara riu, saindo com Maya no colo, que agora tentava se esconder sob o cabelo loiro da mãe.
Emanuel ficou sozinho com Eduarda por um momento no corredor silencioso. Ele se aproximou dela, tocando seu rosto com ternura, a irritação completamente dissipada.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz agora suave.
— Estou, Manu. Só um pouco envergonhada. Ela é tão manhosa, só queria se esconder...
— Eu sei. Ela herdou a sua timidez e a audácia da Sara. É uma combinação perigosa para o meu coração — ele a beijou na testa. — Vá se trocar. Eu vou lá fora tentar convencer o Sr. Schmidt de que o que ele viu foi apenas uma ilusão de ótica causada pelo excesso de champanhe.
Eduarda riu, dando um selinho rápido nele antes de correr para o quarto. Emanuel ajeitou os punhos da camisa, respirou fundo e voltou para a festa. Ele era um homem rico, poderoso e respeitado, mas sabia que, naquela casa, quem realmente mandava eram as mulheres — especialmente a pequena que achava que vestidos de seda eram feitos para esconder tesouros.
Ao entrar novamente no salão, ele viu Sara de longe, exibindo Maya para os convidados como se nada tivesse acontecido. Emanuel sorriu para si mesmo. A vida com elas nunca era monótona, e embora Maya quase o tivesse matado de susto, ele não trocaria aquele caos por nenhuma paz no mundo. Afinal, ele era Emanuel, e se o preço de ter as duas mulheres que amava era lidar com uma filha que transformava eventos sociais em comédias de erros, ele pagaria esse preço todos os dias, com juros e correções.