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O Altar das Vaidades e a Rebelião das Herdeiras
A manhã na mansão de Emanuel começou com um silêncio enganoso, aquele tipo de quietude que precede as grandes tempestades. O sol mal havia cruzado a linha das janelas de vidro do quarto principal quando o primeiro grito cortou o ar, vindo diretamente do banheiro da suíte de Eduarda.
— Maya! Não! O meu shampoo francês! — A voz de Eduarda, geralmente doce e suave como uma melodia de ballet, subiu duas oitavas em um desespero genuíno.
Emanuel, que ainda tentava processar o primeiro café do dia na cozinha, parou com a xícara no ar. Antes que pudesse reagir, um segundo grito, muito mais estridente e carregado de uma fúria vulcânica, explodiu do outro lado do corredor, no closet de Sara.
— Ágata! Sua pestinha! Você derramou o meu creme de caviar! O pote inteiro! — O som de algo sendo jogado no chão seguiu a exclamação de Sara.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um breve momento. Ele sabia que, quando se tratava da vaidade de suas duas mulheres, o terreno era mais perigoso do que qualquer convenção de tatuagem em zona de guerra. Ele caminhou apressadamente para o andar de cima, encontrando uma cena de caos absoluto no corredor.
Eduarda estava sentada no chão do banheiro, com os olhos úmidos, segurando um frasco de vidro âmbar totalmente vazio. A pequena Maya, com seus cachinhos castanhos ensopados e um cheiro floral caríssimo exalando de cada poro, batia palmas, encantada com a espuma que havia criado no tapete de seda.
— Duda, calma, é só um shampoo — Emanuel começou, tentando manter a voz neutra.
— Só um shampoo, Emanuel? — Eduarda levantou o rosto, a expressão manhosa dando lugar a uma indignação profunda. — Esse shampoo foi importado, eu esperei três meses para chegar! A Maya usou tudo para dar banho nas bonecas! Olha o estado do cabelo dela, está parecendo uma nuvem de sabão!
— Mamãe, cheirosa! — Maya exclamou, tentando abraçar a perna de Eduarda, que se esquivou para não molhar o pijama.
— Não está cheirosa, Maya! Você está proibida de entrar no meu banheiro! — Eduarda ralhou, a voz trêmula.
Nesse momento, Sara surgiu na porta, arrastando Ágata pelo braço. A menina loira tinha as mãos e o rosto cobertos por uma substância branca e brilhante que parecia valer mais do que o peso de um carro popular.
— Emanuel, olha isso! — Sara apontou para a filha, a voz tremendo de ódio. — Ela entrou no meu armário trancado — eu não sei como essa garota aprendeu a usar grampos — e esvaziou o creme de reconstrução de fios de ouro. O pote custou dois mil dólares!
— Sara, ela é um bebê, ela viu o brilho e achou que era tinta — Emanuel tentou intervir, aproximando-se de Ágata para limpar o rosto da menina com a barra da própria camiseta.
— Não defenda ela! — Sara gritou, cruzando os braços sobre o peito, fazendo com que o silicone marcado pelo sutiã rendado subisse de forma agressiva. — Você mima demais essas meninas. Agora eu tenho um evento da loja amanhã e meu cabelo vai estar uma palha porque a sua filha resolveu fazer arte!
— A minha filha? — Emanuel arqueou uma sobrancelha. — Engraçado como ela vira "minha filha" só quando faz bagunça.
— É sua sim! Essa teimosia de querer o que não deve é todinha sua! — Sara rebateu, os olhos azuis faiscando.
Eduarda, sentindo-se validada pela fúria de Sara, levantou-se e juntou-se à "prima".
— E a Maya também! Ela viu você me dando o shampoo e decidiu que queria "brincar de mamãe". Você incentiva elas a mexerem em tudo, Emanuel. Você diz que a casa é delas, que tudo é delas... e olha o resultado!
