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O Eco do Silêncio sob o Trono de Sangue

A atmosfera no salão do Valhala, que momentos antes era de uma leveza cômica e provocações sobre a castidade do Primeiro Imperador, transmutou-se de forma abrupta e violenta. O artefato de observação de almas, ainda flutuando no centro, começou a pulsar em um tom de roxo doentio e cinza metálico. As imagens de Qin Shi Huang e Hades sumiram, sendo substituídas por memórias que não haviam sido solicitadas, mas que o próprio trauma gravado na essência de Qin estava expelindo como uma ferida aberta.

— O que é isso? — perguntou Buda, deixando seu pirulito cair. Ele sentiu uma onda de agonia tão densa que sua própria iluminação pareceu vacilar. — Isso não é pureza... isso é...

Hades, que ainda segurava Qin pela cintura, sentiu o corpo do imperador ficar rígido como pedra. A cor sumiu do rosto de Qin, e seus olhos, cobertos pela venda, começaram a sangrar levemente, as marcas de sua sinestesia toque-espelho reagindo ao horror que estava prestes a ser projetado para todos os deuses e humanos verem.

A projeção mostrou um Qin jovem, ainda sem a coroa de imperador, mas já carregando o peso de um reino fragmentado. Ele estava diante de um homem massivo, um imperador de uma dinastia rival cujo exército cercava as fronteiras da China. A ameaça era clara: a aniquilação total. Homens, mulheres e crianças seriam passados ao fio da espada se o "Pequeno Dragão" não se curvasse.

O que chocou a plateia não foi a ameaça de guerra, mas as vozes ao redor de Qin. O povo que ele jurou proteger, os ministros que o odiavam por sua linhagem, todos estavam de joelhos, não em reverência, mas implorando com vozes cruéis.

— Vá até ele, monstro! — gritava um ancião na projeção. — Salve nossas vidas com o seu corpo! É o mínimo que alguém com o seu sangue amaldiçoado pode fazer!

— Entregue-se ao Imperador do Norte! — clamavam as vozes. — Se você se recusar, o sangue de milhões estará em suas mãos!

A cena mudou para o interior de uma tenda escura e opressiva. O que se seguiu não foi um ato de amor, nem mesmo de luxúria mútua. Foi uma violação sistemática e brutal. O imperador rival usava Qin não como um homem, mas como um troféu de guerra, um objeto para ser quebrado. Através da sinestesia, o jovem Qin sentia cada grama do ódio e do desprezo daquele homem em sua própria carne, multiplicada mil vezes. Ele não gritava. Ele apenas olhava para o teto da tenda com olhos vazios, enquanto sua alma se fragmentava.

No Valhala, o silêncio era absoluto. Jack, o Estripador, cobriu a boca com a mão, suas cores mudando para um cinza de puro horror. Raiden Tameemon fechou os punhos com tanta força que seus músculos estalaram. Hades sentiu uma fúria que nunca havia experimentado em eras; uma escuridão que faria o Tártaro parecer um jardim de infância começou a emanar de sua aura.

A imagem continuou. O dia amanheceu. O imperador rival saiu da tenda, rindo, satisfeito por ter humilhado o futuro unificador da China. Qin saiu logo atrás, cambaleando, suas vestes rasgadas, o rosto pálido e o corpo marcado por hematomas que contavam uma história de abuso explícito e cruel. Ele sentia nojo de si mesmo, um asco que transbordava pelas bordas de sua alma.

Mas o pior ainda estava por vir. Assim que ele apareceu diante do palácio, as mesmas pessoas que imploraram por seu sacrifício começaram a cuspir em sua direção.

— Nojento! — gritou uma mulher. — Olha para ele, se vendeu como uma prostituta!

— Você manchou a linhagem da China! — berravam os mesmos ministros. — Como ousa voltar para este palácio depois de se deixar usar dessa forma?

Qin caminhou em silêncio, o olhar fixo no chão, até chegar à sala do trono, onde seu próprio pai o esperava. O homem não se levantou para abraçá-lo ou perguntar se ele estava bem. Em vez disso, olhou para o filho com um desprezo tão profundo que as flores ao redor pareciam murchar.

— Você deveria ter morrido lá — disse o pai de Qin, sua voz fria como uma lâmina. — Aquele homem deveria ter matado você. Teria sido mais honroso do que voltar para casa carregando esse cheiro de derrota e imundície.

Nesse momento, o Qin da projeção desabou. Ele caiu de joelhos, as mãos arranhando o chão de pedra, e começou a soluçar um choro que não era humano. Era o som de uma criança que descobriu que o mundo não tinha fundo.

— Desculpa... — soluçava o jovem Qin, batendo a testa no chão até sangrar. — Desculpa, pai... Eu sinto muito... Na próxima vez... eu prometo... eu deixo ele me matar... Por favor, não me odeie... Eu deixo ele me matar na próxima...

A projeção começou a acelerar, mostrando que aquela não fora a primeira, nem a última vez. O pai de Qin, em sua busca por poder e manutenção de tréguas covardes, usava o próprio filho como moeda de troca repetidamente. Cada vez que Qin voltava, era deixado humilhado na frente do palácio, exposto ao escárnio público, apenas para entrar e ouvir que sua vida valia menos que o solo que ele pisava.

O artefato finalmente se apagou, deixando o Valhala em uma penumbra pesada.

— Aquele... — a voz de Zeus saiu baixa, tremendo de uma raiva que raramente o Pai de Todos os Deuses demonstrava. — Aquele pai dele... eu vou pessoalmente ao submundo buscá-lo para que ele sofra por toda a eternidade.

