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O Veneno da Inveja e o Brilho da Redenção
A manhã na cobertura de Emanuel começou com o luxo habitual, mas envolta em um carinho mais profundo. Emanuel estava sentado no sofá de couro italiano, com Sara aninhada entre suas pernas. A loira, vestindo apenas uma camisola de seda preta que mal cobria suas curvas esculpidas, ronronava enquanto ele massageava seus pés.
— Você está muito bondoso hoje, tatuador — comentou Sara, jogando a cabeça para trás e fechando os olhos. — O que você quer? Outro estúdio em Tóquio ou está apenas tentando me compensar por ter passado a noite inteira revisando os contratos da Eduarda?
Emanuel sorriu, inclinando-se para beijar o pescoço dela, sentindo o perfume doce e caro que emanava de sua pele.
— Eu só quero que minha mulher se sinta rainha — respondeu ele, a voz rouca. — E você sabe que eu amo cuidar de você, Sara. Sua energia me mantém focado.
Sara virou-se, sentando-se no colo dele, as unhas longas e decoradas traçando as tatuagens no pescoço de Emanuel.
— Bom mesmo. Porque se você começar a me negligenciar por causa da "cisne negro" ali na cozinha, eu vou ter que gastar o dobro no seu cartão de crédito para me consolar.
Emanuel riu, puxando-a para um beijo possessivo. Eles foram interrompidos pelo som de passos leves. Eduarda entrou na sala, radiante. Seus olhos castanhos brilhavam com uma intensidade que Emanuel raramente via.
— Manu! Sara! Eu consegui! — exclamou ela, segurando o celular contra o peito. — A Companhia Nacional de Ballet... eu peguei o papel principal! Vou ser a primeira bailarina na estreia da temporada!
Emanuel levantou-se, ainda segurando Sara pela cintura, e abriu o outro braço para Eduarda. Ela correu para ele, e por um momento, os três formaram um círculo de abraços e risos.
— Eu sabia, Duda — disse Emanuel, beijando o topo da cabeça dela. — Ninguém dança como você. Você nasceu para brilhar.
— Parabéns, garota — disse Sara, genuína à sua maneira. — Agora vamos ter que comprar um figurino que preste, porque você não vai subir naquele palco parecendo uma camponesa. Vou cuidar disso pessoalmente.
A alegria, porém, tinha um preço. No teatro, durante os ensaios intensivos, a atmosfera era pesada. Melissa, uma bailarina de linhagem nobre e família influente, que esperava o papel principal por direito de "berço", observava Eduarda com um ódio mal disfarçado.
No dia do ensaio geral, Melissa chegou com um sorriso falso e várias garrafas de vitaminas artesanais, supostamente preparadas por seu nutricionista particular.
— Um presente para todos — anunciou Melissa, distribuindo as garrafas. — Precisamos de energia para hoje. Duda, esta aqui é especial para você, com foco em resistência muscular.
Eduarda, sempre doce e confiando na bondade alheia, agradeceu com um aceno de cabeça. Ela deixou a garrafa sobre o banco enquanto ia para o centro do palco. Maya, que tinha sido levada para o teatro por Emanuel porque a babá teve um imprevisto, brincava perto das sapatilhas da mãe.
Aproveitando um momento de distração de todos, a pequena Maya, curiosa e sempre imitando a mãe, pegou a garrafa aberta. Ela deu apenas dois goles pequenos antes de Eduarda voltar e pegar a bebida para si, tomando metade do conteúdo de uma vez para aplacar a sede.
O efeito não demorou.
Quinze minutos depois, Eduarda parou no meio de um *grand jeté*. Sua visão turvou. O coração começou a martelar contra as costelas de forma irregular.
— Manu... — ela murmurou, cambaleando.
Emanuel, que observava da primeira fila, saltou para o palco no exato momento em que Eduarda desabou. Quase simultaneamente, um choro agudo e desesperado ecoou das coxias. Maya estava caída, o rosto ficando vermelho, as pupilas dilatadas.
— Maya! Duda! — Emanuel gritou, o pânico distorcendo suas feições normalmente controladas.
O caos se instalou. Ambulâncias foram chamadas. No hospital, o diagnóstico foi rápido e aterrador: envenenamento por belladona, um alcaloide potente que, em doses erradas, poderia ser fatal.
Emanuel passou horas no corredor, o rosto enterrado nas mãos, enquanto Sara, estranhamente silenciosa e pálida, andava de um lado para o outro, os saltos batendo como tiros no chão do hospital.
— Se elas morrerem, Emanuel, eu mesma mato quem fez isso — sibilou Sara, a voz vibrando com uma fúria que Emanuel nunca tinha visto.
Felizmente, a intervenção foi rápida. Por terem ingerido quantidades menores (Maya pela pouca quantidade e Eduarda pela diluição no corpo de atleta), ambas foram estabilizadas. Quando Emanuel finalmente pôde entrar no quarto, viu Eduarda pálida, com Maya dormindo ao seu lado na cama hospitalar, ambas conectadas a soros.
