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O Mergulho do Imperador e o Brilho das Águas de Cristal

A tela de cristal de Hefesto parecia ter se tornado o centro do universo naquela noite no Olimpo. Deuses de todos os panteões, humanos ressuscitados e valquírias curiosas estavam hipnotizados pelas imagens que não paravam de fluir. Hades, o Rei do Submundo, mantinha uma expressão de serenidade soberana, embora sua mão estivesse firmemente entrelaçada com a de Qin Shi Huang. No colo do imperador, o pequeno Xiao Huang, com seus um ano e oito meses de pura energia, apontava para a tela com olhos brilhantes.

— Água! — exclamou o bebê, batendo as mãozinhas. — Papa, água!

Qin Shi Huang soltou uma risada vibrante, o som de jade batendo em seda.

— Sim, meu pequeno tesouro. Água. Mas não qualquer água — Qin olhou para Hades com um brilho travesso nos olhos. — Prepare-se, Hades. Esta memória é de quando eu decidi que o protocolo imperial era opcional, mas a diversão era obrigatória.

Hades arqueou uma sobrancelha, sentindo uma leve apreensão.

— Pelo seu sorriso, Qin, sinto que o que veremos envolve um risco desnecessário à sua integridade física.

— O risco é o tempero da vida, meu caro Rei — retrucou Qin, abrindo seu leque.

Na tela, a imagem se estabilizou em uma manhã radiante na China antiga. O jovem Qin, já com sua aura de autoridade, mas sem a venda nos olhos, estava cercado por um grupo de cerca de dez crianças da vila próxima ao palácio. Entre elas, destacava-se Kimi, sua amiga de infância e general de espírito indomável, que carregava cestas de frutas e uma alegria contagiante.

— Hoje — anunciou o jovem Qin na tela, apontando para as montanhas verdejantes —, o Imperador decreta que o único dever do reino é encontrar a cachoeira de cristal!

As crianças gritaram de alegria, pulando ao redor dele. Kimi deu um tapa amigável no ombro de Qin.

— Você só quer fugir daquela reunião com os conselheiros de finanças, não é? — perguntou ela, rindo.

— Detalhes irrelevantes, Kimi! — respondeu o Qin da memória. — Um rei que não conhece o frescor de uma cascata não pode governar um povo que vive sob o sol!

A jornada na tela era uma sucessão de momentos de pura luz. Qin carregava as crianças menores nos ombros, apostava corrida com os mais velhos e parava para explicar as cores das flores, sempre com aquela arrogância carismática que o definia. Hades observava a cena com um sorriso discreto; ver o lado paternal de Qin antes mesmo dele ser pai era algo que aquecia o coração frio do senhor de Helheim.

Finalmente, eles chegaram. A cachoeira era uma queda majestosa de águas límpidas que desabavam em uma lagoa profunda, cercada por rochas cobertas de musgo e samambaias.

— É linda! — exclamou uma das meninas na tela.

— É nossa! — corrigiu Qin, já retirando as camadas externas de suas vestes imperiais, ficando apenas com uma túnica leve de seda branca. — Último a entrar é uma estátua de terracota!

O caos se instalou na lagoa. As crianças mergulhavam, Kimi organizava batalhas de água e Qin era o centro de tudo, rindo enquanto era "atacado" por cinco crianças ao mesmo tempo. Era um dia perfeito, um daqueles momentos raros onde o peso da coroa era substituído pelo peso da água fresca na pele.

No entanto, o clima na tela mudou. A música de fundo, antes alegre, tornou-se tensa.

Qin, querendo impressionar a todos, apontou para o topo da cachoeira, uma saliência rochosa que ficava a pelo menos quinze metros de altura, onde a correnteza era mais forte.

— Observem! — gritou o jovem Qin para Kimi e as crianças. — O dragão vai voar!

— Qin, não! — gritou Kimi na tela, a diversão desaparecendo de seu rosto. — A correnteza lá em cima está muito rápida por causa das chuvas de ontem!

— Onde eu piso é o meu caminho, Kimi! — respondeu ele, já começando a escalar as rochas molhadas com uma agilidade assustadora.

No Olimpo, Hades apertou a mão de Qin.

— Você sempre foi um inconsequente — murmurou o deus, os olhos fixos na tela.

— Eu estava sendo... performático — defendeu-se Qin, embora estivesse visivelmente tenso ao rever a cena.

Na tela, o jovem Qin atingiu o topo. Ele parou na beira, olhando para baixo com um sorriso vitorioso. As crianças aplaudiam, mas Kimi estava pálida. Qin se preparou para o salto, mas, no momento em que deu o impulso, o musgo sob seus pés cedeu.

O salto, que deveria ser um arco perfeito, tornou-se uma queda desgovernada. Qin escorregou, batendo o ombro em uma saliência rochosa antes de mergulhar na água. Mas ele não caiu na parte calma da lagoa. Ele caiu diretamente sob a queda d'água, onde a pressão era imensa e as pedras submersas eram traiçoeiras.