Emanuel olhou para as duas. Sara, loira, exuberante e vulcânica; Eduarda, delicada, sensível e agora com um biquinho de choro que geralmente o dobrava. Mas, naquele momento, ele sentiu a injustiça da situação. As meninas eram apenas bebês de um ano explorando o mundo.
— Escutem aqui as duas — Emanuel disse, a voz baixando para aquele tom de autoridade que costumava silenciar seus estúdios. — São crianças. Elas não têm noção de valor monetário ou de raridade de produtos. Vocês estão gritando com bebês por causa de cosméticos.
— Cosméticos? — Sara deu um passo à frente, o perfume forte e a presença marcante inundando o espaço. — Isso é investimento, Emanuel! Minha imagem é meu trabalho. Eu não sou uma qualquer, eu sou a dona da marca Sara Albuquerque. Eu preciso estar impecável!
— E o meu cabelo é a moldura do meu rosto para o ballet! — Eduarda acrescentou, a voz subindo novamente. — Você sabe como a minha professora é exigente com a aparência. A Maya acabou com a minha rotina de cuidados!
— Vocês estão sendo superficiais e injustas — Emanuel declarou, pegando Maya em um braço e Ágata no outro. — Eu vou levar as meninas para tomar um banho de verdade e tomar café. Quando vocês pararem de agir como se o mundo tivesse acabado por causa de um pouco de creme, a gente conversa.
— Ah, não! Você não vai sair assim! — Sara gritou, mas Emanuel já estava descendo as escadas, ignorando os protestos.
As duas mulheres ficaram sozinhas no corredor. O silêncio durou apenas alguns segundos antes de Sara olhar para Eduarda.
— Ele acha que pode simplesmente sair andando e nos deixar no prejuízo? — Sara perguntou, a voz agora mais calculista.
— Ele sempre faz isso quando a gente briga por causa das meninas — Eduarda murmurou, limpando uma lágrima solitária. — Mas eu realmente preciso daquele shampoo, Sara. Meu cabelo fica um desastre sem ele.
— E eu preciso do meu creme. E de um novo óleo finalizador, já que a Ágata também derrubou o vidro de perfume no tapete, agora que eu notei — Sara disse, os olhos brilhando com uma ideia. — Duda, pegue o seu cartão.
— O cartão que o Manu me deu? — Eduarda perguntou, confusa.
— Exatamente. Vamos descer e mostrar para ele que a "futilidade" dele vai custar bem caro.
Emanuel estava na cozinha, pacientemente limpando o creme de Ágata com uma toalha úmida enquanto Maya comia um pedaço de mamão. O clima estava calmo até que as duas entraram no recinto. Elas não pareciam mais furiosas; pareciam decididas.
Sara caminhou até ele com a postura de uma rainha, parando bem à sua frente. Eduarda ficou logo atrás, com uma expressão mais tímida, mas firme.
— Emanuel — Sara começou, a voz arrastada e sensual, mas com um subtexto de aço.
— O que foi agora? Vão pedir desculpas para as meninas? — ele perguntou, sem levantar os olhos da tarefa.
— Não. Viemos resolver o problema financeiro — Sara disse.
Eduarda deu um passo à frente e, com a mão estendida, fez um gesto de exigência que Emanuel nunca tinha visto nela.
— Manu... a Maya estragou minhas coisas. E como você é o pai e disse que assume toda a responsabilidade por ela... — Eduarda fez uma pausa, olhando para Sara em busca de apoio.
— Nós queremos o dinheiro para repor tudo — Sara completou. — E não é o valor de custo. Queremos o valor de urgência. Precisamos ir ao shopping agora, na boutique de luxo, e comprar os kits completos.
Emanuel soltou uma risada curta e incrédula.
— Vocês estão de brincadeira, não é?
— Eu pareço estar brincando, Emanuel? — Sara inclinou-se sobre a mesa, deixando o decote bem à vista dele, usando sua sensualidade como uma arma de negociação. — Meu estoque acabou. A Duda está sem o básico dela. Você vai nos dar o cartão ilimitado ou vai abrir a conta agora para uma transferência.
