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D

O Fio da Navalha e o Gosto do Fel

O sol da tarde entrava pelas janelas da cobertura nos Jardins, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar, alheias ao caos iminente que fervilhava dentro do apartamento. Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro, com um tablet em mãos, tentando analisar os relatórios financeiros do seu estúdio em Berlim, mas a sua concentração era constantemente bombardeada por gritos e risos que vinham dos outros cômodos.

— Ágata, o que você está fazendo com essa tesoura? — O grito de Sara não foi apenas um chamado, foi um alerta de segurança nacional.

Emanuel levantou a cabeça a tempo de ver Sara sair do quarto principal, caminhando como se estivesse em uma passarela de horror. Ela segurava uma mecha de cabelo loiro platinado na mão — uma mecha que claramente não deveria estar fora da sua cabeça. Ágata, a pequena cópia em miniatura de Sara, vinha logo atrás, segurando uma tesourinha de ponta arredondada e exibindo um sorriso de satisfação que faria um vilão de cinema ter inveja.

— Emanuel! Olha o que a sua filha fez! — Sara parou diante dele, a voz trêmula de puro choque. — Ela cortou! Ela cortou o meu cabelo!

Emanuel olhou para a esposa. O corte era desigual, uma falha nítida perto da têmpora esquerda, mas, para ser justo, o volume do cabelo de Sara era tanto que quase não se notava se ela não apontasse. No entanto, para Sara, aquilo era o equivalente a uma mutilação.

— Calma, loira... — Emanuel começou, tentando manter a voz neutra para não piorar a situação. — Foi só uma pontinha. Quase não dá para ver.

— Quase não dá para ver? — Sara quase rugiu, os olhos faiscando. — Emanuel, eu gasto fortunas nesse loiro! Eu passo horas no salão! E essa... essa pequena delinquente decidiu que queria ser cabeleireira?

Ágata soltou uma risadinha cristalina, sentando-se no tapete e começando a "tosar" o ar com a tesoura de plástico.

— Mamãe bunitu — disse a menina, piscando os olhos claros com uma inocência fingida que Emanuel conhecia muito bem.

— Bunitu é o meu... — Sara se interrompeu, respirando fundo para não falar um palavrão na frente da criança. Ela se jogou no sofá ao lado de Emanuel, cobrindo o rosto com as mãos. — Eu vou ficar com um buraco na cabeça, Emanuel. Eu vou ter que usar extensões. Isso é um desastre.

Emanuel deixou o tablet de lado e puxou Sara para perto, envolvendo-a com um braço. Ele podia sentir o corpo dela tenso de indignação. Ele beijou o topo da cabeça dela, bem onde o corte começava.

— Você continua sendo a mulher mais linda que eu já vi, loira. Um centímetro de cabelo a menos não muda isso. Amanhã você vai ao salão e resolve. Eu pago o tratamento mais caro que existir, tá bom?

Sara bufou, mas encostou a cabeça no ombro dele, cedendo ao conforto. Ágata, vendo que o pai estava "mimando" a mãe, correu até eles e tentou subir no colo de Emanuel também, rindo da cara de desespero de Sara.

— Rindo, né? — Sara olhou para a filha com uma mistura de amor e irritação. — Você é igualzinha ao seu pai, Ágata. Faz a merda e depois dá esse sorrisinho para sair impune.

Enquanto o drama capilar se desenrolava na sala, na cozinha o clima era de uma guerra de atrito muito mais silenciosa e desgastante.

Eduarda estava sentada à mesa, o rosto pálido e cansado. À sua frente, Maya, sentada em seu cadeirão, mantinha os lábios selados com a força de um cofre de banco. Entre elas, um copinho com uma vitamina de frutas roxa — o suplemento vitamínico que o médico prescrevera para combater a anemia que assombrara a viagem a Minas Gerais.

— Só um pouquinho, Maya. Por favor, meu amor — implorou Eduarda, a voz já embargada pela frustração. — É gostoso, tem gosto de morango. A mamãe tomou um pouquinho e adorou.

Maya apenas balançou a cabeça negativamente, cruzando os bracinhos sobre o peito. Ela tinha a mesma alergia a mirtilos que Emanuel, e qualquer coisa de cor escura ou roxa agora era tratada com uma desconfiança extrema pela menina.

