D10
O Trono de Seda e a Fúria do Rei
O café da manhã na varanda de Helheim transcorria com uma calmaria enganosa. Qin Shi Huang, o Imperador do Início, tentava manter sua postura de superioridade absoluta enquanto mastigava uma uva roxa, mas a verdade era que cada fibra de seu ser latejava. Ele usava apenas a camisa de seda de Hades — uma peça de um roxo tão profundo que beirava o negro, cujas mangas ele tivera de dobrar várias vezes para que suas mãos não sumissem no tecido. A barra da camisa mal cobria o topo de suas coxas, deixando expostas as pernas marcadas por pequenos hematomas e a pele ainda sensível do esforço da noite anterior.
Hades, sentado à sua frente, observava cada movimento de seu marido com a precisão de um estrategista. Ele via a forma como Qin evitava se mexer bruscamente, como ele franzia levemente o cenho ao tentar cruzar as pernas e como seus dedos se apertavam na borda da mesa quando um espasmo muscular involuntário percorria suas panturrilhas.
— Você está muito silencioso para um homem que diz possuir o mundo em suas mãos — comentou Hades, levando a taça de cristal aos lábios.
Qin soltou um suspiro nasalado, tentando ajeitar-se na cadeira. A fricção do tecido contra sua pele era um lembrete constante de que ele fora levado além de seus limites.
— O silêncio é uma virtude real, Hades. Eu estou apenas apreciando a derrota momentânea do meu corpo enquanto minha mente planeja como vou fazer você pagar por cada centímetro de dor que estou sentindo agora — Qin disse, lançando um olhar desafiador, embora seus olhos estivessem nublados pelo cansaço.
Hades sorriu, aquele sorriso calmo que Qin sabia que escondia uma possessividade avassaladora.
— Dor? Eu prefiro chamar de "lembranças sensoriais".
— Chame do que quiser — rebateu Qin, decidindo que era hora de se levantar. Ele queria voltar para a cama de dossel e mergulhar em um sono profundo. — Mas você é um brutamontes. Um deus sem refinamento quando se trata de medir a própria força.
Hades arqueou uma sobrancelha, o brilho em seus olhos mudando de diversão para algo muito mais perigoso e denso.
— Um brutamontes? — repetiu o Rei do Submundo, sua voz baixando uma oitava, tornando-se aquele barítono que fazia Qin estremecer até a medula.
— Exatamente — Qin continuou, sem perceber que estava pisando em solo instável. Ele começou a caminhar em direção ao quarto, mas seus passos eram vacilantes. Suas pernas fraquejaram no terceiro passo, e ele teve de se apoiar em uma coluna de mármore. — Um bruto grego que não sabe quando parar. Você me quebrou, Hades. É assim que você trata o seu Imperador? Como se eu fosse um de seus titãs de guerra?
Qin soltou uma risada curta e petulante, virando o rosto para olhar Hades por cima do ombro.
— Você é um brutamontes sem classe.
Hades levantou-se da cadeira com uma lentidão predatória. Não havia pressa em seus movimentos, apenas uma determinação absoluta.
— Você quer ver o que um brutamontes de verdade é capaz de fazer, Ying Zheng? — perguntou Hades, caminhando em direção a ele.
Qin sentiu um arrepio de aviso percorrer sua espinha. Ele tentou acelerar o passo, mas suas pernas simplesmente não respondiam com a velocidade necessária. Ele mal havia alcançado o tapete central do quarto quando sentiu uma mão grande e fria envolver seu tornozelo direito.
— O quê...? — Qin soltou um arquejo de surpresa quando foi puxado para trás.
Hades o arrastou pelo pé com uma facilidade insultante, fazendo com que o corpo de Qin deslizasse pelo tapete de veludo. O imperador tentou se apoiar nos cotovelos, o rosto vermelho de indignação e choque.
— Hades! Me solte! O que você pensa que está fazendo?! — Qin gritou, tentando chutar com a outra perna, mas o deus a capturou com a mesma facilidade, prendendo ambos os tornozelos em uma mão só.
Hades o puxou até que Qin estivesse caído aos seus pés, no centro do quarto. O Rei de Helheim inclinou-se sobre ele, sua sombra cobrindo o imperador completamente. A aura de benevolência havia desaparecido, substituída pela fúria silenciosa e pela luxúria impiedosa de um monarca que fora desafiado.
— Eu fui gentil com você a noite toda — disse Hades, sua voz soando como o trovão antes da tempestade. — Eu parei quando você desmaiou, esperei você acordar, cuidei de você. Mas se você insiste em me chamar de bruto... eu vou lhe dar exatamente o que você pediu.
— Foi uma piada! — Qin exclamou, sua arrogância começando a ser substituída por um pavor genuíno ao ver a expressão no rosto do marido. — Hades, espere! Eu não...
Hades não esperou. Ele virou Qin de costas com um movimento brusco e subiu sobre ele, prendendo o corpo do imperador contra o chão. A camisa de seda subiu completamente, deixando Qin exposto e vulnerável. Sem preliminares, sem a ternura que marcara o início da noite anterior, Hades reivindicou-o com uma força que fez Qin gritar contra o tapete.