— Manu, por favor — Eduarda pediu, voltando ao seu jeito manhoso, aproximando-se dele e começando a massagear seus ombros por trás. — Você sabe que a gente cuida tanto da casa, das meninas... a gente merece estar bonita para você. Você não gosta de ver a Sara toda produzida? E não gosta de passar a mão no meu cabelo quando ele está macio?
Emanuel sentiu o cerco fechar. Eduarda se esfregava levemente em suas costas, o calor do corpo dela e o cheiro doce de sua pele o desarmando, enquanto Sara o encarava com aquele olhar desafiador que sempre o fazia querer dominá-la e presenteá-la ao mesmo tempo.
— Vocês são manipuladoras — ele resmungou, embora a irritação estivesse se transformando em diversão.
— Somos práticas — Sara corrigiu, pegando a carteira dele que estava sobre o balcão. — Onde está o cartão preto, amor?
— Sara, devolva isso — Emanuel tentou pegar a carteira, mas Eduarda o abraçou pelo pescoço, impedindo seus movimentos com uma delicadeza estratégica.
— Deixa ela, Manu... — Eduarda sussurrou no ouvido dele. — É só um pouquinho de dinheiro. Para você, isso não é nada. E a gente volta bem feliz para você à noite.
Emanuel olhou para as duas. Ele era um homem rico, um tatuador cujas artes valiam milhares de dólares e cujos estúdios rendiam fortunas. O dinheiro não era o problema. O problema era como aquelas duas mulheres, tão diferentes, conseguiam se unir para dobrar sua vontade.
— Tudo bem — ele cedeu, soltando um suspiro de derrota. — Peguem o cartão. Mas com uma condição.
— Qual? — Sara perguntou, já retirando o cartão da carteira com um sorriso vitorioso.
— Vocês vão levar as meninas com vocês. Já que elas causaram o prejuízo, elas vão acompanhar o castigo de ver as mães gastando o dinheiro do papai.
Sara e Eduarda se entreolharam. Levar duas bebês de um ano para um shopping de luxo enquanto tentavam escolher cosméticos era, de fato, um desafio.
— Feito — Sara disse, piscando para ele. — Mas você vai pagar o almoço no restaurante do terraço também.
— E eu quero aquele sorvete de pistache que a Maya gosta — Eduarda acrescentou, dando um beijinho na bochecha de Emanuel.
— Vão logo antes que eu me arrependa — Emanuel disse, pegando Maya no colo e entregando-a para Eduarda.
Enquanto as duas subiam para se arrumar, agora em perfeita harmonia, Emanuel ficou na cozinha observando o caos de restos de comida e toalhas úmidas. Ele amava Sara por sua garra e por não aceitar menos do que o topo. E amava Eduarda por sua capacidade de desarmá-lo com um toque, por ser o bálsamo em sua vida agitada.
Ter as duas era um exercício constante de equilíbrio. Era lidar com a vulgaridade elegante de Sara e a timidez manhosa de Eduarda. Era ser o pai de Ágata e o pai de coração de Maya.
Uma hora depois, as duas desceram. Sara usava um vestido justo de couro sintético bege e saltos altíssimos, o cabelo loiro preso em um rabo de cavalo impecável, apesar da reclamação sobre os fios. Eduarda estava em um vestido floral leve, com sapatilhas de bailarina, parecendo uma pintura renascentista.
— Estamos prontas, papai — Sara provocou, passando por ele e dando um tapa brincalhão em sua retaguarda.
— Comporte-se, Sara — Emanuel advertiu, mas com um sorriso.
— Tchau, Manu! Voltamos mais tarde! — Eduarda acenou, carregando Maya, que agora usava um lacinho novo no cabelo.