— Não! — disse Maya, firme. — Ruim.

— Não é ruim, filha. É para você ficar forte, para a gente poder ir ao ballet amanhã — Eduarda tentou a abordagem do suborno, mas Maya não cedeu.

Eduarda suspirou, sentindo as lágrimas de cansaço pinçarem seus olhos. Ela estava exausta. O susto na fazenda a deixara em um estado de alerta constante, e cada refeição que Maya recusava parecia um fracasso pessoal. Ela pegou a colher, tentando aproximar o líquido da boca da menina, mas Maya deu um tapa na mão da mãe, espalhando gotas da vitamina roxa pela toalha de mesa branca e pela regata de Eduarda.

— Maya! — Eduarda exclamou, a voz subindo de tom, o que era raro. — Por que você está fazendo isso? A mamãe só quer cuidar de você!

A menina, assustada pelo tom de voz da mãe, começou a choramingar, mas ainda assim não abriu a boca para o remédio.

Emanuel, que ouvia a movimentação da cozinha, levantou-se do sofá, deixando Sara ainda resmungando sobre seu cabelo. Ele entrou na cozinha e deparou-se com o cenário de desolação: Eduarda com os olhos úmidos e Maya em pleno início de um show de birra.

A paciência de Emanuel, que já estava no limite devido aos problemas burocráticos de seus estúdios e ao incidente com o cabelo de Sara, simplesmente evaporou.

— Ainda nisso, Eduarda? — perguntou ele, a voz fria e cortante.

Eduarda olhou para ele, sentindo a dureza no tom dele.

— Ela não quer tomar, Manu. Eu já tentei de tudo. Cantei, contei história, prometi brinquedo... ela simplesmente não abre a boca.

Emanuel caminhou até o cadeirão. Ele não tinha a paciência infinita de Eduarda, nem a disposição para jogos. Ele era um homem de resultados. Ele pegou o copinho da mão de Eduarda com um movimento brusco.

— Maya, olhe para mim — ordenou Emanuel.

A menina parou de choramingar e olhou para o pai. O olhar de Emanuel era sério, o mesmo olhar que ele usava quando precisava silenciar um subordinado ou encerrar uma discussão difícil.

— Você vai tomar isso agora. Sem choro, sem "não", sem "ruim". Você quer ficar doente de novo? Quer que o médico venha aqui com aquela agulha grande?

Maya arregalou os olhos. A menção à agulha — que ela associara aos exames de sangue recentes — foi o gatilho.

— Não agulha! — gritou a menina.

— Então tome. Agora — Emanuel encostou a borda do copo nos lábios dela.

Maya olhou para Eduarda, buscando socorro, mas Eduarda apenas baixou a cabeça, incapaz de interferir na autoridade de Emanuel naquele momento. Com os olhos cheios de lágrimas, Maya abriu a boca e tomou o líquido de uma vez, fazendo uma careta de nojo e engolindo com dificuldade.

— Tudo? — perguntou Emanuel, implacável.

Maya abriu a boca, mostrando que tinha engolido tudo.

— Bom. Agora vá para o quarto com a sua mãe. Eduarda, limpe isso e coloque ela para descansar. Eu não quero ouvir mais um pio sobre essa vitamina hoje.

Emanuel saiu da cozinha sem olhar para trás, deixando um rastro de tensão no ar. Eduarda pegou Maya no colo, sentindo o coração da filha batendo rápido contra seu peito. Ela se sentia mal pela forma como Emanuel agira, mas, ao mesmo tempo, sentia um alívio culpado por ele ter resolvido o problema que ela não conseguira.

No corredor, Emanuel cruzou com Sara, que já tinha se recomposto e agora examinava o estrago no cabelo em um espelho de parede.

— Você foi um pouco grosso com a Duda, não acha? — comentou Sara, sem tirar os olhos do reflexo. — Ela já está nervosa o suficiente com a saúde da Maya.

— Alguém tem que ser o adulto nesta casa, Sara — retrucou Emanuel, parando atrás dela e segurando-a pela cintura. — Se eu deixar, a Eduarda passa a noite inteira implorando e a Maya não toma o que precisa. Eu não tenho tempo para isso.

