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O Despertar do Dragão e o Silêncio do Submundo

A manhã em Helheim não começava com o canto dos pássaros, mas com o tilintar metálico das armaduras dos guardas e o murmúrio constante do rio Lete. No entanto, nos aposentos privados da família real, o despertador era muito mais persistente.

— Papa! Pa-pa! Acoda! — Xiao Huang, em pé dentro de seu berço de sândalo, sacudia as grades com uma energia que desafiava as leis da física para uma criança que ainda nem completara dois anos.

Hades abriu os olhos lentamente, sentindo o peso do braço de Qin Shi Huang atravessado sobre seu peito. O Rei do Submundo soltou um suspiro baixo, metade cansaço, metade adoração. Ele se sentou, os cabelos platinados caindo bagunçados sobre os ombros, e olhou para o pequeno intruso que exigia atenção.

— Xiao Huang... ainda não é hora da audiência com as almas — murmurou Hades, a voz rouca pelo sono.

— Não alma! — protestou o bebê, apontando para a janela. — Bincá! Papa Qin, bincá!

Qin, que até então parecia uma estátua de seda e serenidade, soltou uma risada abafada contra o travesseiro. Ele se virou, retirando a venda de dormir apenas o suficiente para revelar um olho brilhante e divertido.

— Ouviu o príncipe, Hades? O dever chama. E, aparentemente, o dever envolve correr atrás de borboletas de luz antes do desjejum.

— O dever sempre parece cair sobre os meus ombros quando envolve esforço físico matinal — retrucou Hades, embora já estivesse saindo da cama para pegar o filho no colo.

Assim que os pés de Xiao Huang tocaram o chão, ele disparou pelo quarto como um pequeno relâmpago. Qin levantou-se com a graça habitual, esticando os braços e sentindo cada articulação estalar. Sua sinestesia toque-espelho captava a vibração elétrica do filho; era uma sensação de formigamento morno que subia por seus braços, uma vitalidade que o fazia esquecer as dores do passado.

— Hoje — anunciou Qin, enquanto vestia sua túnica cerimonial com uma rapidez impressionante —, o Imperador decreta que teremos um banquete no jardim. E Xiao Huang aprenderá sua primeira lição de estratégia.

Hades arqueou uma sobrancelha enquanto tentava convencer o filho a calçar os pequenos sapatos de couro.

— Estratégia? Ele mal consegue pronunciar "estratégia", Qin.

— Detalhes técnicos, meu caro — Qin sorriu, aproximando-se e roubando um beijo rápido de Hades antes de pegar o bebê. — Ele aprenderá a arte da "Invisibilidade do Imperador". Ou, como vocês deuses chamam, esconde-esconde.

O café da manhã foi uma confusão organizada. Xiao Huang insistia em alimentar os cães de guarda — que, apesar de serem feras temíveis, agiam como filhotes submissos diante da criança — enquanto Qin e Hades discutiam assuntos de estado entre uma colherada e outra de mingau de arroz.

— Hermes enviou uma mensagem — comentou Hades, limpando o canto da boca do filho com um lenço de linho. — Zeus quer organizar um banquete no Olimpo para celebrar o crescimento de Xiao Huang.

Qin bufou, cruzando os braços sobre o peito.

— Aquele velho barulhento só quer uma desculpa para exibir meu filho como se fosse um troféu. Xiao Huang é um herdeiro da China e de Helheim, não um entretenimento para os caprichos de Zeus.

— Eu concordo — disse Hades, sua voz assumindo o tom solene de governante. — Mas manter a paz entre os reinos exige certas concessões sociais. Além disso, Xiao Huang gosta das uvas douradas de Hera.

— Gosto! — gritou o bebê, ouvindo a palavra mágica. — Uva! Grande!

Qin revirou os olhos, mas não pôde evitar o sorriso.

— Está bem. Iremos. Mas se Ares tentar ensinar o menino a segurar uma lança novamente, eu vou mostrar a ele por que sou chamado de o Primeiro Imperador.