O silêncio caiu sobre o salão do Olimpo. Na tela, as bolhas subiam, mas Qin não.

— Qin! — gritou Kimi na memória, mergulhando sem hesitar.

Segundos que pareceram horas se passaram. As crianças na margem começaram a chorar. Kimi emergiu uma vez, sem fôlego, e mergulhou novamente.

Debaixo d'água, a câmera da memória mostrou o jovem Qin. Ele estava preso; sua túnica de seda se enganchara em uma fenda entre as pedras no fundo da lagoa. Ele lutava, mas o impacto no ombro o deixara atordoado. O ar estava acabando. Seus olhos, geralmente cheios de fogo, começaram a se fechar enquanto a escuridão da água o envolvia.

— Não... — sussurrou o pequeno Xiao Huang no colo de Qin, sentindo a angústia da imagem. — Papa... acorda.

Hades sentiu uma fúria protetora crescer em seu peito, mesmo sabendo que aquilo era o passado.

Na tela, Kimi finalmente o encontrou. Com uma força nascida do desespero, ela usou uma faca de caça que levava presa à perna para cortar a seda da túnica de Qin. Ela o agarrou pela cintura e o puxou para cima.

Eles emergiram de forma violenta. Kimi arrastou o corpo inerte de Qin para a margem pedregosa. As crianças se amontoaram ao redor, em choque.

— Respire, seu idiota arrogante! — gritava Kimi, batendo no peito de Qin. — Você é o Imperador! Você não tem permissão para morrer em uma cachoeira!

Qin tossiu, expelindo água e ar de forma dolorosa. Seus olhos se abriram lentamente, focando no rosto banhado de lágrimas de sua amiga.

— Kimi... — ele sussurrou, a voz fraca. — Você... você estragou o meu salto.

Kimi soltou um soluço que era metade riso e metade choro, dando um tapa leve na testa dele.

— Eu vou te matar antes que a água o faça! Nunca mais faça isso!

— Eu... — Qin tentou se sentar, sentindo a dor no ombro. Ele olhou para as crianças, que ainda estavam assustadas. Ele forçou um sorriso, o velho brilho voltando aos poucos. — Viram? O dragão... ele apenas quis explorar o fundo do rio para ver se havia tesouros para vocês.

As crianças riram, aliviadas, abraçando-o. O resto do dia na memória foi mais calmo. Eles secaram as roupas ao sol, comeram as frutas de Kimi e Qin passou o tempo contando histórias de como ele "lutou contra um monstro subaquático" para justificar sua demora em emergir.

A tela de cristal começou a desvanecer, voltando ao brilho suave do presente.

O Olimpo estava em silêncio. Até mesmo Zeus parecia impressionado com a teimosia do humano em sobreviver.

— Você quase morreu por causa de uma exibição — disse Hades, virando-se para Qin. Sua voz era baixa, carregada de uma emoção que ele raramente mostrava. — Se Kimi não estivesse lá...

Qin Shi Huang fechou o leque e tocou o rosto de Hades com suavidade.

— Mas ela estava. E o destino sabia que eu ainda tinha um trono para conquistar em Helheim, e um Rei para amar.

Hades suspirou, encostando sua testa na de Qin.

— Você é a criatura mais exasperante que já cruzou o meu caminho, Qin Shi Huang.

— É por isso que você me adora — retrucou o imperador, sorrindo.

Xiao Huang, sentindo que o perigo passara, puxou a gola da túnica de Hades.

— Papa, banho! — pediu o bebê. — Cachoeira com Papa Hades!

Hades soltou uma risada rara e calorosa, pegando o filho nos braços.

— Sim, pequeno. Mas se formos a uma cachoeira, eu estarei lá para garantir que ninguém tente "voar" de forma irresponsável.

— Ah, onde está a diversão nisso? — provocou Qin, levantando-se e ajeitando sua capa.

— A diversão está em voltarmos para casa inteiros — respondeu Hades, estendendo a mão para o marido.

Enquanto a família real de Helheim se retirava do salão, os deuses e humanos observavam a conexão inabalável entre eles. Eles viram o imperador que quase morreu por excesso de vida, e o deus que deu a ele um motivo para viver para sempre.

— Sabe, Hades — disse Qin enquanto caminhavam pelo portal de luz —, aquela cachoeira ainda existe no mundo humano. Talvez devêssemos levar o Xiao Huang um dia.

— Só se eu puder congelar a água antes de você saltar — respondeu Hades.

— Você é tão protetor, meu Rei. É quase... adorável.

— É o meu dever, Imperador. Proteger o meu povo, o meu reino e, acima de tudo, o meu coração ruidoso.

Qin sorriu, encostando-se no ombro de Hades enquanto cruzavam para o submundo. O passado podia ter sido cheio de perigos e águas profundas, mas o presente era um porto seguro esculpido em amor e eternidade. E, para Qin Shi Huang, não havia salto ou correnteza que valesse mais do que o simples ato de caminhar de mãos dadas com sua família rumo ao silêncio acolhedor de seu lar.