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O Suor e o Sangue que nos Une
O sol de sábado à tarde castigava o gramado impecável do clube privativo, mas Emanuel parecia não sentir o calor. Ele corria com a intensidade de um animal de caça, os músculos das pernas definidos e as tatuagens nos braços brilhando sob a película de suor que cobria seu corpo. Para ele, o futebol com os amigos não era apenas lazer; era a válvula de escape necessária para a pressão de gerir um império de estúdios de tatuagem e uma vida doméstica que desafiava qualquer convenção social.
Na lateral do campo, a visão era o que Emanuel chamava de seu "caos particular perfeito".
Sara estava sentada em uma cadeira de sol, usando um biquíni minúsculo por baixo de uma saída de praia transparente que não deixava absolutamente nada à imaginação. Ela usava óculos escuros enormes e segurava uma taça de espumante, enquanto Ágata brincava com um balde de gelo vazio aos seus pés. Ao lado dela, Eduarda parecia uma pintura de outro século, embora o shortinho jeans curto e a regata branca justa estivessem fazendo Emanuel perder o foco da bola mais vezes do que ele gostaria de admitir.
Eduarda estava sentada na grama, com Maya no colo, passando protetor solar nas perninhas gordinhas da menina. O movimento de se inclinar fazia o short subir, revelando as coxas torneadas pela dança, e Emanuel sentiu aquela fisgada familiar de posse e desejo.
O juiz apitou o intervalo. Emanuel caminhou em direção ao banco de reservas, ofegante, puxando a camisa para limpar o rosto.
— Cara, você está jogando como se estivesse valendo um milhão de dólares — comentou Rodrigo, um de seus sócios e amigos de longa data, aproximando-se com uma garrafa de água. — Ou talvez seja a plateia. Sua loira está uma tentação hoje, Emanuel.
Emanuel deu um sorriso de lado, observando Sara mandar um beijo no ar para ele, enquanto gritava algo sobre ele estar "gostoso demais para um pai de família".
— A Sara é um espetáculo à parte — respondeu Emanuel, bebendo a água com sofregidão.
— E a sua prima? — Rodrigo hesitou um pouco, baixando a voz. — A menina, a Maya... ela não desgruda de você. É impressionante como ela te olha. Parece que você é o centro do universo dela. Dá para ver que você ama muito aquela pequena, cara.
Emanuel parou de beber e olhou para onde Maya agora tentava correr em direção ao campo, sendo contida pelos braços delicados de Eduarda. O coração dele deu um solavanco.
— Que a Sara não me escute, porque ela é ciumenta com a Ágata — começou Emanuel, a voz baixa e carregada de uma sinceridade brutal —, mas eu amo minhas duas filhas. Só que o amor pela Maya... é diferente.
Rodrigo franziu a testa, curioso.
— Diferente como?
— Não sei explicar. Talvez seja por causa da Eduarda, por tudo o que ela passou, ou pelo fato de a Maya ter vindo ao mundo já precisando de um escudo. A Ágata nasceu forte, igual à mãe, pronta para dominar o mundo. A Maya... ela é doce, é frágil. E tem aquela coisa da alergia, a mesma que a minha. É como se a biologia tivesse me dado um recado. Eu amo as quatro mulheres daquela casa, cada uma do seu jeito, mas a Duda e a Maya... elas despertam um instinto de proteção em mim que chega a doer.
Rodrigo deu um tapinha no ombro do amigo.
— Você é um cara de sorte e de coragem, Emanuel. Poucos segurariam essa barra.
Emanuel não respondeu. Ele apenas caminhou até o alambrado. Assim que se aproximou, Maya começou a pular, esticando os bracinhos.
— Papai! Papai! — gritava a menina, a voz fina e alegre.
Emanuel a pegou por cima da grade baixa, ignorando o fato de estar completamente encharcado de suor. Ele a beijou na bochecha, sentindo o cheirinho de bebê misturado ao protetor solar.
— Oi, meu amor. O papai já volta para brincar com você — disse ele, com uma doçura que fazia os amigos no campo trocarem olhares surpresos.
Eduarda aproximou-se, parando bem na frente dele. O short curto deixava suas pernas à mostra, e o perfume suave de flores que ela sempre usava cortava o cheiro de grama cortada. Ela olhou para Emanuel com aqueles olhos castanhos expressivos, cheios de uma admiração que ele nunca sentia merecer totalmente.
— Você está exausto, Manu — ela disse, estendendo a mão para tirar uma mecha de cabelo grudada na testa dele.
— Estou bem, Duda. Só o calor.
— Toma — ela entregou a ele uma toalha pequena que trazia consigo.
Emanuel olhou para ela, depois para Sara, que observava a cena com um sorriso divertido, sem um pingo de inveja. Sara sabia exatamente o que possuía; ela era a rainha daquele castelo, e Eduarda era a alma dele. Para Sara, ver Emanuel cuidar de Eduarda era como ver um investimento ser bem gerido.
De repente, Eduarda fez algo que sempre o pegava de surpresa. Ela se inclinou e, ignorando o suor que escorria pelo pescoço e peito dele, pressionou os lábios nos dele. Foi um beijo rápido, mas intenso, com sabor de água gelada e desejo contido.
— Eu adoro quando você está assim — sussurrou ela, o rosto corado. — Suado, com cheiro de esforço. Fica tão... homem.
Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele apertou a cintura dela por um segundo, sentindo a pele macia sob o jeans.
— Você não tem ideia do que esse short está fazendo comigo, Eduarda. Se você continuar me olhando assim, eu vou abandonar o jogo agora mesmo.
Ela deu uma risadinha tímida, recuando um passo.
— O jogo ainda não acabou, capitão — provocou Sara, levantando-se da cadeira e caminhando até eles com seu andar de modelo. Ela parou ao lado de Eduarda e passou o braço pelos ombros da prima. — Deixa o homem jogar, Duda. Ele precisa gastar essa energia, ou não vai dar conta de nós duas mais tarde.
Emanuel soltou uma gargalhada curta e rouca. Sara nunca perdia a oportunidade de ser vulgar e direta, e era exatamente isso que ele amava nela. A loira deu um tapa estalado na própria coxa e piscou para ele.
— Vai lá, amor. Marca um gol para suas garotas.
Emanuel voltou para o campo, sentindo-se revigorado. Ele olhou para trás uma última vez. Sara e Eduarda estavam juntas agora, rindo de algo que Ágata fazia. Maya estava no colo de Sara, que brincava com os cachinhos da menina.
Para o mundo, aquela imagem era um escândalo. Para os seus pais, que eram jovens e ainda tentavam entender como a filha bailarina terminara em um arranjo tão peculiar, era motivo de preocupação. Mas para Emanuel, era a única verdade que importava.
O segundo tempo começou e Emanuel jogou com uma ferocidade renovada. Ele marcou dois gols. A cada vez que a bola balançava a rede, ele apontava para o grupo na lateral. Ele não apontava apenas para a esposa loira e exuberante, nem apenas para a prima doce e sensível. Ele apontava para a família que ele mesmo tinha construído, peça por peça, tatuagem por tatuagem.
Quando o sol começou a baixar e o jogo terminou, Emanuel estava exausto, mas satisfeito. Ele caminhou até o chuveirão da área externa do clube para tirar o excesso de grama e suor antes de se juntar a elas para o lanche.
Eduarda o seguiu, levando uma muda de roupa limpa para Maya. Ela o encontrou sob a água fria, de olhos fechados.
— Manu? — chamou ela, baixinho.
Ele abriu os olhos e a viu ali, naquele cenário de luz alaranjada do fim de tarde. Sem dizer uma palavra, ele a puxou para baixo da água com ele.
— Emanuel! Minha roupa! — ela exclamou, rindo, enquanto a regata branca ficava transparente instantaneamente, colando-se ao seu corpo e revelando os seios médios e firmes.
— Eu compro outra — disse ele, a voz grossa. — Eu precisava disso. Do seu cheiro, da sua paz.
Ele a beijou novamente, desta vez com calma, explorando a boca dela enquanto a água lavava o resto do cansaço. Eduarda se agarrou aos ombros dele, sentindo os músculos tensos se relaxarem sob seu toque. Ela amava aquela dualidade: o homem que era um pilar de força para todos, mas que desmoronava em ternura apenas para ela.
— A Maya dormiu no carrinho — murmurou Eduarda entre os beijos. — E a Sara está pedindo mais espumante no bar.
— Deixa a Sara — Emanuel sorriu, encostando a testa na dela. — Agora é só você e eu. Por cinco minutos.
— Você realmente ama a gente, não é? — perguntou ela, uma insegurança momentânea passando por seus olhos. — Mesmo sendo tudo tão... estranho?
Emanuel segurou o rosto dela com as duas mãos.
— Duda, eu não saberia mais viver em um mundo onde não tivesse o fogo da Sara para me acordar e a sua doçura para me fazer dormir. E a Maya... a Maya é o meu coração batendo fora do peito, exatamente como a Ágata. Eu não escolhi amar vocês duas, eu simplesmente não tive outra opção. O meu coração é grande o suficiente para o que a gente tem.
Eduarda sorriu, as lágrimas se misturando à água do chuveiro. Ela sabia que ele falava a verdade. Emanuel não era homem de palavras vazias; ele era um homem de marcas permanentes.
Eles saíram do banho e se trocaram rapidamente. Ao voltarem para a mesa, Sara já tinha organizado tudo. Havia frutas, pães e, estrategicamente longe de Maya e Emanuel, uma tigela de mirtilos que Ágata comia com voracidade.
— Demoraram, hein? — Sara comentou, com um olhar cúmplice para o estado molhado do cabelo de Eduarda. — Se eu soubesse que o banho estava tão bom, teria ido também.
— Da próxima vez você vai — prometeu Emanuel, sentando-se e puxando Maya, que acordava sonolenta, para o seu colo.
A menina esfregou os olhinhos e, ao ver o pai, abriu um sorriso banguela e se aninhou no peito dele.
— Papai... — sussurrou ela.
Emanuel olhou para Eduarda, que o observava com um brilho de adoração, e depois para Sara, que exibia um sorriso orgulhoso enquanto limpava o rosto manchado de roxo de Ágata.
Naquele clube de elite, cercado por pessoas que viviam vidas lineares e previsíveis, Emanuel sentia-se o homem mais rico do mundo. Não pelos estúdios em Londres ou Berlim, mas porque tinha conseguido o impossível: unir o fogo e a água sob o mesmo teto, e transformar um abandono em uma linhagem de amor que, assim como suas tatuagens, nunca seria apagada.