— Não será necessário, Zeus — disse Hades. Sua voz estava tranquila, mas era a tranquilidade de um vulcão prestes a obliterar um continente. — Ele já está sob minha jurisdição. E eu garanto que, até agora, eu fui misericordioso demais.

Hades virou-se para Qin. O imperador estava parado, os braços caídos ao lado do corpo. A arrogância havia sumido. O "Hao" havia desaparecido. Ele era apenas Ying Zheng, o menino que foi quebrado para que um império pudesse nascer.

— Qin... — sussurrou Hades, tentando tocá-lo, mas parou, temendo que qualquer toque agora fosse um gatilho para a dor.

— Por isso... — a voz de Qin saiu rouca, desprovida de sua habitual melodia. — Por isso eu disse que morri virgem. Para mim... Ying Zheng morreu naquelas tendas. O Imperador Qin Shi Huang nasceu do ódio, da dor e do isolamento. Eu apaguei aquelas memórias porque, se eu as mantivesse, eu não poderia ser o rei que meu povo precisava. Eu não poderia ser o trono.

— Aquilo não foi sua culpa — disse Adão, caminhando até ele com uma expressão de dor infinita. O Pai da Humanidade estendeu a mão e, desta vez, Qin não recuou. Adão o puxou para um abraço apertado, um abraço de pai que Qin nunca teve. — Nenhum filho deveria carregar o pecado de um pai covarde. Você não se vendeu, meu filho. Você os carregou nas costas enquanto eles o apunhalavam.

Sasaki Kojiro limpava as lágrimas com a manga do quimono, enquanto Okita Soji quebrava uma pilastra de mármore com um soco de pura fúria.

— Eu vou matar cada um deles — rosnou Leônidas, seu charuto caindo no chão. — Se eu encontrar a alma de qualquer um daqueles que o xingaram na frente do palácio... eu os farei engolir cada palavra.

— E o outro imperador... — Beelzebub falou, seus olhos negros brilhando com uma intenção assassina. — Eu adoraria testar algumas das minhas novas vibrações na alma dele. Seria um experimento... prolongado.

Hades aproximou-se de Adão e Qin. O Pai da Humanidade olhou para o Rei do Submundo e, em um entendimento silencioso entre protetores, entregou Qin aos braços de Hades.

O Deus dos Mortos envolveu o imperador com seu manto, escondendo-o do resto do mundo. Qin, sentindo o calor de Hades — um calor que não buscava nada dele, que não queria usá-lo, que apenas desejava protegê-lo —, finalmente relaxou. Ele enterrou o rosto no peito de Hades e permitiu-se chorar, não como o imperador da China, mas como o homem que sobreviveu ao inferno antes mesmo de morrer.

— Eu sinto nojo, Hades — sussurrou Qin, as palavras abafadas pelo tecido caro da veste do deus. — Eu ainda sinto o toque deles. Eu ainda sinto o cheiro daquela tenda.

— Eu sei — respondeu Hades, beijando o topo da cabeça de Qin, ignorando todos os deuses e humanos que assistiam à cena. — Mas agora, você está no meu reino. E no meu reino, ninguém toca no que é meu. Ninguém machuca o meu rei. Eu vou lavar cada uma dessas memórias com o sangue daqueles que te feriram, se for isso que você deseja. Mas, acima de tudo, eu vou te ensinar que o toque pode ser outra coisa.

Poseidon, que sempre desprezou a "fraqueza" humana, desviou o olhar, mas sua mão apertava o tridente com tanta força que o metal rangia. Até ele, o deus mais frio, sentiu a injustiça naquela quebra de hierarquia e dignidade.

— Irmão — disse Poseidon, sem olhar para Hades. — Se precisar de ajuda para reorganizar as punições no Tártaro para esses... vermes... meu tridente está à disposição.

— Eu também vou ajudar! — gritou Shiva, seus quatro braços gesticulando freneticamente. — Ninguém faz isso com um lutador desse calibre e sai impune!

Qin levantou o rosto, olhando para a multidão. Ele viu seus antigos adversários e seus aliados humanos, todos unidos não por política ou pelo Ragnarok, mas por uma fúria protetora. Ele viu que, pela primeira vez em sua existência, ele não precisava ser o único a lutar. Ele não precisava ser o trono que suportava tudo sozinho.

— Hades... — Qin tentou recuperar um pouco de sua postura, limpando o rosto com as costas das mãos adornadas com garras de metal. — Eu... eu sou o Primeiro Imperador. Eu não deveria mostrar tamanha fraqueza.

— Um rei que carrega o que você carregou e ainda consegue sorrir não é fraco, Qin — disse Hades, segurando sua mão com firmeza. — É a definição de força. Mas até os reis precisam de um lugar para descansar a coroa.

Qin Shi Huang olhou para o salão, para os deuses que ele desafiou e para os humanos que ele inspirou. Ele sentiu o ódio deles direcionado ao seu passado, e o amor deles protegendo seu presente.

— Hao... — sussurrou ele, embora o som fosse trêmulo. — Então... eu permito que vocês fiquem com raiva por mim. Apenas desta vez.

Hades sorriu, um sorriso sombrio e belo.

— Oh, nós faremos muito mais do que apenas ficar com raiva, meu imperador.

Naquela noite, o Valhala não celebrou batalhas ou técnicas. Naquela noite, o submundo de Hades recebeu novas diretrizes de tortura, e o Primeiro Imperador da China dormiu sem pesadelos, protegido pelo abraço de um deus que transformou o Reino dos Mortos no único lugar onde Qin realmente se sentiu vivo e seguro. A armadura emocional de Qin ainda estava lá, mas, pela primeira vez, ele sabia que não precisava usá-la o tempo todo. Pois onde ele se sentava era o trono, mas onde Hades estava... era o seu lar.