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O Véu da Imperatriz e o Segredo do Cabaré

O salão de Valhala estava mais barulhento do que o normal. Nikola Tesla, o cientista que parecia ter transformado a eternidade em um laboratório de entretenimento quântico, estava terminando de calibrar as bobinas de seu projetor. Faíscas azuis dançavam entre as torres de metal, e o público — uma mistura de deuses que fingiam desinteresse e humanos que não escondiam a empolgação — aguardava o próximo "registro de realidade".

Qin Shi Huang estava relaxado em sua poltrona imperial, com as pernas cruzadas e uma taça de néctar na mão. Ao seu lado, Hades mantinha sua postura nobre, embora um leve arqueamento de sobrancelha denunciasse sua curiosidade. O Rei do Submundo já havia aprendido que, quando Qin estava envolvido, o conceito de "normalidade" era o primeiro a ser sacrificado.

— Atenção, todos! — Tesla anunciou, fazendo uma reverência dramática. — Graças à minha nova antena de captação de frequências de 'Momentos Lamentáveis', recuperei um registro da vida social do Primeiro Imperador em sua juventude. Um desafio entre amigos, uma aposta perdida e uma performance que desafia as leis da identidade!

Qin parou de girar a taça. Uma expressão de súbita realização cruzou seu rosto, seguida por um sorriso travesso que fez Hades se empertigar.

— Ah... esse dia — murmurou Qin, soprando uma bolha de ar. — Este Rei admite que a aposta foi injusta, mas o resultado... o resultado foi uma obra-prima.

A tela brilhou, revelando uma cena vibrante e caótica. Era um salão de chá luxuoso na antiga China, onde um grupo de jovens nobres e artistas ria alto ao redor de uma mesa repleta de jogos de dados e jarras de vinho. No centro do grupo, estava o jovem Qin e uma mulher extraordinariamente parecida com ele, chamada Kimi.

Kimi era uma artista famosa, conhecida por sua beleza altiva e movimentos graciosos. Ela e Qin compartilhavam os mesmos traços finos, os mesmos olhos penetrantes e a mesma aura de superioridade. Na tela, Kimi batia na mesa, apontando para um par de dados que mostrava um resultado desastroso para o futuro imperador.

— Você perdeu, Qin! — a voz de Kimi na tela era melodiosa e carregada de deboche. — O acordo era claro. Quem perdesse teria que substituir o outro no trabalho por uma noite. E como hoje eu tenho uma apresentação no cabaré 'Lótus de Prata' e estou exausta... você será a estrela da noite!

O jovem Qin na tela bufou, cruzando os braços.

— Este Rei não se veste de mulher por capricho, Kimi.

— Um Rei não volta atrás em sua palavra, não é? — Kimi provocou, aproximando o rosto do dele. — Além disso, somos idênticos. Com a maquiagem certa e o véu correto, ninguém notará a diferença. A menos que você tenha medo de não conseguir dançar tão bem quanto eu.

No auditório de Valhala, um murmúrio de choque percorreu as fileiras dos deuses. Ares parecia prestes a ter um colapso nervoso, enquanto Zeus soltava uma gargalhada rouca. Hades, por outro lado, sentiu uma estranha tensão. Ele olhou para o Qin ao seu lado, que apenas deu de ombros.

— A maquiagem era de excelente qualidade, Hades — comentou o Imperador.

A imagem na tela mudou para o interior do "Lótus de Prata". O ambiente era enfumaçado, iluminado por lanternas vermelhas e decorado com sedas pesadas. A música começou — um ritmo de alaúde e tambores que evocava mistério e sedução.

Então, "Kimi" apareceu no palco.

O jovem Qin estava transformado. Ele vestia um conjunto de sedas translúcidas em tons de carmesim e ouro, com um véu fino cobrindo a metade inferior de seu rosto. Seus olhos estavam pintados com uma precisão felina, e seu cabelo estava preso em um penteado elaborado adornado com joias que tilintavam a cada movimento.

— Pelos deuses... — murmurou Hermes, limpando os óculos. — Se eu não soubesse que é ele, eu estaria jogando flores naquele palco agora mesmo.

Na tela, Qin começou a dançar. Não era a dança de um guerreiro, mas possuía a mesma precisão letal. Ele se movia com uma fluidez hipnótica, girando as sedas ao redor do corpo como se fossem extensões de sua própria vontade. Cada passo era calculado, cada movimento de quadril era uma provocação ao público da taverna, que gritava e jogava moedas, completamente enfeitiçado pela "falsa Kimi".

Hades sentiu sua garganta secar. Ver Qin naquela forma — uma mistura de beleza feminina delicada e a força indomável que ele sempre possuiu — era algo que ele não estava preparado para processar.

— Você realmente... — Hades começou, mas sua voz saiu mais baixa do que pretendia.

— Este Rei faz tudo com perfeição, Hades — Qin respondeu, seus olhos brilhando ao observar sua versão mais jovem na tela. — Se eu tinha que ser Kimi, eu seria a melhor Kimi que aquele cabaré já viu.

