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D

O Sal da Pele e o Tempero do Afeto

A brisa do mar trazia um alívio imediato para a tensão que ainda pairava nos ombros de Emanuel. A casa de praia da mãe de Sara, uma construção moderna de vidro e madeira encravada nas dunas do litoral paulista, era o cenário perfeito para enterrar as memórias amargas do incidente com a tia Odete. Ali, o som das ondas quebrando substituía os gritos, e o azul infinito do oceano prometia uma renovação que todos precisavam desesperadamente.

Emanuel estava parado no deque, observando o horizonte. Aos vinte e cinco anos, ele carregava a responsabilidade de um império e a complexidade de um lar nada convencional. Ele sentia o peso de ser o porto seguro de duas mulheres tão distintas, mas igualmente essenciais. Sara era sua força, sua parceira de negócios e de vida, a mulher que desafiava seu controle com um sorriso atrevido. Eduarda era sua paz, sua musa, a doçura que suavizava as arestas de sua alma marcada por tintas e agulhas.

O silêncio matinal foi interrompido por um estrondo seco vindo da sala de estar principal.

— Mas que inferno, Ágata! — O grito de Sara ecoou, seguido pelo choro agudo da pequena.

Emanuel entrou na casa a passos largos. No centro da sala decorada com peças de design caríssimas, Sara estava de pé, com as mãos na cintura, fulminando a filha com o olhar. Aos seus pés, os restos de um vaso de cristal murano, uma das peças favoritas da mãe de Sara, brilhavam como diamantes partidos sobre o mármore.

— Sara, calma — Emanuel disse, aproximando-se e pegando Ágata no colo para acalmá-la.

— Calma nada, Manu! Esse vaso era a relíquia da mamãe. Eu falei mil vezes para essa menina não correr perto do aparador! — Sara estava furiosa, a veia em seu pescoço saltada sob a pele bronzeada. — Ela é igualzinha a você, teimosa e ignorante quando quer!

— Ela tem um ano, Sara. Acidentes acontecem — Emanuel retrucou, sentindo a irritação subir, mas mantendo a voz firme.

— Pois agora você limpa e explica para a minha mãe o porquê da sala dela estar parecendo um campo de batalha — Sara bufou, saindo em direção à cozinha para buscar um café, seus quadris balançando com uma raiva que Emanuel conhecia bem.

Enquanto Emanuel tentava consolar Ágata, um novo pânico se instalou, mas desta vez veio do jardim dos fundos.

— Maya! Não! — O grito de Eduarda foi agudo, carregado de um terror puro que fez o coração de Emanuel errar uma batida.

Ele deixou Ágata em um cercadinho seguro e correu para a varanda. A cena que encontrou quase o fez ter um infarto fulminante. Maya, a pequena de um ano com seus cachos castanhos, estava agachada na grama, com os bracinhos esticados para envolver o pescoço de Zeus, o Pitbull gigante da irmã de Sara. O cão, uma massa de músculos de trinta quilos, estava com as orelhas em pé, observando a criança que tentava "abraçá-lo" com a inocência de quem não conhece o perigo.

Eduarda estava estática a poucos metros, com as mãos na boca, o rosto pálido como cera. Ela sabia que qualquer movimento brusco poderia assustar o animal.

— Maya, vem com o papai... — Emanuel disse, a voz saindo em um sussurro rouco, o suor frio escorrendo por suas costas.

Ele caminhou milímetro por milímetro. Zeus rosnou baixo, um som vibrante que parecia um trovão contido. Maya, alheia ao risco, riu e puxou a orelha do cachorro.

— Au au, papai! — ela exclamou, feliz.

Emanuel agiu rápido. Em um movimento preciso, ele se lançou e pegou Maya pela cintura, puxando-a para trás no exato momento em que o cachorro se levantava. O Pitbull apenas latiu uma vez e correu em direção a uma bola de tênis, mas a descarga de adrenalina em Emanuel foi tão forte que suas mãos começaram a tremer.

— Você está louca, Eduarda? — Emanuel explodiu, a fúria substituindo o medo. — Onde você estava com a cabeça para deixar ela chegar perto desse cachorro?

Eduarda desabou em lágrimas, escondendo o rosto nas mãos.

— Eu só virei para pegar a toalha, Manu... eu juro... foi um segundo...

