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O Salto da Liberdade e o Caos de Seda
A tela de cristal de Hefesto, que já havia exposto segredos picantes e performances musicais dignas de um delírio febril, começou a vibrar com um tom dourado pálido e solene. O salão do Olimpo, ainda se recuperando das rimas atrevidas de Qin sobre "abacaxis" e "branquelos", mergulhou em um silêncio pesado. Hades sentiu uma mudança no ar; a energia que emanava da projeção não era de deboche, mas de uma opressão antiga, algo que cheirava a incenso de templos e deveres sufocantes.
Qin Shi Huang, sentado ao lado de Hades, endureceu os ombros. Xiao Huang, percebendo a mudança de humor do pai, aninhou-se mais perto do peito de Qin, segurando a ponta de sua venda de seda.
— Ah, essa memória... — murmurou Qin, sua voz perdendo a vivacidade habitual. — O dia em que tentaram colocar o dragão em uma gaiola de ouro.
Na tela, a imagem se formou com nitidez cristalina. O jovem Qin, com cerca de dezenove anos, estava parado no centro de um grande salão imperial na China antiga. Ele não usava suas roupas rebeldes de neon, mas sim um traje de casamento tradicional tão pesado e ornamentado que parecia uma armadura de seda vermelha e fios de ouro. Seu rosto, sem a venda naquela época, estava pálido, e seus olhos refletiam uma frieza que Hades raramente via.
À sua frente, uma noiva de linhagem nobre, cujo rosto estava oculto por um véu de contas, esperava. O ambiente era carregado de anciãos, conselheiros e guardas, todos observando o "casamento político" que deveria consolidar uma aliança necessária para a unificação.
— Qin parecia... morto por dentro — observou Hermes, inclinando-se para frente.
— Ele estava sendo forçado — disse Hades, sua voz soando como o gelo quebrando. — Um imperador não deve ser acorrentado por conveniências de mortais.
Na projeção, o sumo sacerdote ergueu as mãos, e o silêncio no templo era absoluto.
— Qin Shi Huang, herdeiro do trono de Qin, você aceita esta união sob o céu e a terra, vinculando seu sangue e seu destino para a eternidade? — perguntou o sacerdote, a voz ecoando como um veredito.
O jovem Qin abriu a boca. O "sim" estava na ponta de sua língua, uma palavra que ele odiava, mas que o peso do dever o obrigava a proferir. Ele respirou fundo, os punhos cerrados sob as mangas largas.
— Eu... — começou o jovem Qin.
*BUM!*
O som de madeira estilhaçando ecoou não apenas na memória, mas pareceu vibrar em todo o Olimpo. As imensas portas duplas do templo foram arrombadas com tamanha força que um dos guardas foi lançado para o lado.
Uma jovem de cabelos curtos, vestindo trajes de montaria masculinos e carregando uma espada curta na cintura, parou na entrada. Era Kimi, a amiga de infância mais audaciosa de Qin, aquela que sempre fora sua cúmplice nas fugas noturnas.
— PAREM ESSA PALHAÇADA AGORA MESMO! — gritou Kimi na tela, apontando para o sacerdote.
— Kimi? — sussurrou o jovem Qin na projeção, um brilho de esperança genuína iluminando seus olhos pela primeira vez em meses.
— Qin, você é o Imperador, não um gado de sacrifício! — Kimi avançou pelo tapete vermelho, ignorando as lanças dos guardas que se cruzavam em seu caminho. — Se você disser "sim", eu juro que quebro a sua cara antes de você chegar na noite de núpcias!
No salão do Olimpo, Qin Shi Huang soltou uma gargalhada sonora, batendo a palma da mão no braço da poltrona.
— Hao! Kimi sempre teve um tempo impecável!
Na tela, o caos se instalou. O sacerdote gritava por ordem, os anciãos clamavam por sacrilégio, e os guardas avançavam. O jovem Qin, com um sorriso que poderia incendiar o mundo, arrancou a coroa cerimonial pesada de sua cabeça e a lançou contra o conselheiro mais próximo.
— Desculpe, sacerdotes! — gritou o jovem Qin, correndo em direção a Kimi. — Parece que o céu tem outros planos para mim hoje!
Kimi agarrou o pulso de Qin, e os dois começaram a correr pelos corredores do palácio, desviando de flechas e guardas atrapalhados. A cena era uma mistura de perseguição épica e comédia de erros. Eles subiram escadarias, deslizaram por telhados de telhas vidradas e acabaram encurralados em uma das galerias mais altas do palácio imperial — o Grande Salão dos Espelhos.
À frente deles, não havia saída, apenas uma parede de vidro enorme, uma maravilha da engenharia da época, que dava vista para o precipício onde o palácio fora construído. Atrás, o som de dezenas de guardas se aproximando.
— Kimi, não tem porta! — exclamou o jovem Qin, ofegante.
— Quem disse que precisamos de uma porta? — Kimi olhou para o vidro e depois para Qin. — Você confia em mim, "Vossa Majestade"?
— Sempre — respondeu Qin.
— No três! — ordenou ela. — Um... dois... TRÊS!
Os dois se lançaram contra o vidro. No Olimpo, os deuses prenderam a respiração. O som do vidro estilhaçando na memória foi como o tilintar de mil diamantes caindo. A tela capturou o momento em câmera lenta: os fragmentos de vidro brilhando sob o sol da tarde, Qin e Kimi suspensos no ar por um segundo eterno antes de começarem a cair.
