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O Pacto do Dragão e do Submundo: Um Pedido sob o Céu de Valhala
O silêncio nos jardins suspensos do Valhala era uma anomalia. Geralmente, aquele lugar ecoava com os gritos de treinamento de Leônidas ou as risadas ruidosas de Thor e Raiden durante competições de bebida. Mas naquela noite, o ar estava carregado de uma seriedade estratégica que faria qualquer general chinês sentir inveja.
Ao redor de uma mesa de pedra colossal, deuses e humanos estavam reunidos em um conselho improvável. Hades, o Rei do Submundo, estava sentado na cabeceira, mas sua postura habitual de soberano digno fora substituída por uma ansiedade silenciosa que fazia suas mãos tremerem levemente sobre os joelhos.
— Muito bem — começou Zeus, coçando a barba e olhando para um mapa detalhado dos jardins. — O plano de invasão está pronto.
— Não é uma invasão, seu velho decrépito — resmungou Leônidas, tragando seu charuto. — É um pedido de casamento. Mas, do jeito que vocês deuses são exagerados, parece que estamos planejando o cerco de Termópilas.
— A ciência do romance exige precisão! — Nikola Tesla exclamou, ajustando um projetor de bobinas que lançava hologramas de borboletas elétricas no ar. — Eu calculei a trajetória da luz lunar para que ela atinja o Imperador no ângulo exato de 42 graus, realçando a cor de sua pele e a textura de suas vestes. Será uma visão de pura perfeição matemática!
— Eu posso cuidar das flores — ofereceu Héracles, com um sorriso gentil. — As rosas de Tebas florescem com uma aura de sinceridade. Elas vão combinar com a alma dele.
— E eu cuido do chá — disse Jack, o Estripador, ajustando o monóculo. — Um blend especial, com notas de maçã e mel. As cores que emanarão dele quando ele der o primeiro gole serão... divinas.
Hades suspirou, fechando os olhos por um momento. Ele olhou para os lados, vendo Buda mastigando um doce enquanto flutuava, e Sasaki Kojiro afiando sua espada apenas por hábito nervoso. Até Poseidon estava lá, encostado em uma pilastra com os braços cruzados, mantendo um silêncio desdenhoso que, para quem o conhecia, significava: "Eu não me importo, mas se algo sair errado, eu mato todos vocês".
— Eu só quero que ele saiba... — a voz de Hades falhou por um segundo, o que fez Zeus arregalar os olhos. — Depois de tudo o que vimos... depois de toda a dor que ele carregou sozinho naquele palácio na China... eu quero que este momento apague cada memória amarga. Quero que ele saiba que, de agora em diante, o único trono que ele precisa ocupar é o que construiremos juntos.
— Hao! — exclamou um grito vindo de longe, fazendo todos saltarem.
— Ele está vindo! — sibilou Brunhilde, surgindo das sombras. — Posições agora! Se alguém estragar isso, eu mesma garanto que o Ragnarok termine com a extinção total de vocês!
Em um piscar de olhos, o jardim se transformou. As luzes diminuíram, as bobinas de Tesla começaram a emitir um brilho suave e azulado, e o perfume das rosas de Héracles preencheu o ar.
Qin Shi Huang caminhava pelo jardim com sua habitual arrogância majestosa. Ele usava uma túnica de seda branca e carmesim, seus protetores de unhas dourados brilhando sob a luz das estrelas. Ele sentia a presença de todos através de sua sinestesia toque-espelho, mas havia algo diferente no ar. Não era a tensão da batalha, nem o peso do julgamento. Era... calor. Um calor que não queimava.
— Que recepção é esta? — perguntou Qin, parando no centro do jardim. Ele não retirou a venda, mas inclinou a cabeça, "observando" a energia ao seu redor. — Onde estão os meus súditos? Hades? Eu sinto o seu cheiro de sândalo e morte elegante a quilômetros de distância. Saia das sombras!
Hades deu um passo à frente. O Rei do Submundo, que enfrentara titãs e exércitos de mortos-vivos sem hesitar, sentia o coração martelar contra as costelas. Ele caminhou até Qin, parando a apenas alguns centímetros de distância.
— Qin — começou Hades, sua voz soando mais profunda e suave do que o normal. — Você unificou a China. Você enfrentou deuses. Você caminhou sobre o sofrimento e o transformou em uma coroa.
Qin cruzou os braços, um sorriso de canto de boca surgindo.
— Hao! Continue. Eu gosto quando você enumera minhas glórias.
— Mas — prosseguiu Hades, ignorando a provocação com um olhar cheio de ternura —, eu não quero que você seja apenas o Primeiro Imperador. Eu não quero que você carregue o mundo nas costas sozinho. Eu vi as cicatrizes que você esconde, Qin. Eu vi o menino que chorou no chão de um palácio frio porque as pessoas que ele protegeu o traíram.
O sorriso de Qin vacilou. A menção ao passado ainda era uma ferida aberta, mesmo que ele a cobrisse com camadas de ouro e orgulho.
— Hades... — sussurrou Qin, sua postura perdendo um pouco da rigidez.
Hades ajoelhou-se. O som do joelho do Rei do Submundo atingindo o solo fez com que Zeus desse um passo atrás em choque, e Poseidon apertasse o tridente. O governante de Helheim, aquele que não se curvava perante ninguém, estava de joelhos diante de um homem mortal.
Ele retirou do bolso uma caixa de madeira entalhada com o desenho de um dragão chinês entrelaçado com flores de narciso. Dentro, havia um anel forjado com o metal mais raro do submundo, incrustado com uma joia que brilhava com a cor exata dos olhos de Hades.
