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D

O Reflexo nas Águas Salgadas

O sol de meio-dia sobre a costa de Angra dos Reis era implacável, refletindo-se nas águas azul-turquesa com uma intensidade que quase cegava. Um ano havia se passado desde o incidente que quase despedaçou a estrutura singular daquela família. A cicatriz na bochecha de Maya ainda estava lá, uma linha fina e esbranquiçada que servia como um lembrete constante da fragilidade da paz que Emanuel tentava manter.

Ágata, agora com quatro anos, parecia ter compreendido, à sua maneira infantil e complexa, que o mundo não girava apenas em torno de seus desejos. O tratamento com a psicóloga infantil ajudara a canalizar sua energia, mas a sombra da personalidade vulcânica de Sara ainda pairava sobre ela. Ela era uma menina de extremos: ou amava com uma intensidade febril ou se fechava em um casulo de ressentimento silencioso.

A casa de praia de Dona Regina, mãe de Sara, era um palacete de vidro e madeira encravado entre a mata e o mar. Regina era o oposto da filha; uma mulher austera, que via na vulgaridade de Sara um fracasso pessoal de sua criação e na dinâmica familiar de Emanuel uma abominação que ela tolerava apenas para não perder o contato com a neta.

Emanuel estava no deque de madeira, ajustando os óculos escuros enquanto observava a movimentação. Ele parecia mais relaxado, embora o olhar de vigília nunca o abandonasse totalmente. Seus negócios prosperavam, mas sua mente estava focada naquelas duas mulheres que, milagrosamente, ainda dividiam seu teto e seu coração.

Eduarda saiu para a área da piscina carregando uma bandeja com frutas para as crianças. Ela usava um biquíni de crochê em tom de lavanda, uma peça que, embora artesanal, era consideravelmente menor do que qualquer coisa que ela costumava usar. A gravidez dos gêmeos e as horas dedicadas ao ballet haviam esculpido seu corpo de forma impecável; ela era toda curvas suaves e músculos longos e definidos.

Emanuel sentiu a garganta secar. Ele se levantou, caminhando até ela com uma expressão que misturava desejo e uma irritação possessiva.

— Duda, onde você comprou isso? — perguntou ele, a voz grave, parando diante dela e bloqueando seu caminho.

Eduarda parou, equilibrando a bandeja, e olhou para ele com aqueles olhos castanhos que agora carregavam uma pitada de autoconfiança que não existia um ano atrás.

— Comprei na loja da Sara, Manu. Por quê? Não gostou? — Ela deu um sorriso de canto, provocadora.

— É curto demais, Eduarda. Dá para ver... quase tudo — Emanuel resmungou, aproximando-se mais, a mão tatuada descendo para a curva do quadril dela. — Tem muita gente aqui, os funcionários da sua tia, os vizinhos...

— O sol está quente, Emanuel — respondeu ela, desvencilhando-se dele com uma leveza de bailarina, sem dar a mínima importância ao seu tom controlador. — E eu me sinto bem assim. Se você está incomodado, pode olhar para o mar. O horizonte é bem vasto.

Emanuel ficou parado, boquiaberto. Onde estava a menina tímida que se escondia atrás dele? Eduarda continuou seu caminho, servindo Maya e Arthur, que brincavam na borda da piscina sob a supervisão atenta de Dona Regina.

— Papai! Olha o meu pulo! — gritou Arthur. O menino era um raio de sol, corajoso e sempre pronto para a próxima aventura, ostentando as mesmas feições marcantes de Emanuel.

— Estou vendo, campeão! — Emanuel respondeu, tentando recuperar a compostura enquanto Sara emergia de uma das espreguiçadeiras, usando um maiô cavado e óculos de sol enormes, a imagem viva da ostentação.

— Deixe a menina em paz, Emanuel — provocou Sara, ajeitando o cabelo loiro platinado. — Eu que dei o biquíni para ela. Ela tem um corpo lindo, precisa parar de se vestir como uma freira de museu. Se você quer controlar alguém, tente controlar sua filha.

