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O Sussurro do Destino e o Sangue nas Sombras
A estrada para a fazenda dos pais de Emanuel, no interior de Minas Gerais, serpenteava entre montanhas cobertas por uma neblina matinal que parecia guardar segredos antigos. O ar condicionado do SUV de luxo estava no máximo, mas o clima dentro do veículo era de uma tensão silenciosa. Ágata, normalmente um furacão de energia loira, estava prostrada em sua cadeirinha, com as bochechas coradas pela febre e os olhos amendoados perdendo o brilho habitual.
— Ela está queimando de novo, Emanuel — disse Sara, a voz carregada de uma ansiedade que ela raramente permitia transparecer. Ela passava um pano úmido na testa da filha, ignorando o fato de que seu esmalte impecável estava lascado. — Essa febre não cede. Talvez devêssemos ter ficado em São Paulo.
Emanuel olhou pelo retrovisor, o cenho franzido. Ele detestava ver suas mulheres — grandes ou pequenas — em sofrimento.
— O médico disse que é apenas uma virose, Sara. O ar puro da fazenda vai fazer bem para ela. Meus pais já deixaram tudo pronto. Acalme-se, a Ágata é forte.
No banco ao lado de Ágata, a pequena Maya observava a irmã com uma seriedade incomum para uma criança de um ano. Eduarda, sentada ao lado de Emanuel, mantinha a mão pousada sobre a coxa dele, um gesto silencioso de apoio. Ela sentia a vibração de estresse que emanava do primo.
— A Maya está tão quietinha — comentou Eduarda, a voz doce e baixa. — Parece que ela sente que a irmã não está bem.
Quando chegaram à propriedade, a recepção foi calorosa. Os pais de Emanuel, jovens e enérgicos, abraçaram o grupo, mas o foco logo se voltou para a pequena doente. Ágata foi levada para um dos quartos arejados da casa colonial, onde Sara se instalou como uma sentinela leoa, recusando-se a sair do lado da filha.
Enquanto a tarde caía, a casa começou a encher-se com alguns amigos íntimos da família. Entre eles estava Morgana, uma mulher cuja idade era impossível de definir. Ela vestia túnicas de linho cru e usava colares de pedras brutas que retinham a luz do pôr do sol. Morgana era conhecida na região por sua excentricidade e por uma intuição que beirava o sobrenatural.
Emanuel estava na varanda, bebendo um café forte e observando Maya correr pelo gramado. A menina parecia incansável, perseguindo uma borboleta azul, o riso cristalino ecoando entre as árvores centenárias. Eduarda estava sentada em um banco de madeira, observando a filha com um sorriso orgulhoso, aliviada por ver Maya tão cheia de vida.
Morgana aproximou-se de Emanuel, mas seus olhos não estavam nele. Eles estavam fixos na pequena bailarina que rodopiava no jardim.
— Ela corre como se tivesse asas nos pés — comentou Morgana, a voz rouca e profunda.
— É a cara da mãe — respondeu Emanuel, orgulhoso. — Não para um segundo.
Morgana deu um passo à frente, estreitando os olhos. A atmosfera ao redor dela pareceu mudar, tornando-se subitamente densa. Ela estendeu a mão no ar, como se estivesse sentindo uma corrente elétrica invisível.
— Emanuel — disse ela, e o tom de sua voz fez o homem se retesar —, tome cuidado com o sangue dessa menina.
Emanuel franziu a testa, deixando a xícara de lado.
— O sangue? Ela é a criança mais saudável que eu conheço, Morgana. Veja a energia dela.
— A energia que você vê é o pavio queimando rápido demais — a mulher virou-se para ele, e Emanuel viu que as pupilas dela estavam dilatadas. — Por dentro, o sangue dela está fraco, ralo como água de chuva. A aparência engana o olho humano, mas não engana a terra.
Eduarda, que ouvira o final da frase, levantou-se e caminhou até eles, o rosto empalidecendo.
— O que você está dizendo sobre a minha filha? — perguntou Eduarda, a voz trêmula, buscando instintivamente a proximidade física de Emanuel.
Morgana olhou para Eduarda com uma mistura de pena e urgência.
— Ela brilha muito agora, pequena professora, mas a lâmpada está sem óleo. E você, Emanuel... — Morgana tocou o braço tatuado dele, e Emanuel sentiu um frio gélido atravessar sua pele. — Quando olho para você e para o que cerca essa menina, eu vejo a sombra de um caixão. Não é o seu, mas está no seu caminho.
— Chega, Morgana! — Emanuel rosnou, o instinto protetor falando mais alto. — Não venha para a casa dos meus pais assustar a minha família com essas superstições. A Ágata está com febre lá dentro e agora você vem prever tragédias para a Maya?