Na projeção, a música atingiu um clímax. O jovem Qin executou um giro acrobático, saltando sobre uma das mesas e terminando a dança em uma pose de pura arrogância, com um leque aberto cobrindo parte do rosto. O cabaré inteiro explodiu em aplausos.

No entanto, o vídeo não terminou ali. Um grupo de soldados locais, visivelmente embriagados e agressivos, aproximou-se do palco.

— Ei, belezinha! — um dos soldados gritou, tentando agarrar o tornozelo de Qin. — Por que não desce aqui e nos mostra o que tem por trás desse véu?

O Qin da tela não recuou. Ele fechou o leque com um estalo que soou como um tiro.

— Afaste-se — disse ele, e embora tentasse suavizar a voz para parecer a de Kimi, a autoridade imperial vazou pelas bordas.

— Ou o quê? — o soldado riu, subindo no palco. — Você vai nos bater com esse leque?

O que se seguiu foi uma demonstração de combate coreografado. Ainda vestido com as sedas de dançarina e usando o véu, o jovem Qin derrotou os cinco soldados em menos de um minuto. Ele usava as mangas compridas para desviar golpes, chutava com uma agilidade que fazia as joias em seus tornozelos cantarem, e usava o leque para atingir pontos de pressão com uma precisão cirúrgica.

Ele terminou a luta em pé sobre o líder dos soldados, que estava gemendo no chão. Qin removeu o véu, revelando seu sorriso vitorioso e seu olhar de imperador.

— Digam a todos — disse o jovem Qin para a plateia estupefata do cabaré — que hoje vocês não foram servidos por uma dançarina. Vocês foram abençoados pela presença daquele que governará o mundo. E, Kimi... você me deve um jantar de luxo por limpar sua reputação!

A tela se apagou, deixando o auditório de Valhala em um silêncio absoluto, antes de ser quebrado pelos aplausos frenéticos de Brunhilde e da humanidade.

— Isso foi... — Tesla buscava a palavra — ...cientificamente fascinante! A dualidade da performance!

Hades, no entanto, ainda estava processando as imagens. Ele se virou para Qin, que parecia muito satisfeito consigo mesmo.

— Então — disse o Rei do Submundo, sua voz recuperando a calma autoritária, embora houvesse um brilho diferente em seus olhos —, você passou uma noite como dançarina de cabaré apenas para ganhar uma aposta?

— E para provar que este Rei é mais bonito que qualquer mulher de Zhao — Qin acrescentou, soprando uma bolha. — Você não achou que eu estava bem naquelas sedas, Hades?

Hades desviou o olhar por um momento, ajustando sua capa.

— Você estava... convincente. Quase perigoso.

— "Quase"? — Qin riu, inclinando-se para mais perto de Hades, o perfume de lótus que ele sempre usava parecendo mais intenso. — Admita, Rei das Sombras. Se você estivesse naquele cabaré, teria sido o primeiro a jogar uma moeda de ouro aos meus pés.

Hades olhou profundamente nos olhos de Qin. O respeito que sentia pelo homem à sua frente era vasto, mas agora havia uma nova camada de fascínio. Qin Shi Huang era um ser de infinitas facetas, capaz de governar com mão de ferro e dançar com a leveza de uma fumaça.

— Eu não jogaria moedas, Qin — disse Hades, com uma seriedade que fez o sorriso do Imperador vacilar levemente. — Eu teria mandado fechar o cabaré e levado a "dançarina" para o meu palácio imediatamente, apenas para garantir que ninguém mais pudesse olhar.

Qin Shi Huang piscou, surpreso pela intensidade da resposta. Ele soltou uma gargalhada alta, batendo no braço da poltrona.

— Hah! O Grande Hades admite possuir um instinto possessivo! Este Rei se sente lisonjeado. Mas cuidado, Rei do Submundo... eu sou uma fênix. Se você me trancar em um palácio, eu apenas incendiarei as cortinas para iluminar minha própria dança.

— Eu não esperaria nada menos de você — respondeu Hades, permitindo-se um pequeno sorriso.

No palco, Tesla já preparava o próximo vídeo, mas para Hades e Qin, a atmosfera havia mudado. O registro daquele cabaré em Zhao servira para mostrar que, independentemente da roupa ou do papel que desempenhasse, a essência de Qin Shi Huang era inabalável. Ele era o centro do mundo, o dono do palco, e agora, o único humano capaz de fazer o coração do Rei dos Mortos bater com uma cadência que a eternidade nunca conhecera.

— Na próxima vez que perdermos uma aposta — sussurrou Qin, aproximando-se do ouvido de Hades —, eu prometo usar seda roxa. Combina mais com as suas cores.

Hades sentiu um calafrio percorrer sua espinha, mas manteve a compostura.

— Eu vou cobrar essa promessa, Imperador.

E enquanto as luzes de Valhala brilhavam, os dois soberanos permaneceram lado a lado, unidos por um respeito que acabara de ganhar um novo e vibrante tom de carmesim. A história de Qin Shi Huang no cabaré de Zhao fora apenas um capítulo de sua juventude, mas no presente de Valhala, tornara-se o prelúdio de uma conexão que nem mesmo o destino do Ragnarok ousaria interromper.