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O Riso do Abismo e o Peso da Coroa
O grande salão de Valhala estava mergulhado em um silêncio que beirava o sacrilégio. Nikola Tesla, com suas bobinas emitindo um zumbido elétrico suave, permanecia estático diante de seu projetor, enquanto os deuses e humanos presentes pareciam ter esquecido como respirar. O motivo não era uma nova descoberta científica ou um golpe devastador na arena do Ragnarok, mas algo muito mais impossível, algo que desafiava as leis da natureza divina: Hades, o Rei do Submundo, o senhor estoico e inabalável de Helheim, estava rindo.
Não era um sorriso educado ou uma risada de escárnio. Era uma gargalhada genuína, profunda e vibrante, que parecia ressoar das profundezas da terra até o teto abobadado do palácio.
— Eu lhe disse, Hades! — Qin Shi Huang exclamou, gesticulando dramaticamente com seu leque enquanto se equilibrava precariamente no braço do trono do deus. — O touro não estava tentando me atacar por malícia; ele estava apenas confuso com o fato de que este Rei brilhava mais do que o próprio sol de Zhao! Ele estava tentando se curvar, mas a anatomia bovina é lamentavelmente limitada!
Hades tentou recuperar a compostura, mas ao olhar para a expressão de absoluta seriedade no rosto de Qin — que soprava uma bolha de ar com uma displicência imperial logo em seguida — ele sucumbiu novamente, cobrindo os olhos com a mão enquanto seus ombros tremiam.
— Por todos os deuses... — murmurou Ares, seu queixo praticamente tocando o chão. — Eu nunca vi meu tio rir. Nem quando Zeus caiu de cara no néctar durante o banquete do milênio. Nem quando Poseidon... bem, Poseidon nunca fez nada engraçado, mas o ponto é: Hades é o gelo eterno!
— O Imperador da China acaba de derreter o permafrost de Helheim com uma história sobre um touro míope — comentou Hermes, anotando freneticamente em seu bloco de notas. — Isso vai para os anais da história divina.
Zeus, sentado em seu trono mais à frente, observava a cena com um misto de ciúme e fascínio.
— Ele o fez rir... — sussurrou o Pai do Cosmos. — Eu tento contar piadas sobre ninfas há cinco mil anos e o máximo que recebo é um olhar de decepção profunda. O que esse humano tem?
— Ele tem a audácia, irmão — respondeu Poseidon, sua voz fria mantendo uma neutralidade cortante, embora seus olhos azuis estivessem fixos na interação entre o irmão e o humano. — Ele não teme o abismo, então o abismo se abre para ele de formas que nós não entendemos.
No centro da atenção, Hades finalmente conseguiu respirar. Ele olhou para Qin, e o olhar que trocou com o Imperador não era o de um juiz para um condenado, mas o de um par para outro.
— Você é um homem perigoso, Qin Shi Huang — disse Hades, sua voz recuperando o tom aveludado, mas ainda carregada com o resquício da alegria. — Se você falasse metade dessas coisas para as almas no Tártaro, elas esqueceriam que estão sendo punidas.
— Este Rei não traz apenas ordem, Hades. Eu trago o espetáculo — respondeu Qin, fechando seu leque com um estalo seco. — Agora, se me der licença, este Rei precisa manter sua forma. O treino me chama, e as Valquírias são treinadoras impiedosas quando se trata de postura.
Qin saltou do trono com uma agilidade felina, acenando para a plateia estupefata antes de desaparecer pelos corredores laterais. Hades observou-o partir, o sorriso desaparecendo lentamente, mas deixando um brilho de calor em seus olhos carmesim que ninguém ali jamais vira.
O treinamento, no entanto, provou ser mais desafiador do que Qin previra. Horas depois, nos campos de treinamento isolados de Valhala, o Imperador estava caído sobre um joelho. Ele estava enfrentando uma série de autômatos de combate projetados por Tesla e Brunhilde, máquinas que não sentiam dor e não hesitavam. Qin vencera, é claro — ele era o Primeiro Imperador, afinal —, mas o custo fora visível.
Sua túnica carmesim estava rasgada no ombro, e um corte profundo em sua coxa esquerda sangrava, manchando o mármore branco abaixo dele. Ele tentou se levantar, mas uma careta de dor cruzou seu rosto. Sua sinestesia toque-espelho estava em pleno vigor; ele sentia não apenas a sua dor, mas o eco da "dor" mecânica das máquinas que ele destruíra, uma cacofonia sensorial que o deixava tonto.