Morgana não se abalou com a irritação dele. Ela se inclinou para perto de Eduarda e sussurrou, alto o suficiente para que ambos ouvissem:
— Cuidado com o travesseiro. Há bichos que não pertencem a este mundo, que se alojam no descanso e drenam a vida enquanto o corpo dorme. O sangue dela está sendo levado, gota a gota, no silêncio da noite.
Sem dizer mais nada, a mulher se afastou, deixando para trás um rastro de incenso e presságio.
— Manu... — Eduarda agarrou o braço dele, as unhas cravando-se levemente na pele. — Ela está louca, não está? A Maya está bem. Ela está correndo, veja!
Emanuel olhou para Maya. A menina tinha parado de correr e agora olhava para eles, o rosto subitamente sério, a pele parecendo um tom mais pálida sob a luz alaranjada do crepúsculo.
— É claro que ela está louca, Duda — disse Emanuel, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas. — É apenas uma mulher excêntrica querendo atenção. Vamos entrar, está ficando frio.
A noite caiu pesada sobre a fazenda. Ágata finalmente dormira após a febre baixar um pouco, e Sara, exausta, pegara no sono na poltrona ao lado da cama da filha. Emanuel levou Eduarda e Maya para o quarto de hóspedes que haviam preparado para elas.
Eduarda estava inquieta. As palavras de Morgana ecoavam em sua mente como um mantra maldito. Enquanto trocava a roupa de Maya para dormir, ela examinava o corpo da filha com uma minúcia frenética.
— O que você está procurando, Duda? — perguntou Emanuel, encostado no batente da porta.
— Marcas, Manu. Manchas. Qualquer coisa que confirme o que aquela mulher disse.
— Não há nada, veja — ele aproximou-se e pegou Maya no colo, beijando o pescoço da menina. — Ela está perfeita.
Emanuel colocou Maya no berço de madeira entalhada. A menina bocejou e fechou os olhos quase instantaneamente. Ele se despediu de Eduarda com um beijo na testa e foi para o quarto onde Sara e Ágata estavam, tentando convencer a si mesmo de que o desconforto em seu peito era apenas cansaço.
Horas depois, no silêncio profundo da madrugada rural, Emanuel acordou sobressaltado. Um sonho vívido com mirtilos negros que se transformavam em gotas de sangue o fizera despertar com a respiração ofegante. Ele olhou para o lado; Sara e Ágata dormiam tranquilamente.
Uma inquietação irracional o impeliu a sair da cama. Ele caminhou descalço pelo corredor frio até o quarto de Eduarda. A porta estava entreaberta.
Ao entrar, viu Eduarda dormindo profundamente na cama de casal. Mas seus olhos se voltaram para o berço de Maya.
A luz da lua entrava pela janela, banhando o berço em um brilho prateado. Emanuel aproximou-se e sentiu um cheiro estranho — algo doce e podre ao mesmo tempo. Ele olhou para o travesseiro de Maya.
A princípio, ele achou que eram apenas sombras. Mas, ao chegar mais perto, viu pequenos pontos negros, como ácaros gigantescos ou carrapatos de uma espécie que ele nunca vira, movendo-se com uma lentidão hipnótica sobre a fronha de linho, concentrando-se perto da nuca da menina.
O aviso de Morgana disparou em sua mente: *"Cuidado com o travesseiro... alguns bichos se alojam lá e drenam o sangue."*
Emanuel sentiu uma onda de náusea e fúria. Ele não pensou. Pegou Maya do berço com um movimento brusco, fazendo a menina acordar e soltar um ganido de susto.
— Manu? O que houve? — Eduarda sentou-se na cama, atordoada pelo despertar repentino.
— Saia daqui, Eduarda! Agora! — Emanuel gritou, a voz rouca de pavor.
Ele jogou o travesseiro de Maya no chão e, com o pé, esmagou um dos insetos. Um líquido escuro e espesso espirrou na madeira, e o cheiro de ferro — sangue — invadiu o quarto.
— Meu Deus, o que é isso? — Eduarda gritou, vendo os outros pequenos seres se dispersarem com uma velocidade sobrenatural para as frestas do assoalho.
Emanuel não esperou. Com Maya apertada contra o peito, ele puxou Eduarda pelo braço e saiu do quarto, batendo a porta atrás de si. Ele foi direto para o quarto principal, acordando Sara com o barulho.
— Emanuel? O que está acontecendo? — Sara perguntou, sentando-se e ajeitando o cabelo loiro bagunçado, os olhos fixos na mancha de sangue na mão dele.
