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O Eco dos Passos no Salão de Cristal

O sol pálido de Helheim, uma esfera de luz violeta que nunca chegava a aquecer verdadeiramente o solo, filtrava-se pelas janelas altas da biblioteca real. O silêncio, que outrora era a marca registrada de Hades, agora era constantemente interrompido pelo som rítmico de pequenas mãos batendo em pergaminhos milenares.

Xiao Huang estava em uma missão. Sentado no chão de mármore, cercado por tomos que continham a genealogia de divindades esquecidas, o menino de um ano e oito meses tentava desesperadamente equilibrar uma pequena coroa de jade — um presente de "vovó" Chun Yan, ou melhor, uma réplica que Qin mandara fazer — sobre a cabeça.

— Caiu... — resmungou o pequeno, vendo o objeto rolar pelo chão. — Coroa... caiu!

Hades, sentado em sua escrivaninha de ébano, desviou os olhos de um relatório sobre o fluxo de almas para observar o filho. A seriedade habitual do Rei do Submundo derretia-se como cera próxima ao fogo sempre que Xiao Huang franzia o cenho daquela maneira determinada, uma expressão que era a cópia exata da de Qin Shi Huang quando este decidia que uma parede não deveria estar em seu caminho.

— Reis não deixam a coroa cair, pequeno pássaro — disse Hades, sua voz profunda ressoando com uma doçura que faria Poseidon ter um espasmo de desdém.

Hades levantou-se com a elegância de um predador em repouso e caminhou até o filho. Ele se ajoelhou, ignorando o fato de que suas vestes de seda caríssimas estavam varrendo a poeira mágica do chão. Com dedos longos e pálidos, ele pegou a coroa de jade e a colocou delicadamente sobre os cabelos negros e rebeldes de Xiao Huang.

— Papa! — O menino sorriu, mostrando os dentes pequenos. — Eu... Rei?

— Sim, você é um pequeno rei — confirmou Hades, tocando a ponta do nariz do bebê. — Mas não conte isso ao seu outro pai, ou ele dirá que só pode haver um Imperador neste palácio.

— Alguém pronunciou o título do homem mais importante do mundo? — A voz de Qin Shi Huang ecoou antes mesmo de ele cruzar o umbral da porta.

Qin entrou na biblioteca com sua habitual arrogância magnética. Ele não usava sua armadura de combate hoje, mas sim uma túnica leve de seda branca com detalhes em ouro, que fluía ao redor dele como se tivesse vida própria. A venda cobria seus olhos, mas ele se movia com uma precisão absoluta, desviando de uma pilha de livros que Xiao Huang havia derrubado momentos antes.

— Hao! — exclamou o bebê, esticando os braços para Qin. — Papa Hao! Ver! Coroa!

Qin pegou o filho no colo em um movimento fluido, sentindo a energia vibrante da criança. Graças à sua sinestesia, Qin podia sentir o orgulho borbulhante de Xiao Huang, uma sensação que aquecia seu próprio peito.

— Uma coroa de jade? — Qin fingiu analisar o objeto com severidade. — Aceitável. Mas falta o brilho das estrelas que só o meu povo sabe lapidar. Hades, você está tentando converter meu herdeiro aos seus costumes sombrios?

Hades levantou-se, cruzando os braços com um sorriso de canto.

— Eu apenas estou garantindo que ele saiba que, neste reino, a substância importa mais do que o brilho, Qin.

O Primeiro Imperador da China soltou uma risada curta e sentou-se na beirada da mesa de Hades, uma falta de protocolo que apenas ele ousaria cometer. Ele colocou Xiao Huang sentado em seu joelho.

— Substância é importante, admito. Mas um Rei sem estilo é apenas um homem sentado em uma cadeira cara — rebateu Qin. — Diga a ele, Xiao Huang. Diga: "Eu sou o melhor".

O bebê olhou de um pai para o outro, seus olhos grandes e curiosos absorvendo a dinâmica. Ele inflou o peito, imitando a postura de Qin.

— Eu... meió! — gritou ele, batendo a mãozinha no peito.

Qin gargalhou, um som genuíno que preencheu a biblioteca.

— Viu só? Ele já entende a hierarquia universal.

Hades suspirou, mas seus olhos brilhavam com afeição. Ele se aproximou e colocou uma mão no ombro de Qin, sentindo a textura da seda e o calor da pele do marido.

— Você vai criar um monstro de ego, Qin. O Olimpo não é grande o suficiente para dois de você.

— O Olimpo é apenas um jardim comparado ao que este menino conquistará — disse Qin, sua voz suavizando-se. — Ele não tem medo das sombras de Helheim, nem da luz ofuscante dos deuses. Ele é o equilíbrio.

O momento de tranquilidade foi interrompido quando Xiao Huang, impaciente com a conversa dos adultos, começou a apontar para a grande varanda que dava para os jardins de Perséfone, onde flores de cristal brilhavam sob a luz crepuscular.

— Rua! Rua! — pediu o bebê, agitando as pernas.

— Ele quer sair — traduziu Hades. — Aparentemente, a biblioteca é pequena demais para os seus planos de conquista hoje.

— Então vamos — declarou Qin, levantando-se com o filho ainda nos braços. — O Imperador deseja inspecionar seus domínios. E você, Rei do Submundo, será nossa guarda de honra.