Emanuel as acompanhou até o carro. Ele viu Sara assumir o volante de seu SUV blindado, enquanto Eduarda acomodava as meninas nas cadeirinhas. O sol batia no rosto delas, e por um momento, toda a irritação da manhã desapareceu. Ele tinha tudo o que um homem poderia desejar: fidelidade, amor em dobro e uma família que, apesar de caótica, era inteiramente sua.
Ele voltou para dentro de casa, o silêncio finalmente se instalando. Mas era um silêncio vazio. Ele já sentia falta do barulho, das reclamações sobre cremes e das risadas das bebês.
Passaram-se algumas horas até que o celular de Emanuel vibrasse com notificações de gastos.
"Compra aprovada: R$ 4.500,00 - Sephora Luxury" "Compra aprovada: R$ 2.800,00 - Kerastase Boutique" "Compra aprovada: R$ 1.200,00 - Restaurante L'Etoile"
Emanuel sorriu, balançando a cabeça.
— Elas vão me levar à falência — murmurou para si mesmo, embora soubesse que trabalharia o triplo apenas para ver aquele brilho de satisfação nos olhos de Sara e a gratidão doce no olhar de Eduarda.
Quando a noite caiu, a porta da frente se abriu com um estrondo de sacolas e risadas. As meninas estavam exaustas, dormindo nos colos das mães. Sara e Eduarda pareciam radiantes.
— Missão cumprida — Sara anunciou, jogando as chaves no aparador. — Comprei tudo o que eu precisava e mais um perfume novo que vai fazer você perder o juízo, Emanuel.
— E eu comprei um kit de hidratação para a Maya também — Eduarda disse, aproximando-se de Emanuel e encostando a cabeça em seu peito. — Para ela não precisar mais usar o meu.
Emanuel pegou as bebês e as levou para os quartos, colocando-as para dormir com a ternura que reservava apenas para elas. Quando voltou para o quarto principal, encontrou Sara e Eduarda o esperando.
Sara estava sentada na beira da cama, retirando os saltos, enquanto Eduarda já havia trocado de roupa para uma camisola de seda curta.
— O cartão ainda está inteiro? — Emanuel perguntou, encostando-se no batente da porta.
— Quase — Sara riu, levantando-se e caminhando até ele. Ela passou os braços pelo pescoço dele, o cheiro do novo perfume já o embriagando. — Mas valeu cada centavo. A Duda está tão feliz que até parou de chorar pelo shampoo antigo.
Eduarda aproximou-se pelo outro lado, abraçando a cintura de Emanuel e escondendo o rosto em suas costas.
— Obrigada, Manu. Por cuidar da gente. Por não ficar bravo de verdade.
Emanuel suspirou, sentindo-se o homem mais sortudo e, ao mesmo tempo, o mais dominado do mundo. Ele puxou Sara para um beijo intenso, cheio da paixão crua que os definia, e depois virou-se para Eduarda, dando-lhe um beijo casto na testa e um selinho demorado, cheio de promessas de cuidado.
— Eu só quero que vocês sejam felizes — ele disse, a voz rouca. — Mas da próxima vez que as meninas destruírem o banheiro, a conta vai ser dividida com as mesadas que elas ainda nem têm.
Sara soltou uma gargalhada alta e vulgar, jogando a cabeça para trás.
— Até parece, Emanuel! Você vai continuar pagando tudo e nós vamos continuar sendo as suas rainhas. Não é, Duda?
— Com certeza — Eduarda concordou, apertando Emanuel com mais força.
Naquela noite, entre lençóis de fios egípcios e o aroma de produtos de beleza caríssimos, o equilíbrio foi restaurado. Emanuel, o tatuador rico e poderoso, entendeu que seu maior poder não estava nas máquinas de tatuar ou nos contratos internacionais, mas na capacidade de manter aquele ecossistema de amor e vaidade funcionando. Ele tinha Sara para o fogo e Eduarda para o orvalho. E, no final das contas, o preço de um shampoo francês ou de um creme de ouro era um valor ínfimo a pagar pela paz de ter seu mundo inteiro reunido em uma única cama.