— Um segundo é o que basta para uma tragédia! — Ele rosnou, segurando Maya contra o peito com tanta força que a menina começou a reclamar. — Eu não posso tirar os olhos de vocês por um minuto? Primeiro a Sara com o vaso, agora você com o cachorro! Vocês querem me matar do coração?

Eduarda soluçava, o corpo esguio tremendo sob o vestido de alças. Ela parecia uma criança repreendida, vulnerável e quebradiça. Emanuel sentiu uma pontada de culpa ao ver o estado dela, mas a raiva pela falta de cuidado ainda falava mais alto.

— Entrem. Agora. E fiquem lá dentro — ele ordenou, a voz de comando que usava em seus estúdios, aquela que ninguém ousava questionar.

O resto da manhã foi um deserto de palavras. Emanuel se trancou no escritório da casa para resolver problemas de um de seus estúdios em Berlim, mas sua mente estava na cozinha. O estresse sempre lhe abria o apetite, e ele estava faminto.

Ao meio-dia, o cheiro de comida começou a invadir a casa. A mãe de Sara, uma mulher prática e sofisticada, havia contratado uma equipe de cozinheiras locais para preparar um banquete de frutos do mar. A mesa estava posta com requinte: lagostas, risoto de camarão e peixes assados com ervas finas.

Emanuel sentou-se à cabeceira, o rosto fechado. As duas mulheres sentaram-se lado a lado, trocando olhares nervosos.

— O almoço está servido, querido — disse a mãe de Sara, sorrindo. — Essas mulheres são as melhores da região.

Emanuel pegou uma garfada do risoto. Mastigou devagar. Seu rosto não mudou de expressão, mas ele deixou o talher cair no prato com um estalo metálico que fez todos pularem.

— O que foi, Manu? — Sara perguntou, tentando ser diplomática apesar da própria irritação matinal. — Está ruim?

— Não tem gosto de nada — Emanuel disse, a voz carregada de mau humor. — É comida de restaurante. Sem alma. Sem tempero.

— Manu, por favor — Eduarda pediu baixinho, tocando o braço dele. — É uma desfeita com a tia. As senhoras se esforçaram tanto.

— Eu não me importo — ele rebateu, cruzando os braços sobre o peito tatuado. — Eu quero a sua comida, Duda. Eu quero aquele frango com quiabo ou o arroz temperado que você faz. Eu não vou comer isso aqui.

— Você está sendo ridículo! — Sara exclamou, perdendo a paciência. — Estamos na casa da minha mãe, Emanuel. Você não pode simplesmente rejeitar o banquete porque quer o tempero da "sua pequena". Coma e fique quieto.

— Não — ele disse, simplesmente.

Emanuel levantou-se e foi para a sala de TV, emburrado como um adolescente. Ele se jogou no sofá e ligou o videogame, ignorando os chamados das três mulheres. O estresse da manhã, somado à fome, o transformara em uma muralha de teimosia.

Na cozinha, o clima era de puro constrangimento.

— Me desculpe, mãe — Sara disse, massageando as têmporas. — Ele está impossível hoje.

— Ele está mimado, isso sim — a mãe de Sara comentou, embora com um sorriso compreensivo. — Mas eu entendo. O amor passa pelo estômago, e parece que a Eduarda fisgou o coração dele por lá.

Eduarda olhou para Sara, seus olhos castanhos cheios de dúvida.

— Eu não queria ser indelicada, mas ele não vai ceder, Sara. Você conhece o Manu. Se ele cismar que só quer a minha comida, ele vai ficar sem comer até amanhã.

Sara suspirou, olhando para a porta da sala onde se ouvia o som de explosões do jogo.

— Vai lá, Duda. Faz alguma coisa simples para esse homem antes que ele tenha um surto de hipoglicemia e resolva vender a casa da minha mãe por vingança. Eu distraio as cozinheiras e limpo a barra com a mamãe.

Eduarda sorriu, grata pela cumplicidade de Sara. Elas tinham essa dinâmica: Sara lidava com a logística e com as explosões de Emanuel, enquanto Eduarda cuidava do bem-estar emocional e das necessidades mais íntimas.

Eduarda entrou na cozinha com passos leves. Ela encontrou alguns ingredientes básicos que não haviam sido usados: um pouco de carne moída, batatas, cebola, alho e cheiro-verde. Em vinte minutos, o aroma de uma comida caseira, simples e potente, começou a serpentear pelo corredor.