Ágata estava sentada à mesa com a avó, recusando-se a comer o que lhe fora oferecido. A atmosfera mudou instantaneamente.

— Ágata, coma a sua maçã — disse Dona Regina, com a voz firme que costumava usar para domar as crises de Sara no passado. — Não seja uma menina mimada. O desperdício é um pecado.

Ágata cruzou os braços, os olhos azuis faiscando de uma forma que Emanuel conhecia bem. Era o prelúdio da tempestade.

— Eu não quero essa maçã. Está feia. Eu quero sorvete — retrucou a menina.

— Sorvete só depois do almoço. Coma a fruta — insistiu Regina, aproximando a fatia da boca da neta.

O que aconteceu a seguir congelou o tempo no deque. Ágata, em um surto de raiva súbita, empurrou a mão da avó com violência.

— Eu já disse que não quero, sua velha chata! — gritou a criança.

Regina arregalou os olhos, ofendida.

— Como é que é? Repita isso, mocinha!

Ágata levantou-se da cadeira, o rosto vermelho de fúria, e levantou a mão pequena, fechada em um punho, na direção do rosto da avó. Ela não chegou a atingir Regina, mas o gesto de agressão foi claro e deliberado.

— Ágata! — Emanuel deu um passo à frente, mas Sara foi mais rápida.

Sara atravessou o deque como um raio. Ela não gritou, não fez escândalo. Ela apenas agarrou o braço de Ágata, virou a menina e desferiu uma palmada firme e sonora em seu bumbum, por cima do maiô.

O estalo ecoou pelo ambiente, seguido por um silêncio absoluto. Maya e Arthur pararam de brincar, olhando com os olhos arregalados. Eduarda levou a mão à boca, o coração disparado.

Ágata ficou em choque por alguns segundos, a boca aberta em um "O" perfeito, antes de soltar um grito de indignação e dor, começando a chorar copiosamente.

— Você nunca mais — disse Sara, a voz baixa e vibrante de uma raiva contida e pedagógica — levanta a mão para a sua avó. Ou para qualquer pessoa nesta casa. Você me entendeu, Ágata?

— Eu te odeio! Você é má! — soluçou a menina, tentando se soltar.

— Pode odiar. Mas vai respeitar — Sara retrucou, olhando para a mãe, que ainda parecia em choque. — Mãe, desculpe por isso. Emanuel, leve ela para o quarto. Ela vai ficar de castigo até o jantar.

Emanuel aproximou-se. Ele olhou para Sara, esperando encontrar a mulher que sempre defendia os excessos da filha, mas encontrou uma mãe que finalmente compreendera que o amor também se manifestava em limites. Ele olhou para Eduarda, que tremia levemente; ela odiava qualquer forma de violência, mas até ela permaneceu em silêncio, reconhecendo a necessidade daquele momento.

Emanuel pegou Ágata no colo. A menina se debatia, mas ele a segurou com firmeza, sentindo o peso da responsabilidade de ser o eixo daquela família.

— Vamos, Ágata. A mamãe está certa. Você passou dos limites — disse ele, a voz calma, mas inabalável.

Enquanto Emanuel entrava com a filha, Sara sentou-se à mesa, as mãos ainda trêmulas. Ela pegou a taça de vinho branco que estava ali e deu um gole longo.

— Você foi dura, Sara — comentou Regina, a voz suavizada pelo susto. — Mas... obrigada. Eu achei que você ia brigar comigo por ter insistido com ela.

— Eu não sou cega, mãe — respondeu Sara, tirando os óculos e revelando olhos marejados. — Eu vi o que aconteceu um ano atrás. Eu não vou deixar a Ágata se tornar uma pessoa que ninguém suporta ter por perto. Se eu tiver que ser a vilã agora para que ela seja uma mulher decente depois, que assim seja.

Eduarda aproximou-se lentamente, sentando-se ao lado de Sara. Ela estendeu a mão e tocou o braço da loira, um gesto de solidariedade feminina que transcendia a complexidade do relacionamento delas.

