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A Cor do Amor sob o Olhar do Imperador

O silêncio pesado que havia se abatido sobre o Valhala após as revelações sombrias do passado de Qin Shi Huang ainda vibrava no ar, como a tensão antes de uma tempestade. Os deuses e humanos permaneciam em um estado de choque empático, as feridas da alma do Primeiro Imperador expostas de uma forma que ninguém jamais esperava. Hades, mantendo Qin protetoramente sob seu manto, parecia pronto para declarar guerra a qualquer um que ousasse respirar de forma errada perto de seu marido.

No entanto, o artefato de observação de almas, aquela relíquia caprichosa de Loki, ainda não havia terminado seu trabalho. As cores roxas e cinzas do trauma começaram a se dissipar, sendo substituídas por um brilho dourado e vibrante, quase ofuscante.

— O que é isso agora? — resmungou Shiva, limpando as lágrimas de dois de seus olhos enquanto os outros dois observavam a mudança de luz. — Mais tragédia? Acho que meu coração de deus da destruição não aguenta mais.

— Não — disse Buda, um sorriso começando a surgir em seus lábios enquanto ele sentia a mudança drástica na "vibe" da energia de Qin. — Isso... isso é algo completamente diferente. Olhem.

A imagem projetada mudou para um cenário muito mais recente. Era o palácio de Qin no Valhala, logo após o término de um banquete diplomático onde Hades, com toda a sua nobreza e seriedade, havia finalmente pedido a mão de Qin em um compromisso formal — um "namoro", nos termos humanos, que selaria a união entre os dois reinos.

O Qin na projeção estava caminhando pelo corredor de mármore, mantendo sua postura imperial, a capa balançando com elegância. Ele cruzou a porta de seus aposentos privados e a fechou com um clique suave.

No segundo seguinte, a dignidade imperial desapareceu.

O Primeiro Imperador da China, o homem que unificou nações e enfrentou demônios, soltou um grito agudo e abafado contra as próprias mãos, começando a pular no lugar como um adolescente que acabara de ganhar o primeiro presente da pessoa amada.

— HAO! HAO! HAO! — gritava ele, correndo de um lado para o outro no quarto, as pontas das unhas metálicas tilintando enquanto ele agitava os braços. — ELE DISSE! ELE REALMENTE DISSE! O REI DO SUBMUNDO É MEU SÚDITO DE CORAÇÃO!

Ele se jogou na cama imensa, rolando de um lado para o outro entre os lençóis de seda, com um sorriso tão largo que parecia que seu rosto iria partir.

— Hades... Hades... — ele sussurrava para o travesseiro, chutando as pernas no ar com uma energia puramente infantil e transbordante de felicidade. — Onde eu me sento é o trono, mas onde ele me toca... ah, onde ele me toca é o paraíso!

Na arena do Valhala, o silêncio retornou, mas desta vez era um silêncio de descrença absoluta e uma fofura inesperada.

— Ele está... ele está fazendo o "chute da alegria"? — perguntou Nikola Tesla, ajustando os óculos e anotando freneticamente. — A liberação de endorfina parece ter atingido níveis que desafiam a lógica biológica de um soberano.

— Meu filho é tão fofo! — exclamou Adão, os olhos brilhando de orgulho, esquecendo por um momento a dor de minutos atrás. — Olhem como ele está feliz!

— Isso é... surpreendente — comentou Jack, o Estripador, com um leve rubor nas bochechas. — As cores dele... elas são como um campo de girassóis ao meio-dia. Nunca vi nada tão vibrante.

Qin, no presente, tentou se esconder ainda mais no manto de Hades, o rosto agora queimando em um tom de vermelho que faria o sangue de Thor parecer pálido.

— Desliguem isso! — gritou Qin, sua voz saindo abafada pelo peito de Hades. — É uma ordem imperial! Isso é uma invasão de privacidade de Estado!

