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O Eclipse do Coração de um Pai
O silêncio na mansão de Emanuel era um luxo raro, geralmente reservado para as madrugadas quando o "furacão" Arthur finalmente se rendia ao sono e Ágata parava de articular seus planos de dominação mundial infantil. Emanuel aproveitava esses momentos para relaxar, mas naquela tarde, o silêncio era apenas a calmaria que precedia uma tempestade de proporções bíblicas em sua mente.
Ele caminhava pelo corredor em direção ao quarto de Maya, pretendendo chamar a filha e Eduarda para um lanche, quando parou abruptamente. A porta estava entreaberta e a voz doce de sua pequena Maya, agora com quatro anos e uma dicção deliciosamente perfeita, flutuava pelo ar, carregada de uma animação que Emanuel nunca tinha ouvido antes.
— E aí, mamãe, o Léo disse que eu sou a princesa mais linda de todo o jardim! — Maya exclamou, e Emanuel podia jurar que ouviu o som de um coraçãozinho batendo mais forte.
Emanuel congelou. Seus olhos se arregalaram. *Léo? Quem diabos era Léo?*
— É mesmo, meu amor? — A voz de Eduarda era suave, contendo um risinho que Emanuel achou traidor. — E o que mais o Léo disse?
— Ele me deu uma cartinha, olha! — O som de papel sendo desdobrado ecoou como um trovão nos ouvidos de Emanuel. — Tem um coração vermelho que ele pintou com giz de cera. Ele disse que quer andar de mãos dadas comigo no recreio e... e ele me deu beijinhos na bochecha, mamãe! Dois beijinhos!
Emanuel sentiu o sangue fugir do rosto. Ele se apoiou na parede, sentindo o mundo girar. Beijinhos? Na bochecha? A sua Maya? A sua pequena flor de porcelana estava sendo alvo de um predador de quatro anos chamado Léo?
— Ele falou que, quando a gente crescer muito, a gente vai namorar e casar — continuou Maya, soltando uma risadinha manhosa que Emanuel sempre achou a coisa mais fofa do mundo, mas que agora parecia o anúncio do apocalipse.
Emanuel não aguentou. Ele empurrou a porta com a sutileza de um arrombamento policial. Seu rosto estava pálido, os olhos injetados e a mão tatuada tremia visivelmente.
— Namorar? Casar? Beijinhos? — O grito de Emanuel saiu em um tom agudo que ele nem sabia que possuía.
Eduarda deu um pulo na poltrona, assustada, enquanto Maya olhou para o pai com curiosidade.
— Papai! O Léo é meu amiguinho novo! — disse a menina, estendendo a cartinha com o coração borrado.
Emanuel olhou para o papel como se fosse uma bomba de fragmentação. Ele deu dois passos para trás, levando a mão ao peito.
— Eduarda... eu não estou me sentindo bem — ele arquejou, a voz falhando. — Tudo ficou escuro. Eu estou vendo tudo preto, Duda! Onde está a luz? Alguém apagou o sol?
— Manu, pelo amor de Deus, calma! — Eduarda levantou-se rapidamente, indo até ele. — É só uma criança da creche, é uma brincadeira de criança!
— Brincadeira? — Emanuel cambaleou até a cama de Maya e se deixou cair nela com um gemido dramático. — Ele marcou o território dela com giz de cera! Ele beijou a minha filha! Eduarda, me diga uma coisa... qual é o braço que fica dormente quando o coração vai parar? É o esquerdo ou o direito? Porque eu estou sentindo o meu braço esquerdo como se tivesse sido atropelado por um caminhão!
— Papai! O que foi? — Maya, vendo o estado do pai, começou a lacrimejar, o desespero tomando conta de seu rostinho. — O papai vai morrer, mamãe? O papai está dodói?
— Não, meu amor, o papai só está sendo... o papai — Eduarda tentou acalmar a filha, mas Emanuel soltou um suspiro longo, fechando os olhos com força.
— É o fim, Duda. Eu sinto o frio chegando. Avise ao Arthur que ele agora é o homem da casa. Diga à Sara que ela pode ficar com os estúdios, mas que ela deve caçar esse tal de Léo e garantir que ele nunca mais chegue perto de uma creche — Emanuel falava com uma voz arrastada, a mão no peito subindo e descendo.
— Emanuel, pare com esse teatro! — Eduarda exclamou, embora sua voz estivesse tingida de preocupação genuína ao ver a palidez dele. — Você está assustando a menina!
— Eu não estou fazendo teatro! — Ele abriu um olho, olhando para o teto com uma expressão de mártir. — Eu sou um pai ferido. Minha princesinha já está fazendo planos de casamento. Eu falhei. Eu não a protegi do mundo exterior. Onde estava a segurança? Onde estava o porteiro da escola? Como um elemento estranho chamado Léo ganha acesso livre às bochechas da minha filha?
Maya começou a chorar alto, escondendo o rosto no colo de Eduarda.
— Eu não quero que o papai morra! Eu jogo a carta do Léo no lixo! Eu não namoro mais!
Emanuel, ao ouvir aquilo, sentiu uma súbita melhora milagrosa, mas decidiu manter o drama por mais alguns instantes para garantir a vitória.
— Você promete, Maya? — Ele perguntou, a voz fraca. — Promete que só vai namorar quando tiver, digamos... quarenta e cinco anos?
— Manu! Quarenta e cinco anos? — Eduarda bufou, sentando-se ao lado dele e começando a massagear o braço que ele dizia estar dormente. — Calma, meu amor. Respira. Você está tendo uma crise de ansiedade por causa de um desenho de giz de cera.