A investigação de Emanuel foi implacável. Ele não precisou da polícia; ele tinha recursos e contatos no submundo que a elite nem sonhava existir. Em menos de vinte e quatro horas, ele tinha as imagens das câmeras de segurança do teatro e o depoimento de um assistente que viu Melissa manipulando as garrafas no camarim.
Emanuel foi até a mansão da família de Melissa, sua fúria contida em um terno escuro que parecia pequeno demais para sua raiva. Ele foi recebido pelo pai da garota, um magnata do aço.
— O senhor está perdendo seu tempo — disse o homem, fumando um charuto caro, sem sequer olhar para Emanuel. — Minha filha é uma joia da sociedade. Sua... prima, ou seja lá o que ela for para você, deve ter se drogado sozinha para aguentar o ritmo. Não há provas que sustentem uma acusação criminal contra nós. A polícia já foi "orientada".
Emanuel sentiu um gosto amargo na boca. Ele tentou atacar as contas da família, tentou usar sua influência financeira para embargar os negócios deles, mas descobriu que a rede de proteção deles era vasta e antiga. Eles eram intocáveis pelo sistema legal e financeiro tradicional.
Ele voltou para casa, destruindo o escritório em um acesso de raiva. Sara entrou na sala, observando os destroços.
— Dinheiro não compra tudo, Emanuel — disse ela, aproximando-se e colocando a mão no peito dele. — Mas a reputação... a reputação é um cristal. Uma vez quebrado, ninguém quer os cacos.
Emanuel olhou para ela, os olhos brilhando com uma ideia sombria.
— Você tem razão, Sara. Se eu não posso prendê-la, eu vou apagá-la.
Nas semanas seguintes, Emanuel usou sua rede global. Ele não atacou o dinheiro da família de Melissa; ele atacou o nome dela. Ele enviou o dossiê completo — fotos, vídeos e laudos médicos — para todos os diretores de companhias de ballet do mundo, de Moscou a Nova York. Ele usou seus contatos na mídia de entretenimento para plantar a verdade: Melissa era uma envenenadora, uma ameaça à integridade de qualquer elenco.
Mais do que isso, Emanuel comprou secretamente o teatro onde a companhia nacional se apresentava e tornou-se o principal patrocinador da temporada. Sua primeira ordem? O banimento vitalício de Melissa de qualquer dependência do teatro.
O dia da estreia chegou.
Eduarda estava nos bastidores, tremendo levemente. Maya, já recuperada e usando um pequeno tutu rosa, estava no colo de Sara na primeira fila. Emanuel entrou no camarim de Eduarda, fechando a porta atrás de si.
— Você está pronta? — perguntou ele, pegando as mãos dela.
— Eu estou com medo, Manu. E se eu falhar? E se eles ainda olharem para mim e virem o que aconteceu no hospital?
Emanuel a puxou para perto, sentindo o calor do corpo dela.
— Eles vão olhar para você e ver uma rainha. Melissa nunca mais pisará em um palco. Eu garanti que ela seja uma pária no mundo da dança. Ninguém, em nenhum lugar do planeta, vai dar um par de sapatilhas para ela novamente. Ela tem o dinheiro do pai, mas ela nunca terá o que você tem: o talento e o meu amor.
Eduarda o beijou, um beijo que selava sua força.
— Vá lá e mostre a eles por que eu movi o céu e a terra por você — disse ele.
Quando as cortinas se abriram, o teatro caiu em um silêncio absoluto. Eduarda surgiu sob o foco de luz, leve como uma pluma, seus movimentos contando uma história de dor, superação e triunfo. Ela não era apenas uma bailarina; ela era uma força da natureza.
Na plateia, Sara aplaudia de pé, gritando o nome de Eduarda sem se importar com a etiqueta, enquanto Maya batia palminhas, gritando "Mamãe! Mamãe!".
Emanuel, observando das sombras da lateral do palco, sorriu. Ele tinha falhado em colocar Melissa na cadeia, mas tinha feito algo muito mais cruel para alguém como ela. Ele a tinha tornado invisível.
Ao final do espetáculo, sob uma chuva de pétalas de rosas, Eduarda foi ovacionada por dez minutos ininterruptos. Ela olhou para a primeira fila, para o homem que a salvou duas vezes e para a mulher loira que, contra todas as probabilidades, tinha se tornado sua aliada.
Naquela noite, a celebração na cobertura foi íntima. Com as crianças dormindo, Emanuel, Sara e Eduarda dividiram uma garrafa de champanhe no terraço, observando as luzes da cidade.
— Sabe — disse Sara, ajeitando o silicone no decote generoso —, a gente forma um time e tanto. A doce, a vulgar e o perigoso.
Emanuel puxou as duas para si, uma em cada braço.
— Eu não mudaria nada — disse ele, olhando para Eduarda. — Você brilhou, Duda.
— Nós brilhamos, Manu — corrigiu Eduarda, encostando a cabeça no ombro dele. — Porque você não nos deixou cair.
A vingança de Emanuel estava completa, e o futuro, embora complexo e fora dos padrões, era tão brilhante quanto o palco que Eduarda agora dominava. Melissa era apenas uma sombra no passado, enquanto eles eram a prova viva de que, sob a proteção de um homem que amava sem limites, a beleza sempre venceria o veneno.