— Insuportável... — resmungou Qin, limpando o suor e o sangue da testa. — Este Rei exige que o chão pare de girar imediatamente.
— Creio que o chão não aceita ordens imperiais quando você está prestes a desmaiar.
Qin congelou. Ele conhecia aquela voz. Era como o som de moedas de ouro caindo em um túmulo de veludo. Hades estava parado na entrada do campo de treinamento, sua presença preenchendo o espaço como uma sombra protetora.
— Hades — disse Qin, forçando um sorriso e tentando se apoiar em sua perna sã. — Você veio admirar a minha técnica de "descanso estratégico"? É uma manobra avançada, poucos podem replicar.
Hades não respondeu com palavras. Ele caminhou pelo campo, seus passos pesados e decididos. Quando chegou a Qin, ele se ajoelhou, ignorando o sangue que sujava sua própria túnica impecável. Seus olhos analisaram o ferimento na coxa de Qin com uma intensidade gélida.
— Você está ferido — afirmou Hades. Não era uma pergunta.
— É apenas um detalhe estético — brincou Qin, embora sua respiração estivesse curta. — Uma fênix precisa de algumas penas chamuscadas para provar que voou perto demais do fogo.
— Chega de metáforas, Qin — disse Hades. Sua voz não era de raiva, mas de uma autoridade tão absoluta que até o orgulho do Imperador vacilou por um segundo. — Você está sentindo a dor de tudo ao redor, não está? Eu vejo em seus olhos.
Antes que Qin pudesse protestar, Hades moveu-se. Com uma força que parecia não exigir esforço, o Rei do Submundo passou um braço por trás das costas de Qin e o outro por baixo de seus joelhos.
— O que você está... — Qin começou, mas o protesto morreu em sua garganta quando ele se viu erguido do chão.
Hades o carregava no colo, no estilo clássico de proteção, mantendo o Imperador firme contra seu peito. O contraste era gritante: o Deus dos Mortos, pálido e severo, segurando o Imperador dos Homens, vibrante e ferido.
— Hades! — Qin exclamou, seu rosto esquentando de uma forma que ele não sentia desde sua juventude em Zhao. — Coloque este Rei no chão! Onde eu me sento é o meu trono, e este não é o tipo de assento que eu tinha em mente!
— Então considere isso um trono móvel — rebateu Hades, começando a caminhar em direção à saída. — E se você reclamar mais uma vez, eu direi a Hermes para documentar que o Primeiro Imperador da China é leve como uma pluma quando está perdendo sangue.
Qin Shi Huang, percebendo que não ganharia aquela discussão e que a proximidade com Hades estranhamente acalmava sua sinestesia — o deus exalava uma aura de morte estática que silenciava o ruído do mundo —, soltou um suspiro de resignação e relaxou a cabeça contra o ombro de Hades.
— Você é um oponente muito teimoso, Hades.
— Eu sou o Rei de Helheim — respondeu o deus, saindo dos campos de treinamento e entrando nos corredores principais de Valhala. — A teimosia é um requisito para o cargo.
A travessia pelo palácio foi algo que os servos divinos e as divindades menores comentariam por séculos. Hades não se escondeu. Ele não buscou passagens secretas. Ele caminhou pelo Grande Corredor de Ártemis, passou pelo Átrio de Zeus e seguiu em direção à ala médica com a calma de quem está carregando o tesouro mais precioso do universo.
Os sussurros seguiam seu rastro como uma esteira de vento.
— Aquele é... o Senhor Hades? — perguntou uma deusa menor, escondendo o rosto atrás de um leque.
— Ele está carregando o humano? Como se fosse... uma noiva? — sussurrou outra.
Qin, percebendo a audiência, não pôde evitar que sua natureza exibicionista retornasse, mesmo na dor. Ele levantou uma das mãos e acenou para os espectadores, um sorriso travesso voltando aos seus lábios.
— Invejem este Rei! — gritou Qin para um grupo de ninfas chocadas. — Pois nem todos têm o privilégio de serem transportados pelo próprio fim de todas as coisas!
— Qin, fique quieto — ordenou Hades, embora houvesse um traço de diversão em sua voz.
— Por que o silêncio, Hades? — perguntou Qin, olhando para cima para encarar o perfil esculpido do deus. — Você está me carregando em plena luz do dia. Você quer que eles vejam, não quer?