Após a refeição, a família dirigiu-se aos jardins. O esconde-esconde começou de forma previsível: Xiao Huang apenas cobria os próprios olhos com as mãos, acreditando que, se ele não visse ninguém, ninguém poderia vê-lo.

— Onde está o pequeno imperador? — perguntou Qin, exagerando dramaticamente na voz enquanto passava bem ao lado do filho, que estava parado no meio do caminho. — Eu não o vejo em lugar nenhum! Será que ele evaporou?

Xiao Huang soltou uma risadinha abafada, tentando manter-se imóvel. Hades, encostado em uma árvore de prata, observava a interação com um prazer silencioso. Era nesses momentos que o peso da coroa de Helheim parecia mais leve.

— Talvez ele tenha se transformado em uma estátua — sugeriu Hades, entrando na brincadeira. — Uma estátua muito barulhenta.

— Achei! — Qin removeu as mãos do rosto do filho, que explodiu em gargalhadas.

— Minha vez! — disse o pequeno, correndo para se esconder atrás das longas vestes de Hades.

Enquanto a brincadeira continuava, um mensageiro espectral aproximou-se timidamente, ajoelhando-se a uma distância segura. Hades percebeu a urgência e afastou-se por um momento. Qin, sentindo a mudança na aura do marido, manteve Xiao Huang ocupado com uma pequena flor de cristal.

— O que houve? — perguntou Hades, a voz baixa.

— Senhor... houve um distúrbio na fronteira do Tártaro. Algumas almas antigas estão inquietas com a... presença da criança. Elas dizem que a vida não pertence ao reino do repouso eterno.

Os olhos de Hades brilharam com uma luz perigosa. A benevolência que ele mostrava à família desapareceu, substituída pela frieza impiedosa do Rei do Submundo.

— Diga a elas — começou Hades, cada palavra pesando como chumbo — que este reino é meu. E tudo o que eu protejo é sagrado. Se uma única sombra ousar sussurrar o nome do meu filho com desdém, eu pessoalmente as farei desejar a não-existência.

O mensageiro estremeceu e desapareceu em uma nuvem de fumaça. Hades respirou fundo, tentando dissipar a tensão antes de voltar para os dois. No entanto, Qin já estava olhando para ele. A venda ocultava seus olhos, mas a postura de Qin dizia que ele ouvira tudo, ou pelo menos sentira a fúria de Hades através da sinestesia.

— Problemas no paraíso, Hades? — perguntou Qin, colocando Xiao Huang no chão para que ele perseguisse uma borboleta.

— Apenas a ignorância de quem não entende que o mundo mudou — respondeu Hades, aproximando-se e colocando a mão no ombro de Qin. — Não se preocupe. Eu cuidarei disso.

— Nós cuidaremos — corrigiu Qin, segurando a mão de Hades. — Se as sombras querem guerra com a luz que trouxemos para cá, elas terão que passar por mim primeiro. E eu não sou conhecido por ser um anfitrião misericordioso.

Hades sorriu, sentindo a força inabalável do marido.

— Você é um homem arrogante, Qin Shi Huang.

— Eu sou o Rei — rebateu Qin, puxando Hades para um abraço rápido. — E você é o meu Rei. Juntos, somos a lei.

Xiao Huang, percebendo que os pais estavam distraídos, decidiu que era o momento perfeito para uma nova aventura. Ele viu uma pequena abertura entre as sebes de cristal e se arrastou por ela, indo parar em uma seção do jardim que raramente era visitada: o Altar das Memórias.

Lá, no centro de um círculo de pedras negras, flutuava um espelho de obsidiana que mostrava reflexos do passado. O bebê aproximou-se, fascinado pela imagem que via. No espelho, ele viu um homem jovem, com faixas no rosto e um sorriso triste, cercado por pessoas que pareciam gritar com ele. Era Qin, em sua infância de dor.

Xiao Huang inclinou a cabeça, a confusão nublando seus olhos pequenos. Ele estendeu a mão para tocar a superfície fria do espelho.

— Papa... tiste? — sussurrou o bebê.