Eles caminharam pelos corredores de Helheim, uma visão que ainda causava espanto nos servos e espectros que cruzavam seu caminho. Ver o temível Hades, o senhor dos mortos, caminhando calmamente ao lado do vibrante e barulhento Qin Shi Huang, enquanto um bebê tentava puxar os ornamentos das paredes, era algo que desafiava milênios de tradição.

Ao chegarem ao jardim, o ar estava fresco, carregado com o cheiro de terra úmida e magia antiga. Xiao Huang foi colocado no chão e imediatamente começou a correr — ou melhor, a cambalear com velocidade — em direção a um grupo de borboletas de luz que flutuavam sobre as flores de vidro.

— Cuidado com os espinhos de cristal, Xiao Huang! — alertou Hades, mantendo-se a poucos passos de distância, pronto para intervir.

Qin, por outro lado, encostou-se em uma coluna de mármore, observando a cena com um sorriso satisfeito. Ele podia sentir a dor de cada pequeno tropeço do filho através de sua sinestesia, mas havia aprendido a filtrar isso. A dor de um joelho ralado era pequena comparada à alegria da descoberta.

— Ele é forte — comentou Qin, sem tirar a "visão" do filho. — Ele tem o coração de um humano e a resistência de um deus.

— Ele tem a sua teimosia — corrigiu Hades, aproximando-se de Qin. — Ontem, ele se recusou a comer a ambrosia porque disse que a cor não era "bonita".

— E ele estava errado? — Qin inclinou a cabeça para o lado. — Estética é fundamental para a digestão.

Hades soltou uma risada baixa, o som vibrando no peito.

— Às vezes eu esqueço como você pode ser impossível.

— E, no entanto, você me escolheu — lembrou Qin, virando-se para o marido. Ele estendeu a mão e tocou o rosto de Hades, o polegar traçando a linha de sua mandíbula. — O Rei que não aceitava ninguém ao seu lado, agora divide o trono com um "humano insolente" e um bebê que usa pergaminhos de estado como papel de desenho.

Hades cobriu a mão de Qin com a sua, fechando os olhos por um breve momento.

— Eu não divido apenas o trono, Qin. Eu divido a existência. Helheim nunca foi tão... vivo.

O momento íntimo foi quebrado por um grito de surpresa. Xiao Huang havia conseguido capturar uma das borboletas de luz entre as mãos gordinhas. Ele olhava para as palmas cerradas com uma mistura de terror e fascínio.

— Papa! Ó! — Ele correu até os dois, tropeçando nos próprios pés e caindo sentadinho na grama mágica.

Ele não chorou. Em vez disso, abriu as mãos lentamente, deixando a borboleta escapar e voar em direção ao rosto de Hades. O deus inclinou a cabeça, permitindo que a criatura de luz pousasse em seu nariz por um segundo antes de desaparecer.

— Hao... — sussurrou o bebê, os olhos brilhando.

— Sim, muito "hao", pequeno tesouro — disse Qin, agachando-se para ficar na altura do filho. — Você capturou a luz no reino das sombras. Isso é o que um verdadeiro governante faz.

Xiao Huang bocejou, o esforço da "caçada" finalmente cobrando seu preço. Ele se inclinou para frente, encostando a cabeça no peito de Qin.

— Sono... — murmurou o pequeno.

Hades pegou o menino, sentindo o peso reconfortante do filho em seus braços. Xiao Huang já estava fechando os olhos, uma das mãos segurando firmemente uma mecha do cabelo platinado de Hades.

— O dia foi longo para o príncipe — disse Hades em voz baixa.

— E para os reis também — completou Qin, esticando os braços e sentindo os músculos relaxarem. — Governar e criar um filho exige mais energia do que enfrentar o exército de Chi You.

Enquanto caminhavam de volta para os aposentos privados, o silêncio de Helheim retornou, mas não era mais o silêncio vazio de antes. Era um silêncio preenchido pela promessa.

Ao entrarem no quarto de Xiao Huang, Hades o acomodou no berço com uma delicadeza que poucos acreditariam que o deus possuía. Qin aproximou-se e, por um momento, retirou a venda. Seus olhos, que viam as fraquezas e os pontos de pressão de tudo o que existia, focaram-se apenas na pequena vida diante dele.

— Ele vai ser maior do que nós, Hades — sussurrou Qin.

— Ele já é — respondeu o deus, passando o braço pela cintura de Qin e puxando-o para perto.

Eles ficaram ali, observando o filho dormir. O Imperador da China e o Rei do Submundo, dois seres que definiram a história e a morte, agora definidos por algo muito mais simples e vasto: o amor por uma criança que os chamava de "Papa".

— Qin? — chamou Hades, quando já estavam saindo do quarto.

— Sim?

— Amanhã... tente não ensinar a ele como desafiar os juízes do inferno. Eles já estão nervosos o suficiente.

Qin deu um sorriso enigmático, o tipo de sorriso que precedia grandes mudanças.

— Não prometo nada, Hades. Afinal, um Imperador deve saber como questionar a autoridade... mesmo que seja a nossa.

Hades apenas balançou a cabeça, sabendo que, em Helheim, as regras haviam mudado para sempre. E, sinceramente, ele não mudaria nada.