Hades parou de caminhar por um breve segundo. Ele olhou para baixo, encontrando o olhar desafiador e brilhante de Qin. A máscara de indiferença do deus rachou apenas o suficiente para que a verdade aparecesse.
— Eu quero que eles saibam — disse Hades, sua voz soando como um juramento — que ninguém toca no que me pertence. Nem mesmo o chão de Valhala tem o direito de ferir você sem que eu intervenha.
O coração de Qin deu um salto que não tinha nada a ver com seus ferimentos. Por um momento, o Imperador que unificara nações ficou sem palavras. Ele apenas apertou o tecido da túnica de Hades, sentindo a solidez do deus sob seus dedos.
— Você é muito possessivo para um homem que governa um reino de sombras — murmurou Qin.
— As sombras são fiéis, Qin. Os humanos são... complicados. Você é o mais complicado de todos.
Eles chegaram à ala médica, onde as Valquírias e os médicos divinos correram para atendê-los. Hades recusou-se a colocar Qin em uma maca comum, levando-o pessoalmente até o leito mais luxuoso e permanecendo ao seu lado enquanto as feridas eram limpas e tratadas.
Quando o médico divino terminou de enfaixar a coxa de Qin e aplicou um bálsamo que finalmente silenciou a dor da sinestesia, o Imperador suspirou de alívio, recostando-se nos travesseiros de seda.
Hades ainda estava lá, de pé como uma sentinela eterna ao lado da cama. Ele observava cada movimento de Qin com uma vigilância que beirava a obsessão.
— Você pode ir agora, sabe? — disse Qin, fechando os olhos. — Este Rei está devidamente remendado.
— Eu irei quando decidir que o perigo passou — respondeu Hades, sentando-se em uma cadeira de mármore ao lado do leito. — Além disso, você ainda não terminou aquela história sobre o touro.
Qin abriu um olho, um sorriso largo se espalhando por seu rosto.
— Ah! Então o Rei do Submundo quer mais entretenimento? Muito bem. Onde eu parei? Ah, sim! O touro tentou comer o meu cachecol de seda, acreditando que era uma forma rara de grama imperial...
Enquanto Qin falava, sua voz preenchendo o quarto com histórias de um passado distante, Hades permitiu-se relaxar. Ele ouvia não apenas as palavras, mas a vida que pulsava em cada frase de Qin. Ele sabia que o Ragnarok era uma guerra de extermínio, que eles eram supostamente inimigos e que o destino do mundo estava em jogo.
Mas ali, naquele quarto silencioso de Valhala, as regras dos deuses pareciam triviais. Hades percebeu que não importava quem vencesse ou perdesse na arena; ele já havia perdido sua própria neutralidade no momento em que decidira que o riso de Qin era mais importante do que o silêncio de Helheim.
— Hades? — chamou Qin, percebendo que o deus estava perdido em pensamentos.
— Sim?
— Obrigado. Por me carregar.
Hades olhou para as mãos de Qin, agora em repouso.
— Não se acostume com isso, Imperador.
— Ah, este Rei sempre se acostuma com o melhor — brincou Qin, fechando os olhos novamente, o sono finalmente o vencendo. — E você... você é definitivamente o melhor transporte que já tive.
Hades esperou até que a respiração de Qin se tornasse lenta e rítmica. Ele levantou-se silenciosamente e inclinou-se sobre o Imperador, ajustando o cobertor com uma mão leve. Por um breve momento, o Rei dos Mortos permitiu que seus dedos roçassem o cabelo de Qin.
— Durma bem, meu Imperador — sussurrou Hades. — Pois amanhã, o mundo tentará nos separar novamente, e eu terei que lembrá-lo de que nem mesmo o destino pode tirar o que eu decidi proteger.
Hades saiu do quarto, mas sua presença permaneceu como um selo invisível. Do lado de fora, os deuses ainda fofocavam sobre o escândalo do Rei carregando o Humano, mas Hades não ouvia nada disso. Ele estava ocupado demais planejando como transformaria o próximo treino de Qin em algo muito mais seguro — ou, no mínimo, como garantiria que estaria lá para carregá-lo novamente.
Afinal, se Qin Shi Huang era o homem que unificara a China, Hades era o deus que havia acabado de descobrir que, para ele, o universo inteiro agora se resumia ao espaço entre seus braços quando carregava o peso daquele Imperador. E para Hades, esse era o único reino que realmente importava.