Sentindo uma pontada súbita de dor fantasmagórica em seu próprio peito, Qin congelou. Ele sabia exatamente o que o filho estava vendo. Em um segundo, ele e Hades atravessaram as sebes, encontrando Xiao Huang diante do altar.

Hades fez menção de pegar o menino, mas Qin o impediu com um gesto. O Imperador caminhou lentamente até o filho, ajoelhando-se ao lado dele.

— O que você vê, pequeno? — perguntou Qin, a voz suave, mas carregada de emoção.

— Papa dodói — disse Xiao Huang, apontando para o reflexo de Qin no espelho. — Eu... beijá?

O bebê inclinou-se e deu um beijo babado na superfície de obsidiana, exatamente sobre a imagem do jovem Qin.

O impacto emocional daquele gesto foi mais forte do que qualquer golpe que Qin já tivesse recebido em batalha. Por um momento, o Imperador da China, o homem que unificou nações e enfrentou deuses, sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos por trás da venda. A sinestesia, que tantas vezes fora sua maldição, agora lhe trazia a pureza absoluta do amor de seu filho.

Hades aproximou-se, colocando as mãos nos ombros de ambos, formando um escudo de proteção física e espiritual.

— O passado é apenas sombra, Xiao Huang — disse Hades, olhando para o espelho, que agora começava a mostrar imagens de flores e luz, reagindo à presença da família. — O presente é o que importa. E no presente, seu pai é o homem mais forte que já existiu.

Qin pegou o filho no colo, apertando-o contra o peito.

— Hao — murmurou Qin, a voz ligeiramente trêmula. — Muito hao.

Xiao Huang bocejou, a energia da manhã finalmente se esgotando após o contato com a magia do altar. Ele encostou a cabeça no ombro de Qin e, em poucos segundos, sua respiração tornou-se ritmada e profunda.

— Ele tem um dom — comentou Hades, enquanto caminhavam de volta para o palácio. — Ele não apenas vê a dor, ele tenta curá-la.

— Ele é perigoso — brincou Qin, recuperando sua compostura imperial, embora ainda segurasse o filho com uma firmeza possessiva. — Se ele continuar assim, os mortos de Helheim vão esquecer como ser sombrios e começarão a sorrir pelos corredores. O que será da sua reputação, Hades?

Hades soltou uma risada curta, olhando para o horizonte violeta de seu reino.

— Minha reputação pode sofrer o quanto quiser, desde que este palácio continue a ter esse som.

— Que som? — perguntou Qin.

— O som de uma vida que vale a pena proteger — respondeu o Rei do Submundo.

Eles entraram no palácio em silêncio, um silêncio que não era mais solitário ou fúnebre, mas sim carregado de uma paz que nem mesmo os deuses do Olimpo poderiam compreender totalmente.

Ao colocarem Xiao Huang em sua cama para a sesta da tarde, Qin parou na porta e olhou para Hades.

— Sabe, Hades... sobre o convite de Zeus.

— Sim?

— Eu decidi que vamos. Mas eu quero que Xiao Huang use as cores da minha dinastia. Se ele vai ser o centro das atenções, que ele o faça com a majestade de um verdadeiro Imperador.

Hades sorriu, balançando a cabeça.

— Como desejar, meu amor. Mas eu insisto que ele use a capa de veludo de Helheim por cima. O Olimpo pode ser frio para quem não está acostumado com as alturas.

— Um compromisso — aceitou Qin, estendendo a mão. — O Rei e o Imperador concordam.

— O Rei e o Imperador concordam — repetiu Hades, selando o acordo com um beijo que prometia que, não importava quais desafios o futuro trouxesse, ou quais sombras tentassem se erguer, aquela família permaneceria inabalável.

Pois em Helheim, o lugar onde tudo terminava, eles haviam descoberto o lugar onde tudo, finalmente, começava. E enquanto Xiao Huang sonhava com borboletas de luz e uvas douradas, o Submundo florescia de uma forma que ninguém jamais ousara imaginar: com esperança.