Hades, no entanto, não estava bravo. Ele observava a imagem com uma expressão de ternura tão profunda que até Poseidon se sentiu desconfortável. O Rei do Submundo sentiu um calor reconfortante no peito ao ver que, apesar de todo o horror que Qin viveu, ele ainda tinha a capacidade de sentir aquela alegria pura e desimpedida.

— Então eu fui o primeiro, Qin? — perguntou Hades em voz baixa, apenas para o imperador ouvir. — O primeiro que você realmente escolheu? O primeiro que te fez correr pelos corredores como um menino apaixonado?

Qin não respondeu, mas o aperto de suas mãos na túnica de Hades foi resposta suficiente.

A projeção continuou. O tempo na imagem passou para algumas horas depois. Qin havia se acalmado, mas o brilho em seus olhos permanecia. Ele estava sentado diante de uma mesa de toucador ornamentada, preparando-se para o que seria o primeiro encontro oficial deles após o pedido.

Ele descartou dez túnicas diferentes, jogando-as para o lado com um desdém teatral.

— Não, essa é muito vermelha! — dizia o Qin da imagem. — Aquela é muito dourada! Eu preciso de algo que diga "Eu sou o Imperador", mas que também diga "Eu sou todo seu".

Ele finalmente escolheu uma vestimenta de seda negra com bordados em prata que pareciam estrelas cadentes. Mas o toque final foi o que mais chamou a atenção dos espectadores. Qin pegou um pequeno frasco de laca. Não era o vermelho imperial que ele costumava usar.

Com um cuidado quase religioso, ele começou a pintar as próprias unhas. Era um tom de roxo profundo, místico e elegante — a cor exata dos olhos de Hades quando a luz de Helheim os atingia.

— Perfeito — murmurou o Qin da tela, soprando as unhas com um sorriso suave, um sorriso que não era para o público, nem para o seu povo, mas apenas para o reflexo do homem que ele estava prestes a ver. — Agora, eu carrego a cor dele comigo.

Quando ele terminou de se arrumar, colocando a venda com uma elegância renovada e ajustando os protetores de unhas sobre a nova cor, o Qin na projeção parecia mais lindo do que nunca. Não era apenas a beleza física, mas a aura de alguém que se sentia amado, valorizado e, pela primeira vez, verdadeiramente visto.

A imagem se desvaneceu, deixando uma sensação de doçura no ar que contrastava fortemente com o massacre iminente que o Ragnarok representava.

— Hao... — suspirou Okita Soji, com os olhos brilhando. — Ele realmente se esforçou para o encontro. Isso é tão romântico que dá vontade de vomitar, mas do jeito bom.

— Pintar as unhas com a cor dos olhos do parceiro... — sussurrou Afrodite, abanando-se com o leque. — Eu subestimei esse humano. Ele tem um instinto para o romance que muitos deuses deveriam invejar.

Hades afastou suavemente o manto para olhar para o rosto de Qin. Ele pegou a mão do imperador e removeu cuidadosamente um dos protetores de unhas dourados. Lá estava: o roxo profundo, brilhando sob as luzes da arena.

— Você ainda as usa — disse Hades, sua voz carregada de uma emoção contida.

— É uma cor que combina com o trono — retrucou Qin, tentando recuperar sua arrogância, embora o tremor em sua voz o entregasse. — E o Rei do Submundo é o melhor acessório que um Imperador poderia desejar.

Hades riu, um som rico e sincero que fez muitos deuses arregalarem os olhos. Ele levou a mão de Qin aos lábios e beijou as unhas pintadas com sua cor.

— Você é inacreditável, Qin Shi Huang — disse Hades. — Passou por um inferno que destruiria qualquer alma, e ainda assim, consegue ser a criatura mais radiante que já pisou em qualquer um dos meus reinos.

— Eu sou o Primeiro Imperador! — Qin declarou, finalmente saindo do abraço e levantando o queixo, embora ainda segurasse a mão de Hades com força. — A dor é apenas o solo onde eu planto minha grandeza! E se eu decidi que você é digno de ter sua cor nas minhas mãos, então sinta-se honrado!