Foi um impacto avassalador. Qin sentiu como se estivesse sendo partido ao meio. A sinestesia toque-espelho, que já o deixava sobrecarregado, transformou cada investida de Hades em uma explosão de dor e prazer agônico.
— Hades, pare! — Qin soluçou, suas mãos arranhando o tapete, tentando encontrar algum apoio. — Dói... por favor, está doendo!
— Um rei não implora, não foi o que você disse? — rosnou Hades no ouvido de Qin, suas mãos prendendo os pulsos do imperador acima da cabeça dele. — Sinta o brutamontes agora, Ying Zheng. Sinta cada pedaço da minha força.
O ritmo era implacável. Hades não tinha piedade. Ele o possuía com uma ferocidade que Qin nunca havia experimentado, uma possessividade crua que ignorava qualquer protocolo real. O corpo de Qin tremia violentamente, espasmos de puro choque percorrendo seus membros enquanto ele era empurrado contra o chão repetidas vezes.
As lágrimas começaram a cair livremente, molhando o rosto de Qin e o tecido do tapete. Ele não conseguia mais manter a fachada de imperador. Ele era apenas um homem, um humano sendo desmantelado pela divindade que amava.
— Desculpa! — Qin gritou, sua voz quebrada por um soluço lancinante. — Hades, eu sinto muito! Por favor, pare!
Hades não parou. Ele enterrou o rosto no pescoço de Qin, deixando marcas profundas de mordidas, marcando seu território enquanto continuava o castigo rítmico.
— Do que você sente muito? — perguntou Hades, a voz carregada de uma tensão sombria.
— Por te chamar... de brutamontes! — Qin ofegou, o ar faltando em seus pulmões. — Eu não vou mais... eu prometo! Eu não vou mais chamar! Por favor, meu rei... tenha piedade!
Qin estava em frangalhos. O prazer era tão intenso e misturado à dor que sua mente começou a nublar novamente. Ele soluçava sem parar, o corpo sacudindo sob o peso esmagador de Hades. Ele se sentia pequeno, dominado, completamente à mercê do soberano de Helheim.
— Por favor... — Qin sussurrou, sua voz quase sumindo. — Eu não aguento mais... Hades, por favor...
Hades finalmente sentiu o limite de seu marido. Ele deu algumas investidas finais, profundas e possessivas, antes de liberar seu sêmen dentro do imperador com um rosnado baixo de satisfação. O deus permaneceu sobre ele por um longo tempo, sentindo os tremores de Qin diminuírem gradualmente para espasmos leves e o choro se transformar em respirações curtas e sofridas.
Lentamente, a fúria de Hades dissipou-se, dando lugar à sua proteção habitual. Ele soltou os pulsos de Qin e o virou com cuidado. O rosto do imperador estava inchado, coberto de lágrimas e suor, seus olhos fixos no vazio, ainda processando a violência do que acabara de acontecer.
Hades sentiu uma pontada de remorso ao ver o estado de seu amado, mas ele sabia que Qin precisava daquele lembrete. O imperador brincava com fogo constantemente, esquecendo-se de que Hades não era apenas seu marido, mas o senhor de um reino de sofrimento e ordem.
— Olhe para mim — ordenou Hades, suavemente.
Qin levou alguns segundos para focar os olhos em Hades. Quando o fez, não havia arrogância, apenas uma submissão exausta.
— Eu... eu sinto muito — Qin repetiu, sua voz um fio de som. — Não vou mais... te provocar assim.
Hades suspirou e o puxou para perto, aninhando o corpo quebrado de Qin contra o seu. Ele beijou as pálpebras inchadas do marido e limpou as lágrimas de suas bochechas com o polegar.
— Você é o único ser em todos os reinos que consegue me levar a esse estado, Ying Zheng — murmurou Hades. — Nunca mais se esqueça de quem eu sou. Eu amo você mais do que a minha própria existência, mas eu sou o Rei do Submundo. Se você me desafia a ser um monstro, eu serei um monstro para você.
Qin apenas acenou levemente com a cabeça, escondendo o rosto no peito largo de Hades. Ele estava exausto demais para falar, exausto demais para ser o Imperador do Início. Naquele momento, ele era apenas de Hades, totalmente e sem reservas.
Hades o pegou nos braços mais uma vez e o levou de volta para a cama. Ele o deitou com uma ternura que contrastava bizarramente com a brutalidade de momentos atrás. Ele cobriu Qin com os lençóis e deitou-se ao lado dele, permitindo que o imperador se encolhesse em seu abraço.
— Durma agora — disse Hades. — Eu estarei aqui quando você acordar.
Qin Shi Huang fechou os olhos, o som do coração de Hades sendo a única coisa que o mantinha ancorado à realidade. Ele sabia que, apesar da dor e do choro, havia uma segurança perversa naquilo. Ele fora domado, sim, mas fora domado pelo único ser que ele considerava digno de tal feito. E enquanto o sono finalmente o levava, Qin soube que, no dia seguinte, ele provavelmente voltaria a sorrir e a provocar, mas nunca mais, sob hipótese alguma, chamaria Hades de brutamontes. Pelo menos, não até que suas pernas parassem de tremer.