Sara virou-se nos braços dele, passando as mãos pelo peito tatuado de Emanuel.

— Você está estressado, tatuador. O cabelo, a vitamina, o trabalho... você vai acabar tendo um treco.

— Eu estou bem — mentiu ele, fechando os olhos por um segundo e encostando a testa na de Sara. — Só preciso que as coisas funcionem. Só preciso que vocês fiquem bem.

— Nós estamos bem — sussurrou Sara, puxando o rosto dele para um beijo lento, que cheirava a vinho e a uma promessa de distração. — O meu cabelo cresce, a Maya vai ficar forte e a Duda... bem, a Duda só precisa que você dê um pouco de carinho para ela depois de ter dado aquele susto na cozinha.

Emanuel suspirou, a tensão deixando seus ombros gradualmente. Ele sabia que Sara tinha razão. Ele era o centro daquele universo, o pilar que sustentava a força de Sara e a fragilidade de Eduarda, mas às vezes o peso desse pilar parecia esmagador.

Mais tarde, quando a noite já tinha envolvido a cidade, Emanuel entrou no quarto de Eduarda. Ela estava deitada na cama, lendo um livro de anatomia para o ballet, com Maya dormindo profundamente no berço ao lado.

— Duda? — chamou ele, baixinho.

Eduarda fechou o livro e olhou para ele. Não havia raiva em seus olhos, apenas aquela melancolia doce que sempre o perseguia.

— Oi, Manu.

Emanuel sentou-se na beirada da cama e tirou o livro das mãos dela, colocando-o no criado-mudo. Ele a puxou para seus braços, sentindo a maciez do corpo dela contra o seu.

— Desculpa pelo jeito que eu falei na cozinha. Eu estava sem paciência.

— Eu sei — disse ela, escondendo o rosto no peito dele. — Eu sei que você só quer o bem dela. É que eu me sinto tão impotente quando ela me desafia. Eu sinto que não tenho a força que você tem, ou a que a Sara tem.

— Você tem a sua própria força, Duda. Você é quem mantém a doçura nesta casa. Se todos fossem como eu ou como a Sara, este apartamento já teria pegado fogo.

Eduarda deu uma risadinha fraca, abraçando-o com mais força.

— A Ágata realmente cortou o cabelo da Sara?

— Cortou. A Sara quase teve um AVC — Emanuel riu também, lembrando da cena. — Mas ela já está planejando o novo visual. A Sara não se deixa abater por muito tempo.

— Elas são tão diferentes, não são? — comentou Eduarda, olhando para o berço de Maya. — A Ágata é o fogo, a Maya é... o mistério.

— E as duas são minhas — afirmou Emanuel, com uma possessividade que não deixava margem para dúvidas. — E você e a Sara também são minhas. Eu vou cuidar de tudo, Duda. Do cabelo, da vitamina, da anemia... de tudo.

Emanuel ficou ali com ela por um longo tempo, no silêncio do quarto, sentindo a responsabilidade de sua escolha. Ele tinha duas mulheres, duas filhas e um império para gerir. O mundo lá fora podia julgar, podia chamar de vulgar, de pecado ou de loucura, mas para Emanuel, a única verdade que importava era o calor daqueles corpos e a segurança daquelas vidas que dependiam dele.

Ele se levantou, deu um beijo na testa de Eduarda e foi para o seu quarto com Sara. Ao passar pelo espelho do corredor, ele viu o seu próprio reflexo. Ele parecia mais velho do que seus vinte e cinco anos, o estresse marcado nas linhas ao redor dos olhos. Mas, ao entrar no quarto e ver Sara já deitada, esperando por ele com um sorriso que prometia esquecimento, ele soube que faria tudo de novo.

Ele aceitaria cada mecha de cabelo cortada, cada colher de vitamina recusada e cada surto de estresse, contanto que, no final do dia, ele pudesse fechar a porta daquela cobertura e saber que o seu mundo — o seu mundo plural, caótico e intenso — estava seguro sob o seu comando.

Afinal, para Emanuel, o amor não era uma linha reta; era um labirinto complexo, e ele não se importava de se perder nele, desde que estivesse acompanhado pelas mulheres que deram sentido à sua vida.

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