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O Estigma do Descuido e a Fúria das Leoas

O sol da manhã filtrava-se pelas janelas da cozinha, iluminando a cena que, para Emanuel, parecia o início de uma nova era. Pela primeira vez, a mansão estaria silenciosa por algumas horas. Após semanas de debate, Sara finalmente convencera Emanuel de que Ágata e Maya precisavam de convívio social. A escolha havia caído sobre a "Petit Jardin", uma creche de elite frequentada pelos filhos da alta sociedade paulistana, onde a promessa era de um ambiente lúdico, seguro e bilíngue.

— Eu ainda acho que elas são muito novas — resmungou Emanuel, cruzando os braços tatuados sobre o peito enquanto observava Eduarda ajeitar as mochilinhas com nomes bordados.

— Manu, para com isso — disse Sara, retocando o batom rosa vibrante que combinava com seu conjunto de ginástica de grife. — Elas precisam de rotina. E nós precisamos de um tempo para respirar sem ter que conferir se o vaso de cristal ainda está inteiro ou se a Maya está tentando abraçar um Pitbull.

Eduarda, que parecia a mais nervosa do trio, conferia pela décima vez se havia colocado as mudas de roupa extra. Ela estava manhosa aquela manhã, buscando o toque de Emanuel a cada cinco minutos, como se precisasse de uma âncora.

— A professora disse que o período de adaptação é tranquilo — murmurou Eduarda, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — Mas meu coração está apertadinho.

— Se elas chorarem, eu busco na hora — decretou Emanuel, beijando o topo da cabeça da prima. — Não quero ninguém sofrendo por causa de "socialização".

A despedida na porta da creche foi menos traumática do que o esperado. Ágata, com a confiança herdada de Sara, entrou acenando, enquanto Maya, embora hesitante, segurou a mão da "irmã" e se deixou levar pela promessa de uma piscina de bolinhas. Emanuel saiu de lá com a sensação de que um pedaço de seu corpo havia ficado para trás, mas Sara o arrastou para um café, tentando distraí-lo com planos para a nova coleção de sua loja.

Três horas depois, o telefone de Emanuel vibrou sobre a mesa do estúdio. Era a diretora da creche.

— Sr. Albuquerque? Houve um pequeno incidente durante o banho das meninas. Nada grave, mas gostaríamos que o senhor viesse até aqui.

Emanuel não esperou a segunda frase. Ele desligou, ligou para Sara e, em dez minutos, o SUV preto rugia pelas ruas em direção à Petit Jardin. Eduarda já estava lá, tendo saído da faculdade às pressas. Quando Emanuel entrou na sala da diretoria, encontrou uma cena que fez seu sangue ferver instantaneamente.

Eduarda estava sentada em uma poltrona, com Maya no colo. A menina soluçava baixinho, o rosto escondido no pescoço da mãe. Ágata, sentada ao lado de Sara, segurava a mão da mãe com uma força incomum para sua idade, os olhos arregalados.

— O que aconteceu? — a voz de Emanuel saiu baixa, gélida, o tom que ele usava antes de uma explosão controlada.

— Foi um acidente, Sr. Albuquerque — disse a diretora, uma mulher de meia-idade que parecia subitamente muito menor diante da presença física de Emanuel. — Minha filha, Letícia, que é uma das nossas monitoras estagiárias, estava auxiliando no banho. Ela se distraiu e... bem, as unhas dela acabaram pegando na pele da pequena Maya.

Eduarda levantou o rosto, e Emanuel viu o fogo nos olhos da prima. A timidez havia desaparecido, substituída por um instinto maternal feroz. Ela afastou a gola da camiseta de Maya, revelando três arranhões profundos e avermelhados que desciam do ombro até as costas da bebê. Não eram apenas arranhões; eram marcas de unhas longas que haviam ferido a pele delicada.