— Eu me sinto — respondeu Hades, curvando-se levemente em uma reverência que ele não prestava nem mesmo a Zeus. — Mais honrado do que você imagina.

A tensão na arena havia se dissipado, substituída por uma estranha camaradagem. Os humanos olhavam para Qin com uma nova forma de respeito — não apenas pelo rei que ele era, mas pelo homem que se recusou a ser quebrado. Os deuses, por sua vez, olhavam para o casal com uma mistura de inveja e admiração.

— Bom — disse Zeus, quebrando o momento com uma tosse seca e um sorriso malicioso. — Já que descobrimos que o nosso querido Imperador é, no fundo, um romântico incurável que grita de felicidade nos quartos, acho que podemos retomar as formalidades, não?

— Só se você prometer nunca mais mencionar o "chute da alegria" — rosnou Qin, apontando o dedo para o Deus dos Deuses.

— Não prometo nada — riu Zeus.

Buda aproximou-se de Qin e deu um tapinha amigável em seu ombro.

— Ei, garoto. Ficou bom o roxo. Realmente realça sua aura. Se precisar de dicas de como lidar com deuses possessivos, me avisa. Eu tenho experiência em ignorar ordens divinas.

— Eu não preciso de dicas! — Qin cruzou os braços. — Eu comando o Rei do Submundo! Ele faz o que eu quero!

Hades apenas arqueou uma sobrancelha, um sorriso de canto de boca aparecendo.

— É mesmo? — perguntou o deus, inclinando-se para perto do ouvido de Qin. — Achei que, na noite passada, quem estava seguindo ordens era você, meu imperador.

Qin engasgou, o rosto voltando ao carmesim instantaneamente.

— Hades! — ele exclamou, empurrando o deus levemente. — Não na frente dos súditos!

A risada de Hades ecoou pela arena, um som que trouxe uma estranha paz ao coração de todos. Lu Bu, que permanecia em silêncio absoluto, deu um breve aceno de cabeça para Qin — um reconhecimento de guerreiro para guerreiro. Raiden Tameemon mostrou o polegar positivamente, e Leônidas soltou uma fumaça densa de seu charuto, parecendo satisfeito.

— Bem — disse Brunhilde, ajustando o cabelo, sentindo que o clima havia finalmente se estabilizado. — Agora que todos já choraram, riram e descobriram os segredos de beleza do Imperador, talvez possamos focar no fato de que ainda temos um torneio para terminar?

— Sim, sim — concordou Hermes, surgindo do nada com seu violino. — Mas admitam, o Valhala nunca foi tão interessante. Quem diria que o segredo para unir deuses e humanos era apenas um imperador apaixonado e um pouco de laca roxa?

Qin Shi Huang ajustou sua venda, sentindo o peso de sua história, mas também a leveza de seu presente. Ele olhou para as próprias unhas, a cor de Hades brilhando ali, um lembrete constante de que ele não estava mais sozinho.

— Hao! — ele gritou, sua voz recuperando toda a potência e arrogância que o tornavam único. — Que o Ragnarok continue! Mas fiquem avisados: qualquer um que tentar manchar este momento terá que lidar com o Imperador e com o seu... — ele hesitou por um segundo, olhando para Hades — ...com o seu marido.

Hades bateu sua bidente no chão, o som ressoando como um trovão final.

— E eu garanto — disse o Rei do Submundo, os olhos brilhando com uma promessa de proteção eterna — que vocês não querem ver o que acontece quando alguém interrompe a felicidade do meu rei.

Enquanto os dois caminhavam juntos para fora da arena, seguidos pelos olhares de todos, o Valhala parecia, por um breve momento, não um campo de batalha, mas um lugar onde até as almas mais feridas poderiam encontrar um trono onde finalmente pudessem descansar e ser amadas. E para Qin Shi Huang, o homem que começou a vida sendo odiado por todos, terminar a eternidade sendo amado pelo Rei dos Mortos era a maior vitória que ele jamais poderia ter conquistado.