Ela colocou o prato em uma bandeja, junto com um copo de suco de laranja natural, e caminhou até a sala. Emanuel nem olhou para trás, concentrado em abater inimigos virtuais.

— Manu... — ela chamou, a voz doce e manhosa.

— Eu já disse que não quero aquela lagosta, Duda.

— Eu sei. Por isso eu fiz isso aqui.

Ela colocou a bandeja na mesa de centro. O cheiro de alho frito e carne bem temperada atingiu o nariz de Emanuel como um feitiço. Ele pausou o jogo e olhou para o prato. Era um simples escondidinho de batata com carne moída, mas o brilho nos olhos dele mudou instantaneamente.

— Você fez para mim? — ele perguntou, a voz já perdendo a rigidez.

— Fiz. Mesmo você sendo um teimoso e tendo gritado comigo hoje cedo — ela disse, sentando-se no chão, entre as pernas dele, e apoiando o queixo nos joelhos do homem. — Eu não gosto quando você fica bravo, Manu. E não gosto quando você fica com fome.

Emanuel pegou a primeira garfada. O sabor do tempero de Eduarda, aquele equilíbrio perfeito que só ela sabia atingir, pareceu derreter toda a sua raiva. Ele suspirou, relaxando os ombros.

— Vem aqui — ele ordenou, mas desta vez o tom era de convite.

Ele a puxou para o seu colo. Eduarda, sensível e intuitiva como sempre, acomodou-se ali, esfregando o rosto no pescoço dele, buscando o carinho que sabia que viria após a tempestade.

— Desculpa por ter gritado — Emanuel murmurou entre uma garfada e outra. — Eu quase morri quando vi a Maya perto daquele cachorro. E a Sara me tirou do sério com aquele vaso. Eu só... eu perco a cabeça porque amo vocês demais. Eu tenho medo de perder qualquer uma de vocês.

— Nós sabemos, meu amor — Eduarda sussurrou, fazendo carinhos na nuca dele. — Mas você precisa confiar na gente também. A gente erra, mas a gente te ama.

Sara apareceu na porta da sala, observando a cena. Ela não sentia ciúmes; sentia satisfação. Ver Emanuel alimentado e calmo com Eduarda em seus braços era a garantia de que a paz voltaria à casa.

— Vejo que o monstro foi domado — Sara disse, caminhando até eles e sentando-se no braço do sofá. Ela se inclinou e roubou uma batata do prato de Emanuel. — Está bom mesmo, Duda. Você tem mãos de fada.

— Ei! É meu! — Emanuel reclamou, mas já havia um sorriso no canto de sua boca.

Sara riu e deu um beijo rápido nos lábios dele, depois um beijo na testa de Eduarda.

— Agora que o senhor está satisfeito, pode ir lá pedir desculpas para a minha mãe e prometê-la um vaso novo, de preferência um que a Ágata não consiga quebrar.

Emanuel terminou de comer, sentindo-se completo. Ele olhou para as duas mulheres à sua frente: a loira exuberante que era seu braço direito e a bailarina delicada que era seu coração.

— Eu vou — ele disse, levantando-se com Eduarda ainda em seus braços, carregando-a como se ela não pesasse nada. — Mas só porque a comida estava maravilhosa.

Ele caminhou até o deque, onde as crianças agora brincavam sob a supervisão atenta da babá e da avó. O sol brilhava intensamente, refletindo no mar. Emanuel sentou-se em uma grande espreguiçadeira, puxando Eduarda para um lado e Sara para o outro.

— Vocês duas são um problema — ele declarou, fechando os olhos e sentindo o calor do sol e o toque delas.

— E você é a solução — Sara rebateu, encostando a cabeça no ombro dele.

— E o nosso porto seguro — Eduarda completou, segurando a mão de Sara por cima do peito de Emanuel.

Naquele momento, entre o sal do mar e o tempero do afeto, Emanuel entendeu que, por mais que tentasse controlar tudo, a verdadeira felicidade estava na entrega. Ele queria as duas, e ele as tinha. E, enquanto elas estivessem ali, desobedecendo suas ordens, quebrando vasos ou temperando sua vida, ele seria o homem mais rico do mundo, muito além de qualquer estúdio de tatuagem ou conta bancária. O caos era a sua ordem, e o amor, em sua forma mais complexa e plural, era a única lei que ele realmente respeitava.

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