— Você fez o que precisava ser feito, Sara — sussurrou Eduarda. — Ela vai ficar bem. Ela só precisa entender que o mundo não é um lugar onde ela pode bater para conseguir o que quer.

Sara olhou para Eduarda, depois para o biquíni lavanda, e deu um sorriso triste e irônico.

— Viu só, Duda? A gente tenta ensinar elas a serem fortes, e elas acabam confundindo força com crueldade. Pelo menos a Maya e o Arthur têm você para equilibrar as coisas. Se a Ágata só tivesse a mim, ela estaria perdida.

— Ela tem todos nós — corrigiu Eduarda com doçura.

Lá dentro, no quarto, Emanuel sentou-se na cama com Ágata até que o choro da menina diminuísse para soluços baixos. Ele não brigou mais. Ele apenas a abraçou, sentindo o cheiro de sol e protetor solar em seus cabelos loiros.

— Por que a mamãe me bateu? — perguntou Ágata, a voz pequena e vulnerável.

— Porque ela ama você, Ágata. E porque ela quer que você seja uma pessoa boa. Bater na vovó é errado. Você magoou ela.

— Eu estava com raiva.

— A raiva é como um fogo, filha. Se você não controlar, ela queima tudo ao redor. Inclusive as pessoas que você ama.

Ágata ficou em silêncio, encostando a cabeça no peito do pai.

— A Maya tem uma cicatriz por causa do fogo? — perguntou a menina, em um raro momento de lucidez sobre o passado.

Emanuel sentiu um nó na garganta.

— Sim, meu amor. E nós não queremos mais cicatrizes nesta família.

Ele ficou ali com ela até que a menina adormecesse de exaustão emocional. Quando saiu do quarto, encontrou Sara no corredor. Ela estava encostada na parede, esperando por ele.

— Ela dormiu? — perguntou Sara.

— Sim.

Emanuel caminhou até ela e a envolveu em um abraço apertado. Sara escondeu o rosto no pescoço dele, permitindo-se finalmente chorar.

— Eu me senti um monstro, Emanuel — confessou ela entre soluços. — Eu vi a mão dela levantada e vi a mim mesma dez anos atrás. Eu não quero isso para ela.

— Você não é um monstro, Sara. Você é a mãe dela. E hoje, você foi a mãe que ela precisava — Emanuel a beijou na testa, segurando-a com força. — Eu tenho orgulho de você.

Eles ficaram ali por um tempo, no corredor silencioso da casa de praia. A paz naquela família era um mosaico quebrado que eles tentavam colar todos os dias, peça por peça. Havia arestas, havia partes faltando, e a cola às vezes demorava a secar.

Mais tarde, o fim de tarde trouxe uma brisa fresca. Eduarda estava na beira da água com Maya e Arthur, catando conchinhas. Emanuel e Sara observavam da varanda, de mãos dadas.

— O biquíni da Eduarda ainda está curto demais — murmurou Emanuel, tentando aliviar o clima com o seu ciúme habitual.

Sara soltou uma risada curta, limpando o rastro das lágrimas.

— Acostume-se, tatuador. A Duda está crescendo. E se você não tomar cuidado, vai ser ela quem vai começar a dar as ordens nesta casa.

Emanuel olhou para a mulher de cabelos castanhos lá embaixo, rindo com os filhos, e depois para a loira ao seu lado, que acabara de enfrentar seus próprios demônios para educar a filha. Ele sorriu, sentindo que, apesar das brigas, das palmadas necessárias e dos biquínis curtos, ele tinha exatamente o que precisava.

A vida era um equilíbrio perigoso entre o fogo e a suavidade, e Emanuel era o homem que caminhava sobre a corda bamba, feliz por ter aquelas duas mulheres segurando as extremidades, impedindo-o de cair no abismo da solidão. A cicatriz de Maya ainda brilhava sob o sol poente, mas, pela primeira vez em muito tempo, ela parecia apenas uma marca de sobrevivência, e não mais uma ferida aberta.

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