— Eles vão morrer! — gritou Ares, levantando-se.
— Olhe de novo, idiota — disse Hades, os olhos fixos na coragem de seu marido.
Abaixo da janela, havia uma série de andaimes de madeira e cordas de seda que estavam sendo usados para a reforma da fachada do palácio. Qin e Kimi caíram sobre uma lona esticada, amortecendo a queda, mas o impulso os lançou diretamente para uma viga de madeira estreita, suspensa a centenas de metros de altura sobre o vale.
— Equilíbrio, Qin! — gritou Kimi, os braços abertos enquanto ela tentava se estabilizar na viga que balançava violentamente com o vento.
O jovem Qin, ainda usando as vestes de casamento pesadas e longas, parecia uma borboleta carmesim tentando não ser levada pelo vendaval. Ele deu um passo em falso, a viga rangeu, e ele quase despencou.
— Hao... — murmurou Qin no presente, os dedos apertando o braço de Hades. — Aquela parte foi difícil.
Na tela, o jovem Qin fechou os olhos por um breve segundo. Ele respirou fundo, concentrando-se no centro de sua própria gravidade. Ele não era apenas um homem em uma viga; ele era o Imperador que unificaria o mundo. Se ele pudesse dominar aquele pedaço de madeira, poderia dominar qualquer coisa.
Ele começou a andar. Com uma graça que desafiava a física, ele deslizou pela viga, usando as mangas longas do traje de casamento para equilibrar o peso, como se fossem asas. Kimi o seguia logo atrás, impressionada.
— Você está se exibindo, não está? — perguntou Kimi no vídeo, rindo apesar do perigo.
— Um Imperador deve sempre ser o centro das atenções, Kimi! — respondeu Qin, fazendo uma pirueta dramática no final da viga antes de saltar para o solo firme da encosta da montanha.
Eles correram para a floresta, deixando para trás o palácio, o casamento forçado e as expectativas de um império que tentava contê-los. A imagem terminou com os dois rindo, deitados na grama alta, enquanto o sol se punha atrás das montanhas.
A tela de cristal voltou ao seu estado de repouso. O silêncio no Olimpo desta vez era de puro espanto.
— Você pulou de uma altura de cinquenta metros, atravessou um vidro e fez equilibrismo em uma viga... tudo para fugir de um casamento? — perguntou Zeus, parecendo honestamente impressionado.
— Casamento é uma coisa séria, Zeus — disse Qin, levantando-se e ajeitando sua venda. — Eu não aceitaria nada menos do que a perfeição. E o destino, em sua infinita sabedoria, guardou essa perfeição para Helheim.
Hades levantou-se logo atrás, pegando Xiao Huang, que agora batia palmas e tentava imitar o salto do pai.
— Pula! Papa pula! — gritava o bebê, jogando-se nos braços de Hades.
— Não, pequeno, você não vai pular de vidraças tão cedo — disse Hades, mas havia um brilho de orgulho em seus olhos enquanto ele olhava para Qin. — Devo admitir, Qin... sua fuga foi... eficiente.
— Eficiente? Hades, foi lendária! — exclamou Qin, envolvendo o braço do marido. — Mas devo admitir, se fosse você me esperando naquele altar, eu provavelmente teria quebrado a porta para entrar mais rápido, em vez de fugir.
Hades sentiu o coração aquecer. Ele guiou Qin e o filho para fora do salão, enquanto os deuses ainda discutiam a loucura do Imperador da China.
— Aquela Kimi... ela ainda está por aí? — perguntou Hades enquanto caminhavam.
— Ela viveu uma vida longa e cheia de aventuras — respondeu Qin, o tom de voz suavizando. — Ela foi minha general de confiança por muitos anos. Acho que, de onde quer que a alma dela esteja agora, ela deve estar rindo de nós.
— Ela teria gostado de Helheim — comentou Hades. — Temos muitas vigas altas para ela se equilibrar.
Qin soltou uma risada vibrante, encostando a cabeça no ombro de Hades.
— Talvez. Mas ela ficaria com ciúmes.
— Ciúmes? Por quê?
— Porque ela sempre disse que ninguém seria capaz de domar o Imperador — Qin parou e olhou para Hades, o sorriso cheio de uma promessa silenciosa. — E aqui estou eu, carregando o seu filho e voltando para o seu reino, sentindo-me mais livre do que naquele dia em que pulei daquela janela.
Hades não disse nada; ele apenas inclinou-se e beijou a testa de Qin, um gesto de posse e adoração que valia mais do que qualquer coroa. Xiao Huang, no meio dos dois, soltou um bocejo sonolento.
— Papa... — murmurou o bebê. — Vidro... brilhou.
— Sim, brilhou — sussurrou Qin. — Mas nada brilha mais do que o que temos agora, meu pequeno dragão.
Enquanto entravam no portal para Helheim, deixando para trás a grandiosidade barulhenta do Olimpo, Qin Shi Huang olhou para trás uma última vez. Ele não era mais o jovem fugindo de um destino imposto. Ele era o homem que havia escolhido seu próprio trono, sua própria família e seu próprio deus.
A noite em Helheim os recebeu com a calma de um lar conquistado. E, para Qin, aquele era o único equilíbrio que realmente importava. Não em uma viga suspensa sobre um abismo, mas nos braços do Rei que o aceitava com todas as suas rimas, suas fugas e sua eterna arrogância imperial.
— Hao — disse Qin, fechando as portas do palácio. — Realmente, muito hao.