— Morgana tinha razão — disse Emanuel, a voz tremendo pela primeira vez em anos. — Havia algo no travesseiro da Maya. Algo que estava se alimentando dela.
Sara, pragmática e rápida, levantou-se e pegou Maya do colo de Emanuel, examinando a nuca da menina.
— Há pequenos furos aqui, Emanuel. Parecem picadas de aranha, mas são... diferentes. Duda, traga o álcool!
O restante da noite foi um caos de luzes acesas e nervos à flor da pele. Emanuel não permitiu que ninguém voltasse para aquele quarto. Ele mesmo, armado com um inseticida pesado e uma lanterna, vasculhou o local, mas os "bichos" haviam desaparecido, deixando apenas as manchas de sangue esmagado no chão.
Pela manhã, o médico da família foi chamado novamente. Ele examinou Maya e, para a surpresa de todos, confirmou o que parecia impossível.
— Ela está com uma anemia severa, Emanuel. O hematócrito dela caiu drasticamente desde o último exame que vocês me mostraram de São Paulo. É como se ela tivesse perdido uma quantidade considerável de sangue nas últimas quarenta e oito horas. Mas não há hemorragia externa, apenas essas picadas estranhas.
Eduarda começou a chorar, escondendo o rosto nas mãos. Sara abraçou a prima, um gesto de solidariedade genuína entre as duas mulheres que compartilhavam o amor pelo mesmo homem e pela mesma família.
Emanuel saiu para a varanda, procurando por Morgana, mas a mulher já havia partido da fazenda ao amanhecer, sem deixar rastro.
Ele olhou para as próprias mãos, as mãos que protegiam, que tatuavam, que proviam. Ele sentiu o peso do "caixão" que Morgana mencionara. Não era um destino selado, era um aviso.
— Emanuel? — Sara aproximou-se dele, a expressão séria. Ágata estava melhor, a febre finalmente cedera, mas o susto com Maya mudara o tom da viagem. — O que vamos fazer?
— Vamos voltar para São Paulo hoje mesmo — disse Emanuel, a voz fria e decidida. — Vou contratar os melhores especialistas. E vou mandar queimar aquele berço e tudo o que havia naquele quarto.
— E se a Morgana estiver certa sobre o resto? — perguntou Sara, a voz baixa. — Sobre o sangue dela ser fraco por natureza?
Emanuel olhou para dentro da casa, onde Eduarda ninava Maya. A menina parecia pálida, uma boneca de porcelana que poderia quebrar a qualquer momento. O instinto de posse e proteção de Emanuel atingiu um nível febril. Ele queria as duas mulheres, queria suas filhas, e não permitiria que nenhuma força, natural ou sobrenatural, as tirasse dele.
— Se o sangue dela é fraco, eu darei o meu — afirmou Emanuel. — Se a energia dela está acabando, eu serei o suporte. Eu sou o dono desta família, Sara. E nada entra no meu domínio para tirar o que é meu.
Sara sorriu, um sorriso pequeno e tenso, mas cheio de reconhecimento. Ela conhecia aquele Emanuel — o homem que não aceitava "não" do destino.
— Então é melhor irmos. A Duda está apavorada, e eu não aguento mais o cheiro deste lugar.
Enquanto arrumavam as malas, Emanuel voltou ao quarto onde o incidente ocorrera. Ele olhou para o chão, onde a mancha de sangue escuro ainda estava visível. Ele sentiu uma presença no canto do olho, um vulto que parecia se dissipar quando ele focava a visão.
Ele percebeu então que a vida que ele escolhera — amar duas mulheres, assumir uma filha que não era biologicamente sua, viver no limite das convenções — atraía sombras que pessoas comuns nunca veriam. O "caixão" de Morgana não era uma sentença de morte, mas um lembrete de que o preço da sua felicidade era a eterna vigilância.
Ao saírem da fazenda, Emanuel olhou pelo retrovisor. Maya estava dormindo no colo de Eduarda, e Ágata, já mais recuperada, segurava a mão da irmã. Sara estava ao seu lado, o olhar fixo na estrada, pronta para enfrentar qualquer coisa em São Paulo.
Emanuel acelerou o carro, deixando para trás as montanhas de Minas e os sussurros de Morgana. Ele sabia que a batalha pela saúde de Maya estava apenas começando, e que o mistério do sangue fraco exigiria dele mais do que dinheiro ou autoridade. Mas, enquanto ele tivesse o fogo de Sara e a doçura de Eduarda ao seu lado, ele enfrentaria até mesmo os bichos que se escondem nos travesseiros e as sombras que rondam os berços.
Pois para Emanuel, o amor não era apenas um sentimento; era um pacto de sangue. E ele estava disposto a sangrar por cada uma delas.