— Um acidente? — Eduarda disse, a voz trêmula de indignação. — Isso aqui não é um esbarrão, diretora. Isso é negligência! Como uma monitora trabalha com bebês usando unhas de gel desse tamanho? Minha filha está assustada, ela não quer que ninguém chegue perto!

— Eu quero ver essa mulher — Emanuel exigiu, dando um passo à frente. — Agora.

— Sr. Albuquerque, eu peço que se acalme... — a diretora começou.

— Calma? — Sara interveio, levantando-se com a fúria de uma tempestade loira. Ela apontou o dedo perfeitamente manicurado para a diretora. — Você tem noção de quem nós somos? O Emanuel paga uma fortuna para ter segurança, e você coloca uma garota fútil para cuidar das nossas filhas? Olha para a Ágata! Ela está traumatizada porque viu a irmã ser machucada!

Nesse momento, a porta se abriu e uma jovem de cerca de vinte anos entrou, parecendo mais preocupada com o próprio esmalte descascado do que com a situação.

— Mãe, eu já pedi desculpas, foi um movimento brusco da criança — disse a moça, Letícia, sem perceber a gravidade do clima.

Emanuel se virou para ela. A tatuagem de fênix em seu pescoço parecia pulsar.

— Movimento brusco? — ele repetiu, a voz carregada de um veneno silencioso. — Você tocou na minha filha com essas garras?

— Eu... eu não tive intenção... — Letícia gaguejou, finalmente percebendo que o homem à sua frente não era alguém com quem se devesse brincar.

— Você não vai mais tocar em criança nenhuma nesta cidade — Emanuel sentenciou. — Eu vou processar esta instituição, vou garantir que a sua licença seja revogada e, se eu encontrar você em qualquer lugar perto da minha família, você vai descobrir que eu não sou um homem civilizado quando mexem com o que é meu.

Eduarda levantou-se, ainda segurando Maya com firmeza. Ela caminhou até Letícia. A bailarina, sempre tão leve e suave, agora tinha a postura de uma guerreira.

— Você machucou a minha filha por vaidade — disse Eduarda, a voz firme e cortante. — Você não tem vocação, não tem cuidado e, pelo que vejo, não tem caráter. Saia da minha frente antes que eu esqueça a educação que meus pais me deram.

Letícia recuou, assustada com a intensidade de Eduarda. Sara se aproximou da prima, colocando a mão em seu ombro em um gesto de solidariedade absoluta.

— Vamos embora daqui, Manu — disse Sara, pegando Ágata no colo. A menina se agarrou ao pescoço da mãe como se Sara fosse seu escudo contra o mundo. — Este lugar é um lixo.

Emanuel olhou para a diretora uma última vez.

— Minha equipe jurídica entrará em contato ainda hoje. Feche as portas, porque eu vou destruir a reputação deste lugar.

O trajeto de volta para casa foi silencioso. No banco de trás, Eduarda não soltava Maya por nada. A bebê havia parado de chorar, mas permanecia apática, agarrada à blusa da mãe. Ágata, sentada ao lado, fazia carinho no pé da irmã, um gesto de conforto que partiu o coração de Emanuel.

Assim que chegaram à mansão, Emanuel levou todos para o quarto principal. Ele precisava ter seu mundo sob seus olhos, onde pudesse controlar cada variável.

— Vem aqui, pequena — chamou Emanuel, estendendo os braços para Eduarda.

Ela se aproximou, sentando-se no colo dele com Maya ainda em seus braços. Sara sentou-se ao lado, com Ágata grudada em seu corpo. O sofá gigante parecia pequeno para a necessidade de proximidade que todos sentiam.

— Eu sinto muito, Manu — sussurrou Eduarda, escondendo o rosto no peito dele. — A culpa foi minha. Eu deveria ter seguido minha intuição. Eu sabia que elas eram novas demais.