— Você não entende, Duda — ele disse, sentando-se devagar na cama, mas mantendo a mão no coração. — Começa com um beijinho na bochecha, depois é um andar de mãos dadas, e quando você pisca, eu estou pagando uma festa de quinze anos e tem um adolescente com hormônios à flor da pele sentado no meu sofá comendo a minha comida!
— Ele tem quatro anos, Emanuel! — Eduarda riu, uma risada nervosa que ajudou a quebrar a tensão. — Ele provavelmente nem sabe o que é um beijo de verdade. Ele só repete o que vê nos desenhos.
Emanuel puxou Maya para o seu colo, abraçando-a com uma possessividade que beirava o cômico. A menina ainda soluçava, agarrada ao pescoço do pai.
— Ninguém beija a minha Maya. Ninguém. Eu vou contratar um segurança particular para ficar na porta da sala dela. Ou melhor, eu vou mudar ela de escola. Uma escola só para meninas. Não, melhor ainda: ensino doméstico. Você é professora, Duda, você ensina tudo para ela!
— Você enlouqueceu de vez — disse Eduarda, passando a mão pelo rosto dele, tentando trazer um pouco de cor de volta às suas bochechas. — Olha para mim, Emanuel. Respira. O seu braço ainda está dormente?
— Um pouco — ele mentiu, sentindo o conforto do toque dela. — Mas a visão está voltando. O preto está virando um cinza escuro. Acho que vou sobreviver... por enquanto.
— Papai, você não vai morrer? — Maya perguntou, olhando para ele com os olhos vermelhos.
— Não, meu amor. O papai vai ficar aqui para sempre. Especialmente para garantir que o Léo fique bem longe de você — Emanuel beijou o topo da cabeça da filha, lançando um olhar de "estou de olho" para a cartinha no chão.
Nesse momento, Sara entrou no quarto, atraída pela gritaria. Ela usava um roupão de seda dourada e segurava uma lixa de unha, a personificação da indiferença glamourosa.
— Mas que drama é esse agora? — Sara perguntou, olhando para Emanuel jogado na cama. — Deu um ataque cardíaco no grande tatuador rico porque o Arthur quebrou mais um vaso?
— Pior, Sara — Emanuel disse, a voz voltando ao normal, mas ainda carregada de indignação. — A Maya tem um pretendente. Um tal de Léo. Ele deu beijinhos nela.
Sara soltou uma gargalhada alta e vulgar, encostando-se no batente da porta.
— Ah, o Léo! O filho daquela loira oxigenada da creche? O menino é uma gracinha, Emanuel. Ele tem estilo. Eu vi ele dando um carrinho de metal para a Ágata outro dia, mas a nossa filha disse que preferia um anel.
Emanuel sentiu o braço esquerdo formigar de verdade agora.
— Ele deu um carrinho para a Ágata também? Esse menino é um Don Juan de fraldas! Ele está atacando as minhas duas filhas simultaneamente?
— Deixe de ser ridículo, Emanuel — Sara disse, revirando os olhos. — É saudável. As crianças precisam interagir.
— Interagir é uma coisa, trocar fluidos salivares na bochecha é outra totalmente diferente! — Emanuel exclamou, levantando-se da cama com uma energia renovada pela raiva. — Eu vou ligar para a diretora agora mesmo.
— Você não vai ligar para ninguém — Eduarda disse, levantando-se e colocando as mãos na cintura, assumindo sua postura de professora e mãe que não aceitava desaforo. — Você vai sentar, tomar um copo de água e pedir desculpas à Maya por ter fingido que ia morrer e deixado a menina em pânico.
Emanuel olhou para Eduarda, depois para Sara, que apenas sorria ironicamente, e finalmente para Maya, que o observava com expectativa. Ele suspirou, os ombros caindo.
— Desculpe, princesa — ele murmurou, pegando a mão de Maya. — O papai só ficou um pouco... preocupado.
— Você é um exagerado, Manu — Eduarda disse, aproximando-se e dando um beijo suave em sua testa. — Mas eu entendo. É o seu jeito de cuidar. Só tente não ter um infarto toda vez que um menino disser "oi" para elas, ou você não chega aos trinta.
— Eu vou tentar — prometeu Emanuel, embora seus olhos estivessem fixos na cartinha de Léo.
Assim que Eduarda e Maya saíram do quarto para ir à cozinha, Emanuel se inclinou rapidamente e pegou o papel do chão. Ele o guardou no bolso da calça com um olhar conspiratório.
— O que você vai fazer com isso? — Sara perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Investigação de antecedentes — Emanuel respondeu seriamente. — Vou descobrir quem é o pai desse Léo. Se ele for tatuador, eu compro o estúdio dele e demito o cara. Se for empresário, eu compro as ações. Ninguém beija as minhas filhas impunemente, Sara. Ninguém.
Sara apenas balançou a cabeça, saindo do quarto enquanto ria.
— Você é louco, Emanuel. Mas é por isso que a gente te ama.
Emanuel ficou sozinho no quarto por um momento, sentindo o coração finalmente desacelerar. Ele olhou para o próprio braço. A dormência tinha passado, mas a determinação era eterna. Ele era o porto seguro, o protetor e, se necessário, o vilão de qualquer história que envolvesse um menino chamado Léo.
Ele caminhou até o espelho e ajeitou a camiseta. A visão não estava mais preta, mas ele sabia que, no mundo da paternidade, o eclipse estava sempre a apenas um beijinho de distância. E ele estaria pronto, com seu drama, seu amor e sua vigilância, para garantir que suas princesas nunca estivessem sozinhas. Mesmo que isso significasse ter que "morrer" um pouquinho de vez em quando para ganhar a atenção e a promessa de solteirice eterna de suas filhas.