— Ying Zheng — disse Hades, usando o nome de nascimento de Qin, o nome que o menino ferido costumava carregar. — Você aceitaria governar o Submundo ao meu lado? Não como um súdito, não como um aliado político... mas como meu marido? Você aceitaria que eu fosse o seu escudo, para que você nunca mais precise sentir a dor dos outros sem ter alguém para curar a sua?
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Escondidos atrás das sebes e pilastras, os outros lutadores prendiam a respiração. Adão tinha as mãos juntas em prece silenciosa; Raiden limpava o suor da testa; Beelzebub observava com uma curiosidade mórbida, e Tesla segurava seu projetor como se fosse uma relíquia sagrada.
Qin Shi Huang ficou imóvel. Por um longo minuto, ele não disse nada. Sua respiração tornou-se errática. Através da venda, lágrimas começaram a vazar, molhando o tecido de seda.
— Qin? — chamou Hades, preocupado com o silêncio.
De repente, o Imperador desabou. Não foi um desmaio, mas uma liberação violenta de tudo o que ele vinha guardando. Ele caiu para frente, nos braços de Hades, e começou a soluçar. Não eram soluços contidos ou imperiais. Era um choro alto, convulsivo, o choro de alguém que finalmente se sentiu seguro o suficiente para desmoronar.
— Oh... — murmurou Adão, saindo de seu esconderijo com o coração partido. — Ele está sobrecarregado.
Qin agarrou a túnica de Hades com tanta força que seus protetores de unhas arranharam o tecido. Ele chorava tanto que mal conseguia respirar, as lágrimas ensopando a gola do deus.
— Você... seu idiota... — soluçava Qin entre os espasmos de choro. — Como ousa... como ousa dizer essas coisas para mim? Eu sou o Imperador! Eu não choro! Eu não... eu não...
— Está tudo bem, Qin — disse Hades, envolvendo-o em um abraço esmagador, ignorando o fato de que todo o Valhala estava assistindo àquela cena de vulnerabilidade extrema. — Pode chorar. Eu seguro o trono para você hoje.
— Eu aceito! — gritou Qin, a voz saindo abafada e embargada. — É claro que eu aceito, seu deus estúpido e maravilhoso! Mas se você contar para alguém que eu chorei assim, eu mando te executarem mil vezes!
Hades riu, uma risada cheia de alívio e pura alegria, enquanto beijava a testa de Qin através da venda molhada.
— Acho que o segredo já saiu da garrafa, meu amor — disse Hades, apontando com a cabeça para os arbustos.
Um a um, os outros começaram a aparecer. Zeus estava limpando os olhos com um lenço enorme; Shiva assoviava, impressionado; e Okita Soji estava pulando de alegria.
— Conseguimos! — gritou Tesla, ativando todas as suas bobinas ao mesmo tempo. O céu do Valhala explodiu em fogos de artifício elétricos, desenhando dragões e bidentes no firmamento.
— Hao... — sussurrou Qin, tentando recuperar o fôlego, embora ainda estivesse tremendo nos braços de Hades. Ele levantou a mão, permitindo que Hades deslizasse o anel em seu dedo. O metal frio pareceu selar uma promessa que ia além do tempo e da morte.
— Você está bem, garoto? — perguntou Buda, aproximando-se e oferecendo um lenço a Qin. — Você quase inundou o jardim.
Qin pegou o lenço e limpou o rosto por baixo da venda, tentando recuperar sua dignidade. Ele se levantou, ainda apoiado em Hades, e cruzou os braços, embora seus olhos ainda estivessem vermelhos e inchados.
— Eu estava apenas... testando a resistência emocional de vocês! — declarou Qin, sua voz recuperando o tom imperioso, apesar do nariz fungando. — Um imperador deve saber se seus aliados conseguem lidar com uma tempestade! Foi uma performance imperial!
— Claro que foi, filho — disse Adão, dando um tapinha carinhoso na cabeça de Qin. — Todos nós acreditamos nisso.
— O importante é que agora temos um casamento para organizar — disse Brunhilde, cruzando os braços com um sorriso raro e genuíno. — E considerando quem são os noivos, será o evento mais caótico da história do universo.
Hades olhou para Qin, e Qin olhou para Hades. Naquele momento, as memórias do palácio na China, os insultos do povo que ele salvara e a frieza de seu pai biológico pareceram distantes, como um pesadelo que se dissipa ao amanhecer.
— Você realmente me deu um trabalho imenso, Hades — disse Qin, ajustando sua túnica e recuperando o sorriso arrogante que todos conheciam. — Agora eu terei que reformar todo o seu reino. Aquela decoração de Helheim é de um gosto duvidoso. Onde eu me sento é o trono, e eu pretendo sentar em muitos lugares naquele seu palácio sombrio.
— Eu não esperaria nada menos de você, meu rei — respondeu Hades, estendendo o braço para que Qin o segurasse.
Enquanto o grupo caminhava de volta para o salão principal, comemorando e discutindo detalhes impossíveis sobre a cerimônia, Qin sentiu uma paz que nunca conhecera na vida mortal. Ele olhou para o anel em seu dedo e depois para os homens e deuses ao seu redor — seres que, momentos antes, estavam dispostos a se matar, mas que agora se uniam para vê-lo feliz.
Ele era Qin Shi Huang, o Primeiro Imperador, o homem que unificou o que estava quebrado. Mas naquela noite, ele percebeu que a unificação mais importante não era a de terras ou impérios, mas a de sua própria alma, que finalmente encontrara um lugar onde não precisava ser apenas um símbolo, mas onde podia ser, simplesmente, amado.
— Hao — murmurou ele para si mesmo, um sorriso radiante iluminando seu rosto. — Realmente... muito Hao.