— A culpa não é sua, Duda — Emanuel disse, passando a mão tatuada pelos cabelos castanhos dela, enquanto a outra mão acariciava as costas de Maya, evitando os arranhões. — A culpa é daquela irresponsável. E eu vou cuidar disso. Ninguém toca na Maya ou na Ágata e sai impune.

— Eu quero matar aquela garota — rosnou Sara, embora estivesse beijando a testa de Ágata com uma ternura infinita. — Ver a Ágata daquele jeito, com medo... me deu um ódio que eu nem sabia que tinha.

Emanuel olhou para Sara. A vulgaridade que ele tanto amava nela estava ali, na forma como ela expressava sua fúria, mas havia também uma lealdade inabalável.

— Vocês duas foram incríveis — disse Emanuel. — A forma como vocês defenderam as meninas... eu nunca tive tanta certeza de que fiz a escolha certa em ter vocês duas ao meu lado.

Eduarda levantou o rosto, os olhos ainda vermelhos, mas com um brilho de adoração.

— Você nos protege, Manu. A gente só aprendeu com você.

Ela começou a se esfregar no colo dele, buscando o calor e a segurança que só o corpo de Emanuel proporcionava. Era um gesto de submissão e gratidão, uma forma de dizer que, apesar do susto, ela confiava nele para restaurar a ordem.

— Eu vou cuidar dos ferimentos da Maya — disse Eduarda, a voz voltando ao tom manhoso. — Você me ajuda?

— Claro que ajudo. Sara, pegue o kit de primeiros socorros no meu banheiro.

Sara se levantou, mas antes de sair, inclinou-se e deu um beijo profundo em Emanuel e um beijo carinhoso na bochecha de Eduarda.

— Nós somos uma família, afinal — disse Sara, com um sorriso de lado. — E ai de quem tentar nos ferir.

Emanuel ficou ali, com Eduarda em seu colo e as duas bebês finalmente relaxando. Ele sentia a responsabilidade pesando em seus ombros, mas era um peso que ele carregava com orgulho. Ele tinha a força de Sara e a doçura de Eduarda. Tinha o sangue de Ágata e o coração de Maya.

— Papai... dói — murmurou Maya, apontando para as costas.

Emanuel sentiu uma pontada no peito. Ele a pegou no colo, beijando a palma da mão da menina.

— O papai vai fazer passar, meu amor. O papai está aqui. Ninguém nunca mais vai machucar você.

Eduarda abraçou Emanuel por trás, envolvendo-o com seus braços esguios.

— Eu te amo, Manu — ela sussurrou.

— Eu também amo vocês — ele respondeu, a voz rouca. — Mais do que a minha própria vida.

A tarde passou entre cuidados e carinhos. Sara ajudou Eduarda a aplicar a pomada em Maya, enquanto Emanuel distraía Ágata com desenhos e brincadeiras no chão do quarto. O incidente na creche havia servido para uma coisa: solidificar ainda mais o laço entre eles.

Quando a noite caiu, as meninas dormiam tranquilamente no berço ao lado da cama de Emanuel. Ele estava deitado no meio, com Sara de um lado e Eduarda do outro.

— Amanhã eu vou abrir uma sala de recreação aqui em casa — anunciou Emanuel, olhando para o teto. — Vou contratar as melhores babás, professoras de arte, o que for preciso. Elas não saem mais daqui sem um de nós.

— Exagerado — brincou Sara, embora estivesse sorrindo. — Mas eu concordo. Pelo menos por enquanto.

Eduarda se aninhou mais perto de Emanuel, passando a perna por cima das dele.

— Eu gosto da ideia. Assim eu posso dar aulas de ballet para elas aqui mesmo.

Emanuel abraçou as duas, sentindo o perfume de Sara e a suavidade de Eduarda. O mundo lá fora podia ser perigoso e cruel, mas dentro daquelas paredes, sob seu comando e proteção, a felicidade era a única regra. Ele havia construído um altar para suas mulheres e filhas, e ele seria o eterno guardião daquela paz conquistada a ferro, fogo e muito amor.

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